A facilidade com que discorremos sobre conversas privadas não deveria depender da uma persuasão pessoal em relação à veracidade das mesmas ou de um juízo sobre o grau de ilícito que comportam (aqui falo tanto de conversas ouvidas num restaurante como de escutas publicadas no youtube). Deveria depender, sim, de uma decisão pessoal em que cada qual optaria por validar o modo como determinada conversa privada pôde ser tornada pública, tirando consequências do seu conteúdo, ou optaria por recusar cumplicidade com aquilo que entende qualificar como atentado à privacidade de outrem, demitindo-se de a comentar. O facto é que a generalizada noção da existência de constrangimentos políticos à liberdade de expressão, a trivialidade das fugas ao segredo de justiça bem como o espectro de corrupções impunes deixam o comum opinador olimpicamente perdido entre princípios.

Publicado também em Avatares de um Desejo.


19 respostas ao post “Escutas”  

  1. 1 1  José Bastos

    PGR, PGR, PGR,
    Abafa as escutas e mai’nada
    O zeloso PGR

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  2. 2 2  Lisboeta

    A publicação destas escutas no YouTube poderá ser moral, política ou juridicamente incorrecta. Nesse aspecto até poderei concordar consigo. Mas concordaria ainda mais, se o Bruno tivesse a coragem de admitir que tudo isto teve o condão de pôr a nú a podridão que todos sabiam existir mas que ainda não estava provada à saciedade…

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    Bruno Sena Martins Reply:

    Admito, mas não me sinto mais confortável com o facto.

    Lisboeta Reply:

    Não imagina como eu compreendo o seu desconforto… ;-)

  3. 3 3  jpt

    Conversas escutadas num restaurante não são privadas. Ninguém violou a privacidade do PM ao ouvir o que ouviu.

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    Bruno Sena Martins Reply:

    Confesso que não tinha a exacta noção dos contornos da conversa, mas agora que mais elementos começam a ser revelados (http://aeiou.expresso.pt/socrates-queixou-se-de-crespo-a-director-da-sic=f561406) a questão da privacidade é realmente bem discutível.

  4. 4 4  Carlos Marques

    Os bons princípios têm que ter limites. O direito à indignação é superior. E quando temos em Portugal ainda muitas instituições que por virem do tempo da ditadura estão sempre à vontade em fazer fretes ao poder, tais como a RTP e a Justiça, o que resta ao cidadão comum se não fazer justiça pelas suas mãos, isto é, ostracizando e desprezando, ainda que em silêncio, aqueles que nenhum Tribunal nacional algum dia condenará.

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  5. 5 5  isagt

    O lixo pode tapar-se com os princípios, mas não é por isso que o mau cheiro desaparece.
    Os “princípios” já foram quebrados, por quem lá pôs o lixo.
    Deve-se respeitar quem se dá ao respeito.Neste País, há muito tempo que não se sabe, o que isso é.
    Sempre ouvi dizer que “quem com ferro mata, com ferro morre” ;-)

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  6. 6 6  Antonio Cunha

    Se a merda da justiça deste pais funcionasse, e principalmente se os políticos não vivessem nesta suposta impunidade não haveria necessidade de se fazer justiça popular.

    Isto chegou a um ponto que a única maneira de se fazer justiça é pondo a boca no trombone, porque Portugal é um pais onde NUNCA se condena ninguém graúdo. Somos um pais de impolutos.

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  7. 7 7  VAA

    Pois eu cá acho que tanto uns como os outros tem o direito à livre expressão. Uns tem o direito de manifestar a sua opinião, ainda que em público, seja ela qual for, e outros tem o direito de se indignar e de publicamente exercer o seu direito de resposta. Tudo o resto são considerações espurias.

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  8. 8 8  xatoo

    a recuperação económica capitalista lá vai indo. Está aberto um novo nicho de mercado, que é o da contratação de dectives privados para gerir a potencial agenda e localização dos notáveis que possam ter interesse para escuta-divulgação com a finalidade de re-oposicionar as claques das classes antagónicas.
    Ou dito de outro modo, é tudo a mesma merda, e que lhes faça bom proveito a ambos, aos crespos e aos anti-crespos

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  9. 9 9  xatoo

    errata
    “detectives”
    investigadores, descobridores de textos blogáveis, reveladores policiais, alcoviteiros profissionais, capangas de gabardine burberrys, etc

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  10. 10 10  LINGRINHAS

    e alguem ouviu?

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  11. 11 11  Pedro

    Tenho pena que aquele episódio protagonizado entre o Mário Crespo e o Silva Pereira tenha dado nisto, penso que na altura a pergunta do Mário Crespo ao Silva Pereira se o primo era primo foi um erro grosseiro do entrevistador, a resposta penso que esteve bem, foi á altura, acho que o Mário Crespo ainda hoje nem sabe porque fez aquela pergunta, mas foi uma vergonha.
    Tenho pena que neste caso e desde esse caso o Mário Crespo tenha sido um pouco incorrecto e vengativo!

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  12. 12 12  GMaciel

    Eu ia dizer o mesmo. Desde quando conversas em público são privadas? Quando eu quero ter conversas que a mais ninguém dizem respeito, faço-o em minha casa e com quem quero partilhá-las, não num local público onde, por consequência, mais alguém poderá ouvir. A isso se chama, excesso de confiança – eu costumo chamar-lhe outra coisa, mas em privado… lá está!

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  13. 13 13  MC

    O truque intelectual de desviar o problema para a legitimidade da audição de uma conversa, sobretudo tendo em conta a responsabilidade das pessoas em questão, é exactamente o mesmo truque que levou à hiperprotecção das escutas em casos de investigação criminal – casos esses cuja investigação se bloqueou por artimanhas legislativas subsequentes, como soubemos recentemente. Não estamos com certeza à espera que o afastamento de jornalistas incómodos ocorra em debates públicos e notórios, ou estamos?

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    Bruno Sena Martins Reply:

    MC, quando falo da “generalizada noção da existência de constrangimentos políticos à liberdade de expressão” não me desvio da questão, ao contrário, reconheço que a fronteira entre o privado e o público é posta em causa pelas consequências de conversas privadas (que pelos vistos não terão sido assim tão privadas).

  14. 14 14  Antonio Cunha

    O que aconteceu ao post que enviei ? Censura ?

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    Pedro Sales Reply:

    António Cunha,

    Acabou de ser publicado. Calma. Não é possível estar o dia todo no computador a verificar comentários. Tentamos ser rápidos, mas nem sempre é possível acompanhar o ritmo dos comentários. Daí até ser censurado…

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