« A nossa direita blasé tem dificuldade em chamar os bois racistas, violentos e criminosos pelos respectivos nomes de racistas, violentos e criminosos. Prefere antes escandalizar-se com o escândalo da esquerda.»

Ler texto completo de Rui Tavares, publicado hoje no “Público”, aqui em baixo.


Abram-me esses olhos

Rui Tavares

Comentando a visibilidade crescente da extrema-direita na sua coluna de sábado neste jornal, Pacheco Pereira sugere que ela é concomitante do politicamente correcto e da atitude geral da esquerda. Previsível: o discurso da “hipocrisia da esquerda” é o tema único dos nossos neoconservadores, que lhe atribuem tudo e a morte do Manolete. Desde o cavaquismo que esta é a cantilena de Pacheco Pereira. Ainda não aprendeu uma nova.
Se olharmos para a esquerda, o que vemos? O PS está no Governo, o PCP e o BE sobem sondagem após sondagem. A batalha histórica da despenalização do aborto foi ganha com quase 60 por cento dos votos, alguns dos quais de uma direita desamparada pelas suas lideranças. Não é à esquerda que estão os votos e também não é ali que estão as causas. A extrema-direita tem visibilidade porque tem actividade, e o motivo precipitante da sua virulência está bem em frente do nariz de Pacheco Pereira. Com o PSD exangue e o CDS em cacos, a extrema-direita comporta-se como uma infecção oportunista num corpo debilitado. Sabe que tem de aproveitar, agora, a crise da direita enquanto esta lhe dá condições ideais para crescer.

Não vale a pena fingir que não vemos gravidade nisto. As pessoas esquecem-se, mas desde o tempo das FP-25 - como o nome indica, uma excrescência do período pós-revolucionário - que há mais de vinte anos a violência política em Portugal veio sempre desta extrema-direita. Espancaram um actor, esfaquearam até à morte um sindicalista, fizeram uma “caça ao negro” pelas ruas de Lisboa, e em matilha assassinaram o português Alcino Monteiro pelo crime de ser mulato e passear pela cidade. Recentemente foram provocar imigrantes para o Martim Moniz, apostaram forte no concurso dos Grandes Portugueses e passaram para a fase da propaganda xenófoba. Mudam de sigla, contornam cuidadosamente a lei, fazem da desonestidade a táctica principal. Quem tiver estômago para os procurar na Internet verá que se estão a organizar. Os jornalistas que se dão ao trabalho de os investigar ficam assustados com histórias de tráfico de drogas e extorsão. Mas quando eles vieram empunhar orgulhosamente as suas armas ilegais na TV, o mesmo Pacheco Pereira que vê sinais alarmantes em todo o lado minimizou o assunto para inventar fantasiosas equivalências com a esquerda. A mesma tese que continua a reciclar.

Se o problema não desaparece por o minimizarmos, será que para o levarmos a sério teremos de importar a agenda da extrema-direita? Grave erro. A questão não é a “hipocrisia sobre a imigração” que alega Pacheco Pereira. É a hipocrisia sobre o racismo. A nossa direita blasé tem dificuldade em chamar os bois racistas, violentos e criminosos pelos respectivos nomes de racistas, violentos e criminosos. Prefere antes escandalizar-se com o escândalo da esquerda.

Ora o escândalo da esquerda não é ineficaz por estar errado. É-o porque atinge apenas o seu auditório, maioritariamente já convencido. Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário televisivo, atacou os racistas enquanto “homem de direita”, demonstrando que ao contrário de Pacheco Pereira percebeu essa ideia simples. A direita tem de cair na realidade actual e fazer, se for capaz, um discurso anti-racista para o seu próprio eleitorado. Quanto mais não seja porque são os vossos eleitores - actuais e futuros - que os racistas sonham roubar-vos. Com mil raios, será que teremos mesmo de vos explicar tudo?


Sem respostas ao post “A ler II”  

  1. 1 1  Kane

    Bom postal! Se a atitude do politicamente correcto da esquerda fosse unicamente a de denunciar os cambalachos de Gondomar, Moita e Lisboa, seria só por si inestimável…
    Em relação às causas aqui referidas, não é a maior ou menor “ paixão “ na entrega pela sua defesa, que desvirtua o essencial: a defesa dos direitos da pessoa humana!

  2. 2 2  parca

    Durante anos a função do CDS foi mesmo esvaziar os grupos de extrema-direita; com esse partido feito em cacos graças ao Paulo Portas, os extremistas podem finalmente crescer.

  3. 3 3  The Studio

    Este Rui Tavares é um caso psiquiátrico, e penso sinceramente que já se deveria ter tratado. A propósito do incidente com as cartas de condução Angolanas, considerou que o governo Português quis deliberadamente “lixar” os Angolanos a viver em Portugal porque não pensou que Angola pudesse retaliar. Já a reacção do governo de Angola que mandou deter todos os Portugueses ao volante, mesmo aqueles que possuiam cartas válidas, para ele é perfeitamente normal e legítima. Que os Portugueses tenham ido a julgamento e o julgamento tenha sido adiado porque o próprio juíz não tinha conhecimento da nova lei que tinha sido alterada no dia anterior, para ele também é perfeitamente normal.

    No que diz respeito a este texto, concordo com ele quando diz que a desonestidade é a principal arma dos extremistas, incluindo dele próprio, presume-se. Vai buscar dois ou três casos do tempo da Maria Cachucha para criticar a Extrema Direita e esquece tudo o resto.

    Até concordo com ele que há uma grande hipocrisia sobre o racismo. O racismo é inaceitável, mas depois é o próprio governo que subsidia uma peça assumidamente racista intitulada “os negros”.
    A xenofobia é inaceitável, mas o Rui Tavares se calhar até foi um dos que se juntou em frente da embaixada de Israel a gritar “Morte aos EUA”, “Morte a Israel”.
    Ver este link:
    http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/england/south_yorkshire/6443851.stm
    para saber um pouco mais sobre a natureza dos “anti-racistas”.

    Para finalizar, o Rui Tavares numa coisa tem razão: É preciso chamar os bois racistas pelos nomes, sejam eles skkinheads ou seja o próprio Rui Tavares.

  4. 4 4  Sebastião Silva

    O sr. Rui Tavares põe-se mal em bicos de pés para discutir o artigo do Pacheco Pereira. Não percebeu nada, porque não deve ter lido até ao fim.
    As pessoas da direita não se sentem encavacadas em chamar racistas aos racistas. E o tema da emigração deve poder ser discutido sem a esquerdalha vegetariana descafeínada unisexo do politicamente correcto e normalizado atiçar insultos rasteiros a muitas pessoas de bem que acham que o tema da emigração deve ser discutido (ah, pois, a superioridade moral da esquerda). E reconheçamos: este é um tema demasiadamente importante para ser ignorado. Tão imbecil é a extrema direita racista (que, reconhecidamente existe) como alguma extrema esquerda pseudo bem pensante (que como Pacheco P. tão bem ilustrou votou em Aristides Sousa Mendes para ficar bem de consciência) que inocente, estupida ou irrealisticamente defende a total abolição de fronteiras entre países ou que insiste em não discutir o tema escolhendo antes a via do insulto. Esta esquerda está bem para a outra direita (que não a minha): são duas faces da mesma moeda, excitam-se uma da outra, cada uma existe enquanto a outra existir. Nesta linha de raciocinio há bastante lucidez na comparação de Pereira Coutinho e nas teses e recom,endações de Pacheco Pereira. Quem está a precisar de um desenho para perceber tudo isto é o tal Rui Quê.

  5. 5 5  Sebastião Silva

    O sr. Rui Tavares põe-se mal em bicos de pés para discutir o artigo do Pacheco Pereira. Não percebeu nada, porque não deve ter lido até ao fim.
    As pessoas da direita não se sentem encavacadas em chamar racistas aos racistas. E o tema da emigração deve poder ser discutido sem a esquerdalha vegetariana descafeínada unisexo do politicamente correcto e normalizado atiçar insultos rasteiros a muitas pessoas de bem que acham que o tema da emigração deve ser discutido (ah, pois, a superioridade moral da esquerda). E reconheçamos: este é um tema demasiadamente importante para ser ignorado. Tão imbecil é a extrema direita racista (que, reconhecidamente existe) como alguma extrema esquerda pseudo bem pensante (que como Pacheco P. tão bem ilustrou votou em Aristides Sousa Mendes para ficar bem de consciência) que inocente, estupida ou irrealisticamente defende a total abolição de fronteiras entre países ou que insiste em não discutir o tema escolhendo antes a via do insulto. Esta esquerda está bem para a outra direita (que não a minha): são duas faces da mesma moeda, excitam-se uma da outra, cada uma existe enquanto a outra existir. Nesta linha de raciocinio há bastante lucidez na comparação de Pereira Coutinho e nas teses e recomendações de Pacheco Pereira. Quem está a precisar de um desenho para perceber tudo isto é o tal Rui Quê.

  6. 6 6  Daniel Oliveira

    Não é o primeiro e não será p último a atribuir as discordâncias dos outros a problemas psiquiátricos.

  7. 7 7  rr

    Excelente artigo de R.Tavares, no entanto eu iria mais longe.
    Tendo como exemplo o raciocinio de PP aquando da Guerra no Iraque, que consistia no simplismo de chamar anti-americano a quem discordasse da criminosa intervenção, neste caso, é notório o racismo de PP.
    Aliás que me lembre só o Alvaro Vasconcelos o chamou assim num debate longinquo numa televisão, não o chamou propriamente de racista, mas que a sua atitude era racista. Ele obviamente calou-se.
    Saúdo no entanto R.Tavares por ser de esquerda ter a coragem de o dizer e por chamar os bois pelos apelidos.

  8. 8 8  blabla

    Temos por aqui argumentário do melhor. Um tal de Studio(ou deverei chamar-lhe Studioline) acha que Os Negros de Jean Genet(uma peça assumidamente provocatória e anti-brancos porque anti-colonial, logo datada, donde qualquer encenação actual deve ter em conta esse facto) não deveria beneficiar de subsidio estatal. Ou seja para o Studioline devemos ser privados da releitura de uma peça de Genet, mas devemos com certeza continuar pacatamente a admirar os poderes de um «Superhomem» branco. Que tal cancelarmos o «Superman»? o «Tarzan»? Que tal?

  9. 9 9  pisco

    Só quero referir o direito à vida, que todo o ser humano tem e a ele inerente o direito ao trabalho, de todas as raças e credos, neste simples poema, que não pode contemplar todos:
    MOÇA DO LESTE
    Longe da terra distante,
    No povoado onde esteja;
    Lá vai a moça imigrante,
    Com o véu para a igreja!
    -
    E com ela vai o seu par,
    Á igreja da Esperança;
    P’ra com ele lá se casar,
    E ter dele uma criança!
    -
    Tu que vieste do leste,
    Tens os dentes d’ouro;
    És como o anjo celeste,
    És do céu um tesouro!
    -
    Lá vai ela com um véu,
    E relembra a tradição;
    Que por cima tem o céu,
    Qu’é céu de um cristão!
    -
    Olhos que eu não vira,
    Na moça de Portugal;
    Moça como tu és gira,
    Tens beleza sem igual!
    -
    Contigo moça do leste,
    Queria um dia dançar;
    Já que a dança reveste,
    A harmonia invulgar!
    -
    Na dança harmoniosa,
    Dançaria como escravo;
    De uma tão bonita rosa,
    Que já tem o seu cravo!
    -
    Eu que te elogio agora,
    Pela tua figura esguia;
    Olho e vejo a Senhora,
    Vejo nossa Mãe Maria!
    -
    Nesses olhos com a luz,
    Vejo neles a luz do céu;
    Que me põem na Cruz,
    Ao te querer anjo meu!
    -
    Vieste para trabalhar
    E cá respeitas homília
    Vieste foi para ajudar
    Os teus Pais, a família!
    -
    pisco

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