Imagem: elemento da instalação “Anunciação, Afeganistão”, Pedro Penilo

Uma justiça enredada no seu próprio novelo, dependente de guerras mesquinhas por pequenos poderes. Jornalistas com pouca autonomia e proletarizados. Empresas de comunicação social frágeis, nas mãos de grupos que se dedicam a outros negócios, e que quase sempre dependem de alguma forma do governo que está ou do que há de vir. Um Estado tomado pela pequena e grande corrupção. Crise económica e descrença total dos cidadãos em praticamente todas as instituições. Está criado o caldo para a desgraça.

O fenómeno da judicalização da política e de uma democracia marcada pelo ritmo dos escândalos criam uma sensação de um eminente Apocalipse. Este clima de fim dos tempos não é exclusivamente português. A corrupção ainda menos. Mas como, em Portugal, o populismo mais radical não tem tido espaço para furar o quadro partidário, são muitas vezes os jornalistas e colunistas que ocupam este lugar, trocando a informação enquadrada pela gritaria permanente. Quem, na sua ingenuidade, julgue que disto nascerá algum movimento de cidadania “regenerador” engana-se. Este ambiente de “Fórum TSF” contínuo cria desespero, descrença e desistência. É sintoma do problema, mas seguramente não faz parte solução.

Em toda a nossa história tivemos 35 anos de imprensa sem censura. A nossa comunicação social tem todos os problemas que se podem encontrar nos EUA e no resto da Europa. Mas sem os anos de maturação de regras e consensos deontológicos para a construção de uma imprensa minimamente independente das pressões políticas e económicas e capaz de se autoregular. A nossa comunicação social é tão relevante para a vida pública como a de qualquer democracia. Mas é incrivelmente mais frágil na autonomia das empresas e dos seus profissionais.

Como muitos temiam, com o caso Casa Pia (e aqui é indiferente o que se pense sobre o decorrer e desfecho provável do processo judicial propriamente dito), o país perdeu a inocência. Várias fronteiras foram ultrapassadas pelos jornalistas sem que estes tivessem os instrumentos necessários para aprender com os erros e abusos. Ultrapassadas essas fronteiras, sabíamos que nada voltaria a ser como antes. Apercebemo-nos também de como a nossa justiça está bloqueada e refém de todas as pressões.

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Do que aconteceu, o PS tirou a lição errada. Que para impedir que uma direcção do seu partido fosse de novo decapitada através do curto-circuito justiça-jornalismo-política teria pelo menos de controlar um dos factores que lhe eram externos. Escolheu o elo mais fraco: a comunicação social.

No meio de tudo o que está a acontecer, vale a pena parar para pensar antes de saltar para cada barricada. É indispensável que o julgamento político severo e sem contemplações da relação que José Sócrates mantém com a liberdade de imprensa – que numa democracia madura levaria à sua inevitável demissão – não ponha nas mãos dos jornalistas aquilo que cabe à política e aos cidadãos. O papel da comunicação social é o de fiscalizar, denunciar, informar, formar opinião. Pode e muitas vezes deve ter um ponto de vista. Mas não é o de substituir a organização democrática dos cidadãos. Até porque mesmo os jornalistas e as empresas que detêm os órgãos de comunicação social têm interesses particulares.

Muito graças ao ambiente de crispação que Sócrates criou na relação com os jornalistas (e a fulanizarão nele próprio de todos os conflitos políticos), como se eles fossem o seu principal adversário, estabeleceu-se a ideia de que existem dois tipos de órgãos de comunicação social: os que são controlados por Sócrates e os que o querem derrubar. O que hoje sabemos sobre o que Sócrates e os seus amigos parecem andar a fazer nos bastidores contribui um pouco mais para esta percepção. A minha preocupação é simples: que esta forma de ver a comunicação social, depois das primeiras indignações, se acabe por naturalizar.

É por isso urgente garantir que os abusos deste governo nesta matéria sejam politicamente punidos. Mas também garantir que no caminho não se destrói um frágil corpo deontológico pouco experimentado no nosso país. Talvez esta tarefa pouca guerreira não seja a mais tentadora quando o que vende é a indignação histérica permanente. É coisa mole para o concurso de testosterona em que vive a nossa vida pública. Mas se falharmos nela, podemos esquecer a liberdade que queremos defender.

Publicado em stereo no Expresso Online.


11 respostas ao post “Não matar a liberdade à nascença”  

  1. 1 1  António Cunha

    O Marcelo disse ontem na RTP que afinal estava errado ao concordar com o PGR no caso das escutas.

    Isto vai ficar para a história.

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  2. 2 2  joão viegas

    Caro Daniel Oliveira,

    Por compreender aquilo que você esta a dizer, e concordar no essencial, não posso deixar de deplorar que o faça em tons de fado.

    Os tribunais e os meios de comunicação social têm a utilidade que nos, leitores e cidadãos, lhes saberemos dar. Ora isto implica que saibamos que são instrumentos e que, como tal, de nada nos poderão valer se nos não soubermos exigir que nos tragam o que são supostos trazer : informação e sanção das leis que votamos. Enquanto continuarmos a exigir, essencialmente, que nos dêm espectaculo, circo, iremos mal…

    E’ facil, mas contraproducente, queixarmo-nos de que não existe a compreensão minima acerca desses fundamentais.

    Mais dificil, e mais digno, seria começarmo-nos a comportar de acordo com os padrões que preconizamos. Por exemplo, acho bastante discutivel que o maior problema existente hoje em Portugal seja a ausência de uma liberdade de imprensa. Como jornalista que é, você pensa mesmo que é impossivel fazer informação séria sobre as nossas dificuldades economicas, ou sobre a corrupção ?

    O exemplo tem de vir de cima.

    Discordo de muito do que diz Medina Carreira. Mas quando, interrogado sobre o caso Crespo, ele responde que tem mais com que se preocupar, esta a dar o exemplo.

    Não é assim tão dificil…

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  3. 3 3  luÍs bernardo

    O fundamental está logo no início. Os grupos de comunicação social estão mais interessados em outros negócios e utilizam os jornais e televisões para aumentarem o sucesso empresarial em outras áreas, principalmente conseguindo mais favores do Estado. Também é curioso que o Daniel aqche que o caso Casa Pia tenha servido para decapitar a direcção do PS. Julguei que se tinha provado que centenas de crianças foram violadas ao longo de muitos e muitos anos em que quase todos fecharam os olhos. Inclusivé, essa excelência de jornalismo que se fazia antes da Casa Pia.

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    Daniel Oliveira Reply:

    luís, não vou debater nisso. Mas acho que concordamos que Ferro Rodrigues não foi indiciado, arguido, réu ou condenado. E isso não impediu que fosse usado o seu nome. Mas esse não é o tema do texto. Objectivamente, o caso Casa Pia decapitou aquela direcção. Sem juizos de valor, é o que interessa para o que se diz no texto. Não disse que tenha servido, disse que aconteceu.

    Libertário Reply:

    Corrijam-me se estiver errado, mas o Pedroso safou-se apenas por uma “technicality”?

    Vicente de Lisboa Reply:

    A pergunta do libertário diz tudo. O Pedroso nem acusado foi, mas não interessa, porque o Caso deu para destruir para sempre a direcção do PS, só com as suspeitas, as fugas estratégicas e cirúrgicas de informação em SJ e o jornalismo Moura Guedista.

    Agora, é a vez de tentarem o mesmo com o Sócrates. E tentarem… e tentarem…. e tentarem. Talvez até um dia a oposição portuguesa consiga mesmo pôr tanto poder nas mãos dos magistrados e dos jornalistas Fox que derrube o Sócrates.

    Depois o que vem? Todos nós a pagarmos o preço do Pacto Faustiano, entregues ao que o PSD conseguir rapar do fundo do taxo.

  4. 4 4  nuno castro

    Concordo Daniel. So me faz espécie como é que não há um inquérito conclusivo que encostasse à parede quem “vende” esta informação aos jornalistas. Porque só pode ser vendida. E caso não seja, só pode ser para retirar dividendos políticos directos. de outra forma não se compreende.

    mas a impunidade com que é feito, deixa-me atónito. por que razão não pede o BE uma comissão de inquérito para averiguar quem anda a facilitar fuga de informações dentro dos tribunais?

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  5. 5 5  antónio viana

    Caro Daniel Oliveira:

    Diz que a nação perdeu a inocência com a cobertura jornalística do caso Casa Pia.
    Ocorre perguntar se preferia que se tivesse conservado virgo intacta – e que tivéssemos sido informados de tudo – como no caso dos Ballets Roses – pelo
    Sunday Times, etc?

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    Daniel Oliveira Reply:

    Digo apenas que perdeu a inocência sem qualquer juízo de valor.

  6. 6 6  Manuel Monteiro

    Os jornalistas proletarizados? Mas houve aqui alguma revolução cultural?
    O que o Daniel devia dizer: alguns jornalistas a ganhar uma miséria…Porque há alguns (jornalistas) que ganham boa maquia e têm estatudo social de vip…
    Manuel Monteiro

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  7. 7 7  José Silva

    Comunicando com a água da nora, o alcatruz em tempos que já lá vão, era o veículo que fazia chegar a água às plantas, que sedentas, ansiavam pela água para produzir os seus frutos; tal como a comunicação social, nos nossos dias nos sacia com o jorrar da informação, digamos que ela é o alcatruz que se rompe para não atingir os seus fins:
    ARTE ANTIGA
    a arte de um alcatruz
    levando água prá horta
    comunicando ele reduz
    a sede à planta morta!
    -
    tabuleiro levava a água
    regueira deixava correr
    uma roda com a mágoa
    zurze, zurze e vai bater;
    -
    deita alcatruz ao fundo
    a corda que os conduz
    não dá água pró mundo;
    -
    o alcatruz já é velhinho
    rompe-se todo o alcatruz:
    apodrece de mil furinho!
    -
    Pisco

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