Vale a pena acompanhar esta novela kafkiana de um homem que o banco queria que fosse engenheiro civil. Está no Incontinentes Verbais. Aqui fica um resumo:
Depois de se aperceber que para o banco ele era engenheiro civil, e perante tanta polémica, este cliente fez questão que o banco mudasse tal denominação. Mas para que ele deixasse de ser referido como engenheiro civil o banco exigiu «uma cópia certificada ou original em papel timbrado de uma Declaração da Entidade Patronal, ou cópia certificada do Cartão Profissional, frente e verso, ou recibo de vencimento, desde que conste profissão, entidade patronal, situação contratual e data de admissão, documentação que poderá remeter via correio para a Remessa Livre n.º 25009, 1144- 960 Lisboa, não sendo necessário selo, ou em alternativa poderá apresentar os originais junto do Balcão.»
O homem, a quem pareceu um pouco absurdo que tivesse de provar que não era engenheiro civil, não aceitou as exigências. Por isso, para o banco, ficou com o 12º ano, apesar de ter um mestrado. Não se importou: «O 12º ano fica muito bem, pois também me deu muito trabalho a fazer e, de facto, possuo esse grau». Mas ficou a saber que quem não quer ser engenheiro tem de passar por duras provas. Maiores, ao que parece, do que as que são exigidas a quem o quer ser.
Ficou ainda a saber, pelos dados do banco, que não possui «nenhum título honorífico». Mostrando tanto sentido de humor como paciência, respondeu por carta: «Não posso deixar de confessar que me doeu essa dura chamada à realidade. Mas, de facto, não me considero titular de nenhum título de nobreza (tive um trisavô visconde, mas acho que já não conta), não fui ordenado sacerdote, nunca recebi nenhuma comenda e, à semelhança do nosso Primeiro-ministro, não estou inscrito em nenhuma ordem, tenho de me conformar à minha condição de vulgar plebeu sem título honorífico quando, para mais, me recuso a mostrar-lhes o certificado de habilitações. Portanto, também aqui no título honorífico, estamos de acordo. Sou simplesmente o José.»
Mas o pior estava para vir. Não sendo engenheiro civil do ponto de vista académico, continuou a ser engenheiro civil na profissão. Ou seja, como o próprio lamentou, «acusam-me de ser engenheiro civil sem estar inscrito na ordem (caso contrário teria o título de Eng.) e, horror dos horrores, com as habilitações literárias de um 12º ano».
Insistiu: «É que nem o nosso primeiro-ministro se atreveu a reclamar o título de eng. civil com um simples 12º ano. Ele tem, pelo menos, o título do ISEC e, in dubio pro reo, afirma que concluiu a licenciatura em engenharia civil. Os senhores, ao dizerem que eu sou engenheiro civil sem estar inscrito na Ordem dos Engenheiros (caso contrário, tinha o eng) e com um simples 12ºano de habilitações literárias, colocam-me numa posição muito delicada, incorrendo mesmo num crime de usurpação de título. E eu não tenho o aparelho do maior partido político português a proteger-me as costas quando a coisa der para o torto.»
A não perder a história toda, com a deliciosa troca de correspondência: Eu não sou engenheiro, Eu não sou engenheiro (2); Eu não sou engenheiro (3); Eu não sou engenheiro (4); Eu não sou engenheiro (5); Eu não sou engenheiro (6); Eu não sou engenheiro (7); Eu não sou engenheiro (8); e Eu não sou engenheiro (9).
Por Daniel Oliveira 19 Abr 07 em Sem categoria8 respostas ao post “A novela do homem que não queria ser engenheiro”
- 1 Pingback on 24 Mai 2008 às 1:10



Estou a rir-me desde manhã…
para mim foi fácil: naquele espaço a seguir a “título” escrevo sempre “irrelevante”. Tou sempre à espera que me chegue a casa uma carta a começar por “Exmo Sr Irrelevante JPT…”
O que acontece é que toda a gente diz mal do uso dos títulos mas ninguém prescinde deles. Até os usam, ridículo dos ridículos, pra marcarem mesas nos restaurantes.
Não precisamos dos títulos, mas a verdade é que “dão jeito”. Eu não fazia de ver o “Dr.” antes do nome, mas aconselharam-me a fazê-lo.
Se calhar, tal como antigamente, recusar um título é falta de educação. Que país evoluído!
Para este caso das trapalhadas do 1º de Portugal gostaría que todos gritassemos bem alto : MENTIRAS ? NUNCA MAIS !!!!
Daniel,
A ti quando te tratam por doutor o que fazes?
Corrijo. Mas confesso que às vezes cansa e desisto. Mas tento corrigir sempre
E’ Portugal, ainda e’ o pais dos sr;engenheiros
Doutores,excelentissimos??
Dona isto Dona aquilo…
simplesmente fora de tempo e ridiculo!!!