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Marcelo Caetano era praticamente um anti-fascista. Não fosse a PIDE, a Guerra Colonial, os militares, os europeus, os americanos, os russos, os africanos, os sindicatos, os comunistas, os socialistas, os liberais, os ultras e os portugueses e ele tinha dado a volta a isto. As suas posições publicas e responsabilidades politicas – incluindo o endurecer da repressão depois de promessas de abertura – são ditadas por elementos exteriores ao seu enorme coração. No fundo, o homem foi uma vítima da sua própria entrega ao país.

A versão humanizada da beatificação do último ditador português viria, pensei eu, com a entrevista à filha de Marcelo Caetano. Vi na RTPN. Enganei-me. Afinal foi só um chazinho entre tias. A-gra-da-bi-li-ssi-mo.

Fiquei a saber que o tio Marcelo era um querido, muito amigo do seu amigo e até muito liberal com a miudagem. E com discípulos que o adoravam. O pai do Rogeiro, o Rebelo de Sousa. E a Caetana até andou com Marcelinho Rebelo de Sousa ao colo. Foi o seu primeiro bebé. Lindo. Lá a casa só ia gente brilhante que depois tinha filhos brilhantes. Também lá aparecia o Diogo Freitas do Amaral mas isso agora não interessa para nada até porque ele nem era assim tão intimo.

E pobre, como era pobre e simples o tio Marcelo. Qualquer cama de madeira lhe servia. E queria fazer tanto por nós, o tio Marcelo. Na Mocidade Portuguesa, no Ultramar, na Câmara Corporativa, quis sempre o mesmo: o melhor para o seu povo. Quando chegou a Presidente do Conselho é que foi uma maçada. Não o deixavam mudar as coisas. Ele, por exemplo, odiava a guerra. Pensava nela todos os dias. Mas a guerra continuava.

E escrevia poemas lindos o tio Marcelo. Na entrevista, houve mesmo um momento dedicado à cultura, com a tia Caetana a ler-nos umas lindas quadras de autoria de seu pai. E contou-nos que ele ouvia os passarinhos da primavera quando se enamorou de sua mãe. Era um homem sensível, nada como esses brutamontes da António Maria Cardoso a quem ele, em mais um momento de coragem, mudou o nome.

Estava eu já com uma lágrima no cantinho do olho quando, pela voz da filha do senhor, ouvi: Marcelo Caetano não era como estas pessoas que agora estão na oposição e mudam quando chegam ao governo. Compreendo a revolta da filha de Marcelo. É que já nem há respeito pelos eleitores.


14 respostas ao post “Conversas em família: um chá com a tia Caetana”  

  1. 1 1  Pedro Santos Cardoso

    :-) Excelente

  2. 2 2  marco

    Eu diria que se trata de um post «a-gra-da-bi-lí-ssi-mo».;)

  3. 3 3  WR

    “A versão humanizada da beatificação do último ditador português” feita nos últimos dias é muito semelhante à que é feita de Che Guevara nas últimas décadas. É curioso observar que este tipo de “revisão” histórica funciona independentemente dos homens a que se refere, das ideologias que sustentam. O Daniel seria tão espirituoso a desmontar uma revisão de Che Guevara? Não quer tentar? Prometo ler atentamente. Entretanto, dou-lhe os meus parabéns por este texto.

  4. 4 4  Daniel Oliveira

    Sobre o Che, vejo que não me lê no Expresso e eu não o censuro. Ainda assim, o Che nunca foi chefe de Estado.

  5. 5 5  a.pacheco

    A filha extremosa dá um retrato idilico do pai.

    Certamente não vai dizer que abdicou de ter vida pessoal , por imposição do pai, pois precisava de uma senhora que o acompanhasse nas cerimonias oficiais.

    Não explicou como o pai extremoso, seraficamente ignorava os seus proprios amigos, quando estes a cada passo o incitavam a separar-se dos ultras do regime e a procurar caminhos nos sectores mais liberais.

    Não esplica que a vaga de prisões politicas de 73 , algumas atingindo filhos de pessoas que lhe estavam
    bastantes proximas, o sr Marcelo olimpicamente ignorou todos os pedidos dos familiares dos presos, dizendo que era assunto do Silva Pais.

    Não poderia dizer que o pai era uma raposa sinuosa, serafica, como aquele ar recalcado que as imagens das Conversas em Familia tambem retratam,que queria ter o poder, e que o desejava manter a qualquer preço….

    Mas o que querem Adolfo Hitler era amoroso para o seu cão de estimação, era carinhoso com as filhas de Goering que o tratavam familiarmente por tio Adolfo, o ter sido o chefe máximo dos nazis, e ter provocado uma hecatombe na Europa, não interessa, o cão se fosse entrevistado diria, o Adolfo é o melhor dono que eu poderia ter tido…

    Pois…..

  6. 6 6  António P. Castro

    Ana Maria Caetano é uma Senhora e deve ser respeitada como tal.
    Cabe-lhe defender a memória do pai, quem quer que este tenha sido.
    Todos gostaríamos de saber que será esse, no futuro, o comportamento dos nossos filhos.
    Penso que o Daniel também. Ou não?

  7. 7 7  e-konoklasta

    Saí deste país em 1970 e, assim, escapei às conversas de família do seráfico, recalcado, sucessor do “pai” ditador. Hoje, o estilo seráfico, não está na moda… usa-se o bronzeado e o branqueador dental… e, de facto, vai-se virando a casaca ou muda-se de alfaiate, até, coisa impensável há 35 anos, usa-se barba, pera ou melenas… muda-se o mundo, mudam-se as vontades… menos as vontades de se manter no poder…

  8. 8 8  Daniel Oliveira

    Sim, caro António, e por isso evito ser responsável pela a tortura e morte de pessoas. Sabe, o orgulho que os nossos filhos têm por nós não é coisa adquirida. Devemos fazer por o merecer. É, para quem é pais, talvez um dos mais estimulantes desafios e condicionantes éticos: como os nossos filhos nos verão no futuro.

    Acho, de qualquer das formas, natural que a filha de Marclo Caetano tenha uma visão distorcida do pai. Não é obrgação, é mesmo afecto. Por isso não acho especialmente interessante entrevista-la isoladamente, sem qualquer contexto histórico ou contraponto de testemunhos. A senhora não tem culpa, coitada.

    Quanto a ser uma Senhora não entendi. Não são todas as mulheres senhoras e todos os homens senhores?

  9. 9 9  LGN

    Estamos a viver tempos algo sinuosos,perigosos,e a tentativa de branquear ditadores vem de todo o lado…Entendamo-nos:Marcelo Caetano ensaiou, de facto, uma abertura do regime,mas foi ténue,e traduziu-se numa certa tolerância em relação á chamada Ala Liberal da Assembleia Nacional.
    Mas,tudo ficou na mesma:
    a censura,ainda que travestida de Exame Prévio;na rádio,por exemplo,continuaram seladas as mesmas faixas musicas de autores portugueses e estrangeiros,ou pura e simplesmente era proibida a compra de determinados discos,como o do poeta Jacques Brel,ou até de Bob Dylan.Que rica “abertura”!As operações militares na Guerra colonial intensificaram-se entre 68 e 73,designadamente na Guine e em Moçambique,com a Operação Nó Gordio e o horrível massacre de Wiriamu,em que mais de 600 civis foram mortos ou feridos ás mãos de uma unidade de elite,e na altura o Comandante Militar da região era o Gen.Kaulza que queria “limpar “ a província de Tete de “turras”.Ele que sempre minimizou este crime contra a humanidade.Tudo comprovado jornalisticamente e plo padre inglês Hastings e que deu origem a uma condenação e vexame do MNE português na ONU em1972.Vergonha! Caeteano que por isso foi vaiado em Londres e reagiu com arrogancia.
    Não foram libertados os presos políticos,continuaram a ser torturados os opositores do PCP,da CEUD,da Luar e independentes ás mãos da DGS;Caxias continuava a abarrotar de presos de consciência,incluindo jornalistas;
    que dizer também das “conversas em família”que não eram mais que um Big Brother orweliano que entrava pela casa das pessoas a destilar propaganda?.Nem Salazar usou assim a televisão…
    todos estes factos(e muitos outros) são históricos e de alguma forma eliminam qualquer tentativa de branqueamento de Marcelo Caetano.

  10. 10 10  luis nascimento

    :-))Excelento,acrecento eu,á Daniel!

  11. 11 11  a.pacheco

    Sr Antonio Castro concordo, a senhora deve ser respeitada, só que o que está em causa não é isso.

    Marcelo Caetano foi o último primeiro-ministro da ditadura, da sua acção como governante já dei a minha opinião.

    Eu não esperava que a filha de Caetano certamente uma pessoa bem educada, viesse dizer algo de bombastico, ou até de mau gosto sobre o pai.

    Eu não esperava que a filha de Caetano, viesse revalar algo que na sua óptica pudesse enlamear a memória do Pai.

    Mas quer ela queira ou não, com a sua entrevista, tentou branquear a memoria, do homem que toda a vida foi um apoiante e dirigente da ditadura.

    E por isso qual a utilidade desta entrevista.

    Porque a fez a RTP

    Qual é na realidade o seu objectivo….

    Perguntas para que não tenho uma resposta….

  12. 12 12  anónimo

    Marcello Caetano foi responsável pelo regime. Não restam dúvidas. Mas entregou o regime a quem o criticava. Ninguém quis pegar-lhe e fazer frente aos ultras. Depois quando a revolução lhes ofereceu o lugar correram todos prá mesa.

  13. 13 13  Daniel Oliveira

    anónimo, daqui a pouco devemos a liberdade a Marcelo. Sim, houve muitos que fizeram frente aos ultras. Marcelo mandava-os para a prisão.

  14. 14 14  orquidea

    Lutei pela democracia e sou filha única de preso politico, por isso tenho desde o berço lições dessa matéria. Marcelo, foi do anterior regime, mas foi embora, com uma atitude digna, e não mais voltou…pois foi muito acarinhado pelos brasileiros. O maior defeito dele foi estar com Salazar. Resta-nos saber como iria governar o país após a morte de Salazar…E como estamos agora??? Com Socrates temos a mentira diária, a fome, o desemprego, a falta de justiça, a falta de educação, a criminalidade, a falta de justiça social e o desespero!!! Onde vai parar o nosso país….

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