Ser politicamente correcto não é mais do que assumir o óbvio: que as palavras e as imagens carregam consigo ideologia, preconceitos e desigualdades. O que se faz com esta evidência é outra coisa. Por mim, tenho em conta este dado e não finjo que o que digo e como o digo é neutro. Sabendo que há uma fronteira a partir da qual os que querem transformar as palavras e as imagens para ajudar a mudar a realidade se transformam eles próprios em polícias morais, artísticos e estéticos. Quando chegam a esse ponto, conseguem um milagre: fazer com que o mais empedernido dos conservadores pareça irreverente. Tem acontecido com frequência.

Depois há a estratosfera do politicamente correcto. Essa é apenas imbecil. E é aí que vive esta reacção da Federação de Cegos dos Estados Unidos contra a estreia de “Blindness”, baseado no “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago. Que há coisas politicamente correctas e politicamente incorrectas, acho que todos aceitamos. Mas se tentarmos aplicar esta ideia à arte estamos fritos. E o que os senhores desta federação querem é livros e filmes metaforicamente correctos. Pior: querem acabar com a própria metáfora. Estão para as palavras e para a arte como os fundamentalistas estão para a religião: lêem e interpretam literalmente o que lhes aparece à frente. Isso tem um nome. Não é politicamente correcto. É ignorância.


20 respostas ao post “Cego mesmo é o que não sabe ver”  

  1. 1 1  PR do Suck,

    Nem mais. Mas no limite o politicamente correcto abriu portas a tudo. Vê o que se passa com os regulamentos internos nas faculdades norte-americanas. ( Curiosamente o único que apreciei dele, juntamente com o Memorial ). Coisas. Cretinas.

  2. 2 2  Daniel Oliveira

    PR, no limite, qualquer coisa sensata abre portas às piores das coisas. Por isso é que se diz “no limite”.

  3. 3 3  fosquinhas

    Mas desde quando é que os cegos se preocupam com a imagem??

  4. 4 4  causavossa

    E tantos cegos pululam por este quintal! Mas não é de hoje, senhores, é de quase sempre, e é contra isso que lutamos para dar luz a estes novos velhos-cegos: ora vejam http://causavossa.blogspot.com/2008/10/viver-com-400.html

  5. 5 5  Manuel Leão

    Daniel:

    Nos Estados Unidos está, ou já esteve, proibido o livro “As aventuras de Tom Sawyer”, dada a rebeldia do personagem!

    Num país onde se levam armas para a escola!

    Palavras para quê?

  6. 6 6  milodon

    … a Federação que se refere não leu o livro. Um tal Sousa Lara é que foi lá visitar uns amigos e conversa daqui e dali … zás!

  7. 7 7  Animal

    “Não vi e não gostei”, declarou o porta-voz da Federação de Cegos à nossa reportagem.

  8. 8 8  Toino

    Alguém ainda consegue surpreender-se com o que os usa dizem, eu sei, são uma potência tecnológica, eu sei têm oa amburguers, eu sei têm um presidente incapaz de ver para além de um metro, eu sei, até bispos são pedófilos etc etc, só espero que a CML não tenha alugado a vivenda de lazarote ao JS.

  9. 9 9  ana

    estes americanos são loucos….. e a ignorância deles até seria de lamentar, se não fosse tão perigosa….

  10. 10 10  ramalho santos

    Não sei se reparou, ou se a sua análise é assim tão fina, mas no que a mim diz respeito, e com a devida vénia (porque são úteis) detesto parasitas, logo, o Sr. e o seu blogue é que contam na minha consideração. Reconsidere a sua aposta sobre este ângulo.

    Creio que o casamento Homo ficou deserto, sinal de que nem os próprios estão para ai virados. Só “artistas” políticos se lembrariam da urgência deste agendamento.

    È muito complicada a abordagem deste tema, a cegueira em certo sentido é mais grave que doenças sem cura ou mortes violentas. Vive-se uma vida.

    Nos seus considerandos iniciais, faz afirmações que levados ao extremo, remetem-nos (a todos) a procurar Deus.

    A afirmação “ ajudar a mudar a realidade” é imprópria, (opinião) não seria melhor “ajudar a perspectivar a realidade”?

    Fez bem em separar (por um longo espaço) o artigo em duas partes; o primeiro é uma pérola em vários sentidos, profundo, sensível e subjectivo qb, o suficiente para amparar o tema, o segundo é… mais do que “politicamente incorrecto”.

    Parabéns. Comente esta treta, não se intimide (opinião), ser honesto, alem do mais, é saudável.

  11. 11 11  Filipe Tourais

    Quem tiver lido o livro saberá que o tema abordado não é, nem sequer remotamente, o da cegueira e sim o de um exercício ficcional do que seria uma sociedade com ausência de reprovação social. A cegueira só aparece numa pequena passagem em que um dos personagens, secundaríssimo, é um cego que já o era antes da todos ficarem cegos: um contabilista que, por estar muito mais adaptado que os cegos recentes, conseguia fazer o que eles, obviamente, não conseguiam.
    Mas não é por uma questão de solidariedade que o tema reaparece agora, pelo menos em Portugal. São conhecidas as ideias políticas de Saramago e, confrontando-se com a diferença de estatura relativamente à sua genialidade, quem tenta criticá-lo serve-se de tudo o que tenha à disposição. Perda de tempo, só lhes realça a sua pequenez.

  12. 12 12  bloom

    ó manel leão, o “tom sawyer”, proibido nos EUA?? essa é nova, diz lá onde é que viste isto ;
    quanto ao “Blindness”, eu cá acredito que isso é golpe publicitário dos produtores do filme; que segundo parece é tão mauzinho tão mauzinho que só com um buzz deste tipo é que se safa…

  13. 13 13  larissa

    Não é só o tom sawyer e a biologia da escola secundaria?!… mero exemplo.
    leiam o que escreveu o falecido norte americano karl Sagan (a gradiva publica) sobre o nível do conhecimento dos seus conterrâneos…

  14. 14 14  agent

    Ao passar os olhos pelo comentário 10, reparo que o César Neves já faz escola também por aqui. Usou o bode e tudo! O expiatório (”homo”), como o Sô professor manda. Só não tem nota 20 porque esqueceu-se de dizer que
    a nossa sociedade está cada vez mais infeliz, por ter-se entregue inteiramente ao prazer carnal. Amén.

  15. 15 15  Minhoto

    Em relação ao filme é absurdo, mas como o politicamente correcto tende a ser absurdo não me admira nada. “Ser politicamente correcto não é mais do que assumir o óbvio: que as palavras e as imagens carregam consigo ideologia, preconceitos e desigualdades.” diz o Daniel Oliveira mas lá está é uma análise subjectiva o óbvio para si pode ser diferente do óbvio da pessoa ao seu lado. Ou seja o politicamente correcto é uma ditadura sobre as consciências que foi urdida com propósitos políticos mas toda a sociedade avançada deve ter a liberdade como mote logo a liberdade de expressão deve impor-se ao politicamente correcto.

  16. 16 16  Nuno Góis

    Mas porque raio é que só os Estados Unidos é que têm cegos destes. Os únicos que se sentiram ofendidos e agora vão tentar passar a moda a outros.

    Haja paciência

  17. 17 17  Pedro Esteves

    Minhoto:«Ou seja o politicamente correcto é uma ditadura sobre as consciências que foi urdida com propósitos políticos mas toda a sociedade avançada deve ter a liberdade como mote logo a liberdade de expressão deve impor-se ao politicamente correcto.»
    precisamente!

    politicamente correcto=fascismo das palavras=doutrina marxista encapotada

  18. 18 18  Stran

    É desta que o Saramago fica multi-milionário…

    Quanto ao politicamente correcto:

    Se a maioria das pessoas diz que Hitler é racista e se aparecer um cromo a dizer que Hitler não é racista e é atacado automaticamente defende-se que está a ser atacado pela brigada do “politicamente correcto”. Ora alguém devia de avisar essa pessoa que não está a ser politicamente incorrecto mas, pura e simplesmente, estupido.

    Esta paranoia do politicamente incorrecto atingiu tal tamanho que é politicamente correcto dizer-se que é politicamente incorrecto…

  19. 19 19  Manuel Leão

    Bloom:

    Só agora reparei na sua pergunta, carregada de sarcasmo.

    Já tinha lido isso há vários anos num artigo publicado e que não consigo precisar.

    Mas, como foi um livro que li quando ainda era criança, e que me ajudou a criar o gosto pela leitura, fiquei perplexo com essa informação.

    Mas, se for a Forbiden Library, no site http://author.forbiddenlibrary.com/

    procure letra T (Twain).

    A única diferença, é que neste site indica, como causa, estar o livro demasiado carregado de expressões racistas. No artigo que eu li a razão invocada não era essa, mas sim a rebeldia do Tom, como mau exemplo para leitores jovens.

  1. 1 cinco dias » “A alegoria do cinema” por Vasco Barreto

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