Sempre que ocorre uma catástrofe, que nunca é natural nos seus efeitos, como aconteceu agora Madeira, surge com redobrada força o discurso da solidariedade nacional: estamos todos no mesmo barco. Este discurso deve ser levado a sério. Se for sério só pode conduzir à revolta, dada a distância abismal que o separa da realidade social de um país fracturado. É que nós não estamos, de facto, todos no mesmo barco: estamos num país muito desigual. A tragédia revela então as classes invisíveis, as que se escondem atrás da média nacional. Jornal de Notícias: “Tempestade que matou 42 pessoas e desalojou 600 na Madeira atingiu mais a gente pobre” e “construção precária nas margens das ribeiras que sulcam o Funchal rural contribuiu substantivamente para engrossar os óbitos provocados pelo temporal do dia 20”.
Sabemos que a única classe que existe para a confortável opinião convencional é uma parda média. Na realidade, estamos num país onde a pobreza infantil é das mais elevadas do mundo desenvolvido (estamos bem acompanhados pelos capitalismos anglo-saxónicos) e onde mais um estudo da OCDE, oportunamente mencionado pelo jornal i, revela que “a mobilidade entre classes” é das menores do mundo desenvolvido (os países do sul da Europa estão bem acompanhados pelos países anglo-saxónicos). Sabemos que a mobilidade social é mais elevada nos países de capitalismo mais igualitário do norte da Europa, onde existe um multiplicador da igualdade que foi enfraquecido, mas não destruído: desigualdades salariais baixas antes de impostos, o que pressupõe negociação colectiva centralizada e fora da empresa entre patrões e sindicatos e um Estado Social universal que redistribui depois de impostos.
A conversa sobre a “rigidez do mercado de trabalho”, que consta do tal estudo da OCDE, é apenas uma das peças do puzzle da fraude económica (hei-de voltar a isto). Note-se desde já que a flexibilidade laboral é, no contexto português, o nome de código liberal para maior facilidade em transferir custos para os trabalhadores sob a forma de horários de trabalho baralhados e mais longos, custos reduzidos no despedimento, salários mais baixos e mais desiguais. Assim soa pior, não soa?
[Publicado, em simultâneo, no Ladrões de Bicicletas]
4 comentários 1 Mar 10 em Sem categoria


A morte é uma grande unificadora; mas as calamidades naturais não são, na maior parte dos casos, “igualitárias” . Abatem-se sobre os que vivem precariamente, sobre os expostos. Não poupam os outros, mas os seus efeitos são mitigados. Há uma analogia a estabelecer com o terramoto no Haiti, que parece ter deixado largamente intacto o subúrbio encantador de Pétionville, e os ricos e estrangeiros que aí habitam.
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O que revolta não é a desigualdade, mas a injustiça. E muitas vezes a igualdade pode ser extremamente injusta.
Haver muitos que dão muito menos à sociedade do que aquilo que recebem desta, tem que ser compensando por muitos que dão muito mais do que aquilo que recebem.
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Pq. a fotografia de Paula Teixeira da Cruz no artigo do i ? Não percebi.
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Caro João Rodrigues,
Faço parte do Movimento Liberal Social e esta é uma temática que me interessa particularmente. Não concordo em nada com a sua visão e respondi a este artigo no seguinte blogue:
http://www.speakerscorner.org.pt/a-trag%C3%A9dia-das-classes-inexistentes
Aguardo por outros artigos para debater profundamente esta temática que tem especial relevância no contexto actual.
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