Com o título original de «Reinventar o presente», escreve, na sua coluna do DN, Jacinto Lucas Pires: «Por cá, a esquerda também dá mostras de estar um pouco perdida (ou demasiado confortável?) entre a demagogia fácil e a cassete passadista, por um lado, e o cinzentismo modernaço, por outro. (…) Tantas vezes falta-lhe aquilo que, no essencial, depois de todos os muros e todas as zonas cinzentas, a diferencia da direita - a alegria da esperança, um optimismo que actua para mudar o mundo. É urgente, como diz a canção de Mautner/Caetano, voltar a pôr “poesia na democracia”. E é urgente uma nova, descomplexada, utopia: reinventar o presente a partir de um futuro melhor.»

Eu acho que o que falta mesmo à esquerda são soluções para contrariar a falência da segurança social, a desregulação dos mercados, a individualização das relações laborais, a decadência do sindicalismo, a degradação da escola pública, a concentração dos media, o desemprego, os conflitos relacionados com a imigração, o impasse da construção da Europa, o impacto social da emergência económica da China, o crescimento dos fundamentalismos religiosos… Estou a inventar, a escrever ao calhas. Apenas para explicar que, sendo eu seguramente uma pessoa muito aborrecida, não sei se percebo o que quer dizer «reinventar o presente a partir de um futuro melhor» ou «um optimismo que actua para mudar o mundo». Soa-me muito a «cassete» «fácil» e «modernaça». Do que percebo, enquanto perde em toda a linha, a esquerda devia encher-se de poesia e esperança, animar-se de utopias, enquanto os outros, mais cínicos e práticos, tratam da cinzenta e desprezível tarefa de, na realidade, «mudar o mundo». Ora aí está uma coisa que, apesar de bastante «confortável» e lúdica, não me deixaria muito optimista.


Sem respostas ao post “Mais uma contribuição para os jogos florais da esquerda”  

  1. 1 1  CENSOR

    “falência da segurança social, a desregulação dos mercados, a individualização das relações laborais, a decadência do sindicalismo, a degradação da escola pública, a concentração dos media, o desemprego, os conflitos relacionados com a imigração, o impasse da construção da Europa, o impacto social da emergência económica da China, o crescimento dos fundamentalismos religiosos…”

    Pergunta: Não foram as políticas de esquerda que conduziram a isto?

  2. 2 2  Daniel Oliveira

    Quais políticas de esquerda? quando? Onde?

  3. 3 3  Eric Blair

    Ó Jacinto, não me rio enquanto aperto o cinto.

    Ó Jacinto, o que faz falta é dar bifes à malta.

  4. 4 4  peregrino70s

    quais políticas de esquerda?!? ora, todas…olhe para a escola pública, por exemplo, para ir para uma coisa mais perto

  5. 5 5  Daniel Oliveira

    peregrino, todas não será um pouco demais?

  6. 6 6  a.pacheco

    Escola publica,cuLpa das politicas de esquerda?????
    E então os VINTE ANOS em que o PSD teve o Ministério da educação, sempre com grandes “reformadores”, a começar na Ferreira Leite.

    Há e tambem foi ela a principal responsável da ditas Universidades Privadas….

  7. 7 7  sebastião dias

    Anda, Pacheco, que com maiúsculas é que a gente vai lá…

  8. 8 8  Filipe Tourais

    E nesta modernice cinzentona, para o ser, modernice, bastaa deixar as forças do mercado fluirem. Simples e prático. Mais difícil só quando o discurso é contrariado pela realidade, mas para isso foram feitas as excepções e as “especificidades”, dão para tudo.

  9. 9 9  a.pacheco

    Sebastião qual é a sua discordância sobre o que eu escrevi?

    Não foi o PSD um dos principais responsáveis pelo estado a que chegou o ensino publico em Portugal?

    Não teve o PSD durante mais de 20 anos a tutela deste ministério?

    Não foi Manuela Ferreira Leite , uma das responsáveis do estado a que se chegou?

    Não foi durante o tempo de Cavaco, e em que Manuela Ferreira Leite era Ministra da Educação, que foram introduzidas as Universidades Privadas, com os resultados que todos conhecemos?

    Por isso é que eu discordo, de dizerem que foram politicas de esquerda que conduziram o ensino publico, e já agora muito do privado, ao estado em que está, foram FUNDAMENTALMENTE politicas de direita.

  10. 10 10  sebastião dias

    Achando que à partida o A.Pacheco até tem alguma razão naquilo que diz – afinal de contas o PSD esteve mais tempo no poder -, infelizmente não me parece que a explicação da realidade deste sector se deva apenas a uma explicação tão simplista – como, aliás, toda a realidade do nosso país – de esquerda/direita. Vou até mais longe, dizendo-lhe que o combate que hoje se trava não é de esquerda/direita, mas entre conservadores/progressistas, ou seja, entre as pessoas que acham que as coisas têm de ser mantidas como estão e outras que acham que devem ser exigidas mudanças em vários sectores. Então, se formos absolutamente rigorosos na nossa análise, constatamos que muitos valores presentemente defendidos pela esquerda são bastante conservadores, enquanto outros defendidos pela direita são centram-se mais no progresso – este é um combate transversal.

    Por exemplo, decerto concordará comigo que os sindicatos de professores, por regra mais afectos aos partidos de esquerda, se têm pautado pela defesa intransigente de alguns previlégios gozados pela classe, demonstrando uma grande resistência a qualquer tipo de mudanças, sobretudo no que respeita a medidas transparentes em prol da melhoria deste sector e da moralização da classe dos professores, tais como as de combate à falta de produtividade, à enorme taxa de absentismo, às baixas fraudulentas, constante incumprimento dos programas escolares, não esquecendo a resistência à implementação das aulas de substituição, etc, etc. Não acha que há aqui, além da óbvia defesa de status-quo, há também muito conservadorismo?

    Que dizer então da defesa intransigente de previlégios incompreensíveis no funcionalismo público – emprego para a vida, progressão automática nas carreiras, etc, etc, em detrimento de uma vasta maioria que vive claramente pior, com empregos tantas vezes precários e empenhando o futuro de jovens incapazes de encontrar um trabalho e começar a sua vida? Quem quer o progresso, ou melhor, quem é que se tem manifestado pela conservação do actual estado das coisas? Dá que pensar.

    Ah, o meu comentário deve-se apenas ao seu uso constante das MAIÚSCULAS em todos os seus posts, que parece bastante engraçado: tento a imaginá-lo a falar.

  11. 11 11  a.pacheco

    Nem sempre Sebastião Dias, só ás vezes , para realçar certas ideias….

    Mas numa coisa estou de acordo consigo, o problema é muito mais de competentes versus incompetentes, e infelizmente pelo Ministério da Educação têm passado muita gente incompetente….

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