Não sei se é por ter sido a primeira canção que cantei à minha filha. Não sei se é por ser do Sérgio Godinho. Sei que este post do blogue do não, a que o Sérgio respondeu muito bem, me deu a volta ao estômago. É provável que o estômago tenha voltado ao mesmo lugar, de tantas voltas que já deu nesta campanha. Mas esta apropriação permanente, não da música do Sérgio, mas do dia mais maravilhoso das nossas vidas, esse dia em que a nossa vida (pelo menos a minha) passou a fazer todo o sentido, não me deixa revoltado. Deixa-me vazio. Isso mesmo: vazio. Esse dia em que pela primeira vez tudo o resto se tornou irrelevante. Esse dia em que nos ultrapassamos em generosidade. Muito para lá do que imaginávamos. Esse dia em que uma alegria, uma serenidade e um medo imenso de falhar toma conta de nós com a força da primeira paixão. Como se não fosse possível, como se fossemos loucos em atrevermo-nos a tanto.
Como podem tornar bandeira política uma coisa tão imensa, tão pessoal, tão intima? Como? Que falta de pudor. É isso que me deixa vazio. Como se alguém tivesse entrado em minha casa, na casa de cada um de nós, e tivesse revirado as gavetas.
É o mistério e a delícia, a delícia, sim, a delícia, de cada um de nós, para cada um de nós, que usam como bandeira. Não saberão que não é a lei, não é o código penal no seu artigo 140º, 142º e seja o que mais for, não é um juiz, não é ninguém que nos diz da delícia desse mistério. É nosso. Só nosso. De cada um de nós. Não, não quero o Estado no que de mais pessoal e íntimo passou e passará pela minha existência. Pela nossa. De cada um de nós. Nem as cruzadas dos bons costumes, nem as inquisições morais. É nosso. É meu. Esse momento. Saiam dele. Não vos quero lá.
Publicado no Sim no Referendo
Por Daniel Oliveira 8 Fev 07 em Sem categoria


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