
Critiquei aqui, talvez com excessiva dureza, a ideia de que a história do assassino de Virgínia não deveria ser contada por uma qualquer razão preventiva ou moral. Mantenho que o jornalismo procura saber o porquê, até ao limite, mesmo onde ele parece impossível. Coisa bem diferente é a exibição de “tempos de antena” gravados por uma pessoa desequilibrada, apenas para que alguém lhes pegasse. O jornalismo não deve esconder, mas deve mediar. Se não, não é jornalismo. É o púlpito de todos os exibicionistas. Mesmo os mais perigosos.
Por Daniel Oliveira 20 Abr 07 em Sem categoria


Uma coisa que me irrita (para dizer o menos) no jornalismo actual é a forma como actua muitas vezes (demasiadas, até): tudo vale para atingir um fim (lucro) sem olhar aos meios.
Esse é um exemplo desse tipo de jornalismo.
Porque não nos podemos esquecer que a sociedade tem, infelizmente, indivíduos doentes que vêem esse tipo de notícias de forma diferente da de uma pessoa “não-doente”.
Não me admiro nada que outro “louco” tente fazer (ou faça) o mesmo só para depois aparecer na TV!
Não à censura, mas sim ao bom senso.
Só que este conta cada vez menos face ao $$$$!
O jornalismo e’ tambem um drama de identidades. De um lado temos o “monstro”, e o seu tempo de antena serve para o afirmar ou confirmar. Depois temos os “martires”, os “sobreviventes”, e os “herois”. E cada um parece inscrito em pedra, inalteravel de Columbine ate’ Virginia Tech.
O Jornalismo não deve “mediar”. Deve é informar. E foi o que o editor da NBC fez: Informar.
Como é que os “media” (ops!) informam sem mediar?
Não se trata assim um “compagnon de route”
Há situações concretas em que a ética jornalística implica o filtrar da informação.
Exemplo concreto - as notícias sobre suicídios , quando muito explícitas e mediatizadas conduzem a mais casos de suicídio por efeito de mimetismo ou possibilidade de incentivar este comportamento em pessoas vulneráveis.
Com a exibição em massa destas imagens de um indivíduo gravemente perturbado, o efeito é o mesmo e existe o risco de haver comportamentos de emulação.
O Jornalismo deve informar - mas a informação implica limites éticos e responsabilidade.
Há um estudo sobre o impacto de suicidios mediatizados nas taxas de suicidio em dias subsequentes.
Não só há uma relação quantitativa como qualitativa. A pessoas que resolvem fazer o mesmo são tendencialmente de perfil identico ao primeiro suicida, que apareceu na páginas dos jornais e nos telejornais locais (é um estudo americano). O método também tende a ser imitado.
Se isto não coloca sobre os media uma tremenda responsabilidade não sei o que o fará.
Daniel,
Tu és um homem com muita categoria. E, o Ferreira Fernandes, se calhar, até que nem é assim tão mau como o pintas.
Concordo contigo, Daniel, mas o curioso é que estás a fazer o mesmo que a NBC fez. Até colocaste uma das imagens violentas do Cho, e tudo.
Sobre o massacre: Tenho pena das vítimas, obviamente, mas de todas as vítimas, incluindo o Cho, que também foi uma vítima. Algo de errado vai mal na sociedade (seja ela norte-americana ou outra) quando produz pessoas desiquilibradas o suficiente para fazerem coisas assim. Deviam pensar mais nisso do que em desatar a meter as culpas nos jogos de vídeo ou nos filmes violentos.
sabe uma coisa daniel? ainda bem que esse triste filmou tudo. primeiro, significa que é o verdadeiro e autêntico filho, legítimo, dos nossos tempos, os do voyeurismo e não os do jornalismo (aliás, que coisa é essa, afinal, o ‘jornalismo’ em portugal? não nos façam rir) depois, foi bom. para nós vermos. sim, para nós vermos em que se pode transformar um ser humano: num monstro. e ainda bem que vimos. para evitarmos que se repita. por último, creio que o que está seriamente em causa não é, mais uma vez, o ‘jornalismo’. somo nós, as pessoas, os cidadãos, coresponsáveis uns pelos outros, coresponsáveis por aquilo em que deixamos que o mundo se torne, dia após dia. por indiferença, por conveniência, por cobardia, por ignorância. o caso de ff parece-me ser este: a ignorãncia, a falta de formação, de alguma profundidade nos valores (não, não sou do cds… urghhhh). por isso ele viu e reviu, e parece que viu com gozo, o que considera que nós não devemos ver. mas, no quintalinho dos ‘jornalistas’ e cronistas, e num país de analfabetos (sim, todos cinéfilos de carteira, espectadores atentos da gala dos óscares e do logro do curriculo do PM, mas um bando de analfabetos) esta posição tão… bonita, tão moralista, fica-lhe bem e deu-lhe créditos.
Concordo mais com esta sua posição. Mas o Daniel defende o mesmo para as imagens da Al-Qaeda quando reivindicam os atentados?As televisões deviam ou não também mediar aqui?
José Rodrigues, claro que acho. Ainda assim, eu não sou contra a exibição das imagens, desde que com tratamento jornalístico que escolham o que é e não é relevante.
Já nada disto se põe em causa quando vemos um jovem perturbado com um cinturão de explosivos e de arma na mão a vociferarar impropérios ao grande satã e aos seus filhotes.
Nestes casos para além da justa luta todas as outras nunca serão a do lucro e afins e mal de quem nao passe tais videos, porque seria a maior censura …
Ah sim ta bem entendi
Por casualidade comento hoje a necessidade de mediação expressa por Miguel Gaspar in Público.
Repito aqui.
A gentinha deve ser protegidade de más notícias sem tratamento que não compreendem.
Como lá digo, Salazar não fez diferente.
Oh, e o gajo ainda topou a moda da pala do boné pa trás, pobre Cho, à maricana…
[Mantenho que o jornalismo procura saber o porquê, até ao limite, mesmo onde ele parece impossível]
O peculiar percurso de 2 horas do estudante sul-coreano Cho Seung-Hui na manhã de 16 de Abril de 2007
1) Matar um homem e uma mulher num alojamento do campus da Virginia Tech. A polícia foi chamada por volta das 7h15 da manhã.
2) Gravar um vídeo de si próprio.
3) Transferir o vídeo para o computador.
4) Gravar o vídeo num DVD.
5) Embalar o DVD.
6) Ir aos correios.
7) Enviar a encomenda para a NBC às 9h01.
Matar mais 30 pessoas no edifício de Engenharia do campus da Virginia Tech, menos de duas horas depois do primeiro tiroteio (portanto antes das 9h15m).
9) Suicidar-se.
Lopez, você está a falar de quem. Isto está cheio de lunáticos.
Post interessante.
A minha opinião sobre o assunto é a mesma, mas vou um pouco mais longe. Embora também atribua alguma responsabilidade destes casos à facilidade de adquirir armas, penso que o maior responsável é mesmo o mediatismo destes casos.
E colocar estas imagens no ar, em todo o mundo, fará com que estas situações se repitam, e não só nos EUA.
Lá pode ser mais fácil comprar a arma, mas imagens como estas a dificuldade ou não de adquirir armas, por exemplo na Europa, não impedirá crimes destes.
Mas sei que é uma questão complexa e já velha. Debate-se esse assunto em coisas tão diversifiadas como suicídios ou incêndios.
Mas eu não hesitaria em não mostrar tal coisa. A mesma situação aplica-se ao terrorismo. No dia em que fosse possível impedir qualquer visualização dum acto terrorista ou até dum simples comunicado duma organização terrorista, o terrorismo extinguir-se-ia em larga escala. Mas sabemos que isso não é possível.
Exemplos de “mediação” jornalistica portuguesa:
- Arrastão em Carcavelos
- Casa Pia
- Uni Independente
- Ferro Rodrigues pedófilo
- O carlos Cruz do Laranjeiro, etc…
A esta hora estariam os media portugueses a;
a) Saber quais eram os professores do rapaz e ver conexões c/ 1º ministro Sócrates.
b)saber se era um ilegal clandestino e contactar o lider do PNR p/saber sua opinião sobre o tema.
Chama-se a isto contraditório.
c)Tentar “descobrir” casos em que individuos de raça chinesa/coreana ou parecida tenham tido comportamentos suspeitamente violentos. Cães de raça chinesa ou coreana tambem servem.
d) Para alguns “notorios” especialistas seria evidente o link entre este assunto e a crise nuclear norte-coreana.
e) O David Borges no programa da SIC N, dificilmente evitaria a sacrossanta pergunta a F. Seara:
” Acha que pode existir algum problema com a contratação do junior chinês do benfica e a sua integração no balneario da Luz?
f) Pacheco Pereira e JMF., clamariam pela condução por parte do PR da politica externa e alertariam em editoriais inflamados para o perigo amarelo, que alias eles bem conhecem.
etc…, etc…
o que seria de nós sem estes jornalistas mediadores? se calhar crescíamos de vez. os gajos ainda não perceberam que se passaram de esbirros a simplesmente dispensáveis.