
Sanaa
Sentado num banco corrido do suq peço um chá. Um velho à minha frente, que come uma espécie de guisado de galinha usando como talher o hohz (um pão fino e largo que é feito colando a massa à parede do forno) oferece-me um cigarro. Os iemenitas oferecem tudo.
O som de fundo é um “sermão” gravado em cassetes que são vendidas na rua. Logo se cala quando os muezzin começam a sua cantoria. Primeiro um, depois outro, depois outro. O chamamento para a oração toma conta de tudo. Só no perímetro de Sanaa Velha há quase uma centena de mesquitas, com os seus minaretes com altifalantes.
Vou a uma dos milhares de minúsculas lojas do suq para comprar um vestido tradicional que quero oferecer. Regateio e fico contente com o preço final. De certeza que estou a pagar mais do que devo, mas sabe-me a conquista. 1.300 reais, uma fortuna. Cinco euros e meio.
Vou ter com as minhas companhias de viagem para almoçar. Chegamos a uma “tasca” de bancos corridos. Apesar dos nossos pedidos para que não o faça, o patrão pede a um cliente que mude para outra mesa. Este obedece, feliz, olhando deslumbrado para as ocidentais. Quando estou com elas sou invisível.
Vamos a uma parte nova da cidade, que elas, há mais de um mês em Sanaa, não conhecem. Apanhamos um táxi colectivo. Há quarto tipos de transporte em Sanaa: autocarros, umas carripanas velhas deliciosas com direito a paragens fixas; táxis colectivos, umas pequenas carrinhas de nove lugares, que vão apanhando e largando pessoas, seguindo um caminho mais ou menos lógico; táxis, onde se tem de negociar o preço antes, podendo a variação entre o preço proposto e o aceite contar-se em muitas centenas de reais; e as motos, que ainda não ganhei coragem para experimentar.
O transito é caótico. Não quero ser injusto, mas acho que só vi dois semáforos em toda a capital. Os sentidos, as regras de transito, tudo é meramente indicativo. A buzina é a forma de comunicação e de expressão de sentimentos permanente.
No regresso – o que fomos ver não tem nada para contar – as lojas estão todas abertas. E assim ficarão ate à meia noite. Sobretudo os carpinteiros. Ainda chegamos a tempo de ver o pôr-do-sol no terraço da escola internacional de árabe, em Sanaa Velha. Nem consigo descrever as cores dos edifícios – que julgo serem de barro – e os efeitos de luz. À medida que anoitece as janelas das casas ficam coloridas quando as luzes das casas se acendem. Quase todas as casas têm vitrais. Jantamos ali mesmo, no terraço. Trouxe vinho. Uma garrafa. É permitido, a cada estrangeiro, trazer duas garrafas de álcool. Bebemos e sabe a pecado.
No dia seguinte partimos para o deserto de Hadhramout.
***
A camioneta é excelente. Melhor do que as portuguesas. Depois de transpormos as montanhas que cercam Sanaa, estamos na planície. Passamos por um mercado. Paragem. Os viajantes abastecem-se de qat, a droga de que vos falei antes. Um grupo rodeia-nos. Boquiabertos, olham para as minhas companheiras de viagem. São cada vez mais. Uma pequena multidão de mirones. Nem o excesso de roupa que elas usam, para o calor que está, os demove. Alguns fazem perguntas com o inglês que sabem. Tira-se uma fotografia, o que é sempre um momento de enorme excitação. Um deles, armado como tantos, exibe orgulhoso a sua kalashnikov. O motorista tenta-nos convencer a comprar qat.
A viagem continua. Terra primeiro. Depois areia fina e dunas. Depois calhaus pretos. Depois areia de novo. Oito horas assim. Passamos por imensos check points militares. Raramente nos mandam parar. A nossa camioneta é uma carreira normal, sem mais turistas do que nós.
Deserto de Hadhramout
Passamos por pequenas aldeias perdidas no deserto. Numa delas, almoçamos. Um restaurante e alguns camelos, nada mais. Uma placa manda ter cuidado com as minas que sobreviveram à Guerra entre o Iémen do Sul e o Iémen do Norte. O Iémen do Norte era islamista, implacável na aplicação da Sharia e aliado do Ocidente. O Iémen do Sul mais pobre, comunista e mais laico. Ainda se sentem as diferenças; dizem-me as minhas companheiras de viagem (eu ainda não fui ao sul) que por lá é mais frequente ver mulheres de cara destapada, uma raridade aqui pelo norte. Onde estou agora, na realidade, quase nem se vê mulheres.
Entramos num oásis, que é o nosso destino. Passamos por Shibam, um aglomerado de edifícios com uma media de oito andares, feitos, mais uma vez, julgo eu, em barro. Chamam-lhe a “Manhattan do deserto”. Arranha-céus de outros tempos. Continuamos a nossa viagem. Shibam ficará para outro dia. A nossa base será Seiyoun, a maior cidade das redondezas, dominada por um palácio onde viveu o sultão Al Kathire. São 16 edifícios brancos e imponentes, que mais tarde foram transformados em forte.
As ruas de Seiyoun estão cheias. No Iémen todo o dia é dia de feira. Iluminações “de natal” enfeitam as ruas. Foram postas para comemorar os 15 anos da unificação. Não há cidade que não esteja assim. O Presidente Saleh não olhou a despesas num pais miserável e tratou, na leva, de espalhar fotografias suas por todos os cantos do pais. Saleh de fato e gravata, Saleh de turbante, Saleh fardado, Saleh beijando crianças, Saleh indicando ao seu povo o caminho, Saleh para todos os gostos. O bigode de Saleh e omnipresente. Só consegue rivalizar com as fotografias do Xeque Yassin. Mas essas são escolha do povo, bem embaraçosa, por sinal, para um governo que alimenta uma profunda relação amorosa com Washington. O Hamas é bastante popular por estas bandas. E para a causa palestiniana os iemenitas, pobres ou ricos, inventam dinheiro para contribuir.
Depois de Seiyoun, iremos para Shibam. Depois a cidade portuária de Mukala. Por fim, a ilha de Socotra [Socotorá], quase na costa africana, mas ainda território iemenita. Disso falarei mais tarde. Agora passo a minha primeira manhã em Seiyoun, numa agradável esplanada de um jardim da cidade, onde bebo um batido de manga com groselha e um chá quente (tudo dulcíssimo, como sempre) enquanto uma silenciosa plateia nos observa. Não é, claro, em mim que estão interessados.
Publicado originalmente no Barnabé.
Por Daniel Oliveira 27 Mai 05 em Iémen: de Sanaa a Mukala, Sem categoria




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