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Não falta quem, à direita, apresente Sarkozy como um liberal. Na Europa, a palavra dá imenso jeito para vestir com nova roupagem velhos hábitos. A direita conservadora e autoritária dá assim ares de libertária. Uma falácia. Sarkozy, tal como a generalidade dos ditos liberais de direita, é um defensor do Estado musculado, mas apenas para pôr a “escumalha” na ordem. Ao mesmo tempo que defende um Estado mole nas relações laborais e de consumo. Defendem mercados abertos e fronteiras fechadas à turba de imigrantes. Defendem desregulação económica e regulação da vida privada. Defendem menos Estado na economia e nas empresas, com todo o poder ao poder económico e nenhum poder a quem dele dependa para sobreviver. A defesa do regresso do “trabalho à jorna” (sem direitos nem vínculo) nada tem de libertário.

Os ditos “liberais” defendem na realidade uma liberdade selectiva. Usando a velha frase estafada que recorda que a nossa liberdade acaba onde começa a do outro, como a liberdade do poder económico nunca acaba, a liberdade de quem tem de lhe obedecer nunca chega a começar. Por exemplo, a argumentação “liberal” pela desregulação do horário de trabalho: se as pessoas querem, para receber mais, trabalhar mais horas, não as devemos impedir. Como se fossem os trabalhadores a decidir as horas que trabalham e quanto recebem. Como se estivéssemos perante uma relação de igualdade em que o árbitro é dispensável. Defender a liberdade individual não é apenas defender menos Estado. Porque o Estado não é o único poder na Terra. E tantas vezes precisamos dele para defender as nossas escolhas contra as imposições de terceiros. É por isso que a democracia depende da existência de Estado. Com um Estado reduzido às funções de soberania, a liberdade é um privilégio. Na realidade, estes “liberais” são anti-libertários. Apenas querem que o poder absoluto mude de lugar.

A razão porque tantos libertários se batiam contra o Estado é porque o viam como um instrumento dos poderosos. Mas sempre que puderam, usaram-no contra os poderosos. Nenhum libertário, a não ser que seja idiota, se bate contra o Estado para dar poder a quem já o tem.


Sem respostas ao post “Liberdade selectiva”  

  1. 1 1  Filipe

    Nunca concordei tanto com um texto seu.
    Como dizia, e diz, Bourdieu, o Estado que os “liberais” defendem é o Estado com a mão esquerda e a mão direita. A mão esquerda, a fraca, serve tenuamente os interesses sociais, e a cultura, por exemplo. A mão direita, forte, serve com vigor o lado penal, fiscal e policial do Estado.

  2. 2 2  Ezequiel

    poder absoluto?

    Amanhã temos eleições, não?

    Os libertários usaram o ESTADO contra os poderosos?

    Quando?

    Cumprimentos

  3. 3 3  Daniel Oliveira

    Se o Estado um dia não mandar nada, caro Ezequiel, para que servirão as eleições?
    Os libertários usaram o Estado contra os poderosos? Os de esquerda (que são os que realmente contaram), com o direito às férias, com direito à greve, o direito ao salário mínimo…

  4. 4 4  Sebastião Dias

    «Sarkozy, tal como a generalidade dos ditos liberais de direita, é um defensor do Estado musculado, mas apenas para pôr a “escumalha” na ordem.»
    A escumalha a que se refere e a que Sarkozy se referiu são as pessoas que andam na rua a queimar automóveis, a vandalizar lojas e paragens de autocarro e a atirar cocktails molotov, que são, realmente «escumalha», gente de má categoria, independentemente da sua religião, raça ou condição social.
    «Defendem mercados abertos e fronteiras fechadas à turba de imigrantes»
    Não é verdade, não ouviu o debate, Sarkozy propôs medidas proteccionistas à Europa para proteger o seu mercado contra a competição ilegal. Quanto à s fronteiras fechadas, Sarkozy defende que só imigrem quem tem condições para imigrar, o que é diferente. Não é por se ser contra a imigração livre que se é contra a imigração.
    «Defendem desregulação económica e regulação da vida privada»
    Em que se apoia para tal afirmação? Onde falou Sarkozy na vida privada?
    «A defesa do regresso do “trabalho à jorna” (sem direitos nem vínculo) nada tem de libertário».
    Que mal tem o trabalho sem vínculos laborais. Muitas pessoas há que escolhem não ter vínculos profissionais às empresas ou ao estado. Eu escolhi não ter vínculos, só gosto de trabalhar com quem realmente quer trabalhar comigo, só escolho trabalhar com quem quero,. E quero continuar a ter esta liberdade.
    «Os ditos “liberais” defendem na realidade uma liberdade selectiva».
    Parece-me que a esquerdalha também, nos assuntos que lhes são caros, por exemplo, drogas leves.
    «Por exemplo, a argumentação “liberal” pela desregulação do horário de trabalho». Se as pessoas querem, para receber mais, trabalhar mais horas, não as devemos impedir».
    Acha que quem quiser trabalhar mais não deve poder? Temos de reduzir tudo à mesma bitola?
    «Como se fossem os trabalhadores a decidir as horas que trabalham e quanto recebem.»
    São os dois que decidem. Quanto uma parte está disposta a pagar, quanto a outra parte está disposta a receber. O justo valor do trabalho infelizmente nem sempre é possível. A mim não me assusta ficar desempregado, assusta-me sim que o trabalho não valha o que me pagam e por isso dou o meu melhor para que o meu trabalho seja bem feito.
    «Como se estivéssemos perante uma relação de igualdade em que o árbitro é dispensável»
    Nunca vi Sarkozy defender que o árbitro é dispensável.
    «Defender a liberdade individual não é apenas defender menos Estado. Porque o Estado não é o único poder na Terra. E tantas vezes precisamos dele para defender as nossas escolhas contra as imposições de terceiros. É por isso que a democracia depende da existência de Estado. Com um Estado reduzido às funções de soberania, a liberdade é um privilégio. Na realidade, estes “liberais” são anti-libertários. Apenas querem que o poder absoluto mude de lugar.»
    Não se percebe o que você quer dizer. Fala de alhos nuns assuntos, bugalhos noutros, mistura tudo da maneira mais conveniente para justificar as suas desonestidades intelectuais.

    A direita vai ganhar em França e, para infelicidade sua o céu não lhes vai cair em cima.

    Aliás, Daniel Oliveira, há uma coisa que parece que as pessoas como você teimam em não entender. Seria maravilhoso se a vida tendencialmente fosse sempre melhor de dia para dia, se eu soubesse que amanhã as coisas fossem melhores do que hoje. Infelizmente as coisas podem não ser assim. Há direitos adquiridos que podem ser perdidos. Há paz quando amanhã pode passar a haver guerra. Há prosperidade quando amanhã poderá começar a haver carência. Há avanços e recuos e tem de haver flexibilidade para que se encontre um equilibrio. A esquerde tem e sempre teve preconceitos contra a iniciativa privada. Má política neste e na maioria dos países em que é a iniciativa privada o motor das economias e que paga o salario à maioria dos trabalhadores.

  5. 5 5  jb2

    sr daniel concordo consigo e acrescento: para os economistas intitulados «liberais», a chamada eficiência de pareto ocorre qdo nenhuma possível reorganização da produção pode melhorar a situação de alguém sem piorar a de outrém. mas para o cidadão comum a situação económica até pode ser descrita como eficiente, a verdade é que se ele não tiver dinheiro no bolso passa fome. deviam-se lembrar esses «liberais» q para além do objectivo da eficiência se deve procurar a equidade? não esse n é o ponto. esses «liberais reconhecem-no. e até teorizaram quem numa economia bem gerida devia ficar responsável pela alocoção dos recursos cumprindo bem o trade-off entre eficiência e equidade. seria o por eles designado ditador benevolente. Estranhamente esses
    economistas «liberais» chegaram por portas e travessas à conclusão oposta à dos seus inspiradores como por exemplo Adam Smith ou mesmo David Ricardo. Daí parecer-me justo tirar a conclusão de que a defesa do papel do mercado é feita apenas qdo beneficia certos grupos e esquecida qdo prejudica esses mesmos grupos. o q o ditador benevolente deve fazer é totalmente arbitrário, sendo q podemos especular à vontade a esse respeito.e é nessa arbitrariedade q medram as «liberais» conclusões de que devemos ter menos estado qdo esse estado estiver ao serviço do interesse geral e mais estado qdo esse estado estiver ao serviço de interesse privados. claro está q o estado e o seu papel n é mais do q organizar e sustentar o dominio de uma classe parasitária e exploradora sobre as demais classes produtivas e exploradas, mas isso seria explicar a realidade com outra teoria, q não tem lugar nas universidades e vive afastada dos debates sobre como deve ser gerida e transformada a sociedade. As razões principais para isso são duas: a sua mto deficiente aplicação nalguns paises num passado próximo e estar contra interesses minoritários mas nem por isso menos poderosos. o estado pode viver da luta entre forças opostas, mas pende sempre mais para um lado do q para o outro, por mto democrático q seja. e na europa a democracia tem-se vindo a degradar mto, inclusivé em frança, onde o estado providência é alvo de fortes campanhas q o pretendem desmantelar e onde os partidos de esquerda andam a brincar à democracia sem se aperceberem dos perigos q corre.

  6. 6 6  palhaçadas

    vá lá, imaginemos:
    Segô e Sarkô casadinhos.
    Exactamente.
    Marido e mulher a morar debaixo do mesmo tecto.

    Quem é que acham que ia realmente organizar a casa?…
    Sarkô? Ou Segô?

  7. 7 7  Pedro

    Gostaria de convidar todos os que concordam com o sr. Daniel Oliveira a viverem num subúrbio parisiense durante três meses e a serem felizes.

  8. 8 8  Pluralismo Democrático

    Ó Sebastião Dias, que chorrilho de parvoíces, meu deus.

  9. 9 9  Daniel Oliveira

    Sebastião, depois respondo-lhe a tudo. Por agora digo que sobre o proteccionismo Sarko disse tudo e o seu contrário. referia-me aos “liberais”, mais do que especificamente a ele.

  10. 10 10  hugo

    gostava de comentar o post lógico e simpático do Sebastião Dias dizendo que sim, tudo muda, menos a natureza humana. E nas relações económicas que se tem estabelecido ao longo do tempo a natureza também não mudou, o que mudou foram sim os limites do aceitável(por decreto e não por expontânea vontade). Basta olhar o admirável mundo novo que se espraia á nossa frente!

    Quanto à promessa do eden liberal que com que formatam nas universidades os economistas todos os anos, curiosamente não há nada na terra parecido com isso mesmo, em qualquer país por mais “liberal” que seja, nem mesmo com uma ténue melhoria em comparação com o malvado estado providência. Podiam talvez virar os olhos aos países nórdicos onde ocasionalmene rapinam conceitos às postas para legitimar falácias e onde realmente se vive melhor e com mais qualidade.

    PS: as situações de semi-escravatura que se vivem em espanha com trabalhadores Portugueses, (e já agora em Portugal!) não serão o caso típico da pessoa que trabalha mais de livre vontade? leia-se sem nenhum revolver apontado a cabeça.

  11. 11 11  Luís

    Este foi um dos melhores posts que li sobre o assunto. Raramente concordo com o Daniel Oliveira (bom, geralmente não concordo apenas com o modo e não com o conteúdo), mas agora acertou em cheio, e agradeço-lhe por isso. A falácia liberal da imposição de mercados livres, onde os trabalhadores são livres de vender o seu trabalho (ou morrer à fome) é agora veiculada como uma inevitabilidade.

  12. 12 12  as

    Queria covnidar o pedro, que não concorda com o daniel, a viver num subúrbio parisiense e a ser feliz.

  13. 13 13  palhaçadas

    … ãh?

    quem é que realmente ia mandar lá em casa?

    género,
    quem é que se ia lembrar de comprar uns frascos de rhinomer para as narinas dos miúdos, e de pedir à empregada para comprar o gás do aquecimento central?

    à boa moda machista, o que França realmente precisa é de uma boa dona de casa.

  14. 14 14  MigPT

    Já que agora decidiu começar a teorizar sobre economia, gostaria que tão douta sapiência me esclarecesse porque raio é que continua a haver uma correlação positiva entre economias com leis laborais inflexíveis e taxas de desemprego?

  15. 15 15  João Rodrigues

    Caro migPt,

    Não existe tal correlação. A própria OCDE já veio reconhecer a fragilidade empírica de tais “factos”.

    Veja o relatório sobre o emprego de 2004 da OCDE onde esta “insuspeita” organização vem reconhecer que é dificil detectar um efeito claro da “rigidez” do mercado de trabalho na explicação do desemprego à escala da UE.

    Belo post Daniel. A direita usa o Estado para alterar a estrutura de direitos e obrigações em vários mercados. Pelo menos no campo económico a questão é sempre: quem é que tem liberdade e quem é que está exposto a essa liberdade?

  16. 16 16  J

    O Daniel tem 2 boas experiências sociais de duas hipóteses de sociedades: a) uma com o Estado com poder económico e b) liberalismo económico.

    Na primeira experiência, tem as Coreias dividas entre Norte e Sul. Na outra, tinha, a Alemanha dividida entre Este e Oeste.

    O poder económico do Estado costuma degenerar e deu no que deu…

    Quanto à “escumalha” a que Sarkozy se referiu… quem queima carros dos outros é o quê? Vítima da sociedade???!!!

  17. 17 17  Sebastião Dias

    Pluralismo Democrático:
    Está a referir-se às minhas parvoíces ou às do Daniel?

  18. 18 18  Daniel Oliveira

    J, o senhor devia dar aulas de teoria política. Está aqui a perder-se.

  19. 19 19  J

    J, o senhor devia dar aulas de teoria política. Está aqui a perder-se.

    Posted by: Daniel Oliveira | maio 7, 2007 01:49 PM

    Com o Daniel como aluno não me safaria concerteza. Parece que nem as lições da história recente quer aprender.

    Depois do comunismo versão 1.0, temos o comunismo versão 2.0 (mais subtil, com mais sex-appeal, mas igualmente totalitário).

    Para o Daniel o Estado deve interpôr-se nas relações económicas, porque existe sempre um explorador e um explorado. A teoria económica de Marx continua bem viva por estas bandas.

    Para si não existem relações económicas simbióticas, em que ganham as duas partes. A não ser que o Estado intervenha.

    Fica por explicar porque motivo as sociedades que adoptaram o “capitalismo selvagem” são aquelas para onde mais imigrantes tentam fugir. Nunca ouvi muitas histórias de Alemães Ocidentais a tentarem passar para a Alemanha Oriental. Ou de Sul Coreanos a fugirem para a Coreia do Norte. Nem Americanos, que vivem nessa antro de exploração do homem pelo homem, tentarem fugir para Cuba. Estranho. Nestes países têm “o Estado [a] defender as nossas escolhas contra as imposições de terceiros”.

  20. 20 20  Daniel Oliveira

    J, dá o exemplo da Alemanha Ocidental do pós-guerra como exemplo de liberalismo económico e quer dar-me lições de política e economia?

  21. 21 21  J

    Daniel, a ex-RFA, apesar de ter um Estado Social forte (que detinha algumas empresas de “bandeira”) era um Estado baseado na economia de mercado.

    Os resultados da economia de mercado criaram muito mais riqueza, para todos, do que o controlo total dos meios de produção pelo Estado que se verificava na ex-RDA.

    Ou vai dizer-me que não vê diferenças na forma destas duas economias se organizarem? E que a detenção dos meios de produção pelo Estado é igual a uma rede de re-distribuição da riqueza gerada numa economia de mercado???

    Para mim as posições relativas a Economia do Daniel são sempre dúbias (como as do BE).

    Ainda não percebi se é defensor da economia de mercado ou de empresas nacionalizadas nas mãos do Estado.

  22. 22 22  linfoma_a-escrota

    “A direita usa o Estado para alterar a estrutura de direitos e obrigações em vários mercados. Pelo menos no campo económico a questão é sempre: quem é que tem liberdade e quem é que está exposto a essa liberdade?

    Posted by: João Rodrigues | maio 6, 2007 10:55 PM ”

    http://WWW.MOTORATASDEMARTE.BLOGSPOT.COM

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