Num país com poucos anos de democracia o valor da autoridade está sempre antes da procura de consensos. A popularidade que sobra a Sócrates, e que as sondagens ainda não desmentem, resulta disso mesmo. Ele “põe o pessoal na ordem”. Não tem a ver com qualquer sentido de justiça. Ninguém sente a autoridade do Estado quando falta ética ou mesmo lei aos poderes fácticos deste país. Ela está direccionada para outros actores.

E Sócrates mostra a sua autoridade alimentando o ressentimento que está sempre presente em sociedades desiguais e injustas. É uma autoridade destrutiva. Primeiro foi com os funcionários públicos, agora é com os professores, depois será, provavelmente, com os profissionais de saúde. Desde que chegou a São Bento a sua estratégia é sempre a mesma: atacar os trabalhadores do Estado, fazendo passar a ideia de que são eles, e não os governos, os responsáveis pelas debilidades dos serviços públicos. Grande parte da população, maltratada pelos poderes públicos, compra facilmente este discurso. Ele corresponde à estratégia de qualquer populista.

A cultura autoritária deste país, resultado de 48 anos de ditadura, é avessa à negociação. É assim na relação do poder central com a sociedade, é assim no poder local com as comunidades, é assim nos serviços públicos com os cidadãos, é assim dentro das empresas. A postura geral é a da desconfiança em relação aos cidadãos. O poder é centralizado, autista e a procura do consenso através de processos negociais, com cedências e boa-fé, é vista como sinal de fraqueza e, mais extraordinário, como sinal de conservadorismo e imobilismo. Num país onde os verdadeiros poderes nunca são postos em causa, o jeitinho ao amigo é mais tolerado do que a negociação entre partes. E, no entanto, a negociação permanente deveria ser um elemento constitutivo do poder democrático.

Pintar os professores do ensino público como privilegiados ultrapassa todos os limites da razoabilidade. Num pais que mudou radicalmente nos últimos trinta anos é, pelo contrário, justo dizer que os professores foram uma das classes que mais sentiu, no seu trabalho, a mudança. Com a massificação da Escola Pública, com o novo papel tardiamente conquistado pelas mulheres na sociedade, com um modelo de família que mudou radicalmente e muito depressa, são exigidas ao professor novas funções: ele é assistente social, psicólogo, pedagogo, animador cultural, mediador… E tudo isto teve de ser feito em pouco tempo, com um reforço acelerado do contingente de docentes, muitos deles sem vontade de cumprir estas funções.

Se olharmos para os resultados, comparando o que era o ensino em Portugal há 35 anos e o que é hoje, concluímos que o resultado não foi, apesar de todas as falhas, mau. Temos um país muito mais escolarizado e alfabetizado, os nossos profissionais são melhores do que eram antes e, ao contrario do que é vulgar garantir-se, os resultados da nossa Academia no contexto internacional estão a anos luz do passado.

A crise da Escola Pública, que resulta deste processo de democratização do ensino, não é portuguesa. O que torna a coisa mais difícil em Portugal é ela ter surgido pouco tempo depois deste processo de democratização ter acontecido. E a parte mais difícil ainda só está a começar: a generalização das escolas multiétnicas e multiculturais, que exigem novos esforços dos professores. Vale a pena, para discutir este assunto, ver um excelente filme em exibição: “A Turma”. Ser professor é hoje uma das mais difíceis profissões que se pode escolher.

Se os professores fossem uns privilegiados seguramente não faltaria quem, entre os melhores, quisesse cumprir essa função. E a verdade é que, tirando os que sentem essa vocação (e que fazem tantas vezes a diferença em muitas escolas), são poucos os que escolhem ser professores se tiverem outra oportunidade. O estatuto social do professor está degradado e o ambiente das escolas é castrador e pesado. Por muitas razão - e algumas resultam da necessária massificação da escola pública -, mas também por um discurso irresponsável do poder político e do conjunto da sociedade sobre a classe docente. E nesse discurso joga um papel importante a desorientação de muitos pais perante a adolescência dos seus filhos, tão diferente da sua. Pais que esperam que a Escola faça o que eles próprios não conseguem.

Valorizar o estatuto do professor é uma urgência para que se possa reformar o papel da Escola Pública e para impedir a sua degradação. Não se trata de um pormenor. A Escola Pública é uma das principais garantias de justiça social. A avaliação dos professores terá um papel? Sim, desde que seja feita com os professores e que resulte de um consenso. Não é possível avaliar sem que a maioria dos avaliados e dos avaliadores acredite que o sistema é justo. Mas, e talvez isto seja difícil de dizer, a avaliação terá sempre um papel secundário. Na realidade, mesmo que a avaliação fosse bem feita, nada de fundamental mudaria, com ela, nas escolas. É a autonomia das escolas, o envolvimento das comunidades na sua vida e a valorização da criatividade dos professores (que este sistema burocratizado de avaliação e o peso insuportável do Ministério da Educação contrariam) que podem ajudar a criar um ambiente favorável à mudança. A escola, como a sociedade portuguesa, precisa de mais e não de menos democracia. Porque, ao contrario do que parece ser a crença nacional, é a democracia e não o autoritarismo que liberta a criatividade e que permite o progresso das sociedades.

Mas nada disto interessa a José Sócrates. O primeiro-ministro está filiado na velha escola latina, de que Cavaco foi outro excelente representante, que usa a autoridade não como um exemplo mas como uma forma de impor à força o que não consegue conquistar pela razão. Que esmaga a criatividade e alimenta a veneração do chefe.

Olhando para os últimos três anos, e depois de tantas promessas de reforma, de tantos conflitos com sindicatos e classes profissionais, podemos dizer que estamos melhor? Não. Porque as demonstrações de força não passaram de encenações inúteis que apostaram no ressentimento para segurar o poder. Alguém acredita que depois de tudo o que aconteceu entre a ministra Lurdes Rodrigues e os professores a Escola Pública ficará melhor? E não era esse o objectivo? Não, não era. O objectivo era ter uma parte significativa da população contra os professores e, por isso, do lado de Sócrates. Só há um pequeno problema: à medida das que se somam os bodes expiatórios do regime sobra menos gente do outro lado.


49 respostas ao post “Autoritarismo, ressentimento e populismo”  

  1. 1 1  Shri

    A autonomia das escolas só o será se simultâneamente se instituir o cheque-ensino. Se assim não for, não há autonomia nehuma.

  2. 2 2  Daniel Oliveira

    Ou seja, em todos os países onde as escolas públicas são autónomas não o são porque são públicas.. É isso, Shri?

  3. 3 3  luis m. jorge

    Até que enfim, alguém disse isto. Deve ter dado um trabalhão.

  4. 4 4  Shri

    “em todos os países onde as escolas públicas são autónomas não o são porque são públicas”

    O cheque-ensino nada tem a ver com escola pública versus privada. Isso é uma questão completamente distinta.

    A questão é que autonomia só é verdadeiramente se isso também significar responsabilidade. E sem cheque-ensino não se vê como é que se responsabiliza as escolas.

  5. 5 5  Daniel Oliveira

    Se os pais participarem na escolha de quem gere a escola (como acontece em tantos lugares) não estão eles na melhor posição para responsabilizar quem gere mal e escolher quem o faça melhor? Ou a responsabilidade só existe onde existir um cheque?

  6. 6 6  Rikas

    “Valorizar o estatuto do professor é uma urgência para que se possa reformar o papel da Escola Pública e para impedir a sua degradação. Não se trata de um pormenor. ”

    Por onde passa essa valorização:
    Aumentar salários?
    Regressar ao antigo regime de faltas?
    Voltar aos horários de 12 ou 14 horas lectivas?
    Manter o concurso nacional e anual de professores?

    Especifique.

    Eu até concordo com o aumento salarial nalguns grupos de docência, 1.º ciclo por exemplo, de forma a atrair los melhores para este nível, mas só se a admissão for mais rigorosa, através de exame de acesso.

  7. 7 7  Rikas

    “Se os pais participarem na escolha de quem gere a escola (como acontece em tantos lugares) não estão eles na melhor posição para responsabilizar quem gere mal e escolher quem o faça melhor?

    Então concorda com o novo regime de gestão?
    O tal que vai promover tiranetes?

    Cá para mim vai ficar tudo como está, já que os professores terão quase 50% dos lugares na Assembleia, como até aqui tudo farão para que os pais não participem.

  8. 8 8  Daniel Oliveira

    O novo regime de gestão em que, na prática, o governo escolhe os seus boys para gerir a escola? É o contrário do que eu quero.

  9. 9 9  Daniel Oliveira

    Rikas, dando condições para os professores darem aulas, dando-lhes mais autonomia no trabalho e menos papelada e tratando-os com respeito.

  10. 10 10  Rikas

    O Governo não escolhe ninguém.

    As autarquias sim, indicam 3 em 21 elementos da Assembleia.

  11. 11 11  Rikas

    Daniel, as condições nunca foram tão boas como agora, melhores equipamentos, centros escolares, etc.
    A papelada/burocracia deriva mais da cultura de gestão democrática do das leis, os Conselhos Executivos têm uma enorme dificuldade em decidir, não têm coragem, então toca a convocar uma reunião para ouvir os professores. As pessoas fartam-se!

    Quanto ao respeito tem razão, mas quando ao fim de 2 meses a governar, convocam uma greve aos exames, é difícil que ao governo não salte a tampa.

    Quanto ao respeito tem razão. Mas

  12. 12 12  JP

    Muito, muito bom.
    Parabéns.

    Já agora Daniel, só uma achega; Durante as semanas que passaram ouvimos dizer que a alta mobilização dos professores não se devia aos sindicato e

  13. 13 13  ana

    “… Num pais que mudou radicalmente nos últimos trinta anos é, pelo contrário, justo dizer que os professores foram uma das classes que mais sentiu, no seu trabalho, a mudança. Com a massificação da Escola Pública, com o novo papel tardiamente conquistado pelas mulheres na sociedade, com um modelo de família que mudou radicalmente e muito depressa, são exigidas ao professor novas funções: ele é assistente social, psicólogo, pedagogo, animador cultural, mediador…”

    Sinto-o todos os dias na pele!!!

    Obrigado, Daniel

    ana

  14. 14 14  JP

    Muito, muito bom.
    Parabéns.

    Já agora Daniel, só uma achega;

    Durante as semanas que passaram ouvimos dizer que a alta mobilização dos professores não se devia aos sindicatos (sempre apelidados como velhos e desactualizados) e que esta questão os ultrapassava em muito.

    Não pondo de parte a hipótese de que existam, de facto, muitas pessoas “fora” dos sindicato, como explicar a gigantesca diferença de manifestantes num e noutro fim de semana?

    E como relacionar isso com o facto de esta ser uma classe profissional informada e que pensa pela própria cabeça?

    Cumps

  15. 15 15  cdavid

    E mais: repare-se na estratégia manifesta em todos os textos sobre a questão da avaliação, por exemplo, na edição do ‘Expresso’ deste fim-de-semana (à excepção honrosa de Daniel Oliveira) - desde a dócil entrevista, à inenarrável mas miseravelmente previsível crónica de Miguel Sousa Tavares, e a acabar no texto intelectualmente muito desonesto de Fernando Madrinha - segundo a qual aos professores não interessa nenhuma avaliação, venha de onde vier, os sindicatos manipulam-nos a todos (como é possível não perceber que os sindicatos, com o extraordinário Memorando, foram/são parte do Problema e que nesta altura são arrastados à trela pelos acontecimentos?!) e, acima de todas, a ideia de que não interessa se os moldes e os meios são bons, justos e eficazes, o que interessa é o fim: agora, mesmo estando já o mal feito, o que importa é que sejam avaliados à força, custe o que custe, para não parecer que o governo perdeu a face ou que a “rua” (outro contrasenso magnífico: se muitos participam numa manifestação, além de serem todos obrigatoriamente comunistas, estão a ‘perturbar’ e não são produtivos para o processo; se não participam então é porque está tudo bem e está tudo satisfeito) e uma corporação de interesses ganhou ao estado… Tudo menos isso! Mesmo que para isso uma classe profissional arque nas costas um conjunto de medidas pensadas, mal pensadas, por cabeças ignorantes e pseudo-pedagógicas

    De resto, é uma estranha percepção democrática esta, que também vimos por aí espalhada em muitas opiniões: a de que um governo, se democraticamente eleito, tem o direito de legislar e governar como bem entender – e os agentes dessas leis e orientações mais não têm que cumprir e calar… Independentemente do que façam ou queiram fazer, por muito arbitrário, contraproducente ou absurdo que o seja – ganharam; podem. Mais nada. Nem é preciso lembrar o argumento estafado de que Hitler também chegou ao poder com eleições para pensar que há qualquer coisa de profundamente intolerante e primário nestes raciocínios…

    Aliás, e a propósito: alguém acredita que se estivesse tudo muito calminho a cumprir todas as orientações da avaliação a torto e a direito, mal ou bem, acriticamente, no final do ano esta equipa governativa iria rever alguma coisa?? Ou diria que afinal funcionou, foi possível, fizeram – portanto, se é possível, fica como está!?! Não foi isso que aconteceu já o ano passado, depois de muitas chamadas de atenção sobre aspectos gritantes do modelo, que aconteceu? Mudaram uma vírgula ou ficou tudo na mesma uma vez passada a tempestade, a ver se pega? E não andam agora a ostentar que o ano passado a coisa funcionou, sem sequer terem a honestidade de esclarecer que a simplificação dessa avaliação foi ao ponto de a grande maioria dos professores avaliados o foram com base apenas nas faltas que deram?!

  16. 16 16  Shri

    Os pais participarem na escolha de quem gere a escola é um dos pilares da actual reforma. No fundo, o Daniel dá razão à ministra.

    Só que “pais” há para todos os gostos. Pensar que eles apenas representam uma vontade única é uma grande ingenuidade. Na verdade, terá que se recorrer sempre à deficiente solução da vontade da maioria, quando a democracia directa está a uma pequena distância. Quer se queira quer não, uma vontade não se representa : ou é a minha vontade ou é a vontade de outros.

  17. 17 17  Daniel Oliveira

    JP, por acaso no caso justifico, antes de mais, com o facto de uma ter sido antes da outra (apesar de ter sido marcada depois). Mas não me parece que comparar as manifestações ajude a contestação.

  18. 18 18  Joao Cardoso

    Excelente texto.
    Sobre a nova lei de gestão, enquadrando-a na municipalização do ensino, ninguém tem reparado mas aterroriza muitos professores, bem mais do que qualquer avaliação.
    Contando com os funcionários não docentes que já lá estão, são mais de 160 000 empregos, cujo acesso esteve até agora garantido em concurso público nacional com critérios equitativos, que passariam a contabilizar nos boys and girls.
    Já há amostras de como se comporta o verdadeiro autarca nestes casos:

    http://www.correiodabeiraserra.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1305:presidente-e-vereadores-abandonam-reuniao&catid=37&Itemid=200795

    O Presidente da Câmara de Oliveira do Hospital explica como é que se faz um Conselho Geral Transitório….

  19. 19 19  cdavid

    Dizer também a minha total concordância com o argumento que Daniel Oliveira refere, e poucas vezes vejo evocado por aí, segundo o qual se torna incompreensível que sendo a profissão de professor considerada tão ‘beneficiada’ em regalias e bonomias, não se veja tanta gente a querer sê-lo, mas sim, pelo contrário, a fugir dela a sete pés… Afinal, se é – ou era – uma profissão assim tão apetecível, tão compensadora, tão priviligiada, tão bem remunerada, por que será que não atrai mais gente competente, capaz e valorosa? Que é feito dos nossos profissionais mais habilitados, qualificados, empenhados e sérios que tão depressa e desde sempre fugiriam do ensino secundário? A falta de vocação não explicará tudo – nem mais de metade dos professores, aqui ou em qualquer parte do mundo, o é por vocação, nem mais de metade das pessoas, aqui ou em qualquer parte do mundo, tem a profissão que tem por gosto ou vocação – a maioria das pessoas faz o que faz não por gosto mas fundamentalmente por tudo aquilo que o que faz lhes traz em qualidade de vida…. Assim sendo, como se explica que, sendo a profissão tão recompensada e compensadora, isto aconteça? …
    E depois, sabendo que os professores são naturalmente parte responsável pelos resultados educativos, e que mutos não estão nem preparados nem aptos nem capazes para as tarefas mais rudimentares quanto mais para as de ensinar/preparar/instuir o que quer que seja a quem quer que seja, pergunto: é com isto, e apenas com tudo isto que têm feito (de que a avaliação é uma pequena embora substancial parte) que pensam atrair mais gente séria, inteligente e competente para as escolas primárias e secundáriascausa em Portugal?

  20. 20 20  António S. Tomé

    Autonomia? Talvez sim, mas, caro Daniel Oliveira, quem paga, normalmente, manda. Decide. Escolhe.
    Por vezes, dá a impressão que se quer qualquer coisa tipo democracia popular. Ou um regime autogestionário. Será?
    Parece que muita gente continua parada para no Maio de 68, agarrada a utopias e delírios ideológicos. Acordem!
    O governo, qualquer governo, tem o direito e o dever de definir a política educativa, em todas as suas dimensões. Foi eleito para isso. Tem total legitimidade democrática.
    Caso contrário, eleições para quê?
    Caso contrário, os governos passam a agir em função 1) da grandeza de uma “manif”, 2) da repercussão que elas têm na comunicação social, 3) enfim, dos ecos mais ou menos audíveis que vêm da rua. E por aí fora.
    Por favor, mais bom senso e menos populismo radical.
    Pela minha parte, dispenso os que se comportam como vanguardas esclarecidas que nos vão libertar da tirania.

  21. 21 21  Patricia

    Daniel os professores podem ter razão em certos aspectos contudo dizer que foi uma das classes que mais sentiu no seu trabalho a mudança talvez seja um pouco exagerado.Então os trabalhadores com o 12º ano que trabalham nas grandes superficies que estão sempre abertas das 8 da manhã até as 23 horas,que ganham o ordenado minimo,que estão permanentemente a ser avaliados,estão na maior?Todas as pessoas tem o direito de lutar para defender os seus direitos,mas se reparar os professores são os trabalhadores que fazem manifestações só da sua classe profissional e nunca os ouvi nem vi lutarem pelos direitos dos outros trabalhadores.Repare que na semana anterior á manifestação foi aprovado o Código do Trabalho,alguem se referiu a isso na manifestação ou nos discursos dos sindicalistas?Que eu tenha dado por isso ninguem.

  22. 22 22  Elisa

    Sou professora do 1º ciclo de uma turma de 3º com 24 alunos. Nesta turma existem alunos que aprendem com facilidade e outros que apresentam mais dificuldade nas suas aprendizagens. Comparam-nos muitas vezes aos funcionários públicos. É verdade que sou funcionária pública, mas quando estou a trabalhar com os meus alunos, não estou a “atender” um de cada vez, tenho que dar respostas ao conjunto dos meus alunos. Hoje em dia fala-se muitos dos planos de recuperação. A Ministra fala dos planos de recuperação, o Valter Lemos na última edição da Visão, referiu “que nós criámos os planos de recuperação para ajudar os alunos que têm dificuldade”… mas afinal o que são os planos de recuperação? São uma folha de papel onde registamos as dificuldades do aluno, referimos as estratégias a utilizar para as superar e depois quando chegamos aos recursos, dizemos que são o computador, o trabalho a pares, ou seja, os alunos com mais capacidade ajudam os que têm mais dificuldade e o professor da turma. Isto é um plano de recuperação?
    O apoio ao estudo é outra modalidade muito falada pelo ministério para vencer as dificuldades dos alunos. Eu tenho 24 alunos e na aula de apoio ao estudo continuo com os mesmos 24 alunos. Está tudo dito!
    Tudo o que escrevi não pretende ser um comentário ao texto do Daniel, mas sim apontamentos soltos para reflexão…

  23. 23 23  Paulo Martins

    Mas os professores são os primeiros que durante os últimos anos não se deram ao respeito. Ou a sociedade civil (como já foi afirmado) não lhes tem respeito sem que eles tenham uma tido uma contribuição para tal? Ou querem ver que a culpa é exclusiva dos sucessivos governos?

    Falta de organização, falta de capacidade de decisão, teorias da educação à la française, encosto fácil aos sindicatos. Não é por acaso que deve ser a actividade mais “dependente” dos sindicatos.

  24. 24 24  fado alexandrino

    E não era esse o objectivo? Não, não era.

    Pois claro que não era.
    Acontece que também não é aquele que o senhor indica.

    Cavalgando o medo dos professores de abandonarem uma suave auto-avaliação os sindicatos e não se pode ter medo de o dizer afectos ao PCP, aproveitaram para lançar uma brutal campanha contra o Governo na esperança de ao fragilizar a ministra da educação ajudarem a derrubar o mesmo.

    Já foi visto várias vezes encenado pelos mesmos actores e o resultado é sempre o mesmo.

  25. 25 25  Nuno Góis

    Muito bem!
    Sem mais…

  26. 26 26  alberto gomes

    Daniel, concordo consigo no geral do que diz. No entanto como pai de duas alunas a estudar na escola pública, uma no básico e outra no secundário, tenho tomado conhecimento ou assistido a alguns casos nas escolas por onde as minhas filhas têm passado, que me deixam preocupado e descontente com o sistema actual.
    Os professores, como qualquer grupo profissional, tem gente excelente, gente dedicada, óptimos profissionais, terá outros menos competentes menos empenhados e ainda assim perfeitamente capazes de desempenhar a sua função, e terá alguns com poucas ou nenhumas competências e que o único interesse é receber o salário no fim do mês. Não me custa reconhecer que os últimos são uma pequena minoria dentro da classe, contudo lembra-me aquele exemplo de que uma única gota de óleo polui milhares de litros de água. E penso que UM sistema de avaliação poderia ajudar a reconhecer o mérito a quem efectivamente o tem.
    Não conheço ESTE sistema de avaliação que o ministério quer implementar, mas depois de tudo o que tenho ouvido estou com tendência a pensar que deve ser mais uma trapalhada que nada vai resolver, e fazer os professores perder tempo inutilmente.
    Acho porém que o sistema de avaliação, este ou outro, nem sequer é o principal problema com que os professores se defrontam, e até há pouco tempo a grande questão dos professores todos os anos pela altura do início das aulas eram as colocações, já agora problema que este governo pelos menos minimizou. Penso que a falta de autoridade dentro das escolas é assunto bem mais grave que as avaliações, hoje qualquer aluno dentro ou fora da sala de aulas, pode insultar e desobedecer a um professor sem que sofra alguma sanção capaz de o desmotivar desse comportamento. Contudo esta perca de autoridade, que já se vem a registar á algum tempo, nunca gerou manifestações de mais de uma centena de milhar.
    Pode-se sempre dizer que esta avaliação foi a gota que fez transbordar o copo. É possível!
    Mas também se pode pensar que sendo um sistema que vai impedir as progressões automáticas com consequências a nível salarial, este governo acabou por tocar onde realmente dói.

  27. 27 27  cdavid

    Outro aspecto que subscrevo no texto de Daniel Oliveira: a ‘bondade’ e necessidade de uma avaliação não certifica nem autoriza a qualquer preço, por pior que seja, todo e qualquer modelo de avaliação. Perante o péssimo é preferível mau; caso contrário, deixar até poder fazer melhor.

    Ainda ontem o telejornal do canal 1 fez uma excelente reportagem em que se comparava este com os modelos existentes na avaliação de professores noutros países europeus… Em nenhum encontraram um processo tão hermético, complicado e desgastante como o que para cá querem. Mais: em muitos países – como na Finlândia, que choque! – nem sequer existe avaliação dos professores. Noutros apenas existe quando há queixas ou os professores desejam saltar certos trâmites na carreira, e naqueles em que há, para todos, o processo é – sempre! – muito mais autónomo e simplificado… Há modelos que englobam diferentes patamares de avaliação (entre pares, externa, autónoma, centralizada, pela direcção, auto-avaliação, etc, etc…); nenhum engloba TODOS ao mesmo tempo, como cá, nem reuniões proliferadas ou o preenchimento de grelhas intermináveis e subjectivas, quando não inoperacionais… Estaremos na vanguarda progressiva da Europa em conceitos, modelos e propósitos avaliativos da classe docente? Afinal, além do futebol, sempre somos melhores e mais inovadores que os do Norte? ‘Whisful thinking’, pois…

    Lembra-me isto outro episódio dignificante dos ‘media’: quando surgiu a discussão das Aulas de substituição, o DN fez uma manchete a anunciar que em todos os países da Europa há aulas de substituição – um espanto: em todos, sim senhor… mas depois acrescentava em sub-texto, palavrinhas muito mais pequeninas, que também em quase todos é serviço voluntário e pago como horas extraordinárias… a sério! Bom, mas ninguém na altura se lembrou de dizer que praticamente todos os professores – pelo menos daqueles que conheço – nada tinham contra o facto de existirem aulas/actividades de substituição aos colegas que faltam; mas sim ao facto de não ser esse tempo considerado componente lectiva e, portanto, acabar por constituir mais uma sobrecarga de tempo, tarefas, actividade e desgaste sem nenhuma contrapartida para o imenso tempo de que já necessitam para todas as actividades pedagógicas e lectivas.

    Também por isso, voltando ao início, gostaria de acrescentar: nada tenho contra a avaliação; mas tenho tudo, ou quase tudo, contra este modelo. E, a ser assim, a criar desgaste insuportável de recursos e energia, e, sobretudo, a criar mecanismos arbitrários e injustos, donde muitas vezes sairiam professores técnicos mas medíocres claramente favorecidos, é preferível não, para citar Bartlby. E por isso é de longe preferível nenhuma avaliação a uma avaliação invertebrada, discriminatória, sinuosa, foclórica e burocrática.
    Esta não serve para nada a não ser confluir na ideia, sempre repetida, que em Portugal a culpa de todos os problemas da Educação ou é dos professores ou não é.

  28. 28 28  Fábio Martins

    Partilho a opinião do Santana Castilho: A ministra não foi democraticamente eleita, foi sim escolhida; Portanto, tendo a evidência de que a classe que comanda não a quer a exercer funções, deveria demitir-se.

    O anterior Ministro da Saúde demitiu-se por muito menos.

  29. 29 29  Daniel Oliveira

    “Autonomia? Talvez sim, mas, caro Daniel Oliveira, quem paga, normalmente, manda. Decide. Escolhe.
    Por vezes, dá a impressão que se quer qualquer coisa tipo democracia popular. Ou um regime autogestionário. Será?
    Parece que muita gente continua parada para no Maio de 68, agarrada a utopias e delírios ideológicos. Acordem!”

    Há gente que de facto não conhece outra coisa se não este cantinho e os seus preconceitos ideológicos. A gestão autónoma, pelas comunidades, do que é seu, já é uma utopia do Maio de 68. Bolas, ganhe Mundo!

  30. 30 30  marcia unger

    Boa tarde ! Ao ler as informações aqui contidas, pensei que estavam falando da educação brasileira. Porém, percebi que os problemas aqui citados estão além mar. Estes são parecedíssimos com os daqui, o que me angústia em muito, pois parece-me que a educação está num constante processo de desintegração, indo à pique. Em seu comando está a máquina governamental, subjulgando e denegrindo a imagem do profissional da educação, que em particular, aqui no Brasil é humilhada não só pelo Estado, mas também, pela violência de seus alunos e o descaso das famílias, que hoje, em grande parte não estão constituídas de carinho, diálogo, limites e responsabilidades que devem ser ensinadas e dadas desde cedo.

  31. 31 31  laranjalima

    Paulo Martins
    “Mas os professores são os primeiros que durante os últimos anos não se deram ao respeito. Ou a sociedade civil (como já foi afirmado) não lhes tem respeito sem que eles tenham uma tido uma contribuição para tal? Ou querem ver que a culpa é exclusiva dos sucessivos governos”

    Onde foi buscar a ideia de que a sociedade civil não nos tem respeito?
    Num estudo recente, amplamente divulgado pelos meios de comunicação social, os professores eram a classe em que os portugueses mais confiavam, no oposto encontravam-se os políticos. Ficou esclarecido?

    Neste momento, acredito que a sua imagem esteja fragilizada, 3 anos de propaganda com as baterias apontadas por este governo contra os professores, não sei como ainda resistem!!! São acções como essas e comentários como o seu que verdadeiramente prejudicam a escola publica, não são os professores.

  32. 32 32  laranjalima

    Eu sou 100% a favor da autonomia das escolas. Aliás para mim a avaliação dos professores só faz sentido nesse contexto: avaliam-se as escolas e as escolas avaliam os professores.

    Mas há aspectos que temos que ponderar, não podemos decalcar modelos de outros países, porque nós somos portugueses e isso faz toda a diferença. Vejamos a questão da escolha do Director da Escola pela comunidade, autarquia incluída, está em principio correcta, mas para isso não pode haver interesses políticos(boys)não pode haver corrupção, não pode haver caciquismo, mas nós vivemos em Portugal… as escolas são um terreno bem apetecível.
    E já agora, porque mudar se em todas as avaliações externas feitas às escolas a “liderança”obteve óptima classificação?

  33. 33 33  Jeronimo

    Mas o que defende não é precisamente o que tem vigorado nos últimos 30 anos. E quais foram os resultados da “criatividade e do progresso” ? É capaz de, honestamente, recusar que grande parte da classe docente é formada por pessoas que foram para o ensino por não terem conseguido vingar na actividade profissional da sua preferência ? E que o modelo de regulação que os tem regido, incluindo o famoso método de avaliação em rigor, é ineficaz ? Mas mesmo assim, é este o melhorm sistema ? Isto lembra aqueles que mesmo depois da queda do muro continuam a defender o modelo de economia planificada, apesar de estar mais que provado que é inexequível.

  34. 34 34  fado alexandrino

    Onde foi buscar a ideia de que a sociedade civil não nos tem respeito?

    Eu não sei se a sociedade civil vos tem ou não respeito.
    Quem não vos tem, respeito nenhum são os alunos e muitos pais de e mães de alunos.

  35. 35 35  António S. Tomé

    “Ganhe Mundo”.

    Daniel Oliveira, deixe-se de comentários provincianos!
    O quem o cu a ver com as calças?
    Explique-me lá o que se ganha com a autonomia que o senhor defende? O que ganham professores, alunos, pais, comunidades, o país?
    O que ganhamos todos com professores que, por exemplo, leram no estatuto do aluno aquilo que ele não diz?
    Na escola onde anda o meu filho de 10 anos, no Porto, os professores, vejá lá, não necessitaram de qualquer despacho clarificador para perceber o espírito e a letra do estatuto no que às faltas diz respeito. Basta perceber português…
    Para alguns professores-incendiários, contudo, quanto mais confusão melhor - e se os alunos ajudarem… tanto melhor!
    Esses professores não merecem qualquer autonomia - aliás, nem deviam estar no ensino!
    Uma sugetsão: autonomia sim, mas só para as escolas que o justificassem. Que provassem merecê-la. E não tenho dúvidas nenhumas que há muitas escolas que a merecem.
    A autonomia não deve ser grátis!

  36. 36 36  Sebastião Dias

    Estou longe de achar que há uma cultura autoritária neste país. Este país tem sim falta de autoridade. O poder é muito difícil de se exercer porque todos põem sempre tudo em causa.

    Não é de hoje que se diz que o país é ingovernável, já Eça de Queiroz disse noutros tempos, tempos incrivelmente muito semelhantes aos que hoje atravessamos, que este era um país de ingiovernáveis.

    A questão é que somos resistentes à mudança. Todos temos consciência que há inúmeros sectores do Estado que têm de mudar em nome do nosso desenvolvimento. Diz-se sempre q

  37. 37 37  Sebastião Dias

    37 Sebastião Dias
    18 Nov 2008 às 1:54

    Estou longe de achar que há uma cultura autoritária neste país. Este país tem sim falta de autoridade. O poder é muito difícil de se exercer porque todos põem sempre tudo em causa.

    Não é de hoje que se diz que o país é ingovernável, já Eça de Queiroz disse noutros tempos, tempos incrivelmente muito semelhantes aos que hoje atravessamos, que este era um país de ingovernáveis.

    A questão é que somos resistentes à mudança. Todos temos consciência que há inúmeros sectores do Estado que têm de mudar em nome do nosso desenvolvimento. Todos exigem a mudança. No momento em que se decide fazer mudanças todos estão contra, porque são mudanças radicais, porque são mudanças suaves, porque são rápidas, porque são lentas, porque são para todos, porque não são para todos, por isto e por aquilo.

    Ao contrário do que hoje muitos querem fazer crer, Salazar foi até à segunda guerra consensual no país, tendo trazido uma governabilidade que o país precisava, desejava e que trouxe inúmeros frutos. Antes de Salazar o país estava praticamente na bancarrota além de ser atrasadíssimo. Nesse período salazar fez muito pelo país.

    Parece que muitos se esquecem, ou querem fazer esquecer que as pessoas votam porque querem eleger um governo que as governe, querem políticos que tenham a coragem de implementar soluções que, apesar de poderem ser menos populares, tragam frutos a prazo. Cavaco compreendeu bem isso, soube tomar essas medidas impopulares, inclusivamente antes de umas eleições, em que chegou a aumentar a gasolina porque tal era necessário e o povo deu-lhe logo a seguir uma maioria absoluta, mais tarde deu-lhe outra.

    Mais tarde, Guterres e a sua governação com base no diálogo, falharam rotundamente, em diálogos que nunca levaram a alguma forma de governo, numa busca de consensos impossíveis de conseguir num país praticamente ingovernável.

    Sócrates teve os dois exemplos de primeiros ministros e seguiu o que lhe parecia - e que efectivamente é - o melhor exemplo: o de Cavaco Silva. Sócrates sabe bem que as pessoas querem ser governadas e isso continua bem patente nas sondagens, que ainda dão a Sócrates uma clara vantagem eleitoral, apesar dos inúmeros erros e trapalhadas que foram sendo cometidos.

    POde dizer-se que o caso da avaliação dos professores tem sido um processo bastante mal gerido por parte do governo e, reconheça-se, por parte dos professores e, particularmente, os seus sindicatos.

    Os professores, assim como qualquer outra classe profissional, no sector público ou privado, tê horror a serem avaliados. Isto não é qualquer novidade, é assim que as coisas são. É dos livros. A contestação dos professores a este modelo de avaliação, ou qualquer outro modelo de avaliação é expectável.

    Os sindicatos, claramente dominados pelos comunistas e pela sua agenda política, tentam capitalizar o descontentamento dos professores e, mais uma vez, resistem a qualquer mudança que se queira implementar onde quer que seja. Os sindicatos são conservadores. Querem as coisas como estão. No que toca À questão da avaliação dos professores querem, pura e simplesmente, a abolição da avaliação ou, como dizem, querem apenas um outro modelo, do quel não apresentam ideias, não avançam, com alterações, não propõem soluções.

    BEm ou mal, é hora dos professores serem avaliados. Claro que este não será o modelo ideal de avaliação, reconheço que estará ainda longe disso, mas com a experiência da sua implementação poderá desenvolver-se um modelo melhor, mais adequado e, com a colaboração activa de tiodos, mais justo. Mas não é isto que professores e sindicatos pretendem.

    O que se passa com professores passa-se em todos os sectores da vida portuguesa. Todos exigem reformas na justiça, mas quando se querem fazer reformas queixam-se os interessados, por perda de status-quo, juízes, advogados, ministério público, etc. Os outros sectores aplaudem. Quando se pretende fazer reformas noutros sectores, os interessados barafustam, promovem-se manifestações, mas os outros sectores acham que as mudanças são desejáveis e aplaudem.

    Andamos todos a reclamar por reformas e mudanças e todos de certa forma aplaudimos estas reformas quando são aplicadas a outros sectores de actividade, mas rejeitamos em absoluto qualquer reforma que nos seja dirigida por algumas minudências.

    Para finalizar, se houvesse neste país uma cultura de autoridade (que deveria existir e que existe noutros paísesd a Europa, os tais desenvolvidos, os tais em que o governo funciona, nos tais em que quando se fazem leis é para se cumprir) as reformas far-se-iam, melhor ou pior, com mais ou menos ajustamentos. É precisamente por neste país não haver uma cultura de autoridade, em que quem é eleito para governar governa efectivamente, que há anos que estamos para fazer reformas sérias como esta - que, parece, não irá também ser feita desta vez. E daqui a dez anos estaremos a falar da mesma coisa.

  38. 38 38  Sebastião Dias

    Daniel peço desculpa mas há qualquer atalho no teclado - que ainda não percebi qual é - que faz com que involuntariamente poste um comentário antes de estar terminado. Se possíve, por favor, retire os dois comentários anteriores.

  39. 39 39  Pedro Ribeiro

    Concordo basicamente com a análise do Daniel. E sobretudo com a ideia de que a estratégia recorrente do governo, sempre que se levanta resistência na aplicação das suas políticas, tem sido usar algum ressentimento generalizado na nossa sociedade (”desigual e injusta”) para colocar uma parte significativa da população contra as classes profissionais a que directamente se dirigem.

    Não estou contudo seguro que a conclusão do Daniel seja (por enquanto) decisiva. Creio que a leitura que o Governo (ainda) faz é que tem mais a ganhar, mantendo-se inflexível nas suas convicções do que fazendo cedências na mesa de negociação. E porventura com razão porque a sua base de apoio é hoje algo diferente do eleitorado tradicional socialista - e talvez por isso as dificuldades da oposição de direita em ganhar algo desta agudização da confrontação social. A esquerda, para o Governo, está perdida e creio que isso é tacitamente assumido.

    Mas o que está também em questão neste confronto é uma agenda ideológica. E, neste aspecto, pelo menos no discurso que vai dominando o debate público, o Governo vai somando pontos. Não há quem seja capaz hoje de dizer que é contra a avaliação. Mas não é uma avaliação qualquer: é uma que promova a distinção e a diferenciação dos melhores. Como um fim em si mesmo. Este é um discurso que não tem encontrado em lado algum qualquer oposição firme, penso que estaremos de acordo.

    Ora eu, pessoalmente não estou de acordo com esse. Defenderia uma avaliação apenas na medida em que ela fosse um instrumento de melhoria do sistema educativo. Talvez isto exija até certo ponto o premiar dos melhores, mas é preciso sobretudo que os menos bons se possam tornar melhores - alguém ouviu falar em formação? Uma avaliação que pressupõe (e assim é comunicada) que a maioria dos professores são uns malandros é contraproducente porque gera ressentimento da parte daquela maioria que investe de facto na sua profissão e pura e simplesmente deixa de fazer aquilo que de outra forma faria ainda que não “obrigada”. Neste aspecto, gostei de ler o retrato da profissão que fez o sr. Alberto Gomes, com o qual concordo. A avaliação deve simplesmente impedir que a “pequena minoria” de profissionais menos empenhados possa “poluir” os restantes, sem alienar o investimento destes. Não é essa a filosofia do actual sistema de avaliação que parte de uma visão da classe quanto a mim invertida.

    De resto, considero que a avaliação é apenas um instrumento de actuação e nem será o mais importante, como aliás o Daniel defende. Também concordo que a gestão e organização das escolas deva ter por base uma maior autonomia. No entanto, não vejo condições políticas para essa ideia avançar. Tenho dificuldade em perceber (mesmo entre a classe dos professores) grandes apoios a medidas que caminhem decisivamente nesse sentido. E se há alguma coisa que este processo deveria ter-nos feito recordar é que a política é um exercício do possível. Não basta ter boas ideias para elas serem exequíveis…

  40. 40 40  Paulo Martins

    Laranjalima,
    “Onde foi buscar a ideia de que a sociedade civil não nos tem respeito?”

    É uma evidência para quase todos os que são pais e têm filhos na escola pública.

    Aliás, não estou a dizer nada de novo, o autor do post vai mesmo mais longe: “O estatuto social do professor está degradado …”.

  41. 41 41  laranjalima

    Fado Alexandrino (34)

    Mas quem lhe disse que os alunos não nos têm respeito?

    Atendendo à situação caótica da sociedade em geral e das famílias em particular, em que os pais não conseguem acompanhar nem educar os seus filhos, eu diria que eles nos respeitam e muito!!! Aliás, é esse respeito que nos permite manter as escolas em funcionamento, uma vez que o ministério retirou às escolas e aos professores qualquer instrumento de defesa.

    Em 28 de serviço, não registo um único acto de desrespeito, nem por parte de alunos, nem Encarregados de Educação. Tem que admitir que é obra!!! Se atendermos que vivo em Portugal, cheínho de “fados alexandrinos”….

  42. 42 42  anonimo

    (“Se os pais participarem na escolha de quem gere a escola (como acontece em tantos lugares) não estão eles na melhor posição para responsabilizar quem gere mal e escolher quem o faça melhor? Ou a responsabilidade só existe onde existir um cheque?”)

    O cheque não tem somente a ver com isso mas com opção

    O que acontece é que o direito ao ensino foi concebido como direito à escola pública e não como direito a qualquer ensino e a qualquer escola, mais próprio com um sistema de um estado educador, e não com as opções dos pais para os projectos educativos que tenham para os filhos

    Não é possível reconhecer a prioridade dos pais na educação dos filhos sem aceitar a possibilidade de escolha da escola, de outro prisma, que sentido faz ter projectos educativos diferenciados, se os pais e alunos não puderem escolher a escola da sua preferência. A crítica de que a escolha da escola é promotora de segregação não se mostra verdadeira. Desde logo porque a segregação nasce fora das escolas, e resulta primordialmente do mercado habitacional. A política de zonamento acaba por cristalizar essa realidade e transporta-a para as escolas.

    Caberia ao Estado um papel central de apoio à escolha dos alunos e suas famílias Aos serviços estatais competeria, antes de mais, apoiar os alunos e seus pais na escolha da escola publica ou privada, nomeadamente através da disponibilização de informação relevante, medir a qualidade do ensino através de exames e outros instrumentos de avaliação e, obviamente, assegurar o cumprimento da lei, a finalidade prioritária do Estado na educação é garantir a todos os cidadãos o direito a um ensino de qualidade, com liberdade aprender, de ensinar e de escolha da escola. Mas garantir a liberdade de acesso a um serviço que requer recursos económicos é garantir que essa liberdade não é impedida por ausência de recursos económicos

    Uma escola não se define por paredes e um quadro de pessoal. É um projecto educativo capaz de gerar os melhores projectos educativos e as melhores ideias de escola, e garantir que cada aluno e a sua família possam escolher aquela com que melhor se identificam.

  43. 43 43  Malacueco

    A autonomia das escolas começou com a descentralização dos currículos. Abandonou-se a ideia de programa nacional.

    Em teoria, o que se ensina na turma A do 5.º ano da escola X pode não ser o mesmo que se ensina na turma B da mesma escola.

    Isto está muito bem, na medida em que não se obriga as criancinhas de Monção a V.R. de S. António (e, antigamente, «do Minho a Timor») a aprenderem todas a Baixa Pombalina, substituindo estes por outros conteúdos mais relevantes para elas.

    Só que esta política educativa, com tudo o que tem de louvável, esbarra em vários pontos contraditórios - como sejam a obrigatoriedade de adopção de manuais escolares ou a realização de provas de aferição - por exemplo. Se as «matérias» não são as mesmas, como se pode realizar uma prova única?…?… É o mesmo que afirmar: «Podem “dar” o que quiserem… desde que seja isto…»

    Por outro lado, autonomia deveria significar autonomia financeira…

    E pronto.

    Acabou toda e qualquer veleidade de autonomia, já que a gestão orçamental teria de ser feita:

    a. a nível de cada escola;
    b. a nível municipal.

    Na prática, os acordos de autonomia celebrados pela João Gonçalves Zarco, de Matosinhos, ou pela Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim, deram com os burros na água - dado que o ME aceitou todas as propostas de melhoria e compromisso de melhoria dos resultados escolares… e recusou liminarmente tudo o que foi pedido em termos de autonomia de contratação de docentes/formadores, nomeadamemnte para as áreas dos cursos técnico-profissionais…

    Ou seja: «Autonomizem-se à vontade, mas gerir orçamentos… tá queto! Façam lá as omeletes, mas ovos é que nem pensar!»

    Como se compagina a autonomia das aprendizagens com a realização de exames nacionais no fim de cada ciclo? Mas os senhores políticos (ou outros…) saberão do que estão a falar quando defendem tal coisa?

    A autonomia de que o ME fala é o de se ser autónomo para melhorar a estatística…

    Caro Daniel: muito folgo de o ver escrever assim. Confesso que me espantou - pela positiva!

    Cumprimentos!

  44. 44 44  LF

    Absolutamente fantástico este post.
    No fundo está aqui tudo o que é relevante nesta questão.
    Os 48 anos de fascismo deixam a sua marca, e há várias gerações em Portugal ainda muito marcados por eles.

    Mas a forma como a opinião pública facilmente se revolta contra os “privilegiados” não pode deixar de ser assacada também a uma comunicação social sempre dócil para com os poderes (político, económico e ideológico).
    Como aqui alguém já disse, a última edição do “Expresso” é um belo exemplo disso.

  45. 45 45  fado alexandrino

    Mas quem lhe disse que os alunos não nos têm respeito?

    As televisões.

  46. 46 46  Maria

    44 LF
    18 Nov 2008 às 17:30
    “Os 48 anos de fascismo deixam a sua marca, e há várias gerações em Portugal ainda muito marcados por eles.”

    Ora ca esta uma excelente sintese para o que se actualmente se passa.O pais esta agora a começar a suar o fascismo que ainda tem concentrado nas celulas; e um processo doloroso e leva tempo para curar.

  47. 47 47  laranjalima

    Fado Alexandrino (45)

    “São casos isolados”.Não acredita na ministra.

  48. 48 48  TMF

    “Se os professores fossem uns privilegiados seguramente não faltaria quem, entre os melhores”

    Não diriamos privilegiados, mas desacreditados por culpa própria(também), certamente. Não precisamos de ir mais longe, b um simples exercício de memória para recordarmos os “nossos” saudosos tempos de secundário e será fácil perceber quantos estariam ali: 1.º por vocação, 2.ºpor não ter opção3.ºpós-25 de Abril 4.º “enconstados à sombra da bananeira…”.Fico-me infelizmente pela 4.ªopção, culto madraceirão, sem responsabilização, sem avaliação.

    Cumprimentos

  1. 1 Pronto, Daniel, explica-lhes como se tivessem cinco anos. « Vida Breve

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