Tirando a tirada idiota de um eurodeputado até há uns dias anónimo (e que nesse estado de graça deveria ter permanecido), tudo o que li e ouvi nas reacções às declarações de Saramago resumem-se ao simples exercício da liberdade de expressão. E começo a ficar um pouco cansado de ver gente a dar caneladas e depois a atirar-se para o chão num pranto. Quando alguém critica um jornal ou uma televisão, aqui D’el-rei que querem “matar o mensageiro” (como eu odeio esta expressão que transforma os jornalistas em meros veículos neutros e assépticos), como está a acontecer com a irritação da administração Obama com a Fox News. Quando alguém se indigna com uns cartoons, temos todos de defender o que não gostamos para não sermos vistos como censores. Quando alguém faz afirmações polémicas sobre a Bíblia qualquer reacção tem de ser vinte vezes mais cuidadosa do que a provocação inicial, não vá o provocado ser chamado de talibã.

A liberdade de expressão tem, para quem a usa, o seu troco: a liberdade, dentro dos limites da lei e da democracia, de reacção. Não há é paciência para provocadores que se armam em sonsos (Manuel Alegre veio dizer que “não se perdoa a Saramago ser Nobel e não ser religioso” e que o país “não perdoa a grandeza daqueles que se distinguem”, como se estivéssemos todos obrigados a beber as palavras do Nobel num silêncio respeitoso). Quem vai à guerra, dá e leva. O debate é sobre a Bíblia, não é sobre a liberdade de expressão. Saramago disse o que queria dizer. Todos são filhos de Deus (salvo seja) e têm direito à mesma incontinência verbal.

Ontem, na SIC Notícias, um teólogo teve uma intervenção bastante interessante. Estragou a pintura quando disse que “Saramago não gosta de Deus, mas Deus gosta muito Saramago”. Parece inocente e até simpático. Mas não é. Saramago é ateu. Não se trata por isso de não gostar de Deus. Saramago não acredita na existência de Deus. Fingir que essa descrença não existe e ter um discurso condescendente é aquilo que faz muitos ateus como eu mandarem por vezes às malvas o respeito supostamente devido à fé dos outros. Se eles não respeitam a nossa falta de fé e a tomam como uma simples fraqueza, porque não podemos fazer nós o mesmo com as suas convicções religiosas?

Sobre toda esta polémica escrevi para o “Expresso”.


36 respostas ao post “Acção, reacção”  

  1. 1 1  Samuel

    Bom final!
    Aquele beato, de que não fixei o nome, é dos mais irritantes. É desses modernos que agora falam em psicologuês, sempre com a boca cheia “do outro”… mas depois traem-se nestes “pequenos” pormenores de profundo desprezo pelas convicções dos outros.
    Pena foi, que na cabeça do génio que fez o casting para aquele “debate”, não tenha passado a ideia de que seria mais interessante convidar alguém ateu, para ocupar o outro lugar na mesa, ou que pelo menos, partilhasse algumas das ideias de Saramago sobre o assunto em discussão, em vez de outro beato… mas do Bloco de Esquerda. Não entendi a utilidade daquilo.

    Saludos!

    [Responder]

    Daniel Oliveira Reply:

    Samuel, o Pureza é católico. Com base em que é que dizes que ele é “beato”?

  2. 2 2  Branco

    Daniel,

    O blogue é seu, portanto escreve o que entende. No entanto acho que prender-se demasiado com falsas questões como o Saramago ou a infelicidade da Rita Rato dá um ar de ressabianço anti-PC desnecessário. Gostaria de ouvir a sua opinião (sim porque apesar de discordar em muita coisa ela interessa-me) sobre situações bem mais relevantes como, por exemplo, as brilhantes declarações (dignas de um Nobel da economia) de Francisco Van Zeller sobre o Salário Mínimo Nacional…

    [Responder]

    Daniel Oliveira Reply:

    O que é que as declarações de Saramago têm a ver com o PCP? Expressam as opiniões do PCP sobre a Bíblia? Não, pois não? Então não misturemos o que não se pode misturar.

  3. 3 3  Joao

    Parece que cada um tem a sua definicao do que é liberdade de expressao e pela discussao à volta dela nos últimos tempos, até parece que somos todos doutorados em filosofia política.

    Na verdade, não há muito a discutir sobre a liberdade de expressão: cada um diz aquilo que lhe apetece e quem não gostar, diz de volta.

    [Responder]

  4. 4 4  Jose Semblante

    A Bíblia, como outros actos e pensamentos ligados à marcha do conhecimento humano, é o resultado da natural ignorância dos homens e mulheres diante da incompreensão do Universo. No entanto, o pior dessa Bíblia e de todas as práticas que lhe estão ligadas/adjacentes, é que tem sido um instrumento de mistificação, atraso e travão desse conhecimento humano e da sua instante evolução. Daí, ser muito louvável e saudável toda a intervenção de Saramago que tem feito e dito o que muitos e muitos de nós fala, escreve, sente e avalia. Parabéns Saramago! Ganhaste um amigo.

    [Responder]

  5. 5 5  Samuel

    Daniel, houve uma altura qualquer em que a palavra beato passou a ter (também) uma conotação negativa.
    Queres fazer-me o grande favor de acreditar que não foi de todo essa a minha intenção? Logo eu, filho de um pastor protestante, ia insultar alguém por ser crente?! Apenas estranhei um “debate” em que os dois participantes estavam do mesmo lado… a “malhar” no ausente, mesmo entre grandes elogios. :-)

    [Responder]

    Daniel Oliveira Reply:

    Sim, Samuel, também acho que faria sentido convidar um ateu.

  6. 6 6  jorge santos

    A questão fundamental não é a possibilidade de expressão do saramago, ou dos ateus ou dos crentes, seja quem forem. Para todos nós, com exclusão dos fundamentalistas básicos, a bíblia é uma colectânea de histórias reunida por uma comissão indicada por um rei judeu e mais tarde completada por ordem de um emperador romano. Não é a Palavra de Deus mas sim um conjunto de mitos e de outras ficções que traduzem a relação de o homem – de uma determinada zona do mundo – com a ideia de transcendência, e ali estãoas dúvidas e alternativas. É essa peça importante fundamentadora da nossa cultura que é menorizada , o que é permissível mas é tolo. Deus existe ( ou não existe) na nossa consciência desde a reforma. Nietzsche resolveu o resto há 100 anos.

    [Responder]

  7. 7 7  Jorge Nascimento Fernandes

    O Daniel não defendeu a liberdade de publicar as caricaturas. Escreveu na altura no Expresso isto que “indignação que não iria por aí se alguém, na senda das acusações de pedofilia a alguns padres norte-americanos, representasse Cristo como pedófilo.” Ou seja, achava que se devia ter respeito,”respeitinho” naturalmente, pela figura de Maomé. Por outro lado, como não tem a paciência de ouvir os noticiários da RTP, desconhece que Sousa Lara reincidiu e temos essa elegantes declarações de Joshua Ruah, da Comunidade Judaica, dizendo que vozes de burro não chegam aos céus. Além dos textos descabelados das locutoras de serviço.
    Se quer saber o que penso, leia o meu post sobre o assunto http://trix-nitrix.blogspot.com/2009/10/em-defesa-de-saramago.html

    [Responder]

    Daniel Oliveira Reply:

    Jorge NascimentoFernandes, defendi apublicacao com todas as letras. E se leu o texto sabe-o e está a mentir.

  8. 8 8  Fado Alexandrino

    Meu Deus (vem mesmo a propósito) uma crítica a Manuel Alegre vinda de um ideólogo do Bloco de Esquerda?
    Isto sim é que é notícia.

    [Responder]

  9. 9 9  isagt

    Neste caso “Ser ou não ser” é a questão. A liberdade é cada um escolher e poder dizer livremente o porquê da sua escolha.
    O único problema é haver sempre alguém que constantemente queira dar “nas orelhas”, rotular e privar dessa liberdade quem pensa de maneira diferente e ainda por cima, estarem convencidos que são donos, da única verdade que existe.

    [Responder]

  10. 10 10  Guida

    A liberdade de expressão não tem só limites na lei e na democracia, tem-nos também no respeito e na tolerância.

    E, Saramago, para além de mal educado, foi desrespeitoso e intolerante.

    E quando é assim, as suas palavras não são criticas, são pura provocação.

    Mas, como ateia que sou, penso que era mesmo isto que ele queria.

    Falem mal, falem bem, é preciso é que falem de mim.

    [Responder]

  11. 11 11  Luis Dias

    Deste Daniel gosto mais. Parece que é preciso levar assim umas chapadas para acordar do seu irritante estado letárgico do “politicamente correcto”.

    [Responder]

  12. 12 12  nuno vieira matos

    As declarações de Saramago fazem melhor à igreja que ao ateísmo. O meu problema foi com a forma e não com o conteúdo das declarações. A agressividade implícita como um paternalismo cansado apenas entusiasma quem já estava convencido.

    Samuel, em relação ao ‘beatogate’, se reler o seu comentário vai perceber porque ‘beato’ aparenta ser colocado como insulto.

    Branco, eu gostava muito de ouvir a sua opinião sobre a Rita Rato.

    [Responder]

  13. 13 13  Luis Paulo Meleiro

    “Fingir que essa descrença não existe e ter um discurso condescendente é aquilo que faz muitos ateus como eu mandarem por vezes às malvas o respeito supostamente devido à fé dos outros. Se eles não respeitam a nossa falta de fé e a tomam como uma simples fraqueza, porque não podemos fazer nós o mesmo com as suas convicções religiosas?”

    Daniel: mas e’ exactamente disso que se trata e e’ por isso que nao entendi o sentido da sua reaccao inicial a algo perfeitamente legitimo (alem de fundamentalmente verdadeiro) como foi uma opiniao manifestada pelo JS em relacao a um dos “livros sagrados”.

    NAO HA’ livros “sagrados”. E se existissem, acho que seria de esperar que nao assumissem o caracter mesquinho, datado, cruel, revelador nao de forcas divinas mas de fraquezas humanas, que se encontra na Biblia.
    Sim, ha o tal Cantico dos Canticos e etc., mas que diabo: quanta mais Poesia e mais sublime nao foi escrita antes e depois disso?

    Como ja disse em comentario anterior: o deus da Biblia e’ vingativo, mesquinho, “humain, trop humain” e e’ mais que tempo de questionar como e’ que se consegue encarar conscientemente tal figutra como objecto de adoracao.

    Como ateu, e muito atento (e participante) aos movimentos que aqui nos EUA se estao a multiplicar directa ou indirectamente multiplicados pelos New Atheists (Dawkins, PZ Myers, Sam Harris, Hitchens, Dennett), nao posso deixar de saudar mais uma intervencao do JS. Como ja deixei de o ler ha uns anos (desde os asquerosos Cadernos de Lanzarote), nao e’ por filiacao literaria que o “defendo”. Mesmo que muitos das suas obras tenham sido das que mais me marcaram.
    Mas a questao e’ outra: ate’ quando e’ que vamos manter o “respeitinho” pelas CRENCAS dos outros?
    Para glosar um tema muito em voga por aqui: e’ devido o mesmo respeito aos “devotos” do Flying Spaghetti Monster?

    Ja’ nao basta de hipocrisia? A religiao (e a sua necessidade, os seus fundamentos, as suas origens, a sua genese historica, evolucao e eventual fim) nao pode ser discutida, posta em causa?

    O diabo e’ que nao pode.

    [Responder]

  14. 14 14  Luis Paulo Meleiro

    Quria dizer “se estao a multiplicar directa ou indirectamente inspirados”

    [Responder]

  15. 15 15  Malaca

    É um espanto os Purezas e Joanas a opinar sobre José Saramago ora na Sic ora na RTPN.Como tem boa Comunicação Social este Bloco,não admira para quem troca largadas de touros por rodeos.
    Que fino é ser do bloco.

    [Responder]

  16. 16 16  Raoul de Joinville

    Um teólogo a tecer dialéctica erística (a arte retórica especializada em dar aparência de verdade ao que não o é…) é comum…

    Agora um teólogo a dizer pantominices, propondo como base de pensamento uma inversão completa da Lógica, chega a ser caricato:

    «Como não uso muleta sou handicapped. Se usar muleta serei saudável! Fantástico, Mike!…»

    [Responder]

  17. 17 17  CAFC

    E O “VELHINHO” KARL MARX CONTINUA ACTUAL!!!

    Ele abriu (com FRIEDERICH ENGELS, tantas vezes esquecido) um novo capítulo na História.
    Não me interessa saber quem leu o que ambos escreveram (umas vezes em conjunto, outras individualmente).
    Agora, cito só (“Não foi Deus que criou o homem, foi o homem que criou Deus”).
    Todos os que se reclamam do “Marxismo” (atenção que não acrescentei outros “ismos”) podem explicar-me como tentam “colar-se” às
    posições oficiais do “Vaticanismo”?
    Saramago só disse a verdade sobre o que está escrito na Bíblia. A “praxis” de Saramago é muito criticável. Pois, está bem, mas não utilizem isso para esconder, rasurar, censurar a questão fundamental que ele colocou. “Ratas de sacristia e respectivos(as) apêndices, sejam eles(as) até de Partidos ou outros movimentos que se reclamam (declaradamente ou envergonhadamente) do Marxismo (sejam dirigentes, militantes ou simpatizantes) “ESTÁ NA HORA” de terem um mínimo de coerência, sob pena de continuarem a “ouvir” aquilo que tanto vos (me, por enquanto) irrita : SÃO TODOS IGUAIS.
    Se alguém não percebeu o que eu quis “dizer”, agradeço que o exponham, aqui, com toda a frontalidade.

    [Responder]

  18. 18 18  Agnóstico

    há uma diferença entre o que o Saramago fez e o que os seus detractores fizeram.

    Ele caracterizou um livro.
    Eles Insultaram-no.

    [Responder]

  19. 19 19  Agnóstico

    A senhora Guida #14 insultou o Saramago: “mal educado…”

    parece que os criticos do Saramago não conseguem ver a diferença entre um insulto a uma pessoa e uma critica a uma livro.

    …tamanha é a sanha.

    [Responder]

  20. 20 20  Absalão

    Por acaso já o ouvi a defender o regícidio num programa de televisao…

    [Responder]

  21. 21 21  Jorge Nascimento Fernandes

    O Daniel disse que eu menti. Compreendo que se indigne porque, como verifiquei na net, passou 233 vezes a defender “a liberdade de expressão e o direito dos cartoonistas a publicarem os cartoons”. Simplesmente fê-lo de tal modo que houve muita gente que não compreendeu a sua posição. Mas que escreveu aquilo que eu publiquei no comentário também é verdade. A minha opinião, escrita na altura e que serviu para dizer o que disse, está aqui http://www.voy.com/199746/1/2005.html .
    Se se sentiu ofendido com a minha afirmação, as minhas desculpas. Mas isto não invalida que discorde profundamente do que pensa sobre este caso José Saramago.
    Não consegui encontrar na rubrica Expresso, do seu blog, o artigo sobre as caricaturas. Gostaria de o ler outra vez.

    [Responder]

    Daniel Oliveira Reply:

    Jorge, quando o encontrar ponho aqui. Mas posso dizer-lhe que o primeiro parágrafo é a explicar que eles tinham todo o direito a publicar os cartoons, assim como os outros tinham o direito a indignar-se. O mesmo que digo agora.

  22. 22 22  Nuno Gaspar
  23. 23 23  Emanuel

    Mas porquê perder tempo com Saramago??? Sendo do Norte, já tive direito a um grande prémio Nobel: Camilo José Cela. Em tudo o resto, com tantos bons artistas em Portugal (e muitos fora dele), não se percebe a necessidade de perder tempo com um personagem como Saramago. Com a quantidade de livros que se apresentam para vendas neste Natal, era óbvio que o senhor precisava de umas declarações que lhe permitissem alguma exposição mediática. Já agora, sendo o senhor ateu (o que até respeito) que tal dar instruções à sua editora para lançar os seus livros noutra época do ano… Tipo Janeiro, Fevereiro… assim evitava ser posto ns estantes a disputar espaço com outros autores que aproveitam a quadra religiosa/época de vendas capitalista para vender o seu produto. Será que algum jornalista se lembraria de lhe perguntar isso??

    [Responder]

  24. 24 24  Antonio Cunha

    E hoje à noite como me vou rir. Saramago de provocador vai passar a coitadinho que afinal não disse o que que disse, ou pelo menos não era isso que queria dizer.

    Vai ser um fartote.

    [Responder]

  25. 25 25  Luis Paulo Meleiro

    E’, o Nuno Gaspar (#27) tem razao. Em vez de se ler livros, asistir a debates, pensar, participar na discussao, pesquisar, tomar contacto com as diversas correntes de pensamento e areas de reflexao, pensar (ja’ tinha dito?), ver palestras, documentarios, entrevistas, ouvir programas de radio ou podcasts das inumeras organizacoes viradas para o secularismo, humanismo, livre-pensamento… em vez de tudo isso, que da’ uma trabalheira desgracada, basta ir aos dois links que ele fez o favor de disponibilizar e ler meia duzia de frases autoradas por lidimos representantes “do outro lado”. Pessoas totalmente objectivas, imparciais, sem qualquer especie de agenda. Eles, eles e’ que sabem. Nao, nao usam argumentacao distorcida, falaciosa e com um pre’-requisito de que o unico contacto que os seus leitores tem com o tal “New Atheism” se baseia no que eles proprios lhes estao a dizer.

    Thanks, Nuno!
    Estou esclarecidissimo.

    [Responder]

  26. 26 26  mf

    pois é , é tal e qual : o diabo não gosta de deus , mas mesmo assim deus deu-lhe emprego como gerente do inferno. deve ter sido uma das primeiras políticas de integração dos discriminados , uma espécie de rsi.

    [Responder]

  27. 27 27  CAFC

    Meu caro mf:
    Não nos podemos esquecer que “o diabo também é filho de deus” e, no fundo (dos infernos), apanha com as culpas todas do que de horrível acontece neste “vale de lágrimas”.

    [Responder]

  28. 28 28  José Bastos

    #29 Antonio Cunha

    “Vai ser um fartote.”

    Não acredito que tenha sido grande a risota.
    Diga lá se não acha que correu mal para o lado dos cruzados.

    [Responder]

  29. 29 29  CAFC

    ATENÇÃO!!!
    Vem aí a “Fúria Divina”!!!
    Sempre quero “ver”…

    [Responder]

  30. 30 30  Paulo

    Daniel;
    A sua crónica ‘Evangelho De Um Primário’ fez-me pensar. Logo a abrir, senti-me de certa fora incomodado com o título, que resvala para o insulto. Do que tenho lido por aí concluo que, em diferentes doses, Saramago convoca uma agressividade que, se não estranho em VPV, me pasma em si (por exemplo). Chamar “primário” a alguém é complicado, da mesma ordem do que Saramago diz da bíblia (na minha opinião, bem pior até). Se o considera mesmo primário, que adjectivos reserva para os apoucados de carácter e para as moles lodosas intelectuais?

    Quando escreve “O que é extraordinário é que seja eu, um colunista da espuma dos dias, a dizê-lo a propósito de um escritor, que tem outro tempo para respirar, que pode ir muito além do espectáculo da polémica fácil” parece ignorar que Saramago tem 87 anos e a morte à espera (temos todos, mas alguns já o sabem). Sobre as urgências de uns e do ritmo/respiração de outros não deveria assumir-se tão apriorísticamente. Esta questão é, parece-me, urgente para Saramago. Sempre foi, suponho que mais agora.

    As religiões são as únicas entidades fabricadas pelo homem que têm um ciclo de vida aparentemente infinito, simbolizado no carácter eterno das suas deidades, implantadas pela resistência, pela subversão, pela violência ou pela contemplação. Para um ateu, prisioneiro do século (não há volta a dar-lhe), a questão é urgente. É o preço a pagar pela hiperconsciência do desamparo. É uma espécie de revolta invejosa, umas vezes mais outras menos destrutiva, face às massas que assumiram o pacto de trocar algum desassossego pelo poder que o governo divino deseja (e vai) continuar a manter sobre nós todos.

    A Religião é coisa primária. As suas obras podem não o ser, mas os princípios filosóficos que as sustentam são-no, e isso não é matéria menor, é a música sem a qual ninguém dança. E é essa música, a palavra do deus pelos homens, que é transmitida em todas as horas de todos os dias ao longo de milhares de anos. Leituras literais. A religião é o que se faz na capela do Vimioso e na de Monsanto. Só que parece que o adjectivo “primário” apenas fica guardado para os saramagos e para os seus mitos individuais. Quando a coisa é colectiva, parece logo intocável.

    [Responder]

  1. 1 Caim e Abel « Solstício

Leave a Reply