12_2006_02_jaroslaw_kaczynski_prawo_i_sprawiedliwosc.jpg

Já falei deste assunto na SIC e escrevi também sobre ele no “Expresso”, dando até alguns dos exemplos aqui mencionados. Mas volto à carga. Porque não me deixa de espantar a passividade com que a UE assiste ao que se passa na Polónia, um membro da União e um dos mais indefectíveis aliados da Casa Branca na Europa. Aqui fica um bom resumo publicado no jornal “Esquerda” e assinado por João Viriato:

«”Lustração”: eis uma palavra que remonta às antigas cerimónias de purificação romanas e que agora foi adaptada, na Polónia, à perseguição e exposição pública de antigos membros do partido comunista e presumidos ou reais colaboradores dos serviços secretos do antigo regime. No passado mês de Março, o governo polaco de extrema-direita lançou a chamada “Lei da Lustração”, segundo a qual 700 mil profissionais liberais, entre os quais jornalistas, professores e advogados nascidos antes de 1972 são obrigados a assinar um documento declarando que nunca colaboraram com o regime, sob pena de despedimento ou interdição profissional.

Esta lei vem complementar uma outra, de 1998, que abrangia os detentores de cargos públicos e membros da igreja. Todos estes profissionais terão que responder a um questionário no qual se pergunta se alguma vez “secretamente e com conhecimento colaborou com os antigos serviços de segurança comunistas”.

Devidamente preenchidos, os questionários são em seguida enviados para o Instituto de Memória Nacional que, na posse de mais de um milhão de ficheiros pessoais, verificará as “declarações de inocência” e emitirá, caso se confirme a não colaboração, um certificado de “pureza política”.

Ao invés, as consequências podem chegar ao despedimento automático. Se alguém se recusar a responder, pode ser impedido de exercer a sua profissão durante 10 anos. Foi ao abrigo desta recusa que Bronislaw Geremek, eurodeputado polaco, recebeu recentemente uma carta do seu governo exigindo a sua renúncia ao cargo para que fora eleito. Geremek, que é um historiador medievalista de renome, foi um dos intelectuais que se envolveu no sindicato Solidarnosc, que nos idos de 80 abalou o regime do general Jaruzelsky.

Mais tarde, foi um dos principais negociadores do processo de transição pacífica da Polónia para a democracia e ministro dos negócios estrangeiros. A sua recusa em assinar a declaração de “pureza política” não se prende apenas com o seu passado ou a discordância de fundo com esta medida. Na verdade, ele já a tinha assinado em 1998, na qualidade de deputado. Extraordinário é que tenha sido o único a negar-se entre 51 eurodeputados polacos e 411 deputados nacionais nascidos antes de 1972…

Deve dizer-se que a lei está a ser fortemente contestada e há outros sinais de desobediência, a começar pela Gazeta Wyborcza, um jornal que desempenhou um papel importante na oposição ao regime do Partido Operário Unificado Polaco (POUP) e que agora anunciou um boicote à lei através da sua jornalista Ewa Milewicz: “Confesso-me quando tenho necessidade e não quando o poder, ainda que democrático, mo impõe”, declarou esta ex-dissidente que já assumiu estar preparada para renunciar ao exercício da sua profissão.

Igreja e homossexuais
Também a Igreja Católica, instituição com enorme peso no país, foi abalada com a Lei de Lustração. O ex-arcebispo de Varsóvia, Stanislaw Wielgus, foi obrigado a abandonar o seu cargo em Janeiro último, depois de se ter provado que durante 20 anos colaborara com a polícia política do regime. Apesar disso, a Conferencia Episcopal do país não se pronunciou contra a medida.

Os resistentes à lei pediram ao Tribunal Constitucional que aprecie a mesma, uma vez que se considera que esta atenta contra os Direitos Fundamentais, já que está consagrado em todas as Constituições europeias o direito de um cidadão a não declarar contra si mesmo (aquilo que é conhecido nos EUA como a 5a Emenda). Para além disso, esta lei representa uma bizarra inversão do ónus da prova, ou seja, todos são presumíveis colaboracionistas até prova em contrário.

Se a paranóia anti-comunista tem sido o tema mais mediatizado, há vários sinais de que os objectivos da coligação entre os partidos Lei e Justiça, Liga das Famílias Polacas e Autodefesa, que domina a cena política polaca, visam bem mais longe. O novo poder instalado em Varsóvia, sob a liderança dos Lech e Jaroslav Kaczynski, respectivamente presidente e primeiro-ministro do país, quer quebrar a espinha a todos os opositores e ajustar contas com a conturbada história do Solidarnosc. Para além desta perseguição, o governo polaco encetou outra, desta feita contra a homossexualidade e aquilo que classifica de “desvios sexuais”. Está actualmente
em preparação uma lei punitiva contra quem se assuma como homossexual e decorre uma campanha governamental contra o uso do preservativo.

O eurodeputado do GUE/NGL, Giusto Catania considerou que as recentes declarações do Ministro da Educação polaco contra a “propaganda homossexual”, e a proibição da Marcha do Orgulho Gay em Varsóvia, são inaceitáveis e legitimam manifestações de intolerância e violência homofóbica.

O facto é que se têm registado cada vez mais casos de ataques e agressões contra clubes e membros da comunidade gay. Membros da coligação governamental vêm anunciando a intenção de lançarem novas propostas ultra-conservadoras, tais como a proibição constitucional da prática de aborto e a reintrodução da pena de morte. Em Bruxelas, um folheto do eurodeputado Maciej Giertych, onde sustenta que “o anti-semitismo não é racismo” e que “os judeus criam os seus próprios ghettos”, foi objecto de larga indignação por parte dos seus pares, das mais variadas bancadas. Este manifesto de ódio, reflecte o clima de anti-semitismo que tem vindo a ser artificialmente criado num país onde praticamente já não vivem judeus.

Varsóvia é, em termos de política externa, o mais fiel aliado da casa Branca na União Europeia. Para ambos, vale o ditado popular, “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”.»


14 respostas ao post “A nova Europa”  

  1. 1 1  Stran

    Com a Polónia a bordo, ficou mais difícil explicar a exclusão da Turquia.

  2. 2 2  Karl Macx

    Meu caro Daniel, esta apanhou-me de surpresa.
    Seria de esperar que um País que, em 1939, se viu violentado por uma cultura extremista, racista, intolerante, que viu muitos dos seus filhos definharem nos “Arbeitkamps” construidos, muitos deles, dentro das suas próprias fronteiras, que viu Varsóvia tornar-se numa roleta da morte entre quem pertencia ou não a um gueto, ver um país onde agora esses mesmos valores pelos quais morreram 6 milhões de judeus, 5 milhões de outras minorias e outros tantos milhões de soldados de ambos os lados falam mais alto, seria de esperar, repito, uma vontade férrea em não repetir os erros do passado. Pelos vistos, não.
    E agora, para quando a lei que cala os artistas, os músicos e os escritores?

  3. 3 3  Gonçalo

    Refiro, por exemplo, que a banda portuguesa Moonspell foi impedida de tocar na Polónia, sendo acusada de satanismo. No resto da Europa, tocariam em qualquer cidade ou lugarejo sem qualquer problema.

  4. 4 4  miguel

    A Polónia é de facto um país à parte em muita coisa. Lembro-me de ter ficado espantado da primeira vez que tive em Varsóvia em 1999 ,quando vi enormes filas de espera para os vários confessionários de uma igreja banal no centro da cidade.
    Outra questão é o elevado número de apoiantes da extrema-direita que são extremamente agressivos.
    E o que dizer do elogio de um responsável do governo polaco aos regimes de Franco e Salazar?

  5. 5 5  palhaçadas

    Para além de terem um videoclip excelente, os Moonspell são tão satânicos quanto Topo Gigio.

    “Na sua terra natal, Hanna Arendt viu o que ela própria e muitos outros tinham por adquirido, uma construção moral aparentemente sólida e segura, cair em ruínas sob o governo nazi, o que teve por consequência extrema a inversão do mandamento “Não matarás” e a sua transformação em “Matarás”; e, mais tarde, depois do fim da Segunda Guerra Mundial, assistiu a uma nova viragem reafirmando a validade da antiga construção. Mas com que solidez e segurança?”
    aqui fica a pergunta de
    Jerome Kohn, Director do Centro Hannah Arendt, da New School University, EUA, 2003

  6. 6 6  samir.machel

    É de facto inaceitável a sitaucao na Polónia.

    De assinalar a fotografia original de um grande filme.

  7. 7 7  esquecimento_global

    E porque é que os democraticos dirigentes da União Europeia não começam por convidar a Polónia, assim por uns tempos (com bons modos, claro), a ir dar uma volta, ou como quem diz, ir para a puta que a pariu ?

  8. 8 8  l.rodrigues

    E ainda falam (fala) do Chavez…

  9. 9 9  Zabka

    A lei acabou de ser declarada inconstitucional pelo Tribunal! Mais uma derrota para os tarados.
    Quanto aos Moonspell, agradeço não terem vindo cá tocar, se calhar também podiam ser banidos em Portugal - palhaçadas gótico/satanicas disfarçadas de literatura.

  10. 10 10  Bruno Ferreira

    Lá está!! Estavas a ir tão bem e lá tiveste que derrapar para o disparate panfletário!! Actual Varsóvia o maior aliado de Casa Branca na Europa….O típico…como quem diz..o Bush é Nazi…e se não fosse o Bush era outra típica do anti-americano primário!!
    Para mais, faz-me lembrar, em reduzida escala, os saneamentos pós 25 de Abril que não me lembro de teres condenado!!!(”teres” para distinguir D.O do BE)

  11. 11 11  max

    Relembro a campanha anti-Polónia em curso pela blogoesfera:

    http://devaneiosdesintericos.blogspot.com/2007/04/polnia.html

    que conta com as seguintes adesões:

    http://devaneiosdesintericos.blogspot.com/2007/04/j-aderiram-em-actualizao.html

  12. 12 12  Z

    nada de novo, Daniel, nada de novo…

    o latente explicitou-se

  13. 13 13  palhaçadas

    Zabka,

    Felizmente, os Moonspell não precisaram de ser “banidos” de Portugal, porque antes que isso acontecesse, piraram-se. E ainda bem para eles, porque se calhar hoje estariam a dedilhar o teclado de um call center.
    Entre Abril e Julho deste ano actuaram ou vão actuar na Alemanha, na Noruega, na Bélgica, na Holanda, em Inglaterra, em França, na Suíça, e por acaso, apesar de por estas bandas ninguém ter dado nada por eles, não vão deixar de tocar em Faro, em Viana do Castelo e em Grândola.
    José Luís Peixoto, que se calhar para alguns também devia ser “banido”, associou-se aos moonspell num projecto que consistiu na criação de uma obra narrativa inspirada no universo musical do novo disco destes “guedelhudos gótico-satânicos”, que incluíu uma faixa multimédia com os contos de José Luís Peixoto em Inglês, numa tradução assinada por Richard Zenith.

    http://nescritas.nletras.com/poemasjoseluispeixoto/Morreste-me/archives/2004_07.html

    Mas provavelmente, se os Moonspell fossem “banidos” era um favor que nos faziam. É que a cultura portuguesa consegue actualmente afirmar tantos e tão sólidos valores nacionais no mundo, que os moonspell, assim como o seu público, são certamente descartáveis. E apesar de “zabka” ser nome de planeta, a cultura portuguesa não se devia resumir ao gosto pessoal de dois ou três experts em telhado de zinco quente. Mas infelizmente resume.

  1. 1 Arrastão: Dois anos

Leave a Reply