O novo blogue margem esquerda queixa-se que no PS de Sócrates reina o vazio ideológico. Acho que se enganam. Há muito tempo que o PS não tinha uma marca ideológica tão coerente. Liberal nos costumes e neo-liberal na economia e no papel do Estado. Pretender que Sócrates ponha o partido “a pensar” é como esperar reflexão ideológica de Luís Filipe Menezes. Sócrates fez tudo para que o partido não pensasse. Para que o PS desaparecesse e com ele se sumissem a sua história, a sua memória e as suas referências.

O passo que as pessoas mais à esquerda no PS ainda não deram, talvez porque ele tenha implicações dramáticas e imponha uma decisão drástica, é aceitar que Sócrates representa tudo aquilo a que se oposeram nos últimos seis anos. Só é mais eficaz do que os seus antecessores do PSD. Sócrates não tem um programa de “medidas avulsas”, tem um dos programas mais coerentes que vimos um primeiro-ministro do PS.

Não é por acaso que o PSD escolhe o líder que promete fazer oposição pela esquerda. O PSD ficou sem outra agenda que não seja o combate aos tiques autoritários do primeiro-ministro, o que, diga-se de passagem, assenta muito mal a um PSD que vibra com Cavaco e Ferreira Leita. O PSD nunca poderá ocupar o lugar a que agora se candidata. Na realidade, está nas mãos da base social do PS e daqueles que nele se consideram de esquerda desbloquear a política nacional. Por isso, não vale a pena pedir mais clareza quando tudo está tão claro. Poderá faltar ao PS “pensamento”. Mas o que falta mesmo ao PS é a acção da sua margem esquerda.


Sem respostas ao post “Cristalino”  

  1. 1 1  Diogo Vaz Pinto

    No quadro de votações só nos dás a hipótese de votarmos nos partidos e eu gosto do branco, o voto em branco… Acho que devias acrescentar essa importante opção de voto.

  2. 2 2  Justicialista

    Os socialistas ainda podiam tentar disfarçar e deixar a liderança do PS com alguém assumidamente de esquerda. Sócrates ficava com o governo. Pelo menos assim, não seria blasfémia chamar ao PS de socialista.
    Mesmo Blair teve sempre uma ala esquerda no partido que se oponha às suas políticas mais à direita como Robin Cook, Clare Short ou Neil Kinnock.
    No PS, tirando Manuel Alegre, está tudo calado, incluindo Mário Soares, que era de quem menos se esperava o silêncio.

  3. 3 3  FV

    “Liberal nos costumes e neo-liberal na economia e no papel do Estado.”

    Este governo até se pode estar a demitir-se de alguns serviços sociais, mas o que não lhe falta é autoritarismo na economia e “formação de mentalidades” nos costumes.

  4. 4 4  Mário Artur

    Inteiramente de acordo. E já é tempo de o pessoal de esquerda não ter complexos de chamar os bois pelos nomes e dizer o que este governo realmente é: um governo de direita que está a aplicar a política que a direita portuguesa sempre quis realizar e que nunca pôde fazer (por falta de “timing” ou de possibilidade). E, já agora, Daniel, só mais uma coisa: não é «acenta» mas sim «assenta».

  5. 5 5  Daniel Oliveira

    Corrigido rojando-me pelo chão.

  6. 6 6  Pedro

    Penso que cresce um certo consenso entre alguns comentadores e analistas políticos: Sócrates tem uma agenda política de direita ou, melhor, aplica uma política que o PSD, desejando na sua maioria, não soube aplicar. E aplica-a com “classe”. A “classe” é essencial.

    Basta ver o ciclo clássico de decisão de Sócrates: anuncia algo que não executa logo; anuncia que quer um debate da sociedade civil; está anunciado, se é bom será repetido, se é mau é para dar como já dito; deixa o tempo passar; decide unilateralmente; crítica quem tentou debater e quem fez propostas e diz que já houve debate suficiente. Isto foi o que, por exemplo, sucedeu no Sistema Nacional de Saúde ou na questão da Ota - até à intervenção de Cavaco, sendo grave que estejamos exclusivamente dependentes da sua intervenção. Ora, isto elimina o ciclo de debate político. Mas é politicamente eficiente. Como referi num texto, tudo isto “poderia ser chamado de eficiência na gestão política” (http://ailhadodiaantes.blogspot.com/2007/05/perigos.html).

    Ora, à Direita pouco resta. Sim, é certo que pode criticar o estilo. Mas, na realidade, Sócrates aplica, a par com medidas consensuais à Esquerda e Direita, um largo conjunto de medidas que, tradicionalmente, são típicas de uma governação de Direita. No limite, o PSD apenas poderia dizer que em vez de fazer A, B e C faria B, C e só depois A. Tudo isto leva a que, em desespero, a Direita se possa tentar apropriar, para uso populista e demagógico, de propostas características da Esquerda. Usando por usar, não para fazer, claro. Complementaria este parágrafo com um texto mais desenvolvido que escrevi (http://ailhadodiaantes.blogspot.com/2007/09/para-ler-e-reflectir.html).

    Face a isto, a alternativa não é a Direita. Não é alternativa para Portugal e, seguramente, nunca foi para quem partilhe das ideias da Esquerda. A alternativa é de Esquerda. Uma Esquerda consensual e razoável, próxima dos ideais da social-democracia nórdica. Uma Esquerda que tenha como projecto essencial a “igualdade de oportunidades” e a modernização do Estado Social - não mais Estado Social, mas melhor Estado Social. Isso implica uma inversão em algumas políticas de Sócrates, a continuação de outras e a promoção de um debate cívico sobre as funções do Estado - que, sublinhe-se, não existiu.

    Nesse sentido, penso que a análise do Daniel sobre a coerência do projecto político de Sócrates é correcta. Fica, penso, por explicitar o papel da Esquerda no meio disto tudo.

    Pedro

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