Sobre a polémica em torno de Gunter Grass escrevi o que queria escrever hoje, no “Expresso”. Aí a minha posição fica clara. Aqui, vai apenas uma nota sobre o editorial de ontem de José Manuel Fernandes. Seria de esperar. Quando um génio vai a linchamento os medíocres chegam-se logo à frente. Mas José Manuel Fernandes devia ter um pouco de vergonha. Escreve: «Como pode alguém que não soube conviver com o seu passado impor a todos o dever de memória?»

Não leio eu de José Manuel Fernandes permanentes acusações ao passado da esquerda e à sua recusa em reconhecer a sua história de crime? E de José Manuel Fernandes, alguma vez li uma linha que fosse sobre a sua quota parte de culpa? Sobre o seu próprio passado estalinista?

Grass já há muito fez o mea-culpa. E esta nova revelação, feita por vontade própria, é a continuação da difícil relação que mantém com a sua própria história. José Manuel Fernandes terá culpas bem menores do que ele e ninguém lhe exige que se ande a penitenciar. Não tem de o fazer. E não é por ter apoiado as mais abjectas ditaduras que perde direito à opinião. Eu, pela minha parte, que apoiei a União Soviética no inicio da minha adolescência sinto-me livre de atacar o passado do comunismo. Mas não ando a atirar pedras a quem se enganou e reconheceu o seu erro. Por isso, esperaria o mínimo de decoro de Fernandes. Até porque nunca lhe ouvi dizer sequer «sou um ex-estalinista». Fernandes ataca o passado da extrema-esquerda de que fez parte como se nunca fosse nada com ele. Não comparo o apoio à Albânia, num país ocidental, ao passado de um simpatizante nazi na Alemanha., Mas, demasiadas vezes, José Manuel Fernandes aproxima-se dessa comparação. E, no entanto, é como se ele próprio não tivesse passado. Por isso pergunto agora eu: Como pode alguém que não sabe conviver com o seu passado impor a outro o dever de memória? Que antes de ser o primeiro a gritar “mata” aprenda qualquer coisa com a coragem de Gunter Grass.


Sem respostas ao post “O linchamento”  

  1. 1 1  O Provedor da Ordem

    Não vejo coragem nenhuma em Günter Grass, em José Manuel Fernandes, ou em si Daniel Oliveira.
    Grass esperou 60 anos para esclarecer o mundo que também tinha pertencido à das maiores e mais ignominiosas anti-humanas organizações praticantes de crimes contra a Humanidade como o foram as horrendas SS. Os judeus perdoam mas não esquecem. Nós também perdoamos mas não esquecemos. E Grass não fez ruptura com as SS. Não saíu voluntariamente daquela organização criminosa. Claro que sabemos que se tivesse querido sair teria sido morto pelos então seus pares. Mas, digo eu, mais vale ser morto do que ser criminoso. Por isto é que Grass perdeu toda a moral.
    Quando começou a escrever sobre a reflexão do que foi o nazismo na Alemanha devia ter começado por revelar que também ele tinha feito parte da Grande Besta Horrenda Anti-Humana. Depois disto, poderia fazer sentido toda a sua reflexão em obra literária. E mais, toda essa sua obra literária teria sido lida com outros olhos e talvez tivesse sido mais benéfica para todos os alemães e para todo o mundo. E mais sobre isto não acrescento – o óbvio.
    José Manuel Fernandes dirije hoje um dos principais jornais de referência nacional. Foi de facto estalinista na sua juventude (foi um dos principais jornalistas da redacção do jornal da UDP no tempo do PREC – uma UDP estalinista e maoista pelo menos à data (hoje não sabemos o que é a UDP dentro do BE)). Saíu da UDP em 1979, na companhia ou fazendo companhia ao seu líder J.Carlos Espada – o então director do jornal órgão oficial da UDP, voluntariamente. O ter saído voluntariamente de uma organização que, se tomasse o poder, seria uma espécie de possível poder exercido à Pol-Pot, dá a JMF muito de dignidade e de merecimento de respeito. Não dá a JMF, naturalmente, qualquer apoio à sua actual opção de defesa e militância na e da sua esfera do extremista (outra vez) neo-liberalismo (um extremismo de direita, “vagamente” “democrático”, para utilizar conceitos já expressos por Al Gore – do Partido Democrata dos EUA, quando este se refere aos neocons). JMF nunca se afirmou claramente neocon. Mas já defendeu nos seus editoriais no Público muitos conceitos e ideias dos neocons. Esquerdistas e direitistas neocons, venha o diabo e escolha.
    No seu caso, Daniel Oliveira, porque agora é “um homem público”, ficava-lhe muito bem que dissesse algo da sua reflexão sobre o que foram os seus anos como apoiante de ditaduras. E como vê a sua continuidade numa organização que é um aglomerar de pessoas que nunca fizeram uma ruptura com as organizações esquerdistas do tempo do PREC. É porque enquanto outros saíram, e de livre espírito saíram, por discordarem (tomando consciência) com a barbárie, houve outros que continuaram, houve outros que ficaram. Porque ficaram? Porque continuaram (apesar de já terem idade para uma consciência plena das realidades e das realidades das ideias ideárias) em organizações que, repito, se tivessem tomado o poder na altura teriam transformado Portugal num Horror Pol-potiano?…
    Qual é, pois, a sua reflexão sobre isto, Daniel Oliveira – agora que é um “homem público”. Diga, de sua justiça.

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  2. 2 2  Daniel Oliveira

    Vamos ver se nos entendemos. Grass foi voluntário para o exército, não para as SS. Não teve qualquer actividade nas SS, que tenha revelado, que não fosse militar. Tinha 17 anos e teve 3 meses nas SS. Não desculpa, mas é bom não começar a imaginar na vida de Grass o que não existiu. Entrou para as SS, segundo percebi teve nas unidades de combate anti-aereo e a guerra acabou três meses depois.

    Não estou a justificar, estou a penas a dar informação que diz mais do que um simples “foi das SS”.

    A comparação é minha, mas entre as SS e o apoio, no Ocidente, à URSS ou à Albânia vai alguma diferença. Apenas queria mostrar que o nosso passado não nos impede de fazer juizos políticos.

    Por fim, quanto a mim, já escrevi inumeras vezes sobre esse assunto. Pode ir ler no Barnabé. Não comparo o meu passado com o de Grass – fui de um partido com actividade democratica num país democrático e acho que o fui pelas melhores razões. Apoiei, até aos 15 anos, por pura infantilidade política e clubismo, a URSS. O meu corte com o PCP dá-se exactamente por causa da política internacional – inicialmente a Polónia e depois quase tudo – e começa muito antes da queda do Muro. Entrei aos 12 sai aos 19. Ainda assim, não rejeito as convicções que tive, por mais novo que fosse. Orgulho-me de muitas, acho que me enganei em várias.

    Acho que se engana completamente sobre o Bloco e sobre a UDP hoje. Basta ler os documentos de um e do outro, que fazem longos balanços da terrivel experiencia do socialismo real. Outra coisa é dizer que os partidos marxistas – que o Bloco não é e eu muito menos – têm deixar de ser marxistas para poder cortar com as experiências ditatoriais.

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  3. 3 3  luis nascimento

    Vamos ver se nos entendemos:Grass cometeu crimes de guerra enquanto militar?Há denúncias da participação do futuro escritor nas atrocidades praticadas pelas SS?Considero um acto de grande nobreza esta confissao do autor de “O Tambor”.
    Podiamos também falar de Kurt Waldheim,ex-ss/wermacht,enquanto muito jovem.No entanto,foi um excelente Secretario-Geral das Naçoes Unidas,que ao longo de dois mandatos procurou promover a paz,fortaleceu agencias como o ACNUR,UNICEF,etc.Todos reconhecem o seu trabalho dificil mas meritoso,em plena Guerra Fria.Nunca ficaram provadas as acusaçoes contra Waldheim,só porque apareceu numa fotografia uniformizado como oficial nazi…
    Teríamos entao,que julgar milhoes de alemaes e austriacos,ostracizando-os,retirando-lhes o reconhecimento internacional,pelo facto de terem combatido contra os Aliados.
    Esta é uma materia sensivel.

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  4. 4 4  José Manuel

    Relativamente ao Gunter Grass isto parece-me mais uma bem engendrada campanha de marketing do livro do que um acto de contrição.

    Sobre o José Manuel Fernandes deixei já o meu comentário aqui:
    www,rosasdoluxemburgo.blogspot.com

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  5. 5 5  Anónimo

    bem, pelo tom de alguns posts, chego a uma conclusão: nem todos os que pertenceram às Waffen SS são maus. Boa!

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  6. 6 6  a.pacheco

    Provedor da Ordem, ou provedor da mentira….

    Olhe homem,eu fui dos primeiros militantes da da UDP, com muita honra, nunca existiu na minha cabeça, impôr em Portugal algo que tivesse a ver nem de perto nem de longe com o regime que impera na Coreia do Norte ou no Cambodja, aliás depois de ver a forma VERGONHOSA e BRANQUEADORA como se tentou esta semana apresentar os 5 anos de governo DITATORIAL de Marcelo Caetano , já nada me espanta……

    Acho que toda esta história á volta do Grass, por mais condenável que seja a sua juvenil aderência ás Waffen SS ,tem a ver é com as suas actuais posições politicas de esquerda, se ele defende-se os Bush, Olmert e CA o assunto nem sequer mereceria duas linhas.

    Aliás o que me admiro é que ninguem fale do seu companheiro de cativeiro na prisão dos então aliado, o sr. Ratzinger actual Papa dos católicos….

    Tambem ele membro das forças armadas NAZIS….

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  7. 7 7  Nuno Costa

    Caro Daniel:

    Não é necessário ser um “génio” (desculpe as aspas,mas já lí Grass e não acho nada genial) para que todos queiram bater em quem cai em desgraça. No entanto, todo o episódio é muito puco edificante para Gunter Grass. Para alguém que criticou a visita de Reagan e Kohl ao cemitério militar alemão de Bitburg por lá estaram enterrados membros das SS e que criticou,ao longo dos anos, a forma como a Alemanha lida com as suas memórias nazis, esta ocultação fá-lo parecer um hipócrita.

    Já agora, esta “revelação” nas vésperas do lançamento da autobiografia, propositada ou não, vai ser muito boa para as vendas…

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  8. 8 8  Daniel Oliveira

    Também já li muitas coisas de Grass e acho-o genial. Gostos diferentes. De resto, a insinuação de oportunismo sabendo o preço que Grass iria pagar por esta revelação é de uma enorme injustiça.

    Quando ao mais, escrevi o Expresso.

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  9. 9 9  nikonman

    Ena, ena! Colocar o director Fernandes no mesmo patamar de G Grass, mesmo que seja só no reconhecimento de culpas antigas, é um exercício só acessível a uma mente brilhante. Dá que pensar!

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