O RAF, apesar de detestar comprar jornais quando vê que lá escreve gente de “extrema-esquerda” (em conceito alargadíssimo), lê o Arrastão, onde só encontrará escribas deste calibre, e, pior, vai ao blogue do colunista que não quer ler no “Público”. Fica-se assim com a sensação que o problema do RAF não é ser obrigado a ler o Rui, é não querer que os leitores do “Público” o leiam. O protesto seria normal se, no jornal que ele compra, só escrevessem pessoas como o Rui. Só que me escuso de dizer como isso está longe de ser verdade.

Mas talvez a forma mais clara como o raciocínio liberal pretende, paradoxalmente, levar ao pensamento único e à censura por outro caminho, está expresso aqui: “Nada impede que o Daniel se junte ao Rui Tavares, peguem nos seu trocos, peguem no homem dos desenhos (que tem bastante jeito, por acaso) e façam um jornal.”

Na prática, o que o RAF está a dizer é que o pluralismo da opinião deve estar dependente não da variedade de posições que devem ser conhecidas, nem sequer do número de leitores que cada colunista possa ter, mas do dinheiro que essas posições consigam angariar para os seus projectos. E isto sim, mais do que pluralismo ou a liberdade, corresponde ao pensamento desta “direita liberal”. A liberdade e o pluralismo esgota-se na capacidade comprar essa liberdade e esse pluralismo. E de comprar o direito a difundir posições. Não está longe da verdade: sendo a “direita liberal” mais radical absolutamente marginal na sociedade portuguesa (eles próprios se queixam de não terem presença no espectro político) tem uma enorme presença nos jornais.

O ouro equivoco: os liberais dizem acreditar que só existem opiniões pessoais. Mas é o próprio RAF, sem saber se Belmiro de Azevedo concorda com as suas posições, a dizer que a Sonae não deveria deixar que o seu dinheiro desse voz a posições como as do Rui. Deixando de lado o debate sobre a ideia perigosíssima de que os proprietários dos jornais se devem imiscuir na escolha dos colunistas (faz sentido no ponto de vista do RAF, mas nenhum do ponto de vista da defesa do pluralismo informativo), conclui-se que o RAF depreende que as posições do Rui não correspondem às posições que interessam a uma empresa como a Sonae. Não é, por acaso, neste caso, verdade: os extremistas são estes liberais dogmáticos. A posição da esquerda é, no que se está a debater, tão moderada e recuada, que apenas está a dar argumentos para salvar o Capitalismo do colapso, repetindo o que está a ser escrito na imprensa económica de referência, como o The Financial Times ou a Economist. Mas RAF conclui isso e vamos partir do principio que ele tem razão.

Ele aceita que há interesses contraditórios na sociedade e que as empresas, em geral, estão de um dos lados. E como é contra a existência de uma comunicação social do Estado, acaba por defender uma coisa: que perante esses interesses contraditórios, quando há debate sobre estas matérias, só um dos lados pode ter voz pública. Não, ao contrário do que nos vem dizer agora, o problema não é apenas que aquele é o jornal que ele compra. Aí teria dito: vou deixar de comprar. Nem sequer é por causa da linha editorial que o jornal está a seguir (que nunca foi, desde a sua fundação, a do RAF). Aí teria dito: senhor director, faça qualquer coisa! O RAF fez o seu apelo a quem “patrocina” estas posições. E com razão, no seu ponto de vista.

O RAF não nos diz que o Capitalismo é tão maravilhoso que até o Rui, o Batista Bastos, eu, o Rúben de Carvalho, o Boaventura de Sousa Santos ou o André Freire (para quase esgotar os exemplos bastante diferentes entre si), que na sua cabeça querem destruir o mercado, têm espaço porque têm leitores e os leitores compram jornais para os ler dando assim dinheiro a quem investiu nos jornais. Ou seja, que o mercado é tão fascinante que garante o pluralismo, incluindo quem esteja contra o mercado, porque o pluralismo vende bem. Isto seria discutível. Falso, mas discutível. Mas não. O RAF acha que os empresários (partindo do principio que ele parte quando se refere à Sonae) devem intervir nos jornais para garantir que as suas posições são dominantes, mesmo que vendam menos.

Ou seja, o RAF não defende que o mercado funcione garantido o pluralismo e a liberdade de imprensa. O RAF defende que o poder do dinheiro imponha ao mercado da opinião, mesmo que com isso perca dinheiro, as suas posições. Lamentavelmente, o RAF está muito mais perto da verdade do que os liberais utópicos. E é por isso que este seu deslize, apoiado pelos seus compagnons de route, é tão útil para o debate. Ele mostra como para muita “direita liberal” a imprensa não deve ser mais do que a repetição do discurso da inevitabilidade e naturalidade das suas posições. E que este é o investimento que se exige aos empresários do sector. O retorno virá na política.


16 respostas ao post “Impor o poder do dinheiro ao mercado da opinião”  

  1. 1 1  JP

    Bingo!

  2. 2 2  Luís

    Daniel:
    Apesar de não concordar com o RAF, a posição do RAF foi escrita num blogue.
    O RAF é livre de emitir as suas opiniões, e é livre de fazer as sugestões que quiser a qualquer empresa.
    Se o Eng Belmiro acha que não lhe deve dar ouvidos, não dê.
    Não percebo tanta indignação do Daniel e da Esquerda de serviço, tanto mais que me parce ter havido deturpação das palavras do RAF.
    A Esquerda caviar faz o que agora critica no RAF…
    Cumprimentos
    Luís

  3. 3 3  Sebastião Dias

    Óbviamente não subscrevo o que diz RAF, mas acho que há um grupinho de jornalistas da extrema-esquerda caviar, facilmente identificáveis que, através das colunas dos jornais, estão em permanente consonância com a agenda política do bloco de esquerda.

    Eu diria mesmo que o poder que o bloco de esquerda não adquiriu pelo direito do voto é amplamente compensado pela sua representação no quarto poder.

    Como toda a gente sabe, as causas da esquerda são sempre mais importantes do que as da direita, portanto os fins justificam sempre os meios, é portanto legítimo que estes jornalistas andem a fazer propaganda política pelos partidos a que mais ou menos abertamente pertencem e, claro, sempre acima de qualquer crítica.

    Considero também desajustado o número de colunas de opinião nos jornais e na televisão, espaço este que surge em detrimento da notícia pura e dura, em que o relato do acontecimento é feito sem qualquer juízo opinativo por parte do jornalista.

    Mas como esta é a merda de país em que vivemos, em que os políticos são de merda, os empresários são de merda, os administradores públicos são de merda, os sindicatos são de merda, seria difícil que os jornalistas e opinion-makers não fossem também de merda em virtude de serem o espelho desta sociedade.

    Salva-se o Pacheco Pereira, que fala de voz própria, que sabe o que diz e que não aceita ser fantoche nem do seu partido nem de ninguém. Um peixe tropical num aquário de jaquinzinhos.

  4. 4 4  Sebastião Dias

    Estou certo que muitos colunistas têm espaço nos jornais, porque sai mais barato a estes jornais pagarem uns trocos a intelectuais de café para escrever, sem manter qualquer vínculo contratual, do que pagar salários a mais jornalistas para fazer o que deviam, jornalismo.

    E aqui a culpa não é do capitalismo e da contenção de custos praticada pelos jornais. É culpa da falta de qualidade da gestão dos mesmos. O mesmo se passa em relação à televisão. Todos os canais generalistas alinham por uma mesma bitola, e esta bitola é fraquíssima. Entre jornais e televisão, não há um responsável que em vez de andar a reboque da concorrência medíocre pense que uma das regras do marketing é que a qualidade encontra sempre compradores e que assim tenha a ambição de liderar o seu mercado através de um produto com qualidade real.

  5. 5 5  Manuel Leão

    Daniel Oliveira:

    Quando é que a direita liberal defende o pluralismo informativo? Eu respondo: Enquanto está na oposição e ainda não detém o poder económico. Isto, é, quando precisa desse pluralismo.
    Todavia, o RAF, navegando já a todo o pano, ao sabor da corrente imposta pelo governo do PS, conscientemente, ou não, deixou estalar o resto do seu verniz “democrático”. E, do alto da gávea, de onde vigia, com zelo, o aparecimento de qualquer escolho que possa impedir a marcha triunfante do capitalismo liberal, lançou o grito de alerta. Passou a pedir que alguém calasse as poucas vozes que desafinam do discurso dominante. Pediu censura? Não. Pediu exame prévio? Tão pouco. Optou por recomendar que fosse vedado, “aos rebeldes”, publicar nos jornais pertencentes a um determinado grupo económico. Depois, outros grupos se encarregariam de copiar o exemplo. É por isso que estes liberais não gostam de comunicação social do Estado e defendem que ela deve desaparecer. Porque, na comunicação social privada, mais tarde ou mais cedo, eles “tratarão da saúde” aos “esquerdistas” que, nessas circunstâncias, acabariam por ficar privados de qualquer tecto que desse cobertura às suas “subversivas ideias”.

    E, depois, com o desdém e a arrogância de quem ajuda a mexer nos “cordelinhos da vida”, qual capataz, que se imagina sentado ao lado do patrão, permitiu-se ainda dar uma dica, como quem dá uma esmola aos pobres: «Nada impede que o Daniel se junte ao Rui Tavares, peguem nos seu trocos, peguem no homem dos desenhos (que tem bastante jeito, por acaso) e façam um jornal». É fácil imaginar que ao escrever “nos seu trocos” tenham colado à cara um sorriso cínico e alarve, para sublinhar o gáudio que se apossou dele.

    Que topete! Até onde pode ir um triste manajeiro, a pôr-se em bicos dos pés, perante os seus “Senhores”. Tão triste que não vê que está a tentar ensinar o “padre-nosso” ao vigário. Como se eles necessitassem dos lamirés de serventuários deste calibre. Serventuários, tão pequeninos e bajuladores, que o “dono da casa” nunca os apresentará às visitas, por vergonha. A entrada e a saída, para eles, é pela porta de serviço, lá bem no fundo, oculta nas traseiras. Não se enxergam, mesmo.

  6. 6 6  RAF

    Caro Manuel Leão,

    A sua imaginação é delirante. Parabéns!

  7. 7 7  fcl

    sr RAF,
    a sua resposta ao excelente comentário de Manuel Leão é verdadeiramente digna de uma luminária como vexa!

  8. 8 8  Luís

    Caro Rodrigo:

    Ainda há pouco nos encontrámos…
    Aqui ficam 2 posts do Atlântico, relatando intervenções do Sócrates.
    O Daniel Oliveira e o resto da esquerda caviar deviam atacar era o Sócrates, como se vê.
    Mas não vá precisarem dele para um tacho qualquer em 2009, atacam-te antes a ti, que és muito PODEROSO e já falas com o Eng Belmiro…mas não lhes podes tirar a sopa…
    Um abraço
    Luís

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    “Fiquei com uma boa relação com o seu accionista (Paulo Azevedo) e vamos ver se isto não se altera”
    Primeiro-ministro José Sócrates ao telefone com o director do Público
    Apesar de intimada pela Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA), em Janeiro, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) só agora permitiu que o Expresso consultasse o “processo Sócrates”, de quase 300 páginas.
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    O jornalista do Público Ricardo Dias Felner foi contactado diversas vezes pelo Primeiro-Ministro num tom “violento”

    Relatório da “Entidade Reguladora para a Comunicação Social”
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  9. 9 9  Manuel Leão

    RAF:

    Doeu-lhe, foi?

    O que dói ainda pode ter cura.

    Aos costumes, no entanto, disse nada. Já esperava.

  10. 10 10  fado alexandrino

    do que pagar salários a mais jornalistas para fazer o que deviam, jornalismo.

    Continua aqui a fazer-se uma perigosa confusão entre o que é jornalismo e o que é opinião.

    O Público e todos os outros jornais têm jornalistas que melhor ou pior lêem os despachos da Lusa e os transcrevem usando a regra, quem, como, porque, quanto de que partido, etc.
    Em alguns casos vão mesmo até à rua entrevistar uma ou duas pessoas.

    Para quem tem internet e saiba alinhavar duas ou três frases em inglês ou francês este trabalho é inútil porque as notícias podem ser lidas com melhor detalhe lá.

    As que se referem ao quintal, e que claro está não têm qualquer visibilidade nos jornais estrangeiros, por inúteis, podem ser lidas com enorme vantagem nos vários bloges que pegam nelas e lhe dão um bem mais vasto tratamento.

    Resta então as colunas de opinião, e aí sim é que se vê a matriz ideológica de um jornal.
    A do Público é mais evidente que a cegueira futebolista de Roubário Benquerença.

  11. 11 11  Daniel Oliveira

    Sim, Fado, qual é? A dos seus editoriais? A de Rui Ramos ou Vasco Pulido Valente? A de Rui Tavares ou Miguel Gaspar? Explique.

  12. 12 12  Bang Bang

    Este episódio revela bem o que é que significa o tão propalado liberalismo. Lêem-se textos a tecer loas ao liberalismo e por vezes até ficamos a cogitar nas suas potenciais virtualidades. Mas são os próprios “liberais” que rapidamente se encarregam de o maltratar. Basta confrontá-los com algumas evidências para facilmente se perceber que se algum dia esses ditos liberais tiverem o poder, a Liberdade é o primeiro valor a sacrificar. E por certo outros valores se seguirão. Não, para mim este liberalismo caseiro morreu definitivamente.

  13. 13 13  fado alexandrino

    Remember, son, many a good story has been ruined by over-verification.
    James Gordon Bennett

    Vou explicar com muito gosto.

    Começo logo pelos editoriais. Conforme sabe, ainda que o director escreva um pouco mais, eles são feitos por todos os jornalistas de, chamemos-lhe assim, primeiro escalão.
    E por aqui não parece nada sensato dizer que são de “direita” uma vez que se equilibram com os de “esquerda”.

    Parece-me que a sua simpática questão reside em saber quantos cronistas são de “esquerda” ou de “direita”.
    Pois vai ficar surpreendido com os resultados do inquérito que fiz em sonhos.
    Perguntados, todos com excepção de VPV se declararam de esquerda moderna.
    Houve um que hesitou um bocadinho.
    Ainda estava muito aborrecido com a coça que levou hoje no Blasfémias.

    Não acredita?
    Pergunte-lhes!

  14. 14 14  Pedro Sá

    Daniel,

    Pior, pior, é num post entretanto publicado o RAF dizer basicamente que deixar o Rui Tavares escrever no Público é dar espaço à “deformação ideológica”. Portanto, quem pensa de forma distinta é logo deformação ideológica.

    Como escrevi na caixa de comentários desse post, liberal uma pinóia. Fascista mesmo.

  15. 15 15  João Pedro

    1. Há ai muita gente a escrever em jornais que não sei o que fizeram para o merecer, além de terem bons conhecimentos(cunhas). Isto há-os de direita e de esquerda.

    2. Para funcionar qualquer jornal precisa de vender, caso contrário ningém quererá lá pôr publicidade. Para vender bem tem que apelar ao leitor médio que não é de extremos mas sim do centro. Aceito por isso a decisão de qualquer director de jornal que não queira cronistas de extrema esquerda ou direita.

    3. Não existe forma de um meio de comunicação ser totalmente imparcial porque é composto por pessoas que não o conseguem ser. Isto não é uma acusação é apenas a constatação de um facto inerente ao ser humano. Por isso devem existir os mais variados possiveis para os consumidores poderem tirar conclusões fundamentadas depois de conhecer várias posições.

    4. Os meios de comunicação social não devem estar na posse do estado porque não existe nada mais imparcial que o estado que ora é governado por uns ora é por outros. E o estado não deve gastar dinheiro dos contribuintes para dar voz a meia dúzia de gatos pingados que não têm aceitação pela esmagadora maioria da população.

    5. Se uma determinda força politica ou ideológica não tem capacidade financeira para se fazer ouvir nos média acho que se trata de selecção natural, i.e, não tem interesse para a sociedade como tal existir ou não pouca diferença faz.

  1. 1 Que capacidade para fabricar fantasmas… « O Insurgente

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