Não é achado de maior reconhecer que José Sócrates beneficia da fortuna histórica de suceder ao governo liderado por Santana Lopes. Ainda assim, creio que que este “dado genealógico” não tem sido suficientemente valorizado quando tentamos perceber, por exemplo, porque é que sucessivas evidências de embriaguez autoritária jamais resultam numa indignação generalizada da opinião pública. Veja-se a cavalgante perda de sensibilidade em relação ao que seja o respeito pela liberdade e pelo pluralismo de opinião enquanto bastião da democracia. Não fosse assim e a demissão de José Sócrates em resultado da sua “relação tempestuosa” com os media seria, naturalmente, a questão do dia. Não é.

É claro que nem tudo deve à bitola legada por Santana Lopes. Sócrates beneficia também dos seus contemporâneos mais relevantes: o descalabro do principal partido da oposição, por um lado, e, por outro, um jornalismo que nunca conseguiu cumprir o corajoso papel de denúncia sem levantar sérias questões de deontologia ou sem dar ar de senda persecutória: Jornal de Sexta, linha editorial de José Manuel Fernandes, affair Mário Crespo, escutas no Sol, etc.

Ainda assim, o facto é que em pouco tempo Santana Lopes conseguiu juntar à incompetência governativa – enquanto tecnocrata, gestor e  líder de governo, já não falo como decisor político – uma manifesta tentação autoritária bem sublinhada pelo caso da saída de Marcelo da TVI. Em contraste com Santana Lopes, Sócrates mostra uma óbvia competência governativa – enquanto tecnocrata, gestor e líder de governo -, tem os seus principais adversários públicos fundados em linhas deontológicas problemáticas, tem o principal partido da oposição convertido em anedota e, com tudo isto, a opinião pública portuguesa parece mais que disposta a perdoar-lhe os pecadilhos autoritários.

Nesta perda de sensibilidade jaz a semente de uma berlusconização em curso: na lealdade ao menor dos males, conforme historicamente definido por Santana Lopes, nenhuma forma de autocracia germina sem a disponibilidade prévia dos governados. Ou seja, a presente complacência com os sucessivos sinais exteriores de autoritarismo representa uma perda de sensibilidade democrática, mais: é um memorando do modo como os princípios democráticos dos governados tantas vezes têm capitulado perante as circunstâncias.

Publicado também em Avatares de um Desejo.


18 respostas ao post “Dadas as circunstâncias: política de buraco de fechadura”  

  1. 1 1  SILVA

    «Não fosse assim e a demissão de José Sócrates em resultado da sua “relação tempestuosa” com os media seria, naturalmente, a questão do dia.»
    E o que são os media? Uma entidade ética superior ou tão só o reflexo dos interesses dos grupos económicos e as opiniões dos seus jornalistas?
    E por que é que hão-de ser eles a marcar o ritmo da vida política do país? Julgam que Portugal é só Lisboa e a vida dos portugueses se resume à comunicação social?
    Estou farto de me apresentarem os jornalistas como a reserva ética do país, quando muitos não passam de escumalha.
    Quanto ao resto, concordo com o artigo.

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  2. 2 2  JMG

    “… um jornalismo que nunca conseguiu cumprir o corajoso papel de denúncia sem levantar sérias questões de deontologia ou sem dar ar de senda persecutória: Jornal de Sexta, linha editorial de José Manuel Fernandes, affair Mário Crespo, escutas no Sol, etc.”
    Ou seja, o jornalismo que denunciou Sócrates estava inquinado, não obstante ter razão; isento de vícios foi o jornalismo que nunca o denunciou. Persigne-se porque logo que o homem caia do cavalo todo o jornalismo aderirá à senda persecutória.

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  3. 3 3  Bolota

    Na politica:

    O caso Casa Pia foi cabala
    O caso Freeport foi conspiração
    A Face oculta é jornalismo de buraco de fechadura…

    Mas:
    Uma jornalista foi calada
    Um responsável máximo de televisão foi silenciado vamos dizer assim…
    Um director de jornal foi exonerado.
    Jornalista é apelidado e taralhoco, reage e quase que é cilindrado pelo sistema.
    Para alem de todas as tramóias e mais alguma que são evidentes no que se vai sabendo…um exemplo??? Os Penedos, os Varas e afins, estão em todas…por certo pura coincidência

    Desporto:

    Um Jogador bate num árbitro e é comentador
    Um Jogador bate no seleccionador e chega a Director
    Seleccionador agride jornalista e continua a sê-lo
    Atleta bate em director e nada…está tudo bem

    Resumindo: Depois destes elevadíssimos exemplo de carácter, achamos que os nossos jovem que formados nas base destas péssimas atitudes são do piorio…
    Se calhar até são…mas também são muitooooooooooooooo o meio em que são criados e o meio onde são criados é o que acima resumidamente se relata.

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  4. 4 4  cafc

    Tenho momentos em que só consigo escrevinhar a sério. Este, é um deles. E, como sou repetente nesta matéria, transcrevo excertos de uma canção:

    “Mais vale ser um cão raivoso
    Do que um carneiro
    A dizer que sim ao pastor
    O dia inteiro
    E a dar-lhe de lã e da carne e da vida
    E do traseiro
    Mais vale ser diferente do carneiro
    Um cão raivoso que sabe onde ferra
    Olhos atentos e patas na terra.(…)

    (…) Mais vale ser um cão raivoso
    Que um caranguejo
    Que avança e recua e depois
    Solta um bocejo
    E que quando fala só se ouve a garganta
    No gargarejo
    Mais vale não ser como o caranguejo
    Um cão raivoso que sabe onde ferra
    Olhos atentos e patas na terra. (…)”

    E, agora, uma canção completa:

    “Tem ratos
    Tem ratos
    Tem ratos
    Vivem escondidos
    Nos nossos sapatos.

    Tem ratos
    Vivem escondidos
    Nos nossos sapatos
    Roem-nos os dedos.

    Tem medos
    Tem medos
    Vivem escondidos
    Nos nossos segredos.”

    (À queima roupa – de Sérgio Godinho).

    E, assim, penso que transmiti o que penso.

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  5. 5 5  Antonio Cunha

    Nem Socrates é tão bom nem Santana é tão mau como so pintam. São igualzinhos.

    E ninguem me tira da ideia que as pessoas preferirarm votar novamente em Socrates, porque não havia um cadidado que fosse minimamente credivel. E aí a culpa é da Manela.

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  6. 6 6  miguel

    Gostei da sua análise e, em larga medida, concordo com o que diz.

    No entanto, julgo que não explora suficientemente o facto de as “denuncias” de Sócrates ocorrerem, sistemáticamente, em contextos de sanha perscutoria onde a deontologiajornalistica não mora. E explorando este aspecto resulta, para mim, uma pergunta e uma observação.

    Pergunto porquê? Porque é que nos últimos 5 anos nunca assistimos a um processo jornalistico que pareça ter origem num contexto equilibrado e rigoroso. è coincidência?

    Observo que existe um numero de pessoas que compreende que não assitimos aos “bons” contra o “mau”. Os “bons” não são. Têm ódios pessoais, mentem, insinuam, sujam, armam-se em vitimas. Manipulam.
    E quem assim observa tem de escolher entre o nosso Berlusconi, que sempre podemos “deseleger” e o poder que não conhecemos, não elegemos e não dominamos.
    Como bem dizia o Daniel Oliveira…antes o que conhecemos e elegemos.

    è aqui que estou. Quando me parecer garantido que o J M fernandes, o Moniz, a Manuela, o Crespo e o pequeno arquitecto, estão arrumados e não voltam mais…então eu vou gritar para correrem com o Sócrates.
    Até lá recuso-me a contribuir para a vitória (?) das hienas.

    miguel

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  7. 7 7  André

    se todos estes acontecimentos fossem possíveis com Santana Lopes, diriam que vivíamos numa ditadura fascista..contudo como é o PS damos sempre um desconto sem pensar e longe da razão.

    O que eu sei é que Santana Lopes era muito criticado pela sua vida privada (a que efectivamente nada temos a julgar) e José Sócrates é uma eterna vitima, pois não temos o direito de nos meter em assuntos que a maioria não entende..

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  8. 8 8  Maria**

    Pois é disso mesmo que se trata, Sócrates mete num chinelo todos esses politicos de pacotilha e de encomenda por medida que andaram a fazer de conta que governavam , enquanto permitiam que os amigalhaços andassem a gamar tudo o que havia.

    O problema é que os da pacotilha e os que andam no gamanço pertencem todos á mesma famelga e entre tios primos noivados e vizinhanças protegem-se uns aos outros como de costume.

    Depois juntam-se os cobardes e os tíbios,e estão feitas as alianças.

    [Responder]

    António Cunha Reply:

    Agora Maria, consegue dizer isso tudo sem se rir ?

    Por falar em primos. O primo que estava na China já voltou ?

    cafc Reply:

    Cara Maria**

    Tem todo o direito de defender Sócrates. Mas, se me permite, talvez devesse fazê-lo pela positiva, ou seja, salientar tudo o que entende que ele fez de bom para o País. Ao invés, “fala” dos outros que o antecederam. Vejamos:

    1- Do que escreveu, retenho a “famelga” (PSD, se estou a interpretar correctamente) e tudo o que a minha amiga lhe associa;
    2- Penso que devia ser mais cautelosa, porque:
    a) Sócrates fez a “instrução primária” nessa “famelga”. Depois, mudou de “estabelecimento de ensino” até ao grau universitário que “todos lhe reconhecem”;
    b) Só para citar um, Armando Vara não é dessa “famelga”, pois não?

    Por um momento, vou pensar que a minha amiga, ao escrever “famelga”, queria referir-se aos Partidos responsáveis pela governação do nosso País. Então, não podia tentar excluir o PS, pois não?

    “Depois juntam-se os cobardes e os tíbios, e estão feitas as alianças”.
    Como já me “obrigou” a uma interpretação do que escreveu, importa-se de explicar o sentido desta sua afirmação? De preferência e, como diz o nosso Povo, “chamando os bois pelos nomes”.

    Cumprimentos.

    Maria** Reply:

    António Cunha

    Só me rio quando quero, mas sim consigo dizer e escrever tudo o que escrevi e sem me rir , mas se me apetecer rir, rirei.
    Do muito do que encontro pela blogosfera e que não passa da mais triste ignorância , aliada á mais torpe das invejas ;)

    Maria** Reply:

    cafc

    Do que escrevi não retiro uma palavra, quanto ao que o meu caro escreveu é muito clara a minha resposta .

    Quanto a famelgas politicas , está bem de ver os que não perdoam a Sócrates que lhes tenha dado com os pés e os que não lhe perdoam que não se tenha decidido pelo partido deles -e claro aqui meto todas as oposições á direita e á esquerda que estão há que tempos VERGONHOSAMENTE aliadas no mesmo intuito.

    Do Vara sabe-se pouco quanto a culpas , quando se souber mais depois falamos.

    Em relação a tibios e demoas familia é o costume.Aliam ao medo de perder privilégios a mesquinhez e a cobardia

    .Por isso são o que são.

    cafc Reply:

    Cara Maria **

    Está a ver que continua a não mencionar o que Sócrates tem de bom, preferindo salientar as malfeitorias dos outros?
    O pior é que são todos “Feios, porcos e maus”, numa “diabólica caldeirada”. Sócrates, mesmo sem virtudes que lhe aponte, só pode ser “bom”, perante toda a “maldade” que o cerca.

    E, assim, a minha amiga corre o risco de ainda lançar o slogan “Sócrates forever”. Então, onde fica, para si, o PS? Não será mais importante do que os seus dirigentes temporários?

    Uma referência ao que a minha amiga escreveu sobre Vara. Demonstra o seu “estado de espírito”. É que as “culpas” deste senhor são idênticas às de outros arguidos. E, assim chegou, talvez inadvertidamente, à divisão entre arguidos “bons e maus”.

    Sabe, com certeza, que sou de esquerda. Não tenho a mínima pretensão de “destruír” o PS. Pelo contrário, considero-o um Partido essencial à democracia e à esquerda Portuguesas. Só desejo que o seja, APESAR de Socrates e do seu “núcleo duro”.

    Cumprimentos.

  9. 9 9  joaquim azevedo

    Pois, Bruno Sena Martins, tem razão. Por mim, o governo pode cair ontem e nem acho que esta seja a razão principal para tal.
    Enquanto todos nos divertimos muito a discutir escutas, Mário Crespo, TVI, José Manuel Fernandes, Vara, PT, BPN, BPP, orçamento das bananas da (Ma)Madeira etc, o desemprego aumenta, a prepotência patronal não tem limites e o povo trabalhador cai na pobreza.
    E as questões passam a ser estas: Então a miséria das classes trabalhadoras está aí à vista de todos e a malta passa o dia a escrever? Não se arranja nada melhor para combater a burguesia? Que tal convocar o Povo para a rua? Podemos contar com o Alegre ao nosso lado nesta luta contra o Capital? Ou será que já não pretendemos combater o Capital?

    [Responder]

    Bolota Reply:

    Que tal convocar o Povo para a rua? Completamente de acordo, para já, mas em Alegre.

    Povo , Povo , genuíno capaz de fazer merda sem olhar se fica bem ou mal no telejornal das 20.

    Deixe-me contar esta historia…sem ser velho não sou novo e como Alentejano rançoso que sou…tenho idade suficiente para me recordar da luta pelas 8 horas de trabalho.

    Ver agora tanto agiota montados no sistema a falar grosso, revolvem-se-me as miudezas, para não dizer outra coisa que depois é censurada.

    Somos uma cambada de borregossssssssssssssssssssssss é o que somos

    Nos tempos do meu Tio Missas, que não sabendo uma letra tamanho do castelo de Beja, tinha nas veias sangue Lusitano, muita desta paneleiragens…

  10. 10 10  Maria**

    Henrique monteiro:-
    “Por mim, contei o que sei.”
    -Não senhor; limitou-se a contar do que viu através do tal buraco .

    http://bit.ly/9137bn

    [Responder]

  11. 11 11  Maria**

    e como graças ao crespo, a tal cena do buraco continua;)

    e como nós os das direitas não conseguimos dar cabo de sócrates , vejam lá vocês os do partido socialista se conseguem.

    http://bit.ly/c8igrk

    [Responder]

  1. 1 Da série “Eu não diria melhor”.

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