Sobre a renúncia de Ramalho Eanes aos retroactivos a que tinha direito relativos à reforma como general, que nunca recebeu, escreve João Gonçalves: “No meio do esterco, o homem”. O esterco, suponho, são todos os políticos, o sistema, enfim, a democracia que não passará de uma grande latrina. A decisão de Eanes é legitima e estarei longe de a criticar. E é natural que, num país onde o normal é o contrário, esta decisão mereça respeito. Mas a oposta, a de receber a reforma a que tinha direito, seria igualmente inatacável. A defesa do rigor é a defesa do cumprimento de regras legais e éticas. É isso que falta. E a aceitação deste dinheiro não ofendia nem umas nem outras.

Como escreve, e muito bem, Nuno Pombo, “considero extremamente perigosa esta ideia: a de que temos, para sermos rectos, de renunciar aos nossos direitos”. Pode-se ser austero e não ser rigoroso (é o caso dos que ultrapassam os seus poderes e impõem para lá da lei a sua vontade). Salazar, talvez porque se julgasse, ele sim, um homem bom rodeado de esterco, era espartano sem ser rigoroso no uso dos seus poderes e no cumprimeto da ética política. Assim como se pode não procurar uma vida “franciscana” e ser-se de um rigor ético inatacável.

Ramalho Eanes fez o que lhe parecia melhor e por isso deve ser elogiado. O acto não transforma em esterco tudo o que o rodeia. E suponho que não era essa a mensagem que o ex-presidente queria passar. Foi essa que João Gonçalves captou. E assim, um acto nobre foi recebido como uma jogada populista.


15 respostas ao post “Espartanos e rigorosos”  

  1. 1 1  Fado Alexandrino

    Mas a oposta, a de receber a reforma a que tinha direito, seria igualmente inatacável.

    Até fui ver duas vezes se era o seu nome que estava no fim do post.
    Ora até que enfim que temos, em público, uma pessoa de esquerda a avalizar as reformas milionárias que tanto tem sido atacadas por outras pessoas de esquerda.
    Tem muita razão Dura Lex Sed Lex.

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  2. 2 2  Luís Carlos

    O acto de Eanes não transforma em esterco tudo o que o rodeia. E não acredito que tivesse intenções populistas. Penso que com todas as questões levantadas sobre a sua reforma ele achou que não valia a pena insistir no assunto.
    No entanto, indirectamente, o seu acto colocou bem à vista o monte de esterco que é a generalidade dos políticos em Portugal.
    Não defendemos a democracia evitando as críticas aos políticos mas elegendo aqueles que não se servem da política.

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  3. 3 3  BM

    «Pode-se ser austero e não ser rigoroso»
    Deve ser o caso da pequena multidão de reformados, antecipados ou não, que passaram pelo Bando de Portugal.
    Todos austeros, nem por isso não rigorosos, tudo de acordo com a lei. Que Lei?

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  4. 4 4  Daniel Oliveira

    Ser pobre e ser austero não é a mesma coisa.

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  5. 5 5  Manuel Leão

    A atitude de Ramalho Eanes é tão valida como seria se tivesse optado por receber aquilo a que tinha direito, em retroactivos. Obviamente. E, só por cinismo, poderá ser acusado de populismo. Porquê? Porque Ramalho Eanes, não tem, que se saiba, qualquer projecto político pessoal ou, sequer, qualquer projecto no âmbito de algum partido político. Eu interpreto esse gesto como um acto de “solidariedade” com os portugueses que neste momento estão vivendo gravíssimas situações pessoais e familiares, em função da crise, do desemprego, da quebra de poder de compra, etc. E, ao contrário de certos gestores privados e públicos, que não dão tréguas a sua voracidade, desligando-se completamente do ambiente social envolvente, dá um sinal de sentido contrário. A esses e a todos aqueles que apregoam a estafada justificação, que se não se receberem as remunerações e outras mordomias obscenas, aqui d’el rei que se vão embora. Pois que o façam. Só faz falta quem cá está.
    E são estas sumidades que ficam incomodadas e lançam os peões de brega para combater o “mau exemplo”. Um exemplo que os deixa nus. Fazem, agora, crer que o General tem alguma na manga. Que pequeninos que são e tão gulosos!

    Todavia, ao contrário do que alguns sustentam, eu acho que Ramalho Eanes quis enviar uma mensagem. Uma mensagem pessoal. Quis marcar uma posição, não com intuitos populistas, mas como cidadão que não é alheio às dificuldades dos seus concidadãos.
    É a leitura de alguém que nunca foi eanista. É a minha leitura.

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  6. 6 6  Daniel Oliveira

    Manuel Leão, para que fique claro, eu não disse que Eanes tinha sido populista. Disse o contrário. Disse que João Gonçalves transfou um acto nobre em populismo.

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  7. 7 7  Manuel Leão

    Daniel Oliveira:

    Eu percebi. Eu sei ler. A minha «miséria intelectual» ainda dá para perceber isso. Eu referia-me à campanha “difusa” que anda pela comunicação social.

    Você não disse e eu não disse que você disse. Nem insinuei, para que fique completamente claro.

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  8. 8 8  Daniel Oliveira

    Tenha calma. Não o acusei de nada. Apenas fiz um esclarecimento (“para que fique claro, eu não disse…”). Quanto à sua “miséria intelectual”, não me referi a si mas às acusações descabidas que me fez.

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  9. 9 9  Splash

    O gesto do presidente Ramalho Eanes, além de solidário para com os seus compatriotas, como muito bem referiu o Manuel Leão, contém também a mensagem de que ainda há gente honrada capaz de assumir responsabilidades políticas sem pensar na engorda da conta bancária.

    Lamentável é que um homem com ideologia, como o Daniel, não tenha compreendido isto.

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  10. 10 10  Daniel Oliveira

    Splash, terá lido o post?

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  11. 11 11  Pedro Sá

    Daniel, subscrevo totalmente. É hedionda (e salazarenta)a lógica de que alguém por ocupar lugares públicos tem de prescindir de tudo e não receber aquilo a que tem direito.

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  12. 12 12  madr

    Caro Pedro Sá, e não será também hedionda a lógica de que alguém, por ocupar alguns (que não são todos) lugares públicos, tenha mais direitos a receber que a esmagadora maioria dos seus concidadãos? Acaso trabalharam mais ou melhoraram assim tanto o país e a qualidade de vida dos que nele vivem para merecer tais mordomias? Desconfio muito destas democracias que fazem/permitem tais leis/direitos.

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  13. 13 13  madr

    Nunca fui eanista, penso até que na sua primeira eleição eu tenha votado Otelo. No entanto lembro-me bem que foi durante o seu mandato (talvez por ter sido o último presidente militar) que as FA sofreram uma grande reestruturação, sobretudo a classe de sargentos que passou a ter uma carreira e cujo topo iria corresponder (em termos financeiros) ao posto de major (no exército), não sei se isso chegou a acontecer, mas sei que foram criados, à semelhança dos outros países, mais dois “postos” o de sargento chefe e o de mor. Também sei que não fez mais pelas FA porque acabou os mandatos e o clima de oposição, tanto da esquerda como da direita, era enorme.

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  14. 14 14  João Gomes

    «Ramalho Eanes fez o que lhe parecia melhor e por isso deve ser elogiado. O acto não transforma em esterco tudo o que o rodeia. E suponho que não era essa a mensagem que o ex-presidente queria passar».
    Não morro de amores por Eanes, se mais não fosse, por ter sido o “chefe” do 25 de Novembro.
    Depois disso, privei algum tempo com ele. Conheci-o melhor e, embora mantendo o “ódio de estimação”, não tenho a menor dúvida de que ele se quis distinguir do esterco, do muito esterco, que grassa na classe política e nos altos quadros do funcionalismo público. E, estou certo, teve uma atitude de rectidão que, de algum modo, se pode confundir com populismo.

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  15. 15 15  jorge santos

    prezado senhor: sempre associei visão de esquerda como a tradução em comportamento social de uma consciência moral sempre em auto- avaliação. Passado este tempo, lembrei-me da sua posição perante o caso Eanes e senti uma profunda tristeza. Numa sociedade em que morreu Deus e os seus institutos (igrejas e corpos de prinncípios) o sucesso económico pessoal e a satisfação da ganância tornaram-se em repugnantes valores inquestionáveis; políticos zeladores do seu ambiente requintado, autarcas desbragadamente e impoduradamente viciosos, dirigentes desportivos e construtores mafiosos – ou pior do que mafiosos pois estes têm alguns valores de honra e de solidariedade. No meio desta ambiência imoral o acto de eanes era e será um sinal de saúde humana, um exemplo de que ainda há gente que não associa o viver à intenção de viver muito tempo e com bmws de modelo recente e jantares no gambrinos. Se calhar o homem até teria feito mal, ou poderia ser motivado por pretensão de dar uma imagem boa ao público, mas mesmo assim, antes isso que a horrorosa ganância vigente nesta sociedade.

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