
Apesar da má fama, o poder local foi crucial para a consolidação da democracia e para o desenvolvimento do país nas duas primeiras décadas pós-25 de Abril. As autarquias ajudaram a criar, através da proximidade, hábitos democráticos mínimos. E, onde faltava quase tudo, fizeram grande parte do trabalho de sapa: saneamento básico, infra-estruturas, erradicação de barracas, reabilitação urbana e os primeiros passos de algum, mesmo que mau, ordenamento do território.
Mas, 33 anos depois, a democracia local tinha obrigação de já ter ultrapassado a sua infância. Antes de mais, na relação do poder político local com as população, ainda muito baseado em redes de interesses e compadrios, nos favores e no caciquismo, em pequenas ditaduras e no horror à participação e à critica.
Falta dar um enorme salto para uma segunda geração de políticas. Em vez da “obra feita”, de que a obsessão pelas rotundas é o melhor retrato, seria normal que autarcas e eleitores já estivessem a discutir outros temas. Coisas aborrecidas como a sustentabilidade económica e ambiental; a coordenação entre autarquias; políticas de habitação e realojamento que percebam que o bairro social construído hoje será o inferno de amanhã; o combate sem tréguas à ditadura do carro (os risinhos lisboetas com as ciclovias, banais em imensas cidades europeias, mostram o ponto onde ainda estamos); ordenamento do território que não seja feito à medida de interesses particulares; formas de gestão transparentes; políticas de emprego que não se limitem à construção de parques industriais que muitas vezes não são mais do que elefantes brancos sem futuro e à contratação desenfreada de funcionários. Do Estado Central, para começar, precisa-se de uma coisa: a alteração imediata de uma lei de financiamento que promove a construção e a corrupção.
Sem autarcas de segunda geração o país, todo ele, estará condenado. Infelizmente, chegam os dedos de uma mão para os contar. E não se vislumbra, em nenhum partido, a vontade de arriscar. Uns querem garantir a sua rede local de influências, outros estão preocupados com a sua própria bolsa de emprego, outros olham para estas eleições como mais um momento de afirmação nacional. Mesmo a abertura das eleições a listas independentes revelou-se, na esmagadora maioría dos casos, uma enorme decepção. Veremos se, daqui a quatro anos, quando, por força da lei, 188 autarcas não recandidatarem, alguma coisa muda. Por agora, nada de novo.
Assim, o apelo ao voto que faço é este mesmo: se têm um dinossauro na vossa câmara, votem contra ele. Se têm um populista, votem contra ele. Se têm um corrupto, votem contra ele. Se têm um cacique, votem contra ele. Se diz que quem o ataca está a atacar a terra, votem contra ele. Se ataca quem lá está mas não se deu ao trabalho de fazer um programa digno desse nome, votem contra ele. Se faz apenas declarações ideológicas mas nunca se interessou pelos assuntos locais, votem contra ele. Se não presta contas do que fez, votem contra ele. Se só promete mais obra, votem contra ele. Se guardou todas as inaugurações para os últimos três meses, votem contra ele. Se faz ou vai fazer dos serviços autárquicos um centro de emprego para companheiros ou camaradas de partido, votem contra ele. Se faz muito e não pensa no que faz, votem contra ele. Se diz que é um homem de acção e não gosta de planear, votem contra ele. Se planeia e não faz o que põe no papel, votem contra ele. Se aparece ao lado de empreiteiros, votem contra ele. Se enriqueceu à conta dos dinheiros públicos, votem contra ele.
Se conhece os problemas e, não tendo soluções milagrosas, apresenta caminhos em que acreditam, votem nele. Se não promete “uma capela maior do que uma catedral” mas tem umas ideias plausíveis de como melhorar a qualidade de vida no vosso concelho, votem nele. Se é honesto e inventivo, trabalhador e empenhado, votem nele. Se trata o vosso dinheiro com cuidado, votem nele. Se se preocupou em escolher uma boa equipa e se não traz atrás de si uma trupe de boys inqualificados, votem nele. Se em vez de comprar o vosso apoio ouve as populações, votem nele. Se vos mostra com toda a transparência o que se passa na câmara e não decide tudo nos corredores e nos gabinetes, votem nele. Se aceita que a oposição e a imprensa local livre fazem parte da vida democrática, votem nele. Se trata com o mesmo respeito os miseráveis e os notáveis, votem nele.
Se nenhum deles for assim, votem no menos mau. Mas votem. Sabendo, no entanto, que a política local também é política. Como no país, há formas diferentes de olhar para o mesmo problema e diferentes formas de o tentar resolver. Quando se tratava apenas de construir esgotos e alcatroar estradas, fará pouca diferença as convicções de cada um. Quando começamos a tratar do resto, é da mais pura das políticas que estamos a falar. Da que interessa.
Como não sou ninguém para dar conselhos aos outros, o que eu quero dizer afinal é que é assim mesmo que votarei.
Imagem roubada daqui.
31 comentários 9 Out 09 em Sem categoria31 respostas ao post “À espera do autarca 2.0”
- 1 Pingback on 9 Out 2009 às 13:13
- 2 Pingback on 9 Out 2009 às 14:31
- 3 Pingback on 9 Out 2009 às 14:46




Autarca 2.0 requer o upgrade Povo 2.0.
O Povo 1.0 ainda gosta de “ele/a rouba, mas faz obra”.
O Povo 1.0 “não se mete em política”.
Temos os autarcas que merecemos.
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Com todos esses ses….negativos…. mais de 70% dos autarcas não mereciam o nosso voto, e é isso que é preocupante.
Essa é a razão, da enorme corrupção e prosmicuidade que existem nas nossas autarquias.
Mas eu voto em Lisboa , vou votar no Luis Fazenda do BE , e espero que se fôr eleito , seja um autarca que apoie o que de positivo fôr proposto, mas denuncie tudo o que forem trafulhices e compadrios.
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O que desmotiva muito nesta história de votações é que muitas vezes, nem sequer se compreende por que raio não ganha, pelo menos, “o menos mau”, será que o português é assim tão cego e crédulo que é capaz de trocar o seu voto por uma bandeirinha e um chapéu de palha?
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inspirado no rei global da traulitada?
and the winner is…
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Ainda bem que o Daniel se lembrou da necessidade de uma
“alteração imediata de uma lei de financiamento que promove a construção e a corrupção”
Há quem pretenda que o governo Sócrates fique para a História como o governo das “profundas reformas”. Qualquer portaria seria uma “profunda reforma”. Pelo contrário esta alteração à lei do financiamento das autarquias seria sim uma “profunda reforma”. Mas ninguém parece interessado nela.
(Para quem não perceber do que estamos a falar recordo que, segundo contas já antigas, se juntassemos todas as áreas que os PDM’s destinam à construção veríamos triplicar a habitação actualmente existente em Portugal. Isto num país demograficamente estagnado)
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Escrevi noo meu blog, este texto de indignação e desilusão
http://margemesquerdatribunalivre.blogspot.com/
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Uma das coisas que tem a ver com tudo isso do texto do Daniel é a Regionalização que, não deixa de ser estranho, é assunto tabu nestas eleições autárquicas.
Passa-se (os autarcas ou grande número de autarcas), a falar disso durante o tempo todo e, chegada a altura em que haveria razões para esse tema vir ao debate político nenhum partido o aborda.
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Viva!
Ainda que pareça piada estava para me mudar para o concelho de Oeiras mas sabendo que tenho a probabilidade de cerca de 42% dos meus futuros vizinhos terem votado num criminoso condenado em Tribunal acho que o melhor é mudar-me para outra freguesia que esta (apesar do mais alto índice de licenciados do país) continua analfabeta como as Felgueiras deste mundo.
Assim vão as glórias do mundo luso.
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Notas soltas:
1- O poder local deveria ser apartidário. É assim nos EUA, Reino Unido e vários outros países
2- As câmaras locais deviam ser órgãos colegiais com a abolição do “Presidente de Câmara” como órgão principal do executivo
3- A vereação devia ter exclusivamente funções executivas, sendo formada proporcionalmente pelos votos recebidos pelas listas eleitorais.
4- A abstenção nestas eleições deverá subir até os 45%
5- O PS vai ser penalizado fortemente nestas eleições, não só pelas listas de independentes, mas também pelo reforço do BE e CDU a juntar às muitas coligações PSD/CDS-PP. O PS ainda vai perceber que a falta de aliança à esquerda sai caro!
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Daniel, e um post sobre os 2 comentadores politicos da TSF que eram anti-PS e que foram despedidos ? A asfixia democratica (ou informativa) continua à solta aqui no Contenênte.
Bom resto de tarde a todos…..
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O País das Rotundas:
http://hipocrisiasindigenas.blogspot.com/2009/10/eu-voto-branco-parte-iii.html
Saudações democráticas
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Vamos tirar o PCP das camaras de Almada e Seixal, onde estão desde o 25 de Abril.
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Caro Daniel, nos seus «ses» esqueceu-se de mencionar aqueles autarcas que mudam de partido e de ideias assim que são eleitos e para estarem mais próximo de quem manda, ao bom estilo Sá Fernandes. Já agora, dinossauro não é sinónimo de acomodação e velhice, por vezes, também é sinónimo de experiência. Há que destrinçar!
Já agora, no debate das autárquicas de Lisboa, na minha modesta opinião, viu-se quem tinha o maior conhecimento da situação da autarquia e, com certeza, não foi o Luís Fazenda.
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Daniel Oliveira Reply:
Outubro 9th, 2009 at 15:24
Pravda, muito tempo no poder cria dependências. Por isso, por melhor que seja o autarca, não deve ficar 30 anos numa câmara.
Por fim, disse-lhe apenas os critérios do meu voto. Não apelei ao voto em ninguém.
Quem deve julgar destas dependências não deve ser o eleitorado?
Para que conste, eu também não apelei ao voto, só pretendi dizer que é sempre necessário destrinçar o trigo do joio, sejam ele novo ou velho.
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Daniel Oliveira Reply:
Outubro 9th, 2009 at 15:35
A democracia não é apenas a vontade da maioría, pravda.
A julgar por uma acalorada discussão em que participei no último fim de semana, estamos reduzidos a escolher entre os incompetentes e os “rouba mas faz”. Desde que o autarca faça algo de bom pela cidade (e no caso do isaltino, parece-me claro que ele tem feito um trabalho excelente), não importa que no processo também “cuide dele e dos amigos”.
Ainda hoje num blog li um apelo ao voto em António Costa, não pelo seu mérito (bem pelo contrário, o seu trabalho até era criticadao), mas simplesmente porque o Santana era pior.
Posto isto, tenho que me convencer de que este País não tem mesmo solução…
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Desculpe, mas então não estou a perceber este texto: “O facto do executivo ser pluripartidário é uma excelente desculpa para manter as assembleias com pouco poder e é perverso, já que permite “comprar” a oposição com lugares sem que haja qualquer entendimento programático” (in Mudar as Regras, autoria de Daniel Oliveira)
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Justicialista:
“1- O poder local deveria ser apartidário. É assim nos EUA, Reino Unido e vários outros países”
Deve ser giro viver num mundo em que verifcar factos é completamente desnecessário.
Aquilo que diz é total e completamente falso.
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Daniel,
Dava uma boa discussão essa do “A democracia não é apenas a vontade da maioria”…
Houvesse tempo…
Abraco
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20 Babalu
NA sequência dessa frase, lembro de outra de Mussolini
“A democracia é algo muito importante para estar na mão do povo”
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POIS É, TECLAMOS E…
Se queremos DEMOCRACIA assente no VOTO LIVRE de todos os cidadãos, temos que assumir todas as consequências, mesmo que não nos agradem os resultados.
Podemos e temos o direito e, até, o dever de nos manifestarmos contra os eleitos, pelas formas previstas na LEI.
Se consideramos que a LEI é injusta, temos o direito e, até o dever, de lutar pela sua alteração.
E é aqui que me dirijo, directamente ao Babalu:
- Há tempo para discutir essa questão de “A democracia não é apenas a vontade da maioria”, só que não sei se o Daniel quer;
- Por mim, estou sempre disponível, a saúde mo permita, para uma boa tertúlia.
Para concluir, porque hoje tenho tido algumas recaídas da minha “costela anarca” dos anos sessenta, que tal limitar o direito de voto aos cidadãos? Assim, no género, só podes votar durante 12 anos. Porreiro, pá, não era?
Sem um abraço, sem um beijinho, sem um aperto de mão, não é desprezo é apenas proteccção.
Saudações informáticas a todos os participantes!
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“algumas recaídas da minha “costela anarca” dos anos sessenta”
Isso deve ser efeitos dos abusos dos loucos anos sixtiessss”
Muito LSD nessa cabecinha, não ???
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ANTÓNIO CUNHA:
Foi, mesmo você, quem escreveu no Arrastão, no dia 10 de Outubro, às 14h e 54m?
Parto do princípio que sim e, nesse caso, recordo-lhe que, noutra ocasião, já lhe “disse” que só me insulta quem eu quero.
Vou responder-lhe “post” a “post” ao que tem afirmado sobre mim (e, não sobre o que escrevo)
pois, depois do que poderia ser considerado, no mínimo, um período de “reflexão” (10/10 ás 14:54), este seu comentário adiou (não anulou),
para mim, esse período.
Você “auto-insulta-se” com comentários deste jaez” e, por isso, limite-se às preocupações com a sua vida pessoal.
Até aos “posts” que você sabe que eu sei, que você sabe a que eu me refiro!
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24 CAFC
Voce é um cromo, todo cheio de frases feitas, que chegou aqui ao blog todo pimpão e com grande altivez e começou a mandar umas postas de pescada ao pessoal.
Voce pode responder o que quiser. Terei todo o gosto em responder à sua prosápia.
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ANTÓNIO CUNHA:
Sem recorrer à “psicologia invertida” (a expressão é sua, lembra-se? ) acaba de confirmar tudo o que eu escrevi.
Você não consegue rebater uma ideia, uma opinião ou um conceito.
Mesmo quando recorre a qualificativos, só tem a intenção de insultar com quem discorda.
È a plena confissão de quem não pretende debater a sério.
Pode continuar a chamar-me tudo o que vier à sua cabecinha limpa de LSD (o que lá tem dentro é consigo e só consigo).
Continue a mandar palpites pseudo-insultuosos (continuarão a ser um “auto-insulto), porque “escreverei até que os dedos me doam”.
E, agora, desculpe-me mas, só voltarei a responder-lhe quando quando não tiver nada de útil para fazer.
Agora, tenho algumas prosápias em vista e vou fazer uma posta de pescada para o jantar.
“Bon apétit!”.
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Caro CAFCquiano
Então esse peixinho, estava bom ? Tenha cuidado com as espinhas…
Eu até estremeço só de pensar que você, “constitucionalista de renome”, possa estar ou tenha estado ligado à elaboração de algum documento importante neste país. Ou então se calhar até percebo as asneiras que se fizeram no pós 25 de Abril.
Não precisa de pedir desculpa. Só responde se quiser. Espero que realmente tenha algo mais importante que fazer do que dar conversa aqui a um tolo como eu.
مساء الخير يا صديقي
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Oh Mãe do Céu!!!
Obrigado, meu Deus!!!
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