Concordo: longe de nós deixar que os pais decidam o que os seus próprios filhos podem ver. Responderão: e se os pais não sabem do que se trata? Mais uma vez, rendo-me. Mas faço as minhas exigências em troca. Não quero missas em horário diurno. Posso ser apanhado distraído e a minha filha, inadvertidamente, ouvir falar de pecado de cada vez que se fala de sexo. E se estes senhores querem tornar extensível à minha filha a educação que dão aos seus, mesmo quando está em discussão um filme dirigidos especialmente a crianças, porque raio não posso eu fazer o mesmo com os filhos deles?
Como eles fizeram um apelo para que se escrevesse ao Provedor do Telespectador a pedir para que não transmitisse a coisa, eu deixo aqui o meu apelo para que façam o mesmo, pedindo a sua transmissão. Eu já escrevi. E foi isto: “Venho desta forma dar os parabéns á RTP pela transmissão de um filme de educação sexual para crianças e comunicar que, como telespectador e pai de uma filha, não permito que um grupo de cidadãos me imponha a mim e a todos as suas convicções morais. Cada um sabe o que deixa e não deixa que os seus filhos saibam. O que não é admissível é que alguns queiram proibir a minha filha de ter acesso a material de educação sexual. Podem sempre desligar a sua televisão. Não podem é desligar a minha.”
Por Daniel Oliveira 1 Jun 07 em Sem categoria


Muito bem. Viva a liberdade. Viva a educação.
Conclusão: temos que saber escolher as missas e temos que saber escolher os canais de televisão…
Não tenho nada contra o filmezinho, mas tenho contra ideia impostas de educação sexual, quer de um lado quer do outro. Isto não é uma guerra, mas também não é um monopólio e a APF é das piores coisinhas que este país tem.
Miguel, mas quem impõe o quê?
Mudou muita coisa mas agora há Dia da Criança:
http://absolutamenteninguem.blogspot.com/2007/06/dia-da-criana.html
Diga o que acha!
Deixe o seu comentário!
Daniel,
Ninguém deve impôr nada.
Mas não me parece que quem se manifesta contra (e não conheço as razões, mas, conhecendo as entidades em questão acredito que sejam boas…) esteja a impôr o que quer que seja…
Daniel:
Essa sua intolerância…!!!
Não percebi porque confunde missas ou celebrações de outros cultos com filmes?!
Penso que devia ser tolerante e achar muito bem que pessoas que pensam de maneiras diferentes da sua façam os requerimentos que entenderem.
Já agora, se o filme espelha a educação que quer para os seus filhos, devia ser tolerante e entender que a RTP passasse também filmes sobre a visão de educação sexual que os outros têm.
Não acho bem é que passe só a sua.
Os meus filhos também têm direito a que a RTP compre, pague e passe em horário nobre filmes que correspondam à educação sexual que eu lhes quero transmitir (e que penso que tenho esse direito).
Não é só você.
Quando a RTP passar os filmes que correspondem à minha visão, nessa altura você desligatrá a sua TV.
E assim é que todos ficávamos contentes, não acha?
Cumprimentos
Luís
Os mesmos que se indignam com a exibição de um filme, especialmente destinado à educação sexual das crianças, serão, pela certa, muitos daqueles que as deixam ver toda a espécie de cenas em filmes e telenovelas. Isso é que é surpreendente.
On the bright side, se ninguém tivesse protestado, ninguém escrevia posts sobre isto, eu não me apercebia de que este programa ia ser transmitido, e não o gravava - para eventualmente ver com o meu filho, mais tarde.
Luis, confesso que fiquei curioso. Afinal qual é essa sua visão de educação sexual?
É so mesmo para saber do que afinal falamos.
Daniel, concordo inteiramente consigo.
Abraço,
concordo. eu também não quero missas no horário diurno. aliás, a eucaristia dominical aquilo choca-me tanto que eu exijo que seja transmitida com bolinha vermelha no canto superior direito.
Quem não quer ver muda de canal.Mas não parece ser o caso,quando famílias inteiras “apreciam” as novelas, das traições,dos filhos incógnitos,dos beijos estilo “lapa”…
Nestes casos até dão o nome dos “artistas” aos filhos e aos netos.
Esta gente melindra-se com o que não deve.
Tem toda a razao Daniel. Vou ja escrever ao provedor a pedir que amanha transmita um programa sobre educaçao sexual baseada nos principios Cristaos. Os outros credos tambem devem exigir o mesmo. So nao quero e que seja o estado a educar os meus filhos. Viva a liberdade (de escolha). Viva a Educaçao ( mas nao a dos estado ou dos “iluminados”)
A televisão educa sempre as crianças - todos os dias, todas as horas e todos os minutos
Geralmente educa-as para o consumismo, para a superficialidade, para a irracionalidade, para o ruído. Em muitos casos esta educação vai no sentido oposto ao que os pais e os professore desejariam, mas ninguém se parece importar muito com isso.
Mas se a televisão ousar fazer um programa intencionalmente educativo sobre a sexualidade, logo se levantam em armas os apoiantes da censura. A esses, aconselho o seguinte: sentem-se com os vossos filhos em frente ao televisor, vejam com eles o programa - e, se discordarem de alguma posição moral que esteja implícita nele, aproveitem para lhes explicar as razões da vossa discordância.
Por mim podem passar filmes sobre educação sexual à vontade. Não tenho nada contra. Porém, quando o Bloco de Esquerda começar a impingir a obrigatoriedade da educação sexual eu vou resistir.
Tal como não é obrigatória a disciplina de religião e moral, também não tem de ser obrigatória a disciplina de educação sexual.
Vi o filme e gostei.
Geralmente também vejo a missa dominical, porque sou preguiçoso. Raras vezes se lá fala em pecado nesse sentido Daniel.
No tempo da minha adolescência (acho que ainda foi no tempo em que os animais falavam), a educação sexual e coisas do género não existiam e livros nem vê-los nas livrarias, no entanto, curiosamente, foi numa livraria de uma igreja, gerida por um frade, que pude ter acesso a livros de educação sexual como hoje ainda não vi, bem como livros para ajudar o relacionamento sexual e afectivo de adultos, que pouco mais sabiam naquele tempo, que um adolescente.
Mas a minha experiência com a Igreja sempre foi diferente do que para aí se fala e se calhar têm razão. Eu, e a igreja que frequentei (católica) é que se calhar tivemos sorte em não pertencer ao mainstream…
Essa livraria de igreja, aproveitando-se desse facto, conseguia inclusive proporcionar alguns livros que em livrarias públicas seria proibido à época!
Acabei de falar com a minha mulher (eu estou a trabalhar e por isso não vi o filme) e o que ela diz é que aquele filme vale por 50 horas de conversa. Muito bem feito e a explicar como as coisas são na realidade. Logicamente que o miudo fez uma série de perguntas mas afinal não é para responder ás dúvidas dos filhos que os pais existem.
A RTP está de parabens
Eu sou professor de Educação Moral e Religiosa Católica; esse filme existe no Centro de Recursos da minha escola (faz parte de uma colecção de muitos outros sobre educação sexual - VHS) e eu já o passei várias vezes para os meus alunos. Não vejo que mal possa vir ao mundo por isso, nem por que carga de água alguém se lembrou de protestar por causa da sua exibição pública(!). É até um ponto de partida para uma discussão crítica(principalmente em relação a considerações morais ou éticas que nele se encontram e que não são necessariamente as que os alunos ou eu próprio partilhamos)tal como eu proponho aos meus alunos.Por outro lado contém informação relevante, pertinente e apelativa, mesmo tratando-se de um “filmezinho” para crianças; ou talvez por causa disso. Como dizia o poeta, “o mundo pula e avança…”
P.S. Não percebi o que é que a Eucaristia dominical tem a ver com esta discussão; aliás, parece-me é que algumas pessoas não conseguem defender uma posição ou uma ideia sem atacar com soberba e de forma gratuita aquilo que é direito ou convicção profunda e genuína de outros! Ad multos annos.
Iosephus.
As televisões, ou pelo menos a televisão pública, não se deve regular por quaisquer principios de índole religiosa, independentemente da orientação geral do seu povo.
Von
Muito bem dito, Daniel, que pelos vistos não escapo a estar de acordo consigo.
E o caso é que a nossa gente, maioria, é truca-truca, abençoada por deus, sob os lençóis, à vontade, enquanto tudo o mais é pecaminoso e obra do diabo.
E eu nunca vi gente mais hipócrita e mesquinha, mais maldosa.
Mas, vá lá, que ainda antes da Sic, nem deixava passar sexo de filme pa 12 anos.
E, então, Portugal até tá muito evoluído!
Iosephus, estava a fazer um paralelo. eu não concordo com os preceitos morais da Igreja, sobretudo em matéria sexual e acho que a educação religiosa tende a pôr a culpa no lugar do prazer. Eu gostava que a minha filha viesse a valorizar o prazer e o seu corpo e que nunca se sentisse culpada por isso. Mas nem por isso me passa pela cabeça não querer que a televisão passe a mensagem e a verdade é que não me lembro de alguém alguma vez ter protestado pelos milhares de filmes religiosos para crianças. Este grupo que protestou, ligados aos sectores mais conservadores da Igreja, passa a vida a fazer este tipo de vigilância como se quisesse educar os filhos de todos.
António, não tenho nenhum problema com isso. Direi apenas à minha filha o que lhe digo sempre: “eles não gostam muito das mulheres. Acham que elas são uma costeleta.” e deixo-a a ver.
Nao sei ate que ponto o Daniel esta dentro da doutrina crista actual…A historia de costela que vem das escrituras do antigo testamento de Adao e Eva nao e sao propriamente consideradas nos dias de hoje!! Sou catolico, a minha familia é catolia e alguns dos meus amigos tambem o sao. Os meus pais, os meus tios, os meus avos nunca precisaram de educaçoes sexuais pra saber o que quer que fosse sobre o assunto. E tudo uma questao de saber educar e conversar. E isto e feito dentro do espirito familiar e a forma como e feito depende unica e exclusivamente dos pais. Somos nos quem vai decidir mais tarde se o que acreditamos e valido ou nao! Talvez para o Daniel a familia e o que ela significa nao faça muito sentido, remetendo essa responsabilidade para o estado, isto claro se o fizer bem feito e como mandam os “iluminados” de um Portugal que é muito evoluido conforme as circunstancias!!! Vi o programa e considero excessivas algumas imagens, porem nao posso condenar a sua transmiçao. So espero e que amanha haja um programa que va de encontro com os meus valores. Creio que é justo o meu pedido num estado democratico em que somos todos iguais, mas uns mais iguais que outros!!!
Parabéns pelo blog!
Excelente conteúdo!
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Futebol e política num só!
Obrigado!
Antonio, um pouco de sentido de humor…
Daniel, notável, a tua mensagem parece quase decalcada do que eu escrevi. Deduzo que são pouco subjectivas as nossas razões, neste caso. Dir-me-ão que deduzo o que me interessa, mas paciência.
Miguel Nascimento, a APF faz há décadas um trabalho que mais ninguém neste país faz, e que é um serviço de saúde pública. Mesmo que não se goste da filosofia da instituição (eu gosto muito, mas adiante), é difícil negar-lhe respeito e mais ainda prescindir dela enquanto mais ninguém se dignar a mexer o rabo. Quanto ao impôr coisas: quando se promove uma mobilização para impedir a emissão de um programa, está a fazer-se pior que impôr um discurso, que é silenciar outro discurso.
Luís, ao contrário do que diz, este é um exemplo raro em que uma instituição pública portuguesa se digna difundir um material pedagógico relevante em consonância com o que o Daniel defende (que é mais ou menos o mesmo que eu). Deixe-nos lá, a nós e a mais uns poucos, gozar a oportunidade… De resto, não tenho nada contra a coexistência com valores diferentes, desde que concordemos com a regra básica de que nos vamos deixar um aos outros falar (ou ouvir, ou ler, ou ver televisão…).
Sinfonia, a educação sexual não é uma ideologia ou uma religião, é informação para a saúde, é promoção da saúde pública, e é enquanto tal um direito dos cidadãos. Pré-adolescentes ou recém-adolescentes (a poucos anos em média de iniciar a vida sexual… interactiva), também são cidadãos, e têm que receber esta informação. O direitos e interesses dos jovens numa coisa fundamental para sua auto-determinação pessoal e para a sua saúde e projecto de vida, não podem aqui, num estado laico, democrático e racionalista, perder para a religião, ou ideologia, dos pais - pelo mesmo motivo que as testemunhas de jeová não podem impedir os filhos de receber sangue quando isso é essencial, nem podemos sequer proibir o ensino dos episódios históricos que nos desagradam, por exemplo..
Mas aqui a questão nem se põe: é na televisão, são crianças e, na casa delas, evidentemente cabe aos pais escolher o que eles vêem ou não. O que não cabe aos pais é querer impingir os seus filtros a todos os outros.
Epicuro, that’s the spirit - the good one, of course!
Idealmente, é isso mesmo: tirando casos de coisas que achamos demasiado violentas - traumaticamente violentas - sou a favor de ver todo o tipo de coisas com os putos e discuti-las com eles. Mas - lá está - se calhar há pessoas a quem este filme parece traumatizante. Fair enough. Desliguem a televisão. É o que eu faço a maior parte do tempo.
Questão lateral: Iosephus e Xico, de acordo, nem toda a Igreja, “crentes de base” incluídos, é ou se faz de mentecapta no que respeita ao corpo, à sexualidade e à família. Sei bem que não. Mas hão de convir, os que são (ou repito, se fazem) são demasiado visíveis e demasiado influentes na “coisa pública”. É difícil não criar alguma má-vontade. No offense intended.
(desculpem a tagarelice, ups, hoje esmerei-me)
Não creio que se deva educar uma criança a valorizar o prazer como uma coisa intrinsecamente boa, porque o prazer não é intrinsecamente bom. Por exemplo, ninguém diria que o prazer que um violador sente é bom. Logo, o valor e o prazer não são irredutíveis um ao outro, nem pertencem exactamente à mesma esfera de realidade. Por outro lado, há desprazeres e sacrifícios que também têm valor. Certamente, o Daniel não dirá à sua filha que os trabalhos que faz para lhe dar a ela uma vida melhor não têm valor, só porque requerem esforço e nem sempre dão prazer. Por muito que a tese pareça cristã, por muitas vezes que ela seja repetida nas missas dominicais, até entre os comunistas mais materialistas o desagradável esforço em prol da comunidade era considerado como um desprazer provido de valor.
O estado está a obrigar as crianças portuguesas a gramar com muitos professores que, a todo o custo, lhes impingem a tese de que o prazer e o valor são a mesma coisa, de que em momento ou circunstância alguma devem sentir culpa a respeito do prazer, mesmo quando este é de todo exagerado ou indevido. Fazem tudo isso como se o eudemonismo fosse a única forma boa de estar na vida, como se fosse aquela que trouxesse necessariamente mais felicidade ou como se não devesse ser nunca criticada pelas suas limitações. Porém, esta cegueira pode estar no âmago dos defeitos mais graves da educação actual. Aquela que é apresentada como a melhor de todas as educações está na origem de personalidades mimalhas, impacientes, viciadas, desesperadas, sem persistência, pessimistas, desesperadas e altamente depressivas. Enfim, a cegueira do modelo que o Daniel e o Bloco de Esquerda defendem tem geralmente os efeitos contrários daqueles que se pretende com uma boa educação.
Sinfonia, conseguiu dar o único exemplo em que o prazer pelo prazer não é legitimo. Só há um limite para o sexo: o outro querer e ter consciência para querer (ser um adulto). É o único. De resto, sim, o prazer vale pelo prazer.
“Luis, confesso que fiquei curioso. Afinal qual é essa sua visão de educação sexual?
É so mesmo para saber do que afinal falamos. ”
A minha visão de educação sexual incorpora valores, e tenho muito gosto em discuti-la consigo,quando quiser. Não a pretendo impor a ninguém. De qualquer forma, eu sou tolerante e acho que se há muitas visões de educação sexual, como existem, a RTP não deve é passar só uma. E se o Daniel fosse tolerante, também o acharia. O mal é que muitas pessoas só querem que a sua visão passe, e não querem que passe mais nenhuma. Isso não é tolerância nem democracia.
Cumprimentos
Luís
Daniel, não sejas populista.
Votei Não, vou ver o filme e acho que a ter qualidade deve ser transmitido.
Abraço.
“Imagine there’s no heaven…
And no religion too.”
De facto, não é aqui.
http://vozesdeburro.wordpress.com/
FuckItAll,
Afirma que a educação sexual não é uma ideologia ou uma religião. Não posso concordar com a ideia de que a informação não é uma ideologia. Faz parte da ideologia da informação defender ideologicamente que a informação não é ideológica. Podemos entender essa negação como uma astúcia da ideologia da informação, uma forma de fazer passar gato por lebre. Os cristãos faziam uma coisa parecida dizendo que no seu livro estava escrita a Palavra, a Verdade e a Vida. Você defende que a informação dá saúde pública.
A saúde pública é indiscutível, para si… É um dogma! Eu quero discuti-la. Posso? O senhor dá-me autorização para o fazer? Certamente, não me vai impor a mim o dogma da indiscutibilidade da saúde pública do mesmo modo que quer impor aos meus filhos a sua educação sexual… Por que é que a educação sexual dada pela família é contra a saúde pública? Em que é que a problematização familiar a respeito de conceitos éticos como o prazer, a fidelidade, a luxúria e o bem provoca problemas de saúde pública? Será que a fidelidade é uma doença venérea? Será o amor uma causa de abcessos? Será a ternura uma causa de desidratação? Se um investigador descobrir que paixão amorosa diminui a esperança média de vida ou que gera substâncias endógenas cancerígenas, o estado vai ter direito a proibir os meus filhos de se apaixonarem em nome da saúde pública? Se os católicos provarem que rezar faz bem à saúde, se os nacionalistas chegarem à conclusão que cantar o hino nacional faz bem aos pulmões, os meus filhos vão ter de obrigatoriamente rezar e cantar o hino na escola todos os dias? Afinal de contas, estariam a fazer apenas aquilo que a informação científica aconselharia a fazer.
Bom, vou directo ao assunto. Se você quer que os seus filhos tenham aulas de educação sexual, tudo bem eu não me oponho, nem peço que o estado pague uma disciplina alternativa para os meus filhos. Até penso que o estado deveria disponibilizar a disciplina em regime opcional, abrir institutos de investigação do prazer físico e da sexualidade. Agora aquilo que eu não quero é que o senhor, um partido político ou o estado obriguem os meus filhos a ter, contra a minha vontade, uma disciplina de educação sexual. Muito menos em função do dogma da científica e imaculada informação que promove a santíssima saúde pública. Esse é o seu dogma, a sua religião e a sua ideologia, não a minha! Fique com ela, faça bom proveito e deixe-me ser livre de educar os meus filhos consoante as minhas convicções!
Sinfonia do disparate consonante
“Não creio que se deva educar uma criança a valorizar o prazer como uma coisa intrinsecamente boa, porque o prazer não é intrinsecamente bom.”
Então o prazer é intrinsecamente mau? E exemplica a sua afirmação com o prazer que um violador tem? Então acha que a melhor forma de ilustrar a sua afirmação é ir buscar um comnportamento desviante? E o resto do seu comentário é uma justificação de que o prazer é mau, porque se fosse bom, a sua procura diminuia-nos face às dificuldades da vida?
Minha(Meu) cara(o) não me leve a mal, mas ou teve até agora tantas agruras na vida que a(o) impossibilitaram de saber o que é prazer (e nesse caso, não estando solidário consigo, talvez a(o) consiga compreender) , ou então a sua educação impôs-lhe tantos complexos de culpa, que sendo eu uma pessoa livre, é-me dificil compreender.
O prazer é uma das finalidades da vida. E, não me estou a referir sómente ao prazer sexual. Refiro-me também ao prazer de ler um bom livro, de ver um bom filme, de ter uma boa conversa, de ver o meu Sporting a ganhar, de concluír uma tarefa profissional com competência e orgulhar-me do resultado, etc, etc e tal. As dificuldades da vida são escolhos que temos de ultrapassar da melhor maneira possível e seguir em frente. Nada do que eu disse tem a ver com facilitismo, que é o que transparece da sua mensagem anti-prazer.
Peço-lhe desculpa se entrei um bocado no foro intímo, mas não me pude calar.
Excelentes os argumentos do “Disparate Consoante”. A vida deve ser de facto um vale de lágrimas, e não de lençóis. É atraves do sacrifício que o homem se alcandora aos cumes da beatitude (especialmente se esses sacrifícios forem impostos aos outros, não a nós, claro). Só quem passou fome sabe apreciar a boa mesa, e todos os jejuns de hoje são justificados pela promoção espiritual que amanhã recairá sobre nós, qual maná. O prazer físico não passa de um desperdício de energias, um potlatch sem objectivos, uma dissipação gratuita e criminosa de energia vital, que podis ser melhor empregue a matar inimigos, no Iraque, ou assim. Os amantes dão péssimos soldados, toda a gente sabe isso, e a nação não precisa de amor, precisa de gente disposta a sacrificar-se por ela no altar do bem comum. Portanto, make war, not love. Prazer não, sacrifício sim. Hedonistas, comprem um cilício!
Sinfonia do disparate consonante tem razao! Ja Karl Popper falava desses riscos…
Oh Daniel…que se tem passado na convençao do BE? Parece que afinal essa perfeiçao democratica partidaria não abrange todos os sectores do partido… Bem me parecia a mim estranho nao ouvir noticias sobre questoes internas do BE!!!
Daniel,
A direita é inconstável nas suas ideias. Na questão do aborto defendiam a educação sexual para manter o “direito à vida do fecto”, meses depois são contra os filmes de educação sexual para criança.
Ontem Nobre Guedes defendia o casamento entre pessoas do mesmo sexo, daqui a uns meses o partido do qual é vice-presidente estará a votar contra um qualquer diploma do BE ou da JS que viabilize este direito.
Saudações!
João Gomes
Já o disse noutro sítio, mas vou repeti-lo aqui porque a sensação voltou ao ler alguns destes comentários: sinto-me ridícula por ter que discutir este assunto. É que estamos a falar de um DIREITO das crianças e dos adolescentes, o DIREITO à educação (e à saúde, já agora).
Sinfonia, as considerações que tece e as conclusões que retira do comentário DA Fuckitall parecem-me apoiadas nas mesmas premissas que lhe permitiram concluir que A Fuckitall era um homem…
Ah, e a propósito de prazer, o exemplo que escolheu não foi o melhor, de facto. Parece que na situação que refere há uma alteração dos habituais mecanismos neurofisiológicos envolvidos na resposta emocional, estando essa resposta, neste particular, mais próxima da observada em situações de raiva.
Daniel,
não dei o único exemplo de prazer ilegítimo. Julgo não estar inteiramente enganado se disser que legalmente, ainda é proibido fazer sexo em locais públicos como os jardins, os cafés, as salas de aula, os infantários ou o hemiciclo da Assembleia da República. Julgo que há também limitações legais ao sexo fora do casamento sem o consentimento do cônjuge e, se não estou em erro, ainda não é permitido pelas leis portugueses a poligamia e o incesto. Julgo que todas estas ilegitimidades podem e devem ser discutidas. Sobretudo, tendo em conta o tédio que se vive na Assembleia da República…
O exemplo que eu dei, a violação, remete para o crime, para a ilegalidade, para a ilegitimidade. Mas ao referir esse exemplo, como pode ver na continuidade do texto, não me referi à vertente ilegal ou ilegítima do acto, não o apontei como um caso de polícia, tribunais e código penal. Referi-me apenas ao facto de ele ser um acto que habitualmente julgamos mau. E analisei uma relação entre duas coisas diferentes: o prazer e o valor. O prazer e o valor não são a mesma coisa, não têm a mesma identidade. Há coisas que dão prazer que podem ser boas ou más. O prazer não contém necessária e intrinsecamente na sua identidade o valor “bem” ou a determinação “bom”. Quer isto dizer que o prazer pode ser um sujeito de muitos predicados, entre eles o “bom” e o “mau”.
O prazer do violador é mau, tal como sugeriu, porque é uma violação cruel e desumana da liberdade de outro indivíduo. Mas há muitas outras situações de prazer que habitualmente julgamos más. Não há apenas uma como você autoritária e incautamente sugere. Por exemplo, o indivíduo que, sabendo ter uma doença infecto-contagiosa, não é sincero com o parceiro sexual e não toma qualquer medida de prevenção. O prazer que resulta de uma relação em que um dos parceiros engana afectivamente o outro. O prazer que se torna obcecação, que deixa de estar sujeito a qualquer controlo da vontade e que, pelos seus excessos, se torna um motivo de sofrimento para o indivíduo e para a família, ou seja, a dependência sexual que leva cada vez mais pessoas a procurar ajuda clínica. O prazer resultante da dependência de pornografia de que cada vez mais pessoas sofrem e que danifica significativamente as relações com parceiras reais – uma situação que tem vindo a ser detectada por psicólogos e psiquiatras.
Não vou dar mais exemplos, porque julgo já ter dado o número suficiente para refutar cabalmente a sua tese de que só há um único exemplo de prazer ilegítimo. Alias, formalmente seria muito fácil refutar a sua tese, uma vez que afirma que só há um prazer ilegítimo, bastar-me-ia acrescentar mais um exemplo para o desmentir. Mas o meu desmentido não é dessa natureza, é mais amplo. O que eu procurei fazer foi mostrar que prazer não é sinónimo de bem. Não só na sexualidade como se reparar em todas as outras coisas. Comer bem dá saúde e faz crescer, é bom. Comer em excesso, dá gordura, cansaço, perda de agilidade, dificuldade de concentração, ataques cardíacos, de onde se pode concluir que a gula talvez seja má.Beber uma bebida muito fresca num dia de calor é ao mesmo tempo agradável e mau para a garganta. E o que é dito aqui a respeito da comida e da bebida, poderia ser dito a respeito de todos os outros prazeres. O prazer não é intrinsecamente bom, porque tanto pode ser bom, como pode ser mau! É claro e note-se bem, que ao dizer isto não estou de modo nenhuma a dizer que o prazer é sinónimo de mau ou que o prazer é intrinsecamente mau. O prazer pode ser bom, muito bom, diria mesmo excelente e talvez uma das coisas mais reconfortantes que a vida pode ter.
É, por tudo aquilo que acabo de referir, que eu não gostaria que pessoas como o Daniel educassem os meus filhos. Eu até aceito que diga à sua filha que o “prazer vale pelo prazer”. É um disparate total, mas é a educação que você julga ser a melhor. Não é má vontade para consigo, mas com esta confusão em termos de conceitos tão simples e tão importantes como a não identificação necessária do prazer com o bem, como queria você ou os que estão na sua situação educar os meus filhos? Por que motivo é que lhes causa tanta repugnância que nestas matérias a educação seja dada pela família e não pelo estado? Porque é que não posso impor à sua filha “que o prazer e o valor não são a mesma coisa”, mas um professor com a sua visão das coisas possa impor a um filho meu que o “prazer vale pelo prazer” e dar-lhe uma má nota caso o meu filho discorde?
1o violino,
Tem razão, é preciso estar inconformado e antento para o modo perverso como o politicamente correcto fecha o debate público.
F. Gomes,
uma vez que não se coibiu de fazer comentários ridículos aos meus traumas psicológicos, permita-me fazer alguns comentários pertinentes às suas insuficiências intelectuais.
O F. Gomes é daquelas pessoas que ao ler num texto alguma coisa que possa ir contra o seu credo, se comporta imediatamente como uma donzela ofendida. Salta-lhe qualquer coisa no miolo e regurgita de imediato uma sinfonia de disparates ou um montinho de lugares comuns. A sua inteligência é de tal modo perturbada com tão pouco que perde a capacidade de discernir com clareza o que tem aí mesmo à frente dos olhos. Ao ver alguém afirmar que o prazer não é intrinsecamente bom e, e ao ver que essa pessoa dá um exemplo em que isso é negado pelo pensamento comum, você conclui estultamente que “o resto do seu comentário é uma justificação de que o prazer é mau”. Da afirmação de que o prazer não é intrinsecamente bom, você conclui com uma pergunta retórica que “o prazer é intrinsecamente mau?”
Se a sua capacidade de discernimento se mantivesse tranquila após ter lido o exemplo, teria lido também a conclusão dada na frase que se lhe segue: “Logo, o valor e o prazer não são irredutíveis um ao outro, nem pertencem exactamente à mesma esfera de realidade.” Mas como digo, se eu tenho um trauma psicológico, o senhor tem insuficiências intelectuais que justificam muitos dos esforços do plano nacional de leitura. Sabe, o “valor” de uma coisa tanto pode ser “bom” como “mau”, tanto pode ser “pouco” como “muito”. Pelo que ao dizer que o valor não pertence à mesma esfera da realidade que o prazer, ao dizer que um não é igual (irredutível) ao outro não estou a negar que o prazer seja “bom”. Estou sim a dizer que o “prazer” é um sujeito que tanto pode suportar o predicado “bom” como o predicado “mau”.
Mas até aqui só me referi às suas insuficiências mais elementares, agora passemos às mais preocupantes. Como dizia, o prazer tanto pode ser bom, como pode ser mau. Não se trata de uma questão apenas lógica ou gramatical, é a própria natureza das coisas. Se nesta fase da vida ainda não se apercebeu de que há prazeres que podem fazer mal, isso deve-se a uma enorme dificuldade de compreensão, já não do texto, mas da própria realidade! Se não consegue ver isso, nem sei bem o que lhe diga. Sei lá, tente abrir os olhos!
Uma vez que o senhor me considera traumatizado, amanhã mesmo vou procurar um psicólogo, um psiquiatra e um psicanalista para tratar do meu mal. Agradeço desde já a sua análise preliminar das minhas perturbações. Creio que para as suas insuficiências, o melhor talvez seja mesmo procurar um neurologista que lhe restitua a parte de cérebro em falta.
JMS,
as suas conclusões estão erradas. Das coisas que tenho escrito nos comentários a este post, não pode concluir que para mim “A vida deve ser de facto um vale de lágrimas, e não de lençóis.” Quando muito pode concluir que “a vida não é só um vale de lágrimas, nem só de um vale de lençóis.” Se eu dissesse que a vida só é um vale de lágrimas, os lençóis desmentir-me-iam; se eu dissesse que a vida é só um vale de lençóis, as lágrimas desmentir-me-iam. Se eu dissesse que a vida deve ser só um vale de lágrimas, ou só um vale de lençóis, o ânimo e o bom senso desmentir-me-iam. Se os seus óculos não se tivessem avariado no momento em que lia o meu texto, teria verificado que eu sou mais daqueles que dizem que na vida há lágrimas e lençóis.
A ideia que Daniel Oliveira tem da Religião e Moral Católicas deve datar da Idade Média.
Sou católica praticante (e não das mais progressistas)e nunca ouvi chamar pecado ao sexo nem ao prazer sexual.
Ana Matos Pires,
“…sinto-me ridícula por ter que discutir este assunto.” Tem bons motivos para se sentir. Eu, porém, não me sinto ridículo por discutir nem este, nem muitos outros assuntos.
Onde é que eu tratei FuckItAll como homem?
Se se referia a mim, não neguei o direito à educação sexual em lugar nenhum, neguei a obrigatoriedade da disciplina de educação sexual, assim como sou contra a obrigatoriedade da oração do terço nas escolas públicas. Não reconheço ao estado competências suficientes para educar os meus filhos nesta matéria. Não estou a impor a minha moral aos outros, mas parece que há por aí quem esteja disposto a impor a sua a todas as famílias portuguesas!
Isabel Coutinho,
desisti de comentar as apreciações teológicas do Daniel há muito tempo. Sou levado a pensar que o único lugar em que o Daniel ouviu falar vagamente do assunto foi no PCP. O BE parece ter ideias mais abertas…
Ao ler esta frase “O prazer não é intrinsecamente bom, porque tanto pode ser bom, como pode ser mau!” lembrei-me duma parte do “filme pornográfico para as criancinhas” que me despertou particular atenção. Falo da noção de “sentir não” e “sentir sim”, viu Sinfonia?
E sobre isto “O prazer resultante da dependência de pornografia de que cada vez mais pessoas sofrem e que danifica significativamente as relações com parceiras reais – uma situação que tem vindo a ser detectada por psicólogos e psiquiatras.”, mais uma vez escolhe mal o exemplo, não são os mecanismos corticais do prazer que estão em causa. Além disso estamos no domínio psicopatologia, ao qual não pertence, asseguro-lhe, a sexualidade saudável, gratificante e egossintónica, objectivo último da educação sexual, de resto.
Sinfonia,
Comecemos pelo mais simples. Aqui, por exemplo, tratou A Fuckitall no masculino, ou isto não foi escrito por si? “A saúde pública é indiscutível, para si… É um dogma! Eu quero discuti-la. Posso? O senhor dá-me autorização para o fazer?”. Vá lá confirmar, por favor.
Relativamente aos motivos que me levam a sentir seja o que for, no presente caso ridícula perante esta discussão, sou eu quem decide se são bons ou maus e se os tenho ou não. Vamos, portanto, fazer subir o nível da discussão, certo?
Ana Matos Pires,
A minha primeira intervenção neste debate dizia o seguinte:
“Por mim podem passar filmes sobre educação sexual à vontade. Não tenho nada contra. Porém, quando o Bloco de Esquerda começar a impingir a obrigatoriedade da educação sexual eu vou resistir.”
Não sou contra a exibição de filmes de educação sexual na televisão, nem os considero como “filme pornográfico para as criancinhas” – esta última expressão é sua, de resto nunca tinha ouvido falar em tal género cinematográfico.
Não sou contra a existência de educação sexual nas escolas. Muito pelo contrário, até defendo que deve existir a título opcional. Estarei apenas contra a educação sexual obrigatória!
Não vi o filme. Não sei em que contexto foram apresentadas as noções “prazer sim” e “prazer não”. Como nenhuma das noções vai de si e como não é evidente a relação entre elas e as questões por mim levantadas, peço-lhe que tenha a bondade ou a cortesia de me informar.
Quanto ao exemplo dado por mim, asseguro-lhe que é um bom exemplo de como o bem não é uma determinação intrínseca do prazer, assim como o castanho também não é uma característica intrínseca da cadeira, porque ela pode ser ou não ser castanha. Não fiz qualquer referência aos mecanismos corticais do prazer, isso é uma associação da sua inteira liberdade e que em nada confirma ou infirma a tese do carácter não intrínseco do bem e do mal no prazer.
Peço desculpa a FuckItAll por a ter tratado por “senhor”, quando na verdade se trata de uma senhora.
Afirma a senhora: “Relativamente aos motivos que me levam a sentir seja o que for, no presente caso ridícula perante esta discussão, sou eu quem decide se são bons ou maus e se os tenho ou não.” A senhora tinha decidido que se sentia ridícula e eu estou inteiramente de acordo consigo, ou seja, também julgo que tem bons motivos para se sentir ridícula. Não a contrariei quanto a isto, temos a mesmo opinião, razão pela qual não percebo a sua insistência nesta questão.
Também sou de acordo que melhoremos a discussão. Para isso permita-me dar-lhe uma sugestão: escreva qualquer coisa com mais garra e com mais sentido.
Pode interessar a alguém saber do q se fala e, nesse caso, podem ver o filme aqui:
http://apdeites2.cedilha.net/?p=495
Explique-me lá, sinfonia, porque é que a educação sexual há-de ser monopólio da família. Porque não aplicar a mesma lógica a outras áreas do saber, como a matemática ou a história? Quando vejo os manuais de História que infligem aos alunos do 8º e 9º ano, começo a recear pela formação do meu sobrinho, que se arrisca a sair da escola com uma visão algo parcial da História. Que devo fazer, proibi-lo de assitir às aulas de História?
O seu problema, sinfonia, é que para si a História não tem implicações morais, enquanto que o sexo as tem… Ora, eu penso exactamente o contrário. Mas isso é porque não há em mim um átomo de catolicismo. A associação entre sexo e moral não é filosófica, nem muito menos científica, é apenas um disparate de origem religiosa. Não há nenhuma ligação intrinseca entre sexo e moralidade, tal como não o há entre, sei lá, futebol e moral. A moral só entra na equação a partir do momento em que eu, como jogador, opto por jogar de forma violenta ou sem fair-play. O mesmo vale para o sexo. O sexo só entra na esfera moral quando envolve práticas criminosas, como a pedofilia ou a violação. Até aí, é um acto tão moral ou imoral como coçar as costas ou apertar os cordões dos sapatos.
JMS,
“… não há em mim um átomo de catolicismo”. Logo, se o catolicismo defender “make love, not war” ou “não matarás”, só para impedir que algum átomo o invada num mau momento, vai defender “make war, not love” ou “eu matarei”!
“O seu problema, sinfonia, é que para si a História não tem implicações morais…” Onde é que eu disse isso? Para mim, a disciplina de História tem fortes implicações morais, na matemática tem fortes implicações económicas, fiscais e políticas, daí que eu não compreenda por que motivo é que o estado tem o monopólio destas disciplinas. De acordo com a actual legislação, uma família não pode impedir os filhos de assistir às aulas de história, nem mesmo que em troca pague a um preceptor de elite para ensinar um programa de acordo com os princípios da família. Igualmente para a matemática e restantes disciplinas. A liberdade máxima que a família pode ter é a de pagar a um estabelecimento de ensino privado que esteja em maior conformidade com a sua visão das coisas, a um preceptor ou explicador durante o tempo livre em que não está num estabelecimento de ensino tutelado pelo ministério da educação.
“A associação entre sexo e moral não é filosófica, nem muito menos científica, é apenas um disparate de origem religiosa.” Claro JMS, na Idade Média é que as coisas eram assim. As pessoas de hoje são mais científicas. Já nascem com a filosofia natural a correr no sangue. Bebem aulas de física quântica no leite e arrotam-nas em com uma baforada de cálculo integral. É por isso que se a esposa gostar de fazer sexo com toda a vizinhança e arredores, entenda-se com “fair-play” e sem atentar contra a saúde pública, o marido filósofo, esse puro cientista sem um átomo de religião, contempla a cópula com a mesma indiferença científica e filosófica com que verifica a existência das pedras e das correntes de ar. Se por acaso num momento excepcional se sentir chateado com o fenómeno é porque, então, ainda terá recalcado algum átomo de disparate religioso. Motivo pelo qual terá de se libertar urgentemente dele, sei lá fazendo palavras cruzadas com o som de fundo dos gemidos da esposa, ou então escrevendo hinos à neutralidade científica enquanto a esposa grita matematicamente por mais e mais… Tudo isto, porque “não há nenhuma ligação intrínseca entre sexo e moralidade…”
Nos nossos dias ainda há filósofos, juristas e cientistas ateus que falam das relações entre sexo e moral. Mas isso é apenas porque estão desactualizados, porque ainda vivem na Idade das Trevas, porque têm átomos religiosos a circular no cérebro, porque não lêem blogues como o Arrastão, nem lêem os textos da maior autoridade universal sobre o assunto: JMS!
No entanto, apesar de o prazer não ser intrinsecamente nem bom, nem mau, há uma relação intrínseca entre o prazer e a ética; entre a ciência e a moral; entre a filosofia e a moral.
Você confunde tudo, Sinfonia. Deixe-me só lembrar-lhe duas coisas. Quando digo que não sou CATÓLICO, não estou a dizer que alijei toda a moral a moral CRISTÃ. E o facto de aceitar alguns preceitos da moral cristã, não me obriga a aceitar tudo em bloco, acho eu. Pois não assinei nenhum contrato com ninguém.
o seu argumento “se a esposa gostar de fazer sexo com toda a vizinhança e arredores,etc” falha o alvo. A questão moral, aí, não tem a ver com sexo. Tem a ver com a quebra de um contrato. Se o contrato estipulasse o contrário, ou seja: “só caso contigo se fizeres sexo com toda a vizinhança” o parceiro fiel estaria ser desonesto e desleal, por quebrar a promessa que fizera. Não tenho tempo para lhe explicar estas nuances em detalhe, mas penso que é bastante claro. Não?
“Nos nossos dias ainda há filósofos, juristas e cientistas ateus que falam das relações entre sexo e moral”
Homem, eu também falo de Deus e não acredito nele. Falo em duendes e Shresks sem que algum vez tenha postos os olhos num. O que os filósofos debatem ou deixam de debater não prova a existência de seja o que for. Os filósofos passaram dois mil anos a brincar a uma coisa chamada metafísica, até que Nietzsche chegou e, com um pontapé, deitou tudo abaixo. Filósofos, bah!
Mas devo louvar-lhe pelo menos a coerência, Sinfonia, já que contesta o monopólio do estado não só na educaçao sexual mas também nas demais disciplinas. Interpretei-o mal. Pensei que era a educação sexual que o afligia. Contra esse monopólio da educação pelo estado, também eu sou. A nossa divergência é na imputação de valores morais, “a coisas que não têm moral nenhuma”, como diz o Pessoa.
JMS,
O pontapé de Nietzsche na metafísica foi também ele um acto integralmente metafísico. Depois do pontapé, Nietzsche não só continuou a brincar à metafísica, como também a sua vida foi metafísica. A negação da metafísica é sempre uma acção metafísica, motivo pelo qual, depois de Nietzsche, tanto os filósofos como os não-filósofos ou continuaram a brincar à metafísica ou, então, continuaram a brincar à metafísica. Quando escrevo isto, não estou a escrever nenhuma nuance, é mesmo assim. Para nós humanos a metafísica ou é, ou é.
A sua afirmação “quando digo que não sou CATÓLICO, não estou a dizer que alijei toda a moral a moral CRISTÔ contradiz a sua outra afirmação “… não há em mim um átomo de catolicismo”. A forma pretérita do verbo “alijar” pressupõe que já teve uma moral católica de que entretanto se aliviou, mas não na totalidade. Ora, se ainda mantém alguma moral católica, não pode dizer que não há em si um único átomo católico. Que eu saiba, nem mesmo Nietzsche deu um pontapé na lógica aristotélica.
O contrato “só caso contigo se fizeres sexo com toda a vizinhança” é uma contradição conceptual. O conceito “casamento” e o conceito “fazer sexo com toda a vizinhança” excluem-se um ao outro. Você dá mais pontapés na lógica do que Nietzsche na metafísica.
JMS afirma “o seu argumento “se a esposa gostar de fazer sexo com toda a vizinhança e arredores,etc” falha o alvo.” Esta sua afirmação está inteiramente errada. O argumento é bom, porque ridiculariza com a sua ideia de que a relação entre a moralidade e a sexualidade não existe e de que é apenas um disparate da religião. Além disso, brinca com a sua ingenuidade a respeito da ciência, porque mostra que o cientista não é nunca totalmente alheio a considerações morais. Pode errar, pode falhar, pode ser mau; pode até negar cientificamente negar a existência da relação entre a moralidade e a sexualidade, mas em última instância afirmará com as suas acções, aquilo que nega com as suas teorias.
JMS, caso não se tenha apercebido, já fez xeque-mate a si mesmo há algum tempo. E não foi pelos absurdos que acabo de expor, mas apenas pelo absurdo que se segue. A sua argumentação autodestruiu-se. A moralidade é uma característica intrínseca da educação, logo se não houvesse nenhuma relação entre moralidade e sexualidade, não haveria qualquer necessidade de educação sexual! Tem de optar, ou afirma que deve haver educação sexual, porque há uma relação entre moralidade e sexualidade. Ou, então, afirma que não deve haver educação sexual, porque não existe relação entre moralidade e sexualidade. Como já ficou claro que existe uma tal relação faz sentido falar de educação sexual, mas não faz qualquer sentido impor a moral sexual. Ainda para mais, porque esta imposição seria violenta e sem “fair-play”, quer isto dizer que nos seus próprios termos seria uma imposição imoral.
Sinfonia,
Eu tendo a separar, se calhar abusivamente, o cristianismo do catolicismo. O cristianismo associa-o à moral pregada por Cristo, o catolicismo ao sistema metafísico elaborado pelos padres da igreja. Por isso, embora considere legítimos muitos dos preceitos cristãos, rejeito em bloco a metafísica católica, com a sua dualidade carne-má/espírito-bom. As ideias católicas acerca do sexo e do prazer derivam todas da incomodidade que o mundo material sempre provocou a quem acredita que “nós não somos deste mundo” e que o corpo é o cárcere do espírito e demais blá-blá de origem platónica. O desprezo pelo corpo, indutor de sentimentos de culpa em relação ao sexo, vem de longe, e se não foi a Igreja que o inventou, foi ela quem mais estragos produziu. A associação da moral com o acto sexual deriva daí. Para mim, essa associação é apenas um preconceito, e de resto o Sinfonia há-de reconhecer que toda a moral é convencional e que os filósofos não produzem ciência, produzem ideologias ou metáforas.
“O contrato “só caso contigo se fizeres sexo com toda a vizinhança” é uma contradição conceptual. O conceito “casamento, etc”
Não vejo onde está a contradição intelectual. A forma do contrato a que chamamos “casamento” podia perfeitamente estipular a promiscuidade. Não deixaria por isso de ser um contrato.
“A moralidade é uma característica intrínseca da educação, logo se não houvesse nenhuma relação entre moralidade e sexualidade, não haveria qualquer necessidade de educação sexual!”
Errado, meu caro. Que a moralidade é intrínseca à educação, não discuto. Mas se a educação sexual é necessária, isso nada tem a ver com razões morais, mas apenas médicas. A disciplina de educação sexual há-de servir para elucidar acerca dos perigos ligados à sexualidade, mas esses perigos não são morais, têm mais a ver com gravidezes indesejadas, doenças, ou até com aspectos de técnica e performance, if you know what I mean.
Portanto, não é verdade que eu “tenha que optar”, se para mim a necessidade de educ, sexual se prende sobretudo com aspectos médicos e sanitários e não reconheço a tal relação entre moralidade e sexualidade.
Por outro lado, também não me choca a ideia de que uma eventual disciplina de educ. sexual nas escolas seja apenas opcional. De resto, a minha questão nem sequer foi essa, desde o início, foi apenas a sua abusiva, e a meu ver falsa, equação sexo/moral.
“Eu tendo a separar, se calhar abusivamente, o cristianismo do catolicismo. O cristianismo associa-o à moral pregada por Cristo, o catolicismo ao sistema metafísico elaborado pelos padres da igreja.”
Sim, é realmente abusivo. Ou não estudou suficientemente a bíblia, ou não estudou suficientemente os padres da igreja. O mais certo é que não tenha estudado de modo suficiente nem um, nem outro.
“…toda a moral é convencional…” Se toda a moral é convencional, tente instaurar uma comunidade em que dar e receber pauladas alegremente seja o acto supremo da mais perfeita bondade. Se de seguida um vizinho lhe der umas boas pauladas, tente explicar a Platão, de um modo convincente, que o espírito não está encarcerado no corpo.
“…os filósofos não produzem ciência, produzem ideologias ou metáforas.” Não é líquido que os filósofos produzam ideologia, nem é líquido que não produzam ciência. Mas possivelmente uma análise séria das coisas poderia levar a pensar que a ideologia, a ciência e a filosofia só produzem metáforas. Porém, esta discussão do que é capaz cada uma destas formas de desempenho intelectual não faz sentido nesta caixa de comentários e em última instância poderia levar-nos a perceber que a ciência não passa de uma outra forma de poesia ou religião.
“Não vejo onde está a contradição intelectual. A forma do contrato a que chamamos “casamento” podia perfeitamente estipular a promiscuidade. Não deixaria por isso de ser um contrato.”
Seria um contrato, mas não de casamento. Seria tão contraditório estabelecer um contrato de casamento que estipulasse a promiscuidade, como um contrato de promiscuidade que proibisse todo e qualquer tipo de contacto sexual.
“Errado, meu caro.”
Engana-se novamente. Uma vez mais tem de ultrapassar várias confusões para poder falar acertadamente. Se é para ensinar o sistema reprodutivo e as doenças a que ele está sujeito, então não é preciso uma disciplina de “educação sexual”. Quando muito disciplinas de biologia e saúde. Ora, essas já existem!
A educação sexual não está a ser pedida por motivos de saúde pública. A generalidade dos defensores da disciplina, defende a pés juntos que a sexualidade é muito mais ampla do que os actos sexuais. É isso que verdadeiramente os interessa: a esfera da moralidade sexual e não a esfera da saúde sexual. Aqueles que o fazem vêem nesta disciplina mais um instrumento de expansão do estado. É preciso dizer o que é e o que não é normal. É preciso que o estado possa politizar a sexualidade, definir o lícito e o ilícito, ou seja, aquilo que o senhor define como estando aquém e além do “fair-play”. No fundo, reduzir a coisa individual à coisa pública, reduzir a moral ao direito, fazer da intimidade do casal uma questão de saúde pública. O que tudo somado a mais não corresponde do que uma forma de garantir que o estado possa estar em todas as camas do país, isto é, que debaixo dos lençóis possa estar sempre a lei e a saúde pública (a este respeito leia a história da sexualidade de Foucault).
A animosidade que se gera em torno desta questão assume para muitos a forma de “nós as pessoas de mente aberta, sem preconceitos, anticatólicos, anticlericalistas, os verdadeiros acólitos do Maio de 68, que defendemos a disciplina de educação sexual, vamos travar uma batalha contra as mentes fechadas da Igreja”. Esta animosidade é a oportunidade que muitas pessoas como o senhor têm de se sentir modernos e progressistas. É uma forma elementar de o prender pelo orgulho e servir-se de si. Mas é ao mesmo tempo o dispositivo de que o estado se serve para estar na sua cama. A ideia de que o estado vai estar na cama dos cidadãos por intermédio do big brother é obsoleta. O estado é agora muito mais requintado, não precisa de tanto, ele vai estar lá, mas dentro da cabeça de cada um dos parceiros, dentro da sua cabeça, atrás dos seus olhos, com o seu consentimento e, sobretudo, com a sua bênção sacramental em obediência ao mandamento da imaculada saúde pública.
A melhor forma de o estado dominar é a de fazer crer ao indivíduo que ele não tem moral ou que toda a moral se reduz ao direito. A moral é o melhor ponto de apoio de que o indivíduo se pode servir para resistir ao estado – por isso, mataram Sócrates, a ironia põe a descoberto a imoralidade do estado, logo tem de ser envenenada. Se a moral não existir, se a sexualidade já não for uma questão de moral, se o prazer, o divertimento, a informação, a saúde, a filosofia e a ciência já não tiver nenhuma relação à moral e for apenas uma questão de saúde pública e direito, então os limites da sexualidade estão facilmente dominados pelo estado. Aí os heróis da mente aberta terão no interior da cabeça a mais eficaz das prisões. Ou dito de outro modo, o peixe morre pela boca.
P.s.: brevemente estarei ausente, a milhas, pelo que tenho de terminar a discussão aqui. Deixo-lhe apenas uma última nota. Se quer ser um homem realmente livre, o platonismo não é o seu inimigo.
Sinfonia,
Teria todo o gosto em ficar a discutir este assunto consigo até setembro, mas infelizmente o meu tempo não é muito.
Deixe-me só dizer-lhe que
se digo que “Toda a moral é convencional” é porque a axiologia não é uma ciência e é impossivel provar por a mais b que determinado comportamento é certo ou errado. Pode dizer-se apenas que é mais ou menos sensato, mais ou menos racional. Qualquer manual de ética lhe dirá o mesmo.
Mas não estou com isso a defender (seria absurdo) que nos devamos alhear das das questões morais. Ninguém defende isso, e o Estado, parece-me, menos que ninguém. De resto, a moral tanto pode ser vista como uma forma de resistência aos abusos do estado (como você defende), como pode ser vista como um meio de controle por parte do poder(como sempre aconteceu ao longo da história). Portanto, não me parece que a questão seja tão simples como você a põe. Em todo o caso, negar a imputação de valores morais ao sexo não é negar a moral.
Por fim, o seu receio de que o “estado possa politizar a sexualidade” não tem fundamento porque sexo é política, necessariamente, e não pode deixar de o ser. Claro que a política não se esgota nas atribuições do Estado. Mas também não é menos verdade que o estado politiza necessariamente, quer quando intervém, quer quando não intervém. Tanto se politiza legislando como não legislando.
Confesso que li (absolutamente) na diagonal esta sequência de “comentários”. E, portanto, na diagonal me parece que muito pouca gente viu o filme; quanto mais não seja por uma questão de decoro intelectual, seria talvez útil ver o dito (mesmo se apenas e também na diagonal) e só depois emitir uma opinião. Mesmo que esta, ainda assim, tenha de ser transversal (ou enviesada).