sagrado e sabido, sou moço de andar ao ralenti, cada um é para o que nasce e daí os meus problemas com os amanhãs que cantam sobretudo porque estou sempre em dívida com o ontem e com o dia anterior, entre outros e por aí fora. Como tal já lá vai um ror de meses desde que saiu o disco dos Beach House e eu não tinha dado por ele, e nada melhor do que deixar chegar a primavera, o sol, os freaks, os cães, os guizos, os malabares, os diablos, as cervejas à litrada, as enchentes no miradouro do adamastor, pulga, mosca e festa com aromas marroquinos para começar a desfrutar em contra-ciclo de uma dúzia de canções etéreas e favoráveis à neblina e ao cortar de pulsos, que lindo é ver a hemoglobina salpicada no ipod e tal.
Acresce que o disco está embebido em orgão mágico, instrumento da minha preferência, tão intenso como nos discos do Leonel Nunes, maduro que inclui em todos os cachets um garrafão de vinho, devorando-o em palco e ao vivo e a cores, dizia, o órgão mágico, um tudo-nada mais etéreo do que no opus “Cantar, Pular e Dançar” do dito Leonel, ainda assim capaz de dar corpo a canções de fino recorte, o amor como tema recorrente, que é como quem diz a condição humana, expressão que julgo ser obrigatório utilizar em qualquer referência a disco/filme/livro, os Beach House falam em passado, amores perdidos, o Leonel põe toda a epistemologia nos títulos, Porque não tem talo o nabo, entre outros clássicos, são gostos, aqui deixo o single Gila dos meninos de Baltimore, diz que não acompanha tão bem uma sandes de courato, enfim, fica ao vosso critério.


2 respostas ao post “arrastão goes musical, tomo 1”  

  1. 1 1  Von

    Muito bom. Ouça-se como complemento Au4 e Mazzy Star, à vez, uma faixa de cada.

    E que dizer de Leonel Nunes? À nossa rapaz.

    [Responder]

  2. 2 2  alberto gomes

    Ouvi, e não faz bem o meu género.
    Antes o Leonel Nunes. Já agora, aqui fica em jeito de homenagem.

    Como eu vivo na cidade
    Compro a fruta já madura
    Gostaria de perceber
    Um pouco de agricultura.

    Quando vou à praça e penso
    Na origem da hortaliça
    Tomates, pepinos e grelo,
    Só de olhar metem cobiça.

    E porque a couve tem talo
    E o bacalhau tem rabo
    Se o feijão verde tem fio
    Porque não tem talo o nabo?

    Se a banana tem cacho
    Toda a uva tem que tê-lo
    Já pensei muitas vezes
    Porque não tem talo o grelo?

    O nabo não tem talo
    Que é tamanho reduzido
    Mas lá no fundo da terra
    O repolho tem talo comprido.

    Como o bacalhau tem rabo,
    E acompanha esta verdura,
    Explique cá pra mim,
    Quem souber de agricultura.

    Se um dia o pepino tem fio,
    Então já não tem talo o grelo,
    Anda o mundo às avessas,
    Já não se pode comê-lo.

    É melhor pra toda a gente,
    Que as coisas fiquem assim,
    Quem souber de agricultura,
    Poderá explicar pra mim.

    [Responder]

Leave a Reply