Num sinal do desnorte com que alguns vivem os novos tempos, enquanto a guerra domina o quotidiano de tanta gente por esse mundo fora, este excelente anúncio da X Box (que está também Arte da Fuga) nunca foi para o ar porque, pelo que percebi da pouca informação que encontrei, foi visto como um apelo à violência.

Mas ao que parece o vídeo correu saudavelmente a Internet, mostrando como a censura ou a auto-censura (não percebi ainda) vale de pouco. E num flach mob vários estudantes de Otawa, repetindo o que já acontecera noutras cidades, reproduziram a cena. Pasme-se: foram suspensos por fazerem uma coisa a que eu dediquei parte razoável da minha infância: matar gente com os dedos esticados. Em baixo, pode ver dois flash mobs idênticos, numa universidade da Florida, nos Estados Unidos, e num centro comercial de Gdansk, na Polónia. Têm-se repetido um pouco por todo lado.

No Reino Unido outro anúncio à X Box foi banido para evitar condução perigosa. A decisão foi da Advertising Standards Authority.

Demasiada gente se convenceu que o ser humano perdeu subitamente a capacidade de distinguir ficção de realidade. E os censores estão por todo lado, sempre prontos para nos defender de nós próprios. E nem se apercebem como é inútil. Como tudo está diferente.


Sem respostas ao post “Com o dedo não, que é feio”  

  1. 1 1  Diogo

    Mas não os incomoda muito o «shoot to kill» de determinadas polícias, tanto em Nova Orleães depois do Katrina, como em Inglaterra depois do 7 de Julho.

  2. 2 2  Pedro

    O Mundo está parvo!

  3. 3 3  leprechaun

    Muito interessante esse tal “flash mobbing” de que eu nunca tinha ouvido falar! E que não apenas me parece inteiramente inofensivo, como até saudavelmente divertido, diria!!!

    Aliás, é isso que também comentam os envolvidos no tal caso de Otawa.

    Hummm… tenho só uma recordação muito vaga de ter talvez brincado a algo parecido, tipo “polícias e ladrões” ou “cowboys e índios”. Mas é um facto que nunca me interessei sequer pela simulação da violência, logo…

    Mas não compreendo qual a possível justificação que possa haver para a repressão de algo que se me afigura inteiramente inócuo. Além do mais, os participantes até parecem ser todos adultos e ‘inda que até fossem crianças… where’s the problem?!

    Ah well… May be too much thinking and too less feeling…

    Rui leprechaun

    (…for the world is a-reeling!!! :))

  4. 4 4  FuckItAll

    Mais uma vez, são a ficção, a fantasia e a criatividade a pagar a factura das realidades e das nossas más consciências sobre elas…

  5. 5 5  radiomafia

    há por aí uns puristas, armados em psicologos, que julgam as pessoas burras…

  6. 6 6  FuckItAll

    Já agora, vale a pena, por contraste, espreitar o vídeo deste post:
    http://coisasquenoschateiam.blogspot.com/2007/04/tarde-em-famlia.html#links

  7. 7 7  palhaçadas

    Daniel,
    estou-me borrifando para uma cambada de putos xarilas que anda por aí a esticar o dedo a meio mundo.
    Contudo, uma pergunta:
    achas que é absolutamente clara para toda a gente a diferença entre ficção e realidade?
    Alembra-me um programa que passava num conhecido canal generalista e que era uma espécie de ‘juíz decide’ versão ainda mais xunga. Por razões profissionais, contactei com alguns dos ‘figurantes especiais’ que participaram nessa bosta de programa e acredita que não era claro para a grande generalidade do público que aquelas histórias de faca e alguidar não passavam de ficção. Como também não é claro para uma data de gente que o Kleber é uma espécie de Nero alucinado num circo de actores. Por isso, não deixo de achar que é redutor remeter automaticamente todas as tentativas de reflexão sobre este assunto para o estigma da censura ou da auto-censura, como queiras. O ser humano não nasce a priori ensinado para perceber a lógica de funcionamento dos media. Ou achas que nasce?

  8. 8 8  l.rodrigues

    Confesso que sendo publicitário, jogador de jogos e psicólogo amador ainda não tenho uma opinião definida sobre estes assuntos.

    A lei proibe também que nos anuncios de automóveis não se incite à condução perigosa. Algumas marcas importam-se mais com isso do que outras, claro, porque cá a lei só se aplica quando calha…

    Depois de ver o que é possivel fazer com estimulos subliminais, não tenho a certeza de que seja tudo tão inócuo assim.

    Quanto á inteligência das pessoas… está a ver burrice do cidadão médio? Metade das pessoas são mais burras do que isso.

  9. 9 9  David Silva

    O coreano que matou as 33 pessoas na universidade é que levou o anúncio demasiado a sério… Os coreanos são assim, loucos por e com video-jogos.

    Seria de esperar que qualquer adolescente soubesse distinguir a realidade da ficção, mas, realmente, se olharmos bem, vemos que todos os cuidados são poucos

  10. 10 10  Jorge Rosa

    Está tudo paranóico, mas a paranóia já é bem antiga, pelo menos desde que começou a descobrir-se mensagens satânicas no «Highway to Heaven» tocado de trás para a frente. As proporções é que talvez sejam outras, como bem o provam alguns comentários imbecis a este post.
    A única relação provada entre os videojogos e «flash murders» como o da Virginia é que os gajos que «video-jogam» têm sempre melhor pontaria. (E agora os mesmos comentadores hão-de vir a correr dizer que eu não tenho respeito pelas vítimas o_O).

  11. 11 11  FuckItAll

    David, o massacre foi feito com armas a sério, não foi com dedos…

    O surreal é o cerco a encenações como a deste anúncio, ou à famigerada violência nos jogos, para depois se permitir que toda a gente tenha armas em casa (incluindo pessoas com evidentes perturbações mentais).

  12. 12 12  Vítor Pimenta

    Grande Post Daniel. Continuo a achar que o humor é a melhor forma de luto, e muito estamos mal quando qualquer coisa se torna um tabu humurístico. Abraço

  13. 13 13  Fragmentada

    Concordando ou não com o conteúdo do post há uma informãção que me parece importante dar neste espaço: aquando da guerra do Vietnam, soldados americanos estavam a morrer de forma dramática, isto porque não conseguiam chegar ao campo de batalha e disparar a matar. Descobriu-se que as pessoas que o conseguiam fazer sofriam, normalmente de perturbações do foro psiquiátrico. O exército americano criou então simuladores de guerra via jogos (os antecedentes dos actuais jogos de computador) e… Pasme-se!! O número de baixas americanas baixou drásticamente. A familiaridade com o contexto e a banalização da violência fizeram com que a capacidade de reacção no campo de batalha aumentasse. Imagine-se se tinha descoberto isto antes…

    Já agora, sabemos que, sobretudo as crianças tendem a imitar o que veem na TV e que, por exemplo, faleceram crianças a tentar imitar o comportamento de voo do super-homem, crianças que foram colocadas dentro da máquina de lavar roupa por outras crianças (imitando um anúncio de detergentes)…

    Por outro lado, psicólogos/as e psiquiatras têm muito muito cuidado em falarem em público ou na TV (por exemplo) acerca de suícidio e das suas motivações, exactamente porque pessoas com algum tipo de desiquílibrio (mesmo que momentâneo) tendem a imitar esse tipo de comportamento.

    Estes dados e outros apresentados pela literatura fazem-me pensar que há que, pelo menos, reflectir seriamente acerca dos conteúdos que são veiculados pelos Média.

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