© rabiscos vieira, ilustração originalmente publicada no número de fevereiro da revista LER
O Arrastão divulga hoje, data em que se celebra os 200 anos de Darwin, um artigo de Élio Sucena* sobre a importância de Darwin também publicado no esquerda.net, portal onde se pode encontrar também um artigo de Rui Curado Silva sobre o mesmo tema.
Muito se tem escrito e discutido sobre os limites e alcance, origem, desenvolvimentos e impactos, da teoria de evolução por selecção natural apresentada há 150 anos por Charles Darwin. Avaliar a importãncia de Darwin no pensamento ocidental não é tarefa fácil. Isto porque, porventura a ideia de evolução tal como a define Darwin, constituti a revolução/mudança de paradigma, mais transversal desde que a Terra deixara o centro do universo. Tal como a heresia heliocêntrica de Copérnico e Galileu, também a teoria evolutiva de Darwin, revê a ordem natural das coisas, o lugar da nossa espécie, o conceito de nós mesmos. Para ilustrar esse alcance da teoria darwiniana, essa transversalidade, essa redifinição, basta-nos pensar na forma como a sua substância enfrenta de uma só penada quase todos os dogmas e princípios-primeiros da Igreja. A nossa espécie não é essencialmente diferente das demais, e toda a vida está ligada não por uma vontade criadora divina, mas por um processo histórico com uma base biológica material.
Vejamos brevemente de que consiste a teoria de Darwin, de evolução por selecção natural.
A ideia de evolução não surge da pena de Darwin, desde a Grécia antiga a Lamarck que conceitos mais ou menos vagos de evolução tinham sido avançados. No entanto, Darwin é único porque consubstancia essa ideia de padrão, de árvore da vida, num processo criador: a selecção natural. Este processo implica que existam variações herdáveis entre indivíduos que estabeleçam diferenças na sua sobrevivência e taxa reprodutiva. Por outro lado, é importante realçar que estas diferenças dependem das condições ambientais e como tal não existem em absoluto formas melhores ou piores. Deste processo resulta que, para essas condições ambientais, os contributos para geração seguinte são diferentes de indivíduo para indivíduo e que com o tempo a população vai mudar a sua composição, com variantes menos adaptadas a perderem representatividade por oposição ao crescimento relativo da descendência de indivíduos melhor adaptados. Esta ideia é em grande parte construída por Darwin a partir da observação de espécies domesticadas. Dos cães ao milho, passando por todo o gado domesticado, os humanos alteraram drasticamente estas espécies, da morfologia ao comportamento. Este processo, de selecção artificial (por mão humana) é no fundo análogo ao processo que opera em condições naturais, em que o critério humano é substituído pelas condições ecológicas específicas em que vive cada organismo.
Mas voltando à ideia de variação, gostava de desenvolver aqui um aspecto que é na minha opinião uma das suas ideias mais revolucionárias: o lugar desse conceito na teoria darwiniana. As diferenças entre indivíduos são uma condição necessária ao processo evolutivo. Rompendo com a tradição essencialista na qual as diferenças entre indivíduos são desvios indesejados ao ideal definidor da espécie, Darwin coloca a ideia de variação no centro da sua teoria como matéria-prima para a adaptação às flutuações ambientais e base geradora das “tão belas e incontáveis formas” que nos rodeiam.
Esta forma de encarar a variação pode ser vista como eminentemente humanista. Até que ponto o humanismo de Darwin é determinante na elaboração da sua teoria, é difícil de estabelecer. No entanto, um recente livro publicado por dois dos mais reputados biógrafos de Darwin – “Darwin´s sacred cause de Adrian Desmond e James Moore – defende a tése de que as fortes convicções abolicionistas de Darwin terão sido determinantes para a sua teoria. A existência de uma só origem para a vida tem como consequência uma noção de irmandade entre as espécies, e em particular entre humanos, tornando a escravidão (também) um absurdo biológico. Uma passagem da “Viagem do Beagle” talvez levante um pouco o véu: “se a miséria dos nossos pobres não é devida a leis naturais mas sim às nossas instituições, quão grande é o nosso pecado!”.
Há no vastíssimo espólio epistolar e científico de Darwin, extraordinários trechos reveladores de um conhecimento e intuição invulgares da Natureza e suas leis, bem como das nossas sociedades e da nossa espécie. Por isso, qualquer que seja a nossa formação o prazer de ler Darwin é o da descoberta de uma mente em (quase) tudo à frente do seu tempo. Quanto à sua teoria e como é apanágio de qualquer teoria científica, ela sobrevive e sai reforçada de todos os testes por que passou ao longo do século e meio de vida. Ela própria evoluiu e continuará a evoluir, incorporando novos conhecimentos, tornando-se mais sofisticada e sólida, sendo que os seus conceitos fundadores se mantêm os mesmos tão válidos hoje como então. Essa validade revela-se na forma como explicou a diversidade dos tentilhões das Galápagos há 150 anos atrás, e hoje nos permite compreender, e tentar resolver, os problemas colocados por bactérias multi-resistentes nos hospitais. Essa é o garante de que a Evolução Darwiniana continuará a constituir o princípio unificador da biologia, e logo, do nosso entendimento da Vida.
*Élio Sucena é investigador em Biologia evolutiva e do desenvolvimento no Instituto de Ciência da Gulbenkian e professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
19 comentários 12 Fev 09 em Sem categoria




Epá acho que este post não é benvindo pela Igreja Católica!!
Acho que os crentes não devem votar nos partidos que defendem a doutrina do Darwin!!
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não seja idiota, sergio_alj. a Igreja aceita a teoria de darwin.
esta loucura com a Igreja a aconselhar ponderação no voto nos partidos que defendessem os casamentos de gays era mesmo o que queria o sócrates, para desviar a atenção da malta. e conseguiu.
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Na… a igreja católica, no que respeita a este assunto, faz de conta que não é nada com ela.
Consideram que os dois pontos de vista são conciliáveis e que a evolução é o mecanismo criado por Deus para dar origem à nossa existência.
Deus é, portanto, complicadinho, tortuoso e, ao contrário do que dizia Einstein, dado ao jogo.
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Epá, a igreja já revolucionou os conceitos de Adão e Eva. Essa metáfora bíblica foi perfeitamente adaptada à teoria Darwiana. Adão refere-se a homens e Eva a mulheres. Não entra em conflito com a teoria da evolução e selecção natural, apenas a simplifica de forma a facilitar a sua apreensão pelos crentes. Pelo menos foi o que disse o meu catequista e o padre da minha paróquia, no tempo em que a minha mãe me obrigava a ser fiel…
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grande élio, muito bem. beijinhos para o élio e para o daniel.
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Darwin é sem sombra de dúvida um dos maiores cientistas de todos os tempos. Mudou por completo o modo como olhamos para o mundo e para o universo.
Em relação à Igreja Católica, esta questão já está ultrapassada, até a Teoria das Cordas é aceite no processo de criação do Universo. Como diz o Stephen Hawking é completamente irrelevente o que existia antes do Universo pois o conceito de Tempo-Espaço só surge com o Universo, não existe este conceito sem o universo. Como católico e ex-investigador nunca tive problema de contradição.
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Obrigado, Sofia.
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Que gente atrasada e ignorante.
O problema de Darwin e da Igreja está resolvido desde os anos cinquenta e muitos cientistas padres comungam das mesmas ideias.
Quanto ao resto, talvez a leitura de Agostinho abrisse a cabeça de tanto ignorante.
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Esse sim ,foi um gajo com tomates.
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Talvez fosse bom a Administração da Fundação Gulbenkian convidar a Sarah Palin para visitar a exposição.
Melhor ainda seria ela fazer uma comunicação sobre o “Criacionismo”.
Este país tristonho tem uma necessidade urgente de rir.
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Umas quadras para…
O “pai” da moderna biologia
faz dois séculos de nascimento,
também para a geologia
incrementou o conhecimento.
Eu e o meu primo mexilhão
a ele estamos agradecidos,
com este espírito de inovação
ficamos todos engrandecidos!
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Para quem nao perde uma oportunidade pra bater na Igreja, para aqueles que acham que «nobody cares» e nao conseguem deixar de falar nela…
…”O Observatório Vaticano foi fundado em 1891 por Leão XIII para mostrar que “a Igreja e os seus pastores não se opõem à ciência autêntica e sólida, tanto humana como a divina, mas abraça-a, impulsiona-a e promove-a com a mais completa dedicação”.
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O que seria da Ciência se não fosse a Igreja…
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Eu sugiro a Leitura y aquisição do Livro de Stephen Jay Gould, ” A Vida Maravilhosa”. A única tradução é da Companhia da Letras.
Defende o Gradualismo Pontuado/ Pontilhado.
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Nao menosprezando o Stephen Jay Gould, aqui estou mais uma vez a sugerir a leitura daquele que e’ para mim a mais bem formulada e espantosamente clara “chave” para entender a Evolucao: The Selfish Gene, de Richard Dawkins.
, pelo menos tentar dar uma vista de olhos. Ouvimos falar na “teoria” da evolucao na escola, depois habituamo-nos a discuti-la e a apercebe-la nos programas de ciencia da televisao, lemos centenas de referencias e consequencias em muitos outros livros, mas julgo q
Tendo recentemente, e ao fim de alguns anos de adiamentos, lido e relido essa obra seminal (passe o cliche’), e’-me dificil nao embarcar numa especie de proselitismo e apregoar aos quatro ventos que qualquer pessoa de mente aberta DEVE, para seu proprio bem
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(dedos mais rapidos que o cerebro, sorry) dizia eu …julgo que muitos de nos nao entendem realmente o processo ate’ que alguem como o mr.Dawkins o explica. Mas isto se calhar sou eu que sou um grande murcon.
Feliz aniversario, sr. Darwin.
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A igreja, tirando as vezes em que mandou queimar os que tiveram a ousadia de usar a cabecita cientifica,tem-se portado menos mal .
Quanto ao resto , de vez em quando perde-se no discurso mas também isso que importância tem?
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Começo a querer acreditar que seria melhor ter sido deus a fazer bostada dq milh~es de anos de aprimorada evolução para dar nisto .
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Qualquer dia a Igreja vem e “crasha” o post acima e o esquerda.net e decide excomungar o dr. Louçã…
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