É uma curta coluna no caderno Actual, do Expresso, e, julgo, nem sequer está disponível em linha. Textos compactos, densos, inteligentes como quase nada do que se escreve nos jornais portugueses. Chama-se Ao Pé da Letra, o espaço ocupado pelo crítico literário António Guerreiro; e vale sempre, mas sempre, a pena lê-lo. Esta semana, fala de “um ministro” que anseia pelo TGV para Lisboa se tornar a praia de Madrid. Tão certeira dissecação do provincianismo dos nossos políticos é um prazer que deveria ser obrigatório:
Sobre a alta velocidade e a pequena burguesia
Quando um ministro diz que, graças ao TGV, Lisboa pode tornar-se a praia de Madrid, as suas palavras têm o poder de nos fazer lembrar três figuras que um filósofo italiano, comentando a teoria do carisma de Max Weber, eleva a categorias: o demagogo, o imbecil instintivo e o palhaço carismático. Mas mais importante do que projectar tais palavras em quaisquer categorias é percebermos que a política pertence hoje inteiramente àqueles que se convencem daquilo que dizem. É aí que reside todo o segredo do discurso político. Mas as palavras deste ministro ilustram também outra coisa: que, no horizonte dos governantes, o único modelo de classe que existe (ou em que todos se devem transformar) é precisamente uma classe que não chega a sê-lo: a pequena burguesia universal, cujas bases materiais de existência assentam num modelo de vida que se manifesta em duas dimensões: o consumo e o tempo livre. Lisboa como praia de Madrid, Caparica como praia de Lisboa: trata-se sempre do mesmo tropismo – marítimo e litoral – que define o movimento a alta velocidade de uma massa que nunca gozará do luxo da lentidão.
18 comentários 23 Jan 10 em Política, Portugal




O “ao pé da letra” costuma estar disponível online, se bem que pela “porta do cavalo” (que não de Tróia) no blog “ainda não começámos a pensar” (http://aindanaocomecamos.blogspot.com), não menos interessante, embora num registo mais cinéfilo, ou cinéfago, se quiserem. Cumprimentos.
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Não compro o Expresso, aliás não compro jornal nenhum, limito-me a lê-los na Net porque mais não é necessário e na tasquinha onde como há sempre “A Bola” e o “Correio da Manhã”.
Agora o que estranho é esse “critico literário” escrever sobre política.
Será que veremos um dia Francisco Louça a fazer crítica literária e a ser citado aqui?
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Obrigado, Rodrigo,
conheço o blogue (excelente, por sinal), mas há algum tempo que não o visito. Fica a dica.
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Quem ao falar de TGV só pensa em comboios de passageiros, não percebe nada de comboios nem de economia
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carlos mata Reply:
Janeiro 24th, 2010 at 13:05
gostava mesmo que me esclarecesse um pouco mais sobre o assunto. geralmente associo o comboio de alta velocidade ao transporte de passageiros. qual o tipo de carga que pode ser co-transportada nesses comboios?
Vou fazer link, Sérgio. Obrigado
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Mas convenhamos, se não fosse pelos espanhois, porque raio iriamos precisar de um TGV.
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Provavelmente se o nosso país assumisse o turismo como principal indústria, as tais bases materiais desse tal modelo de vida acabassem por ser bem úteis.
Mas é a tal coisa, um crítico literário, que certamente consome e tem tempo livre, está sempre muito confortável para dizer seja o que for.
Von
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É curioso que haja gente que ache que um crítico literário não pode falar de política. Por acaso todos os que escrevem em jornais ou falam na televisão sobre o tema são políticos? Um historiador também não pode falar de política? Um advogado também não pode falar de política? Um ensaísta também não pode falar de política? Ah, espera, António Guerreiro também é ensaísta… azar… e ainda por cima com muito tempo livre, o malandro…
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Fado Alexandrino Reply:
Janeiro 24th, 2010 at 22:53
Claro que pode falar de política, até eu posso falar de política, porventura até o senhor um dia falará qualquer coisa sobre política.
Olhe o Sá Pinto fala sobre política, pessoas dizem que o Mantorras também e para lhe dar o exemplo supremo até a Cinha Jardim fala sobre política.
Acontece é que uns mais que outros dizem algumas coisas de jeito mas na verdade neste campo a ignorância disfarça-se muito bem.
Já na crítica literária a coisa fia mais fino.
Há cinco ou seis que são lidos e respeitados.
Sérgio Lavos Reply:
Janeiro 24th, 2010 at 23:32
Caro Fado,
percebeu então o meu comentário. E quanto ao respeito enquanto crítico, acredite que ele é dos melhores nessa área – a meu ver, o melhor, mesmo.
Fado Alexandrino Reply:
Janeiro 25th, 2010 at 9:36
Não, o senhor é que não percebeu o meu.
O que eu lhe quis explicar e não consegui, erro meu, é que cada macaco no seu galho.
O seu crítico literário tem direito a falar sobre política coloquialmente em blogs e nos cafés, aqui o que se pretendia era ver transcrita e comentada a sua actividade primária, para aprendermos, uma vez que o Expresso não é um jornal qualquer e não está acessível a todos.
Análises políticas destas ouço quando vou à bola.
E lá nunca se ouvem criticas literárias.
Para Carlos Mata
O que interessa é a linha do comboio em bitola europeia, que nos abrirá o acesso ferroviário à Europa (actualmente fica-se por Espanha) e permitirá as nossas exportações mais competitivas. A fazer uma linha nova, será obviamente para permitir a maior velocidade possível. O tal comboio de passageiros para a praia, ou que demora menos meia hora de Lisboa ao Porto, não faz lá falta nenhuma e só é referido por deslumbrados vendedores de banha da cobra.
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Zé dos Reis Reply:
Janeiro 25th, 2010 at 1:53
Só uma nota/esclarecimento:
A palermice que o TGV vai diminuir em meia hora a ligação Porto-Lisboa corre pela Net e pelas conversas entre especialistas ferroviários de café.
O Alfa Pendular demora 2 horas e 35 para o percurso. O TGV é esperado que demore 1 hora e 15. Com as mesmas paragens.
A cretinisse dos 30 minutos a menos deve-se a:
1 – Ignorância do que se demora actualmente ?
2 – Iliteracia matemática de quanto demora um comboio que ande a 300Km/hora a fazer 300km?
3 – Repetir papagueando sem pensar tudo o que se lê/ouve desde que isso seja mau para o Socras?
4 – Sindrome do “eu sei mas estes gajos são tão burros que comem tudo o que eu digo”?
5 – outra hipótese?
Fado Alexandrino Reply:
Janeiro 25th, 2010 at 16:52
5 – outra hipótese?
Sim, porque o senhor parece desconhecer que os Pendulares podem andar a 220 Km/Hora e não o fazem isto apesar de se terem gasto triliões a “modernizar” a Linha do Norte.
Sabia disto?
Guimarães Reply:
Janeiro 26th, 2010 at 23:21
O que interessa mesmo é a via de bitola europeia. Bitola é a distância entre carris, que no caso ibérico é de 1668 mm e na restante Europa é de 1435 mm, o que provoca que um comboio tenha de mudar de rodados quando passa a fronteira de Espanha para França, dificultando e atirando o tranporte de mercadorias para o transporte rodoviário.
Claro que, a construir-se uma nova via, não vai construir-se para os ronceiros a lenha do sec. XIX.
O tal TGV de passageiros só será rentável se complementado economicamente com o transporte de mercadorias. E o TGV Lisboa – Porto é um disparate total. Para isso já há o Alfa. O TGV só se justifica em muito longo curso.
Tem graça que nunca vi um tgv a transportar mercadorias será porque… nunca um tgv transportou mercadorias? Porque talvez não há interesse em se gastar milhares de milhões para transportar mercadorias a 400 ou a 500 km/hora? Qual é o interesse de transportar mercadorias a essa velocidade?
Do ponto de vista do transporte de passageiros sim, é importante o factor velocidade, porém, lá está, o Alfa actualmente pode fazer Porto-Lisboa a uma velocidade maior. Será que o TGV faria a viagem numa média de 300kms/hora como diz um comentador aí acima? Ou quedar-se-ia por uma média bem inferior porque isto de andar a parar em todas as estações e apeadeiros não se coaduna com velocidades espantosas?
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