Morreu Daniel Bensaïd, um dos principais intelectuais trotsquistas, idólogo e fundador da LCR francesa e um interessante estudioso do marxismo, especialmente dedicado a Walter Benjamim.

Recomendo a leitura de “The Return of Strategy” (versão portuguesa aqui), sobre a estratégia dos trotsquistas e a sua política de alianças no cenário de contrareforma em que vivemos nas últimas décadas. Texto que, curiosamente, lhe valeu algumas acusações de revisionismo, por supostamente Bensaïd não só considerar aceitável que revolucionários participem em “governos burgueses” como negar uma antinomia entre “reformas” e “revolução”, preferindo falar numa “dialéctica”. E é neste artigo de 2007 que acaba por definir as condições para a participação em soluções de poder transitórias.

O debate entre “reformistas” e “revolucionários” é um clássico que tende a transportar para o presente circunstâncias passadas e a cristalizar a análise política. Está por isso cheio de armadilhas e nem Bensaïd se livra delas. Como acredito que “reformas fortes” podem ser portadoras de “transformações revolucionárias”, e não orbigatoriamente numa lógica de transição para a superação definitiva do capitalismo, isso põe-me no campo dos aliados circunstanciais de Bensaïd, mas seguramente noutro campeonato. Ainda assim, este debate continua a ser central para esquerda marxista. Daniel Bensaïd regressou a ele de forma interessante. E uma coisa temos de reconhecer: quando comparados com as correntes estalinistas que ainda sobrevivem, agarradas a abortos ideológicos como o regime chinês e sem um sinal de pensamento crítico, os trostquistas mantêm vivacidade no debate. Com a morte de Bensaïd a esquerda (a dele, a minha e as outras) ficou mais pobre.

Deixo aqui um vídeo de uma entrevista integrada no documentário “Os Irredutíveis”, sobre 1968.


16 respostas ao post “Daniel Bensaïd (1946-2010)”  

  1. 1 1  Antonio Cunha

    Uma pessoa aparentemente inteligente que dedicou a sua vida a algo tão inutil.

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  2. 2 2  Rafeiro Danado

    O estalinismo todos sabemos o que foi e o que é, não há canalha mais transparente do que eles.
    Agora os trotsquistas… são falsos, dissimulados e traiçoeiros. Sei bem daquilo que falo, conheci alguns. Nem dados!

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  3. 3 3  xatoo

    este debate continua a ser central para a esquerda marxista “reformistas” e “revolucionários”, com o qual seguramente a fraca contribuição e os pruridos da Daniel de Oliveira não tem nada a ver – de facto instrumentaliza post-morten a figura, como faz correntemente qualquer oportunista burguês liberal (um alivio qd é mais um incómodo que se fina), porque, quando diz, citando: “reformas fortes” podem ser portadoras de “transformações revolucionárias (!) capitalistas isso põe-me no campo de aliados circunstanciais de Bensaïd não só por considerar aceitável que revolucionários participem em “governos burgueses” como negar uma antinomia entre reformas e revolução” (sublinho: negar uma antinomia)

    logo de seguida
    D.O. manda o conceito às urtigas e contradiz-se quando retoma e conclui com outra antinomia:
    “as correntes estalinistas que ainda sobrevivem, agarradas a abortos ideológicos” versus as “virtudes reformistas imaginadas por Trotski” – o que além de ser mentira, pq Trotski era tb um revolucionário e, como é evidente, não se poder extrapolar a partir das condições politicas da sua época para o presente.
    Afinal em que é que ficamos? – existe ou não antinomia entre abortos reformistas e práticas revolucionárias? ou este escrito é apenas mais uma das provocações bem ao estilo ping-pong do autor?

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  4. 4 4  viana

    Excelente artigo do Bensaid. Demonstra uma capacidade de reflexão crítica e compreensão da complexidade da realidade em que vivemos que não é claramente partilhada pelos seus críticos, presos a “escrituras sagradas” (de cuja interpretação exigem o monopólio) e a esquemas mentais simplistas.

    Lendo o artigo referenciado não acho que Bensaïd considerava aceitável que revolucionários participem em “governos burgueses” (nem sequer usa tal designação). Se estes significarem meros governos de gestão do Capitalismo. O que Bensaid considerava aceitável era que revolucionários participem em governos que aceitem introduzir medidas revolucionárias, mesmo que mantenham (provisoriamente) algumas das estruturas que sustentam o Capitalismo. A aceitação dum contínuo entre reforma e revolução depende antes de mais da crença de que é possível revolucionar a estrutura societal (ao longo dum período mais ou menos longo de tempo) sem que apareça um movimento contra-revolucionário violento.

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    Daniel Oliveira Reply:

    viana, a “acusação” não era minha.

    LAM Reply:

    Viana, “O que Bensaid considerava aceitável era que revolucionários participem em governos que aceitem introduzir medidas revolucionárias, mesmo que mantenham (provisoriamente) algumas das estruturas que sustentam o Capitalismo”.

    Pois é isso que dá pano para mangas e para fatos à medida à vontade do freguês. O que é bom, diga-se, porque não espartilha a esquerda a verdades absolutas ou colagem a experiências falhadas, mas implicando necessariamente outras tácticas e um grande sentido de leitura das circunstâncias.

  5. 5 5  LAM

    Este post vai ser pólvora na bloga. Vai vai.
    Bietan Jarrai! como dizem as sevilhanas.

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    xatoo Reply:

    não vai ser “êxito” porque se trata apenas de uma mera acção de spin D.O. e toca a passar à frente. O debate não interessa ao autor da boutade que não acrescenta nem diminui qualquer ponto em relação ao problema que estava em cima da mesa. E que é discutido, aí sim, no 5Dias

    LAM Reply:

    o problema é que no 5dias a coisa dá muita pedra partida, muita brita, mas invariavelmente não sai do mesmo sítio. Encalha nos Castoriadis nos Derrida e noutros escombros avulso.

    Renato Teixeira Reply:

    Já por aqui navega-se a todo o vapor…

    LAM Reply:

    Renato, tem dias. O que acontece aqui e que por vezes, claro, também acontece por lá, é que há objectivação dos caminhos escolhidos, ou defendidos. Por vezes de forma antagónica há, aqui e lá, quem consiga objectivar as suas escolhas não se ficando pelo infecundo fogo de artifício de estar contra o mundo apenas porque é contra o mundo, como me parecem a generalidade dos seus comentários e posts, por exemplo. Deixo-lhe dois exemplos que penso ilustram o que digo, exemplos antagónicos creio eu, de quem não se limita a mastigar e regurgitar os filósofos e as maleitas, antes conseguindo de forma polémica mas sustentada objectivar as suas escolhas:
    de D.O. http://arrastao.org/sem-categoria/viciados-na-derrota/
    de C.V. http://5dias.net/2010/01/12/que-se-lixe-o-casamento-e-que-se-f-o-voto-democratico-igualmente/

  6. 6 6  JV

    O DO podia dizer-me porque não publica os meus comentários definindo o que diferencia a revolução da reforma, nos quais digo que é «matematicamente» impossível passar destas àquela, porquanto estas aperfeiçoam o sistema dentro das quais são feitas, adaptam-no às suas contradições, e aquela é uma acção revolutiva que modifica a própria essência do sistema?

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    Daniel Oliveira Reply:

    Publico este para lhe responder: Porque recentemente disse que nunca mais publicaria nenhum comentário seu, por mais simpático que fosse. Lembra-se porquê, não lembra? “O Daniel é um boçalão vergonhoso e sujo, um provocador reles, um verme sem nome, um ser desprezível, a escória da humanidade…” Estamos esclarecidos? Ainda bem.

    Infelizmente, por engano, alguns comentários seus foram publicados por outros. Não era suposto.

  7. 7 7  Riça

    Blá, blá, blá… reformistas, revolucionários…. blogs, pseudo intelectuais com muito ego à mistura… E altruísmo e em vez de (só) tanta dialética, dedicarmos um pouco mais de nós às causas??? ah, já dói. Em casa a escrever é mais confortável…

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  2. 2 Zyprexa prescription.

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