A Acção Animal lançou uma campanha contra a tourada. Começo por dizer que não acho legítimo que se ponham, com se põem neste vídeo, em pé de igualdade os direitos das mulheres aos direitos dos animais. Uma sociedade que comece a equiparar estes direitos chega a um beco sem saída. Se aos animais aplicarmos os direitos humanos estaremos a fazer um paralelo que retira aos humanos toda e qualquer ideia de civilização. Ou seja: toda e qualquer ideia de ética e de moral.

O que confere direitos especiais à nossa espécie é exactamente ser a nossa espécie. Dotada de consciência colectiva, de memória e de cultura. Defendo que os animais são sujeitos de direitos e que esses direitos são culturalmente mutáveis. Respeito e compreendo quem ache a tourada um espectáculo bárbaro. Mas humanizar os animais, do ponto de vista dos direitos, é a pior forma de fazer este debate. Além de tornar a coerência de posições absolutamente impossível, relativiza e banaliza a própria noção de direitos humanos.

Se o anúncio quer apenas dizer que a “tradição” não é argumento que chegue para defender a tourada, assino já por baixo. Mas dizer isso não fecha a conversa. Porque ser tradição também não é argumento que chegue para condenar a tourada. Interessa saber o que quer dizer esta tradição.

E foi exactamente isto que tentei debater num texto que publiquei, a 5 de Julho de 2002, já lá vão cinco anos, no jornal “Público”. Nesse texto discordava da posição do Bloco de Esquerda sobre o fenómeno de Barrancos. Estávamos em plena polémica sazonal sobre a matéria e o Parlamento preparava-se para legislar sobre o assunto.

Publico aqui um excerto desse texto que tinha como título “Barrancos e o Direito à Memória”. O excerto é aquele que não trata da questão da autoridade do Estado em Barrancos nem dos touros de morte, assunto que então apaixonava a discussão e que, na introdução, considerei não ser o essencial. Como esta campanha agora demonstra (e ainda bem), o essencial era então e é hoje a aceitabilidade ou não da tourada nas sociedades modernas.

Aqui vai, recordado que é outro o contexto. Entre parentisis rectos está uma parte que por falta de espaço saiu do texto publicado à data.

«Não estão em discussão os direitos dos animais. Se estivessem, coerentemente se estaria a debater a proibição da tourada, toda ela. O touro sofre mais na espera pela morte do que com a morte na arena. Se estivessem, o transporte de animais e o tratamento indigno na indústria pecuária seria a prioridade. Se estivessem, seria discutida a forma de garantir a sobrevivência da espécie depois do fim da única actividade que garante a sua existência.

Não está em causa o argumento da tradição. Tradições há muitas. Há quem apedreje mulheres adúlteras, há quem dê vinho crianças de tenra idade, há quem ofereça as suas filhas em troca de um dote. Não defendo a tradição por ser tradição. O mundo muda e devemos lutar para que mude. (…)

O que está então em discussão?

A legitimidade do espectáculo da violência. A tourada é uma encenação da relação violenta do homem com a natureza. É a arqueologia rural dessa relação. A celebração da morte e a celebração da vida, da sobrevivência e do domínio do homem sobre as forças naturais. De um tempo em que o homem dependia desse domínio para sobreviver. Dir-se-á que esse é hoje um espectáculo anacrónico. Será, mas da sobrevivência destes sinais do passado depende a sobrevivência de uma memória que favoreça a relação directa com a natureza.

[E é porque, demasiadas vezes, nos esquecemos dessa dependência que, no processo de industrialização, vamos destruindo todos os recursos como se deles não dependesse a sobrevivência da nossa espécie. Celebrar a morte de um animal é celebrar a nossa vida. Humanizar os animais é esquecer esta relação de dependência física. Quando tratamos os animais como se fossem humanos estamos a levar a nossa arrogância ao limite: achamos que podemos negar aos animais os seus instintos e aos homens a sua condição de predadores. A pergunta é esta: saberão hoje as nossas crianças que não é a maldade que faz um animal matar o outro? Que a natureza não se rege por regras morais e que é essa a absoluta excepcionalidade da espécie humana? Os paralelos entre os as regras de convivência humana e a natureza podem parecer sedutoras, mas são assustadoras. Parecendo que entregam ao mundo animal a cultura humana, retiram aos homens toda a sua história.]

A tourada é um sinal de resistência à industrialização da vida e da morte. O espectáculo da morte do touro, em Barrancos, é em tudo semelhante ao da matança do porco, é aquele que nos mostra de onde vem a nossa vida, que nos diz da nossa dependência em relação à natureza. Na matança do porco, a celebração é privada e familiar, na matança do touro ela é pública e comunitária.

É também a resistência de uma cultura rural em relação a uma cultura urbana. A cultura da cidade e do domínio tecnológico sobre a natureza é, não escondo, mais tolerante e multicultural. Mas ela aflora, neste como noutros casos, uma hegemonia intolerante e insensível aos processos de afirmação de identidade do mundo rural.»


37 respostas ao post “A memória da vida e da morte”  

  1. 1 1  Hugo Evangelista

    Em primeiro lugar quero fazer uma correcção. A associação que está a fazer a campanha com este filme chama-se Acção Animal e não ANIMAL (que é a sigla de Associação Nortenha de Intervenção no Mundo Animal).

    Em segundo lugar, o objectivo deste filme não é o de fazer um paralelo entre os direitos das mulheres e dos animais, como é sugerido. Sabemos perfeitamente que uma mulher pode e deve votar, pode e deve ter uma educação e outros direitos que logicamente não podem ser atribuídos aos animais, pois estes não são racionais. No entanto, o facto de não serem racionais não lhes retira a sua capacidade de sofrer e não desejarem morrer para que uma tradição e um evento de entretenimento se realize. É este o objectivo do filme que fizemos e agradecemos que mostre no seu blog. Ou seja, é tão desajustado um apedrejamento ou uma forçar dois gladiadores a lutar pela sua vida, como forçar um animal a se defender numa luta que nunca pode ganhar, levando à sua morte certa, mesmo que não o seja ao olhar do público que assiste.

    Resumindo, neste filme a mulher não simboliza o touro. Neste filme a tradição ultrapassada do apredejamento simboliza a tourada. Obviamente que à aqui semelhanças entre a mulher e o touro, pois ambos são os elementos fracos e indefesos que são massacrados pela maioria, mas longe de nós querer que uma vaca possa também votar no “Engenheiro” Sócrates.

    Concordo consigo que não é por legislação agressiva que se muda as tradições em Portugal, é sim através de campanhas de sensibilização e de proximidade, em que se confrontem as ideias da tradição e do gosto pelas corridas de touro com as ideias do respeito pelos animais.

  2. 2 2  Luís

    Daniel:
    Fiquei espantado com os seus 2 primeiros parágrafos.
    Na verdade, há bem pouco tempo vi-o reclamar para os seres humanos dentro do útero uma menor protecção do que aquela que a lei confere aos ovos de cegonha. Na verdade, quem destruir ovos de cegonha é punido criminalmente. Quem quiser destruir um embrião, pode fazê-lo, até às 10 semans, sem invocação de qualquer razão, numa intervenção paga pelo Estado.
    Por isso estranhei os seus 2 primeiros parágrafos. Estranhei, mas gostei. Mais vale tarde do que nunca.
    Cumprimentos
    Luís

  3. 3 3  Daniel Oliveira

    Eu bem sei que não querem dizer isso. Mas emocionalmente é essa a mensagem que se quer que se passe. Mas o meu texto era um pouco mais profundo do que isso. Eu dei a segunda interpretação (a da tradição) e foi a ela que respondi.

  4. 4 4  Daniel Arruda

    Daniel, como é um tema sobre o qual falámos várias vezes e só posso aplaudir de pé lançando os meus “olés” sobre este post.
    Se estivessemos em Badajoz certamente este post teria recebido duas orelhas e rabo.

  5. 5 5  Pedro Soares Lourenço

    Os animais não têm direitos. Os homens é que têm deveres para com os animais.

  6. 6 6  CC

    Recomendo a leitura de Sobre Humanos e Outros Animais, do filósofo britânico John Gray.
    Nota, Daniel, que já falo de gente mais “radical” como o Peter Singer.

    É só para que se enquadre a fragilidade do teu argumentário expresso nos primeiros dois parágrafos: é o mesmo que foi utilizado para defender a escravatura ou a apartheid.
    (já para não falar na incongruência referida pelo Luís)

    Mas, enfim, de um humanismo anacrónico não se pode muito mais.

  7. 7 7  Pedro Morgado

    A tourada tem dois tipos de animais: touros na arena e jumentos nas bancadas.

    http://avenidacentral.blogspot.com/2007/06/contra-tourada.html

  8. 8 8  Antonio

    Confesso que não sou adepto de touradas. Porem, nao posso ser contra e digo isto não por questoes culturais, ate porque se trata de uma tradiçao que só exite no sul do pais. Apesar de haver uma certa mania de elevar as nossas tradiçoes a tudo o que acontece a volta de Lisboa. Dizia eu que nao posso ser contra pela simples razao de defender o touro. Pode parecer parodoxal, mas nao é. A criaçao de touros so acontece porque ha touradas. Trata-se de um animal selvagem que para alem de alimento, que não é propriamente um petisco, serve unica e exclusivamente para “cobrir” as vacas. Os bois, touros castrados, ja têm ou tiveram um papel mais importante, quer alimentar, quer laboral. Acabando com as touradas reduziriamos os touros a simples animais de Zoo, pois a sua criaçao deixaria de fazer sentido, ficando reduzido a meia duzia elementos com o unico objectivo ja atras referido. Nao esquecer tambem que o touro e provavelmente o unico animal mamifero em Portugal que leva uma vida inteiramente selvagem e a percentagem que acaba nas arenas e bastante reduzida. Talvez o porco que comemos todos os dias e que fazemos questao que seja “tenrinho” tambem merecesse direitos. Todo a sua vida esta preso num metro quadrado a comer e a engordar para nao criar musculo e assim quando chega ao nosso prato estar como ser quer que ele esteja. Sinceramente, entre ser porco tenro ou touro selvagem a morrer na arena, talvez escolha a vida de touro. O espectaculo, talvez seja um mal menoor para persevaçao da especie…

  9. 9 9  Tales de Mileto

    “o objectivo deste filme não é o de fazer um paralelo entre os direitos das mulheres e dos animais, como é sugerido”

    então porque aparece no filme uma mulher a ser apedrejada. calhou? foi por mero acaso? não tinha reparado nisso?

    “Sabemos perfeitamente que uma mulher pode e deve votar, pode e deve ter uma educação e outros direitos que logicamente não podem ser atribuídos aos animais, pois estes não são racionais.”

    Se sabe tudo isso, qual é o seu problema? alguém o obriga a ver touradas?

    “é tão desajustado um apedrejamento ou uma forçar dois gladiadores a lutar pela sua vida, como forçar um animal a se defender numa luta que nunca pode ganhar”

    acha mesmo que pontapear uma cadela é a mesma coisa que pontapear a sua irmã ou a sua mãe? pode ser um acto igualmente estúpido, mas não é bem a mesma coisa.

    cuide você de si, da sua família e dos seus vizinhos, e não se preocupe com os touros, porque eles também não se preocupam consigo.

  10. 10 10  Von

    Ainda não li o seu post, Daniel, apenas vi o video. E acho que acabei de ver uma das maiores palermices da minha vida. Ainda por cima, uma palermice bem perigosa.

    Von

  11. 11 11  Antonio

    Ja agora…Concordo na totalidade com o post do Luis!!!

  12. 12 12  Von

    Ok, agora que já li o post e os comentários… todos estes defensores dos animais comem carne? Frango assado de aviários onde os animais vivem em condições limite e cujo o seu fim é a alimentação dos humanos? Carne de porco, de animais criados em condições limite e cujo o seu fim é a alimentação dos humanos? Já foram a algum McDonalds ou derivados? Vestem camisolas de fibras animais? Bebem leite? Se algum dos defensores de animais se abstém de todos estes exemplos, então tem autoridade para criticar touradas e afins. Se não, então não passa de um hipócrita.

    Von

  13. 13 13  Jorge C.

    Caro Daniel,

    Concordo quase na totalidade consigo, sobretudo no essencial da questão.
    Queria apenas acrescentar, como elemento acessório à discussão, que existem (muito para além da tradição) factores antropológicos que vão explicando a origem do espectáculo taurino e que, acima de tudo, à luta contra a tauromaquia falta entendimento e conhecimento de algumas matérias, sobretudo no que diz respeito às corridas em si, à sua Qualidade (não falo de gostos aqui, leia-se).

    Relativamente a Barrancos, como aficionado não me sinto confortável quanto a essa questão, dada a precaridade da festa e o tratamento pouco ortodoxo que é dado aos animais.

    Conheço a Festa desde que me lembro de mim. Compreendo-a e vivo-a apaixonadamente, mas também tento fazer sempre um juízo consciente, o que é extremamente difícil.
    Penso que esta sua reflexão pode ajudar de alguma forma a compreender determinada intolerância nesta matéria.

  14. 14 14  Daniel Oliveira

    CC, quer com isto dizer que veremos no futuro os animais como hoje vemos os humanos? Daremos então autonomia aos animais para participarem é pé de igualdade com a nossa sociedade?

    Claro que eu vejo os animais como antes se viam os escravos. Isso não quer dizer que eu esteja errado. O erro era de quem julgava que os escravos eram mais ou menos animais.

    Eu poderia resolver o problema, contra este animalismo dizendo que o senhor olha para as coves como dantes olhávamos para os escravos e para as mulheres. Não posso? Não. Porque as coves, ao contrário dos animais, não sentem E o CC não pode dizer o que diz porque os animais, ao contrário dos homens, não são dotados de auto-consciência, nem de livre-arbitrio, nem de cultura, nem de história, nem de memória colectiva, nem de nada que faz como que o homem olhe para o homem de forma absolutamente diferente. Um bom resumo: os touros, enquanto “comunidade”, não discutem entre si se é aceitável o que fazem aos cavalos que não têm culpa nenhuma. O paralelo com humanos é sempre absurdo.

    Já pensou em todas as implicações filosóficas assustadoras que tem o anti-humanismo?

    Há quem defenda que o homem é uma praga na terra. Até pode ser que seja verdade, mas só pode ser dito e pensado por um dos elementos da praga, já que o resto da natureza não se tem debruçado muito sobre o assunto. Imagina o que significa o homem olhar para o Planeta sem ser como a sua casa e ver-se a si próprio como um problema a erradicar?

    Nada do que pensamos faz sentido se não dermos ao homem um estatuto absolutamente diferente de todos as outras espécies. Todos os valores deixam de fazer qualquer sentido.

  15. 15 15  Xico

    É sempre um gosto concordar com o Daniel Oliveira. Uma voz e um pensamento sempre lúcido.
    Este elogio não é bajulatório porquanto bastas vezes estou em desacordo consigo, mas isso não significa que não tenho sempre em grande apreço a sua opinião mesmo quando não concordo, porque sei que é reflectida e sincera.
    Neste caso é um gosto porder concordar consigo.

  16. 16 16  Woman Once a Bird

    Discutir para que “servem” os touros é um completo absurdo. Argumentar que inflingir dor a uma espécie para deleite de outra é legítimo é, a meu ver, perigoso.

  17. 17 17  Mario Cordeiro

    O texto de há 5 anos, apresentado em itálico, é de um enorme sentido ético e estético. Grande conteúdo numa excelente forma.
    Não sei se ainda há mais para ler e que não foi apresentado, mas o facto de o ser humano produzir sociedade enquanto os outros animais repetem sociedades ou nem sequer as organizam é a pequena (grande) diferença.
    O outro dizia que enquanto houvesse uma criança com fome em Portugal não se construía a OTA. Eu digo que enquanto nem todos os seres humanos viverem com a dignidade que merecem, o problema dos toiros se morte não consta das minhas prioridades mais prementes.
    Apesar de não gostar de toiradas e achar que torturar um animal por prazer pessoal é sinónimo de embrutecimento (não me refiro às toiradas, que para mim, pelo seu significado de o homem dominar a besta, a inteligência dominar a força até ela se vergar e oferecer a nuca, só pode terminar em morte do toiro ou do homem) gostava de saber o que pensam os “ANIMAL” e outros sobre, por exemplo, as “crianças de morte” que todos os dias são feitas “baixos-relevos” nas passadeiras e ruas, as que são torturadas pelos seus pais ou abandonadas a dormir enquanto os adultos se divertem, as que quase morrem de medo porque ameaçadas nem que seja com um “se te portas mal vem o papão”, as vítimas da guerra ou de um obsoleto sistema educativo e de alguns professores sádicos e prepotentes. Ou médicos. Ou enfermeiros. Ou tantos outros adultos.
    Comecem por aí e quando resolverem tudo tratem para o animal seguinte…

  18. 18 18  CC

    Não, Daniel.
    Quero dizer que devíamos olhar para os animais como animais, não como humanos (que eles não são).

    Claro que o homem tem um estatuto diferente de todos as outras espécies.

    Mas quer dizer que o humanismo despreza a natureza, quer dizer que legitima a manipulação cruel de todas as formas de vida e tornaaceitável a iníqua relação que temos com os animais, tornados produto económico sem qualquer autonomia, submetidos a sofrimentos injustificados e a tratamentos cruéis, sem respeito, sem reconhecimento da dignidade inerente à sua condição de pares da obra do mesmo Criador (Deus ou o acso, conforme a preferência religiosa).

    Qer dizer que alguns valores deixam de ter sentido, sim (porque se perde a sua referência exclusivamente humana), mas que outros valores aprimoram a ética.

  19. 19 19  André Costa

    Nunca tive qualquer simpatia especial pela tourada.

    Como homem de esquerda humanista, sempre tive grandes discussões acerca deste tema. Nunca gostei de proibicionismos e muito menos de moralismos. Nunca aceitei a imposição de valores e costumes de outros sobre os meus próprios valores.

    Por isso, nunca aceitei a histeria contra a tourada de quem partilha comigo estes princípios. Impor as minhas concepções da relação homem-animal sobre as dos outros, porquê?

  20. 20 20  allall

    Apenas acho que tudo isso nao se aplicará se o tal ser humano for judeu ou tão só israelita.
    Pelo que tenho visto neste fico com essa quase certeza.

  21. 21 21  kk

    Este vídeo não respeita o multi-culturalismo e é uma ofensa a todos os muçulmanos. Pode inclusivamente iniciar uma nova onda de protestos como aquela que se verificou com a publicação das caricaturas de maomé.

  22. 22 22  Hugo Evangelista

    Tales de Mileto,
    1 - O objectivo, volto a repetir, não foi fazer um paralelo entre os direitos das mulheres e dos animais, mas sim entre tradições eticamente incorrectas que já acabaram e outras tradições eticamente incorrectas que continuam a existir. Se tiver outra leitura será a sua e não a nossa.

    2 - É claro que eu posso não ver touradas, nínguem me obriga. Mas também nínguem obrigava nínguem a ver apedrejamentos, mas eles acabaram na mesma porque o que se estava a fazer não era correcto. Por isso, independentemente da minha liberdade de não ver touradas, eu acho que as touradas não devem existir porque o touro não deseja lá estar, é contra a sua vontade.

    3 - Acho que pontapear cadelas ou pontapear os meus familiares está incorrecto, ponto final. Não preciso de escolher quem pontapeio, porque não preciso de pontapear nínguem, tal como nenhum português tem uma necessidade fisiológica de ver um touro morrer para que se consiga divertir.

    4 - O seu comentário final é extremamente egoísta e faz-me pensar se o senhor alguma vez se iria preocupar com um bebé já ou com um tetraplégicoque já que eles nunca se preocuparão consigo.

    Von,
    Posso dizer-lhe que colaborei com a realização deste filme e que sou vegetariano. Na sua opinião já tenho autoridade moral para exprimir a minha opinião?
    O que se está a discutir aqui é a tourada. De nada serve empurrar o tema para a criação de animais para alimentação se estamos a tentar ter uma conversa produtiva.
    Se o vídeo fosse sobre criação animal, facilmente alguém falaria dos coitados dos touros que são mortos para alguém se divertir.

    Daniel,
    Acho que estar a sugerir que os defensores dos direitos dos animais querem igualdade entre humanos e animais não-humanos é tentar levar a discussão para o lado rídiculo que não existe.
    Os defensores dos direitos dos animais simplesmente pretendem terminar com a exploração e morte desnecessária dos animais.
    Ao contrário do que diz, muitos animais (não todos, mas pelo menos todos os mamíferos) possuem autoconsciência, possuem capacidade de criar laços afectivos e possuem alguma capacidade de se visualizar no futuro, para além da sua capacidade de sofrer e desejo de não ter medo ou morrer.
    São estas capacidades que, na minha opinião, dão a um indivíduo o “direito” (chame-lhe outra coisa se não gostar do termo) de não ser explorado e morto por outro animal que possui a capacidade de construir e usar outras alternativas.
    Não é a cultura nem a história nem mesmo o raciocínio matemático que fornecem a um indivíduo o direito de não serem escravizados e mortos por outros.

    Maria Cordeiro,
    “enquanto nem todos os seres humanos viverem com a dignidade que merecem, o problema dos toiros se morte não consta das minhas prioridades mais prementes”
    Se eu lhe dissesse que enquanto uma criança branca passar fome, o problema dos imigrantes ilegais em Portugal não é a minha prioridade, estaria a ser extremamente racista.
    O seu comentário não incidiu sobre a raça, mas sobre a espécie.
    A Maria Cordeiro pode não ser racista, mas é certamente especista, discriminando outros indivíduos (que resulta na sua exploração e morte desnecessária) única e exclusivamente devido à sua espécie.
    Todos os outros exemplos que dá são causas de luta importantes, mas quem lhe disse que as pessoas que lutam pelos direitos do animais o fazem exclusivamente? Defendo activamente e com o mesmo ou mais empenho causas pelos humanos, mas por favor não me peça o fazer exclusivamente.

    André costa,
    Respondendo à sua questão, eu acho que qualquer pessoa pode e deve pensar, dizer e fazer aquilo que ela quiser desde que não essas palavras e acções não provoquem sofrimento noutros indivíduos. É assim que pensaria uma pessoa da esquerda humanista e é assim que eu penso.

  23. 23 23  Von

    Caro Hugo, embora de certa forma tenha argumentado com alguma eloquência e até com bastante verve, mantenho que a sua linha de acção é enganadora. Porém, não resta dúvida, que as posições anti-tourada são francamente mais mediáticas e há que ser mediático não é? Quando argumentou relativamente a crianças com fome (seja qual a raça ou cor, digo eu), pena é que a sua Acção Animal não seja tão mediática a protestar contra esse flagelo. Mas se calhar não dá tanto nas vistas… Quanto ao anúncio, mantenho: um tremendo disparate. A não ser que se trate da Vida de Brian, parte 2.

    Von

  24. 24 24  Sardanisca

    É,sem dúvida,um debate interessante para ter à mesa,degustando uns rojões ou uma cabidela de frango.
    Interessante é o facto de estes defensores dos animais não se encontrarem,com palavras de ordem e tudo o mais,nas matanças do porco,evento tão enraizado na nossa tradição cultural.
    É menos mediático,não é?

  25. 25 25  Lutz

    Foi a recente debate sobre o aborto que me levou a clarificar as minhas ideias sobre o assunto. Apercebi-me que a protecção contra o sofrimento não deve depender duma classificação abstracta, em última instância sempre arbitrária, mas antes ser universal. A arbitrariedade das nossas classificações levou-me a fazer um post que dizia: «A superioridade categórica da (raça branca) espécie humana sobre as outras é evidente e não necessita de argumentos.»
    Como escrevi então, essa superioridade para mim não é nada evidente. Tem que ser demonstrada. E quanto ao sofrimento: Se há sujeito que possa sofrer, seja ele animal, humano ou máquina, ele merece a minha solidariedade e protecção contra a dor.

    Claro que a questão passa então pelo que devemos considerar sujeito. Até melhor, Proponho que seja a capacidade de experienciar sentimentos.

    Que a aboliação das touradas seria mais um passo na alienação da nossa sociedade, nomeadamente das questões de vida e morte, não nego.
    Só que este argumento também servia contra a abolição das lutas de gladiadores no circo romano, ou a transmissão de execução de condenados na TV.
    Como podes calcular, defendo a proibição da inflição de sofrimento a humanos, para fazer espectáculo dele, apesar deste argumento. Da mesma forma vale: se há razões de estar contra o sofrimento gratuito de animais, não será este argumento que se sobrepõe.

    (Fiz um post mais abrangente sobre isso no QeP)

  26. 26 26  Budapeste

    Como o provam casos recentes, um deles no Curdistão, qualquer um destes espectáculos têm espectadores e participantes aficionados…

    Por mim, preferia que se acabasse primeiro com o apedrejamento de mulheres e até aí ainda há muito a fazer, mas se a tourada evoluísse já (não precisamos de ficar à espera que noutro lado do mundo se decidam a deixar de lapidar seres humanos…)para um espectáculo mais acrobático como se faz em França e com mais pegas de forcados e menos espeta ferros no touro que fica a sangrar por todo o lado e diminuído da sua força (o espectáculo de luta é viciado…), também não se perdia grande coisa…

    E depois a tradição não é tabu, vale o que valemos nós e, graças a Deus, há muitas coisas que se faziam antigamente que já não se fazem hoje…

    Por outro lado faz-se muito hoje, que nem no passado se fazia…

    A forma como são criados e transportados os animais para abate e consumo de carne e pior ainda para a industria das peles (onde os animais são esfolados vivos para não estragar a pele…e abandonados para morrer lentamente)é perfeitamente bárbara e não é por olhar-mos para o lado ou dizer-mos que há coisas mais importantes a fazer primeiro( e o mais engraçado, enquanto não se acabar a primeira “não se pode passar à segunda”…(grandes empatas…)), que deixamos de ser mais bestas que muitos animais…

    Hoje.

  27. 27 27  Miguel

    O que confere direitos especiais à nossa raça é exactamente ser a nossa raça. Dotada de consciência colectiva, de memória e de cultura. Defendo que os negros são sujeitos de direitos e que esses direitos são culturalmente mutáveis. Respeito e compreendo quem ache a escravatura uma prática bárbara. Mas branquear os negros, do ponto de vista dos direitos, é a pior forma de fazer este debate. Além de tornar a coerência de posições absolutamente impossível, relativiza e banaliza a própria noção de direitos dos brancos.

  28. 28 28  O Iluminado

    Eu gostaria de saber porque não se pode colocar os direitos das mulheres e dos animais em pe de igualdade?o que torna um animal merecedor de menos direitos que uma mulher?

    O restante é uma verborreia mental com um bocado de “perfume e flores” para desviar as atenções da imoralidade que acabou de defender.

  29. 29 29  Débora Oliveira

    A própria tourada (ou qq acto violento contra animais) retira ao homem “qq ideia de ética e de moral”. Por outro lado, n existem “direitos especiais” da nossa espécie, toda e qq espécie deve possuir direitos. Assim, o direito à vida e ao bem-estar n deve ser mutável, estejamos a falar de touros ou de homens. Acrescento ainda que toda a espécie possui um tipo de cultura específica e que até as próprias baratas possuem memória, como descobriu a ciência recentemente. Finalizando, como é referido na “declaração universal dos direitos dos animais”: “Os direitos do animal devem ser defendidos pela lei como os direitos do homem” (Artigo 14º, ponto 2).

  30. 30 30  Sandra Siqueira Dos Santos

    porque o texto e grande?
    Como a pica do homen!

  31. 31 31  Ricardo

    Correcção: outros primatas, como os chimpanzés, são autoconscientes. Uma das fontes de informação a este respeito pode ser o Great Ape Project, constituido por psicanalistas, biólogos e filósofos académicos - muitos deles autres de textos universitários.
    Claro que os outros animais têm cultura. Negá-lo seria negar a existência de áreas como a sociobiologia, assim como negar a possibilidade de intepretar o comportamente humano dentro de certos parâmetros seria negar a antropologia, por exemplo.

  32. 32 32  Ricardo

    Não nos podemos esquecer que, no que toca à tauromaquia, a maior imposição é a de forçar um animal para uma arena onde vai obrigatoriamente ser espetado com ferros. Para não falar que a lei permite que algumas pessoas confinem os touros nos curros, antes e depois do espectáculo, frequentemente sem água ou comida.
    Quer eu tente impor, durante uma discussão com as outras pessoas, que a tourada é moralmente correcta ou que é moralmente repreensível, as consequências jamais serão tão drásticas para as pessoas com quem discuto como a descrição acima.

  33. 33 33  Ricardo

    Já o Peter Singer falava no desconhecimento por parte das pessoas ligadas às areas em que os animais são usados e abusados no que toca àquilo que os defensores dos direitos dos animais defendem. Exemplificava com as pessoas que imaginavam as consequências de igualar os direitos do homem aos dos animais quando, na verdade, isso nem é normalmente defendido pelos defensores dos direitos dos animais.

  34. 34 34  Vera Correia

    A escola, a televisão, a rua, a família são grandes influências para o desenvolvimento de um individuo e desde o principio da minha vida que estes elementos me fizeram pensar que a minha raça e espécie eram superiores.

    Eu lembro-me que em pequena não olhava para individuos de raça negra como olhava para os da minha raça. Nem olhava para um animal não humano, como olhava para um animal humano. Aliás, na escola, diziam-nos que “os animais não pensam, não têm cérebro”. Em casa, todos os estrangeiros eram considerados estupidos e criminosos. Inclusivamente, o “homem da casa” tratava as mulheres como inferiores. Na televisão sempre vi anúncios, talk shows, filmes, etc. em que o ser humano era elevado acima de todos os outros animais. E ouvi, constantemente, em todo o lado, pessoas que não se consideram animais.

    Eu falo no passado mas as coisas repetem-se constantemente.

    Apesar de ter lido/ouvido muita “porcaria” na minha (ainda) curta vida de 17 anos, não sei bem como, cresci e continuo a crescer no bom sentido e é com orgulho que me considero Defensora dos Direitos de todos os Animais.

    Seja um cão ou um homem, o meu desejo é que sejam felizes e que não sejam pontapeados (usando o exemplo do senhor “Tales de Mileto”)

    Li muitas “palermices” nesta página que não esquecerei tão cedo, só mais algumas a somar à “porcaria” que ouço/leio há mais de 10 anos.

    Aconselho as pessoas que ainda se questionam se espetar ferros em touros é aceitável, a consultar o site http://www.bullfightingfreeeurope.org/

    Eu não discrimino seres pela sua espécie ou raça, mas sim pelas suas intenções.

    E aproveito para dizer que o “homem da casa” que trata mal as mulheres (e individuos de outras raças) é um aficionado.

  35. 35 35  Catarina Araujo

    Nem sei por onde começar, muito sinceramente, tal é o meu estado de preplexidade…

    A Tourada é um espectáculo sangrento e de puro sofrimento, o simples facto de ainda existirem pessoas dispostas a pagar para se rirem e aplaudirem estas cenas de sangue e dor…é triste e assutador…

    E, podem me chamar o que quiserem, mas, do fundo do meu ser, não acredito que quem goste desta tortura, ou que simplesmente a ignore, possa ter bons sentimentos, porque não é possível! É nestas situações em que um ser com mais meios para se defender(o Homem) e que se vê mesmo como superior, se encontra perante um ser inferior, se revela, deixa transparecer o seu verdadeiro “eu”. Porque pode ser ele mesmo, não precisa do outro para nada, pode libertar o sente. Então aqui há uma separação bem definida das diferentes pessoas, porque umas quando vêem um ser mais desprotegido em aflição só querem correr para o ajudar, não conseguem assitir impávidos e serenos à sua situação desesperante! Outros, porém, vêm com desculpas ridículas, tentando desculpar um sentimento que talvez saibam que é cruel…se não porquê tantas desculpas?

    Eu, e muitos felizmente, não sou de fechar os olhos para não ver o que acontece na sociedade onde me insiro, por isso o comentário de “se não gostam não vejam” não é aceite. Eu tenho o direito, e o dever, de lutar por uma sociedade melhor para os meus e para os que me rodeiam.

    Aliás, já Martin Luther King dizia: ” O que mais me assusta não é o grito dos maus, mas sim o silêncio dos bons”.

    E, a desculpa que muito me irrita e que usam muitas vezes é a de que quem luta pelos direitos dos animais deveria escolher outra causa. Pois bem, já uma senhora muito sábia o dizia e eu repito que quem diz isso nem luta pelos direitos dos animais nem pelos direitos humanos, não faz nada, e para se sentir bem desdenha as causas que os que olham à volta e não somente para o seu próprio umbigo apoiam.
    Eu defendo os direitos dos animais, defendo os direitos humanos, defendo a Natureza e tudo aquilo em que acreditar! Parada é que me recuso a ficar!

    E não me interessa saber se os animais pensam ou não, só importa saber que sofrem.

  36. 36 36  Ricardo Coelho

    Já li este texto algumas vezes e ainda me custa a crer que alguém acredite no que está aqui escrito. Vamos por partes.
    Em primeiro lugar, o Daniel sugere que a tourada celebra o “domínio do homem sobre as forças naturais”. Muito bem, estamos de acordo. De facto, o que está em causa na tourada é exactamente a demonstração pública do domínio do Homem sobre a natureza. Esta relação de domínio substituiu já há muito uma relação de interdependência, levando a que a humanidade veja a natureza como um stock de recursos naturais ao seu dispor. Daí decorreram, naturalmente, as catástrofes ecológicas que hoje presenciamos. Mas logo no parágrafo seguinte o Daniel diz que “E é porque, demasiadas vezes, nos esquecemos dessa dependência que, no processo de industrialização, vamos destruindo todos os recursos como se deles não dependesse a sobrevivência da nossa espécie”. Em que ficamos?
    O Daniel esforça-se por encontrar uma função pedagógica em todos os espectáculos que consistem na tortura pública de um animal. São úteis porque nos recordam da nossa ligação à natureza (isto ficou por justificar). São úteis porque nos recordam da nossa condição enquanto predadores (como se essa condição fosse inegável e imutável). São, acima de tudo, úteis porque as crianças que vêem um animal a ser torturado em público apercebem-se de que a natureza não se rege por regras morais e que os animais devem ser tratados de forma muito diferente dos humanos. Estas crianças serão mesmo no futuro os maiores defensores dos direitos humanos, como se vê pela quantidade de aficionados que pululam pelas ONG’s.
    O Daniel também se esforça por associar a defesa dos animais à humanização dos animais. Como se afirmar que um animal sofre fosse equivalente a humanizá-lo. Como se apenas os humanos fossem dotados da capacidade de sofrer.
    Das duas uma: ou aceitamos que os touros sofrem e, portanto, a tourada consiste na sua tortura pública, ou defendemos que os touros não sofrem e contrariamos toda a evidência científica. A menos que vivamos noutro planeta, não podemos deixar de ver a tourada pelo que é e certamente que não nos podemos deixar de revoltar por haver quem pague para ver um animal a sofrer.
    Uma nota final: o touro é um boi. O fim da tourada não poderá assim levar ao fim do touro pelo simples motivo de que haverá sempre bois. Mas mesmo que isto fosse verdade, será que então devemos inventar todo o tipo de espectáculos com animais para salvar os pandas, os koalas, os golfinhos, os ursos polares, os leões e todos os outros animais em perigo? Seremos assim tão atrasados ao ponto de não conseguir viver em harmonia com a natureza e os animais?

  37. 37 37  Vera Correia

    O comentário do Ricardo Coelho é que é sensato.

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