Beirute é um estaleiro. Em cada canto uma obra, um edifício moderno a nascer. Seria o sonho de alguns arquitectos portugueses: edifícios modernos, cheios de classe, sem que nada tenham a ver com nada do que os rodeia. Nascem como cogumelos e a confusão de estilos e de tempos em cada quarteirão é total: casas em ruínas, palacetes otomanos abandonados, torres em vidro a luzir de novas. Como quase toda a reconstrução é feita sem aparente intervenção do Estado, os prédios novos parecem os de uma capital do primeiro mundo mas não há passeios e espaços públicos. E este é um dos retratos possíveis de Beirute: por todo o lado se podem ver os melhores carros do mundo mas não se encontra um semáforo que funcione.
A baixa da cidade parece uma Expo desordenada: uma exposição de arquitectos com pouca cidade. E a parte velha foi refeita mas tem merecido criticas, que à primeira vista parecem justas, de tudo parecer artificial.
Viagem mais a sul, a um bairro pobre sunita dos subúrbios de Beirute. Aí, nem sinal de reconstrução. As marcas da guerra civil e da guerra mais recente com Israel parecem intactas. Mais próximo de um bairro de lata do que de uma cidade. O mercado de rua vive o fim de festa, os cheiros são intensos e até o calor parece ser aqui ainda mais inclemente do que no resto da cidade. Temos de fugir antes que eu derreta.
À noite, para aliviar do calor insuportável, viagem às montanhas. De Beit Marie vê-se a cidade toda, mas a neblina do dia tira parte do encanto à coisa. Perda compensada pela temperatura amena que descansa o corpo. Chegamos ao restaurante de destino e o que nos espera, para além de uma esplanada maravilhosa, é um jantar para nunca mais esquecer. Decorem o nome para se alguma vez forem ao Líbano: Tigre. A funcionar, haja guerra ou haja sol, desde os anos vinte.
O dono é católico numa cidade maioritariamente maronita. Um cristão entre os cristãos. Explica-nos, numa conversa simpática onde foi respondendo a todas as perguntas, que adora receber estrangeiros, menos árabes. Sendo ele próprio árabe, explica melhor: da Arábia Saudita e dos Emirados. Tapam as mulheres deles mas olham para as dos outros, diz ele. Quanto aos muçulmanos do seu próprio país – a maioria –, diz que depende. Acusa-os de serem intolerantes. A conversa continua e percebe-se que quando fala de muçulmanos e ainda mais de ateus o nosso amigo não é o que poderíamos dar como exemplo de tolerância. Mas como cozinheiro e anfitrião, só posso dizer o melhor. Uma simpatia. E o jantar… Que jantar!
Infelizmente, não posso colocar fotografias. Tentarei continuar a dar novidades.
15 comentários 21 Jul 09 em Sem categoria



“…E o jantar… Que jantar!”
O Daniel (quando quer embora que muito raramente
) é mesmo cruel!
Depois da descrição sobre o gajedo, deixa-me agora a salivar ainda mais, pelo menos por um dia ou dois até à próxima posta.
Cumprimentos.
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Daniel, um pedido: dentro do possível vá apontando num caderninho esses “petiscos na esplanada” e coisas do jantar por essas bandas. Essa parte interessa-me e vai sofrer interrogatório meu à chegada. Com sevícias se for preciso.
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Então mas esse “jantar… Que jantar!” não nos é revelado? Qual foi a entrada? E o primeiro e segundo pratos? E a sobremesa? Acompanharam com vinho ou com (blarg!…) cerveja? E que vinho? E a sobremesa acompanhou com moscatel, porto, tokaj ou o quê? Isso é que é importante, não são as “torres em vidro a luzir”, caramba.
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Definitivamente Beirute é a imagem do neo-liberalismo e da contradição do momento: construir anárquica mas enormemente e nada construir e dormitar placidamente.
Excelente, no entanto, para estiolar e desfazer dos pontos negros e das barrigas de cerveja!
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Hum, e esse anfitrião não será daqueles que se tiver um grupo de árabes diz que não gosta de clientes cristãos? Que são altamente intolerantes? É que há gente assim, diz o que pensa que os clientes gostam…
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“Tapam as mulheres deles mas olham para as dos outros, diz ele.”
Sintomático
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“Chegamos ao restaurante de destino e o que nos espera, para além de uma esplanada maravilhosa, é um jantar para nunca mais esquecer. Decorem o nome para se alguma vez forem ao Líbano: Tigre.”
Numa primeira leitura, fiquei com a ideia que o Daniel tinha comido Tigre. E ainda não estou completamente convencido que tenha sido outra coisa…
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Daniel,
Se tiveres tempo vai a Sabra e Chatilla. Fica a 15 m. do centro de Beirute e é muito semelhante a uma favela do Brasil, sendo plana. Mas a memória do massacre está por todo o lado. Há uma praça onde foi cavada a vala comum onde se enterraram os mortos. Tenebroso, mas obrigatório, na minha modesta opinião.
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“Tapam as mulheres deles mas olham para as dos outros.”
E?
Por isso mesmo é que tapam as deles, para os outros não olharem. (Isso é que vai uma açorda por aí…)
Podemos colocar questões Daniel: qual é a taxa de divórcio no Líbano? (Se houver essa liberdade legal.) As pessoas parecem mais felizes do que por cá? (Dá que pensar a ideia de que as taxas de suícidio nos países nórdicos são mais elevadas do que em Portugal.)
Há swing no Líbano? E casais a dormirem em camas separadas? E casais a saírem separados com os amigos/amigas ao fim-de-semana?
E o Tigre? É melhor do que um Porto de Santa Maria ou do que um Papa Açorda ou um Bica?
E paga-se mais ou menos? (Se foi convidado e não pagou, provavelmente não sabe.)
Vá contando coisas.
Pelas suas palavras, começo a pensar que Portugal devia querer ser mais como o Líbano e menos como a Finlândia.
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“Decorem o nome para se alguma vez forem ao Líbano: Tigre.”
Exacto, se alguma vez “forem” ao Líbano.
Daniel, nem todos temos vastas herdades e fortunas amealhadas da CUF e fazendas na zona dos Dembos.
Somos todos indigentes e fazemos necessidades sentados…
Boas férias, mas um post em relação à “classe” feminina era bem vindo… diz cas Libanesas são frutos exóticos….
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O senhor ao ler alguns comentários e as ideias que lhe dão para ir no periodo de férias deve estar a pensar não que o AllGarb devia ser mais como o Líbano e menos como a Finlândia mas sim que seria uma fortuna se em vez de voltar para cá pudesse ficar em qualquer um deles.
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Esse senhor cristão católico cá para mim é um extremista de direita.
Mesmo tendo em conta a superior qualidade do repasto, não compreendo como é que o Daniel consegue conviver com gente desta.
Sinceramente!
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Só por o homem dizer uma verdade evidente, a de o islão ser a religião mais intolerante de todas quantas existem, já é ele que é intolerante. O que eu não consigo é perceber, e penso que nunca ninguém será capaz de me explicar, o porquê desta simpatia dos ateus de esquerda pelos muçulmanos. Passam a vida a vociferar contra as religiões, sobretudo contra a dos seus próprios pais, mas têm sempre uma palavra amiga para a religião dos bombistas. Vá-se lá perceber esta gente! Devem ser tiques hipocritamente correctos e tal…
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O Líbano não é para todos. Com o hezbollah à solta:
http://www.haaretz.com/hasen/spages/1102456.html
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já vi que por ai também há caviar.
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