José Sócrates garante que nunca o Governo deu qualquer orientação à Portugal Telecom para comprar uma estação de televisão. É bem provável. Formalmente não terá sido o Governo a fazê-lo. Formalmente não terá reunido, em Conselho de Ministros, e decidido a coisa. Assim como formalmente o primeiro-ministro nunca terá sabido de nada do que se preparava na PT para domar a TVI. Também é formalmente muito discutível se deveríamos conhecer como conhecemos estas conversas telefónicas. E formalmente o primeiro-ministro não tem de explicar o que disse ou outros disseram em conversas telefónicas. E formalmente José Sócrates continua a ter toda a legitimidade para governar.

Resumindo, formalmente José Sócrates está carregadinho de razão.

Só que para além da forma há o conteúdo. E o conteúdo diz-nos como José Sócrates ou um grupo em seu nome usou as participações do Estado em empresas para calar as vozes de que não gostava. O conteúdo diz-nos que José Sócrates criou uma rede que, nos bancos e na PT, tratava de premiar e punir quem não obedecesse à voz do dono. O conteúdo diz-nos que é uma impossibilidade que isto se passasse sem a participação activa ou passiva do primeiro-ministro. O conteúdo diz-nos que é difícil confiar os destinos de um país a um homem que não respeita as regras da democracia, da liberdade de imprensa e da separação clara entre os interesses partidários e pessoais de cada governante e o papel do Estado na economia.

Resumindo, o conteúdo diz-nos que se confirmam todas as piores suspeitas que tínhamos sobre José Sócrates: que não tem dimensão ética e política para o lugar que lhe calhou em sorte.

É importante a forma, ninguém o poderá negar. Mas será que ela é suficiente para nos esquecermos do conteúdo?

Publicado em stereo no Expresso Online.


22 respostas ao post “Forma e conteúdo”  

  1. 1 1  nuvens de fumo

    Que lindo caminho este, mas porque não ?

    Por exemplo havia quem sabia que Sadam era culpado de alguma coisa, foram forjadas provas com o interesse superior de se dar cabo desse mal que todos sabiam que haveria de haver e a substância suposta foi superior À forma. Acabou mal ? mas podia ter sido verdade…

    De certo que se lembra, foram suspensos direitos cívicos ao abrigo da lei do terrorismo em vários países, porque se sabia que havia coisas que estavam a ser escondidas.

    Foi com base no conteúdo que formam permitidas as torturas, o afogamento simulado, tudo em nome do conteúdo sobre a forma, e os raptos que também não respeitavam nenhuma lei de nenhum país, mas isso de detalhes é para intelectuais, há que ser pragmático.

    Pena não se poder AINDA , submeter o PM e todos os seus amigos, próximos e mesmo os distantes, a simulações de afogamento, pois todos sabemos que ali há conhecimento de trapalhadas e sabe-se lá que mais.
    Ou à privação sensorial , ou mesmo a uma vigilância 24 h por dia , quem não deve não teme , não é ?

    francamente , tudo isto é demasiado repugnante e estúpido para poder ser visto como uma matéria política como o caso das casas ou da homossexualidade do PM, isto é outra divisão.

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  2. 2 2  André Pinto

    Caro Daniel:

    Para quem vota, para quem é governado, tudo é conteúdo. Aliás, diria mesmo que a nossa política sofre de excesso de formalidade, que redunda no cinismo e corrupção de conteúdos. Não há má formalidade que não seja mitigada por um honrado conteúdo. O contrário raramente se verifica.

    Aquilo a que o Daniel, neste texto, chama “conteúdo”, não é mais que aquilo a que o comum dos mortais chama “realidade”.

    Formalmente e substancialmente, este primeiro ministro não tem condições para ocupar o lugar onde se encontra.

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  3. 3 3  jeronimo

    Faltou-lhe uma palavra em diversas frases do post. Alegadas. Está a tomar como factos interpretações e deduções sobre alegados acontecimentos inspirados sobre alegadas frases ouvidas nas escutas. Vindas de jornais (Sol, CM) onde a distinção entre facto e notícia poucas vezes é respeitada. Lembra-se da história dos 10k€ ? E das “noticias”no caso Freeport (que muito significativamente foram silenciadas assim que se começou efectivamente a saber mais) ?
    Nos tempos da PIDE bastava um agente interceptar algumas palavras numa conversa para termos todas as provas necessárias. Agora já não devria ser assim, apesar da legião de Mários Crespos que por aí pululam.

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  4. 4 4  A. Pinto Pais

    Hoje, à entrada do Metro, no Marquês, estenderam-me uma coisa chamada Destak. Na breve viagem, aí li o editorial (!) de uma tal Stilwell – “escritora light” (?), ao que me dizem -, que se louva no último artigo da D. Constança para denegrir a iniciativa da petição em prol da liberdade de expressão.
    Duas conclusões:
    - a miséria deste subjornalismo vai de vento em popa e não há, parece, nada a fazer;
    - o socretinismo comanda, qual doença contagiosa, uma enorme rede de interesses, que se estende até serventuários de meia tigela.
    Vai ser muito difícil correr com esta gente, olá se vai.

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  5. 5 5  Carlos Marques

    Daniel, ainda a propósito dos salários dos gestores públicos, e concordando consigo, qual é a sua opinião sobre o “affair Medeiros”?

    Além disso, qual é a sua opinião sobre a suspensão, interrupção, de décimo terceiro mês para os detentores de cargos políticos e membros da alta administração pública, até as coisas melhorarem?

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    Daniel Oliveira Reply:

    Acho populismo puro. Se querem mudar os escalões salariais na Função Pública, para aumentar os mais baixos e reduzir os muito altos, é um debate possível que pode ser sério. O 13º mês é um direito, os salários altos não.

    Carlos Marques Reply:

    Concordo. Até porque isso ia aumentar o consumo, dado que a quem ganha pouco dava jeito e a quem ganha muito só faz diferença na poupança (que também é importante, mas neste momento o consumo não assente em crédito é ainda mais).
    E o “affair” Medeiros? Como é que é possível? Bem sei que é só um caso, mas é simbólico de um certo fim de ciclo. Acho uma vergonha numa altura em que vejo cada vez mais gente aos caixotes do lixo. Gostava de ver esse caso bem esclarecido para não correr o risco de estar a ser injusto.

  6. 6 6  José

    No conteúdo temos uma “justiça” politizada.

    O caso freeport vem ao lume sempre antes de eleições, houve a associação (feita pela “justiça”) vergonhosa do ps ao caso casa pia, houve o psd e o pr a já saberem desta história das escutas há muito tempo e usarem isso em campanha (a asfixia democrática, as suspeitas de espionagem…).

    Isto parece-me bem mais grave do Sócrates ter tentado calado algumas vozes que usavam a comunicação social para fazer oposição – e isto já é muito grave.

    Por isso, destituir este pm para quê? Para pôr no governo quem, para além de usar a comunicação social, usa a justiça em proveito próprio?
    Ou para votar em partidos que não estão envolvidos nisto mas que lutam por um ideal de sociedade que não é o nosso (o da maioria)?

    É triste, mas ao votar, nem se consegue arranjar uma alternativa (para governar) que seja a menos má.

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    Daniel Oliveira Reply:

    José, a utilização de empresas para limitar a liberdade de imprensa é, antes de mais, uma questão política.

    José Reply:

    Por ser uma questão primeiramente política, expressei o desagrado pelas respostas oferecidas pelo actual panorama político.

    Acredito que a democracia é o menos mau de todos os sistemas – mas, porra, escusava de ser tão mau como o que agora se apresenta.

  7. 7 7  José Peralta

    Aquilo a que Daniel Oliveira chama “conteúdo”, como é que pode garantir que é a “verdade” ?

    Porque é que, e dados os antecedentes, da tentativa de destruição pessoal de um homem, (o diploma, o boato da homosexualidade, etc. etc.), não se detém um momento, para pensar…na “verdade”?

    Se é verdade, que as violações do segredo de Justiça, vêm DE DENTRO das prórias instituições da Justiça, urge investigar e denunciar os culpados e as intenções que os movem, e puni-los severa e exemplarmente, SEJAM QUEM FOREM E OS CARGOS E FUNÇÔES QUE EXERÇAM !

    E sobre isto, não me lembro de lêr nada, escrito por si, além de condenar (e bem !) os pseudo-jornalistas, que fazem tudo para vender papel, e se aproveitam dessas fugas.

    Mas, seja verdade ou não, José Sócrates já está condenado no tribunal da opinião pública .

    E mesmo que a Justiça, a verdadeira, o venha a ilibar, não faltaram vozes, do Saraiva, do Crespo, do Serejo, do J.M. Fernandes, etc.,vociferando que a Justiça, foi cúmplice, foi proteccionista, não foi isenta, houve compadrio !

    Que se lixe ! Enquanto as iniquidades não baterem à nossa porta …que se lixe!

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    José Peralta Reply:

    Óbviamente, queria escrever :não faltarão vozes, em vez de “não faltaram vozes”.

    JC Reply:

    e óbviamente? era mesmo assim que queria escrever?

  8. 8 8  A. Dias

    O problema é que toda a opinião publicada, de Moniz a D. Oliveira, de M. Moura Guedes a P. Rangel exige que “Sócrates esclareça” uma série de malfeitorias em tal quantidade que não se sabe bem quando é que o homem arranja tempo para tomar um duche, tão ocupado deve andar a ser corrompido e a corromper, a conspirar para neutrlizar crespos e outras Moura Guedes, a dar agora uma bicada nos dedicadíssimos professores e, logo a seguir, a fazer telefonemas incriminatórios, sem cuidar de saber que está, há anos, a ser escutado por diligentes polícias, espiões e acessores.
    Mas cada vez que “esclarece” alguma coisa, não bem isso que ele tem que esclarecer, é outra coisa ao lado.
    Estou pronto a conceder que o Governo é de direita, que JS e “sus muchachos” são um bando de arrivistas sem verdadeira estrutura cultural democrática, que tem feito mal ao país; não tenho sobre isso mínima dúvida; não votei, até agora, no senhor.
    Mas, de uns tempos para cá, ao constatar a verdadeira sanha (quase irracional) com que os justiceiros “de tous bords” arremetem contra ele, as vagas de escandâlos (vagas, aliás, reveladas a conta gotas…), a utilização de meios sórdidos e “voyeuristas” de que se servem esses paladinos da democracia e da transparência que, de braço dado com o Bloco, rasgam as vestes e pôem cinzas nos cabelos pela Liberdade, tenho tentações de musar o meu sentido de voto.
    E a chamada Esquerda parlamentar talvez fizesse bem em para para pensar.
    Conheço o argumento segundo o qual não se deve deixar o campo da oposição livre só para a direita.
    Mas há limites: os do bom senso, os da memória e – que diabo – os da estética.

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  9. 9 9  fernando f

    E para um consumidor avisado, o invólucro conta pouco.

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  10. 10 10  JMG

    Daniel Oliveira, V. confunde-me: um dia acha que a conversa no restaurante foi privada, e por isso a divulgação dela é um abuso e quando se ofende o direito à privacidade, ou outro direito fundamental, em nome do interesse público, está-se a abrir a porta a ofensas maiores, etc. etc.; noutro dia – hoje – vem com distinções subtis entre forma e conteúdo a propósito da conversa. Desculpe, mas não está com a direcção um bocadinho desalinhada e as rodas descalibradas?
    A propósito: Na minha opinião, a conversa NÃO foi privada.

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    JMG Reply:

    Porra, fui reler o post e afinal era sobre as conversas telefónicas dos amigos e não sobre a explosão de cólera no restaurante. Maldito Sócrates, são tantas que até me faz tresler. Mas mantenho parte do que disse: não é razoável, se estiver o direito à reserva da vida privada em causa e se se considerar que esse direito foi violado, entrar em distincões subtis sobre forma e conteúdo.

  11. 11 11  Platão

    Tem toda a razão, Daniel. A forma tem sido sempre feita à medida certa para encobrir o conteúdo: o direito e a justiça são cada vez mais pura retórica para iludir a justiça e a ética. Algum dia sairemos do nevoeiro? Saberemos exigi-lo, merecê-lo? Estou cada vez mais céptico.

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  12. 12 12  João Pinto e Castro

    “Damned if you do, damned if you don’t”. Não me parece isto uma argumentação muito séria.

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  13. 13 13  João Moreira

    Ah, o Daniel agora lembra-se que para lá da forma e do formalismo há conteúdo? Tarde piou: quando a notícia de que havia escutas envolvendo o PM num escândalo de censura fáctica vimo-lo entre os mais lestos e encarniçados a defender as suas prerrogativas indefensáveis, e a solapar o conteúdo por mor da forma como a ele se chegara. Não há nada como a possibilidade de o PSD se reorganizar e alternar com o PS para vermos certa gente do radicalismo pequeno-burguês, em histeria, lançar mão do populismo mais oportunista…

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    Daniel Oliveira Reply:

    Não, viu-me dizer o que também digo aqui: que a forma é importante. Aliás, absolutamente coerente com o que digo aqui.

  14. 14 14  Pedro Ribeiro

    É a clássica questão sobre se os fins justificam os meios. O Daniel tem razão, o conteúdo da questão é (ou pode ser?) grave – e uma vez que há conhecimento público da questão, politicamente, não há como escapar a esta discussão.

    O problema é o precedente que se abre. As escutas deveriam ser utilizadas em último recurso e apenas se tiverem relevância criminal. Admitir que escutas possam ser usadas para fins políticos ou outros é abrir a caixa de pandora. O uso das escutas para fins indiscriminados é próprio de outros tempos…

    É preciso pensar para lá deste caso concreto…

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