Carta aberta à Entidade Reguladora da Comunicação Social
Existe um risco sério de disfuncionalidade e é preciso que não paire suspeita de conflito de interesses nessa actividade económica tão importante que é o jornalismo económico. Muitas decisões na economia são informadas por estes órgãos de comunicação social, e é necessário que esse input informativo seja fiável e não enviesado
Aliberdade de imprensa, a liberdade de associação e a liberdade de expressão são um bem público em democracia. No entanto, alguns acontecimentos recentes fazem-nos temer pela salubridade do espaço público que a todos afecta neste país, desde o consumidor de informação mais comum ao político legitimamente eleito.
Motiva-nos a estranheza face à envergadura, intensidade, duração e ênfase dada por alguns jornais ao evento Compromisso Portugal. Os consumidores de jornais económicos que abaixo assinam ficaram ainda desiludidos com o baixo nível de análise crítica verificada na reprodução da mensagem desse movimento. No nosso entender, existiu uma desproporção significativa entre a alta cobertura dada ao movimento e o baixo nível de novidade das posições veiculadas. Temos dúvidas como é que exclusivamente critérios jornalísticos podem explicar essas escolhas. E, na nossa interpretação, o que sucedeu em alguma imprensa foi um destaque inflacionado dado a este evento e uma reduzida dissecação crítica da mensagem propagada.
Houve ou não distorção nas prioridades jornalísticas por critérios não jornalísticos? A dúvida que importa esclarecer está relacionada com o facto de dirigentes empresariais tipicamente controlarem dois recursos-chave para o próprio negócio do jornalismo económico: 1) fontes de notícias, 2) fontes de publicidade. O jornalismo económico, tal como o jornalismo político, precisa de escrutínio e monitorização. Pensamos que a Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) pode ter um papel positivo nesta tarefa.
Não se trata, portanto, de levantar aqui uma insinuação. Trata-se de constatar um potencial problema. Existe um risco sério de disfuncionalidade e é preciso que não paire suspeita de conflito de interesses nessa actividade económica tão importante que é o jornalismo económico. Muitas decisões na economia são informadas por estes órgãos de comunicação social, e é necessário que esse input informativo seja fiável e não enviesado.
Admitimos que outros leitores poderão ter sentido a mesma estupefacção e é por isso que aqui partilhamos as preocupações e as dúvidas que já dirigimos à ERC.
Importa deixar claro que não é nossa intenção pôr em causa o direito à publicitação de opinião por certos sectores da sociedade ou lobbies económicos. Certamente outros economistas, empresários, gestores, juristas e engenheiros, como os que assinam este texto, têm também direito a ter opiniões igualmente ideológicas e não necessariamente convergentes com as desse movimento sobre a situação do país. Contudo, uma coisa é certa, para nós a transparência não tem preço.
Ana Costa (engenheira), Ana Silva (economista), Ana Garrido de Oliveira (jurista), André Botelho (engenheiro), António Marinho Pinto (jurista), Carlos Lourenço (economista), Constantino Ferreira (gestor), João Abel de Freitas (economista), João Ferreira (economista), José Augusto Ferreira da Silva (jurista), José Manuel Tavares (economista), José Reis (economista), Leonardo Rosado (engenheiro), M. A. Ismael (empresário), Manuel Mira Godinho (economista), Sandra Maximiano (economista), Sandro Mendonça (economista), Sílvia Mourão Bastos (empresária), Sónia Sousa Pereira (jurista)
Publicada hoje no jornal “Público”
Por Daniel Oliveira 27 Set 06 em Sem categoria


Carta idêntica poderia ter sido escrita, mutatis mutandis, pelos encarregados de investigação de processos mediáticos, em Portugal.
O problema é exactamente o mesmo e as deficiências apontadas exactamente as mesmas.
Há uma imprensa que manioula e desinforma ostensivamente e perante a complacência de quem deveria intervir, neste caso a ERC e os provedores que por aí vai havendo.
Quanto ao sindicalista de cachimbo, é dos melhores exemplos de corporativista que se pode apresentar.
Defensor dos interesses “da classe”…
do mal o menos, a reunião da seita no beato foi feita num espaço coberto.
é que as lixeiras a céu aberto estão de facto proibidas!
A resposta de Paulo Pinto Mascarenhas à vossa questão, no blogue da revista Atlântico, algures numa caixa de comentários a um post sobre Vital Moreira:
“estou entre os promotores, so what? Acho que escondo essa condição ou sequer que é incompatível com a prática de jornalista? Era só o que faltava que ser jornalista nos impedisse de exercer os nossos direitos cívicos, nomeadamente o direito à opinião ou à participação em iniciativas como o Compromisso.”