As médias são enganadoras. Segundo um estudo sobre pobreza, da autoria do economista Nuno Alves do Banco de Portugal, a Madeira tem a mais elevada taxa do país. A Madeira não é um jardim: é uma região muito desigual. Para além disso, calcula-se que o offshore da Madeira representa cerca de 20% do PIB da região, o que, dada a natureza da maioria das actividades que aí se desenvolvem, faz com que a diferença de rendimentos, face ao resto do país, esteja claramente sobrestimada.

É verdade que tem ocorrido um processo convergência a nível dos rendimentos, o que só ilustra as virtudes macroeconómicas das transferências regionais, independentemente das escolhas – as péssimas, as más e as boas – que presidem ao seu uso na região. Num contexto de crise profunda, que tem como consequência inevitável um aumento do défice orçamental que aliás contraria a espiral económica descendente, as finanças regionais, dado o peso da Madeira, são um detalhe, complexo, mas um detalhe. Não deve servir de base para crises políticas artificiais.

Aproveito para apresentar um dos mais importantes economistas do século passado, que me parece cada vez mais relevante para este – o sueco Gunnar Myrdal: se queremos travar as perniciosas tendências para o crescimento das desigualdades regionais e sociais, ou seja, contrariar a lógica da causalidade cumulativa associada às forças de mercado, temos, entre muitas outras reformas, de criar e de reforçar os mecanismos de redistribuição nacionais e supranacionais.

No caso de uma “região” do sul da Europa, que dá pelo nome de Portugal, a moeda é europeia e os capitais especulativos circulam por aí sem impedimentos e prontos a causar todos os estragos, mas o orçamento da União tem um peso residual e não há regulação financeira robusta a essa escala. Este e outros desequilíbrios institucionais pagam-se muito caros.


9 respostas ao post “Isto não é um jardim”  

  1. 1 1  Samuel

    O alto nível de vida do povo da região autónoma da Madeira é uma das mentiras mais repetidas…
    A irritação legítima que provoca o constante vómito de insultos e asneiras do inimputável Jardim, ajuda a criar o clima para que a repetida mentira passe a verdade.

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  2. 2 2  Flanger

    Myrdal explicava o desenvolvimento como um movimento circular ascendente impulsionado por uma conjunção de factores positivos. Já o subdesenvolvimento teria sentido inverso. O desafio do desenvolvimento, na opinião de Myrdal, estaria em anular os factores negativos, criando-se as condições para o movimento ascendente (que ele chamava de causalidade circular cumulativa). Ou seja, a espiral só deixaria de ser descendente — ciclo da pobreza — passando a ascendente, quando o sistema económico ganhasse eficiência. Sucede que par Mydral o jogo das forças de mercado opera no sentido de desigualdade. Em perfeita discordância portanto com o neoliberalismo segundo o qual existe um processo natural de convergência de rendimento inter-regional nos países. Quer dizer, para Myrdal o jogo das forças no mercado normalmente tende a aumentar, ao invés de diminuir as desigualdades entre regiões. Se as coisas forem deixadas para as forças do mercado, livres de qualquer interferência política, a produção industrial, o comércio e as actividades bancárias, aglomerariam-se em algumas localidades, deixando o resto para trás. Fruto deste processo de crescimento económico polarizado, que beneficia os sectores e as regiões mais dinâmicas, propôs, para corrigir tais desequilíbrios, a participação do Estado nas funções alocativa e distributiva, para conter as forças de mercado. Uma vez que a tendência do desenvolvimento económico é produzir desigualdades entre regiões e pessoas, acções do poder público são necessárias para corrigir essa tendência de acentuar os níveis de desigualdade regional.

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  3. 3 3  Antonio Cunha

    Ainda não percebi este João

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  4. 4 4  Roberto Almada

    A Madeira é uma Região pobre. Tem é um PIB falseado pelo off-shore financeiro que é mantido tanto pelo executivo regional como pelo executivo de Sócrates. São tão iguais. Leia a posição do Bloco de Esquerda/Madeira, sobre a Lei de Finanças Regionais, onde se desmistifica toda esta questão em http://madeira.bloco.org/media/LFRAComunicado.pdf

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  5. 5 5  gatodacinza

    Deem-lhe a independencia que eles ha muito pedem assim como aos acores e acabam-se os ciumes e as guerrinhas

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  6. 6 6  Manolo Heredia

    O que está em causa é o AUMENTO (o acréscimo) do endividamento. Ninguém quis que os madeirenses ficassem mais na miséria do que os continentais estão. Aposto que o Alberto, assim que se apanhar com mais estes cobres (já ninguém se lembra do que se passou nos dois anos anteriores) até aumenta os funcionários públicos só para fazer figas aos FPs do continente. Já sem falar no que se passa com o IVA, que vem demonstrando há muitos anos que, em matéria fiscal, há portugueses de 1ª, os da Madeira, e portugueses de 2ª, os outros.
    O Bloco e o PC podem limpar as mão à parede por terem votado ao lado da direita e extrema direita neste assunto.

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  7. 7 7  Maria**

    o quê? afinal a madeira não é um jardim ? pois não, a madeira É do jardim.

    Mas disso já nós sabemos, que a madeira nem é um jardim e muito menos um paraíso.

    http://apombalivre.blogspot.com/2010/02/o-que-afinal-madeira-nao-e-um-jardim.html

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  8. 8 8  jcd

    Pobreza relativa como medida de pobreza é uma medida muito pobre. Os argumentos do estudo são os mesmos de sempre. Esta é a tal medida que considera que numa sociedade em que 1/3 tenham Rolls-Royces, 1/3 Ferraris e 1/3 BMW considera que há 1/3 de pobres, mas que noutra sociedade em que todos passem fome, não há pobreza.

    Serve para arquivar e para pouco mais.

    Quando quiserem medir pobreza de modo a compará-la com outras regiões, definam um cabaz mínimo de bens essenciais e contem quantos cidadãos não têm acesso a ele. Tudo o resto é folclore com motivações políticas.

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  1. 1 Arrastão: Brecht sem metáforas na Madeira

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