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A propósito do meu texto sobre a produção do iPod na China, João Miranda diz: «Poderíamos até pensar que o Daniel, sabendo que os baixos salários se devem à relativa escassez de capital nos países pobres, seria a favor do investimento estrangeiro na China só possível à custa da transferência de capital dos países ricos para os países pobres. Só que, em vez de louvar a Apple pelos investimentos já feitos, em vez de pedir à Apple mais investimentos na China, o Daniel parece estar zangado com a Apple por ela comprar produtos made in China».

Primeiro dois pormenores: a Apple não compra produtos Made in China. Manda montar os seus aparelhos na China. Compra apenas a mão-de-obra. Não é a mesma coisa. Depois, não me limitei a falar dos salários, mas da escravatura, da ausência de liberdade e das condições e horas de trabalho. Bem sei que no liberalismo “sobe de desce” de João Miranda isto são minudências, mas julgava que os liberais davam alguma importância às liberdades políticas e individuais. Estava enganado.

A China não é um país pobre. Os chineses são pobres, o que não é exactamente a mesma coisa. Não há escassez de capital na China, pelo contrário. A China é hoje um dos maiores consumidores de petróleo para a indústria. Investe no estrangeiro. É uma enorme potência económica. Não se pode falar da China assim como quem fala da Etiópia. Entre as maiores empresas na China estão, aliás, empresas participadas pelo Estado, o que, ao contrário do trabalho escravo, com toda a certeza causará indignação ao nosso João Miranda.

João Miranda não referiu o insignificante facto da China ser uma ditadura. Bem sei que é uma ditadura recentemente apadrinhada por liberais um pouco baralhados. Subitamente, andam de braço dado com Jerónimo de Sousa. Mas, ainda assim, uma ditadura. As regras democráticas, que incluem liberdades para os trabalhadores, não existem por aqueles lados. Assim, a Apple não se limita a ir para uma país pobre com salários baixos. Usa, como ficou claro no caso dos iPod, a ditadura e a repressão daquele regime como factor de competitividade no preço final dos seus produtos. Não é apenas conivente com a ditadura. Beneficia das suas vantagens.

É a vida, dirá João Miranda. E cabe-nos a nós competir com a China, acrescentará. Podemos, de facto, começar por proibir os sindicatos, fechar os jornais, fazer renascer a polícia política e acabar com a semana de trabalho de cinco dias, as férias pagas e os horários de trabalho. Podemos até acabar com a liberdade económica para competir com a China. O João Miranda é que não vai ter grande espaço onde defender seu liberalismo. Este é o problema das ortodoxias ideológicas, sejam socialistas ou ultra-liberais: a realidade é sempre um bocadinho heterodoxa.

O problema, caro João Miranda, não é eu não ser igualitarista. É não querer que o Mundo se igualize ao modelo social e político chinês. O problema é que a ideia de que a competição sem regras entre Estados e o mercado livre global espalharão o progresso e a justiça por cada canto do planeta vive da mesma candura trágica da teleologia comunista: que na história, se seguirmos as leis certas, encontraremos a paz celestial.

Outra coisa, mais complexa, é o que o crescimento exponencial da China está a fazer à própria China. Mesmo sem liberdade sindical, há hoje centenas de greves (proibidas) por todo o território e uma classe média emergente. Haverá quem diga que este “capitalismo comunista” trará inevitavelmente a democracia. Acontece, repito, que as vantagens competitivas da China não são apenas salariais. África tem salários baixos e não ganha grande coisa com isso. A China é um Estado centralizado, repressivo e com a disponibilidade de uma imensa massa de mão-de-obra semi-escrava. Se a democracia vem, vai-se a competitividade. A China parte-se em bocados, como aconteceu com a ex-União Soviética, os trabalhadores vão querer o seu quinhão de riqueza e salários decentes, a instabilidade política e social será incontrolável e de dimensões completamente novas. O desmembramento da União Soviética será uma brincadeira de crianças ao lado da queda do comunismo chinês. A China interessa às empresas porque é uma ditadura. Por isso, nem está escrito nos astros que o crescimento económico traga a democracia, nem a democracia pode garantir o crescimento económico chinês. O ideial, para os investidores, é garantir, pelo máximo de tempo possível, a transição do comunismo para a economia de mercado sem nunca passar pela casa de partida: a democracia e a liberdade.

Mas tudo isto é futurologia. Até lá, o liberalismo linear de João Miranda, que tem o pequeníssimo problema de se esquecer sempre a política quando fala do mercado, terá de viver com este interessante paradoxo: o maior sucesso de competitividade global capitalista é um país comunista. E ele gosta.


Sem respostas ao post “O Mao invisível”  

  1. 1 1  susana

    As motivações do senhor Daniel são muito mais de ordem moral que metafísica. Ele define-se, antes de mais, pelo temor de um líder antropomórfico, obrigado por um determinismo intemporal e, por conseguinte, como o próprio Daniel, senhor a cada instante dos seus actos e das suas respostas. O senhor Daniel sofre, porque está disvirtuado pelo uso excessivo do verbo, e já não consegue obter a adesão dos leitores. O seu pensamento está constantemente voltado para uma exasperação moralista da noção de certo, levando-o a uma desconfiança profunda não só em relação ao mundo, como a si próprio. É, literalmente, um pobre de espírito!

  2. 2 2  sem-fe

    já para não falar do (não surpreendente, porque os criminosos sabem bem agrupar-se) controlo massivo que a opus dei está a efectuar sobre a sociedade chinesa, tal como o Daniel aqui denunciou há dias. A ICAR sabe muito bem estender os seus tentaculos, mas não consegue esconder certos pormenores sórdidos que a caracterizam.
    Mas cá em Portugal também está bem activa.
    Contínuo a desafiar o senhor Oliveira a comentar a promiscuidade BE+ICAR

  3. 3 3  Luís Lavoura

    A China não é um país comunista. É, objetivamente, uma ditadura de direita. A sua maior ideologia atual é o nacionalismo, e não o igualitarismo. Coisas típicas do comunismo, como a educação e a saúde gratuitas, há muito que deixaram de existir na China.

    Leiam o livro “O século chinês” de Federico Rampini, um jornalista italiano que viveu longos anos na China. O livro surgiu no ano passado e foi traduzido agora para português (Editorial Presença). Rampini afirma que o regime chinês é, essencialmente, parecido com o de Francisco Franco nos seus últimos anos: trata-se de um regime de direita e não, de forma nenhuma, de esquerda.

  4. 4 4  Luís Lavoura

    Convem dizer que, nos anos 80, quando o Ocidente aplaudia com estrondo o sindicato Solidariedade na Polónia, e vituperava os países de Leste por não terem liberdade sindical, o país do mundo no qual havia mais sindicalistas na prisão era… a Coreia do Sul. E disso não se falava, claro, no Ocidente. O capitalismo vivia feliz e satisfeito com a falta de liberdade sindical na Coreia do Sul (em em Taiwan, e em Singapura, etc). Só se arreliava era com a falta de liberdade sindical na Polónia.

  5. 5 5  pepe

    Realmente a “mão invisível” em que tanto confiam não garante as instituições reguladoras do Estado Democrático. Entendem que essa “mãozinha” é da categoria do natural mas esquecem de levar a analogia até ao fim: a Mãe-Natureza também provoca desiquilibrios catastróficos, com secas e desertos, cheias e tsunamis, etc, etc. O que vale é que os seres vivos que “sobrevivem” se adaptam defendendo-se, reagindo e, escândalo!, interferindo na ecologia dos seus habitats. A modos como aqueles cidadãos que reagem manifestando-se nas ruas, organizando-se em grupos, exigindo autoregulação social através de instituições democráticas.

  6. 6 6  Carlos Pinto

    “O ideial, para os investidores, é garantir, pelo máximo de tempo possível, a transição do comunismo para a economia de mercado sem nunca passar pela casa de partida: a democracia e a liberdade.”
    Subentendo que percebe, ao contrário dos camaradas, que comunismo é uma forma de ditadura. Mas não há transição nenhuma para uma economia de mercado, porque uma economia de mercado exige que haja liberdade de iniciativa e de contratação. O caso que expôs nada tem a vêr com economia de mercado. Dar a entender que tem alguma relação com economia de mercadoou liberalismos é pura desonestidade intelectual.

  7. 7 7  sdm

    Acho que o Daniel Oliveira está a ser injusto para com os “liberais” em geral e o João Miranda em particular.
    De facto, não creio que estes tenham uma especial simpatia em relação a ditaduras comunistas: basta-lhes que sejam ditaduras (o Chile de Pinochet não foi uma história de sucesso económico? O 28 de Maio de 1926 não veio, segundo JCD, o Dupont de João Miranda, pôr fim à confusão?).
    A democracia, que deve ser “distribuída” com parcimónia, só serve para assegurar que em alguns países os trabalhadores consigam salários que lhes permitam… comprar IPods.
    Quanto ao mais, a tese de João Miranda está mais que comprovada por séculos de colonialismo: o trabalho escravo dos indígenas nas colónias assegurou uma transferência maciça de capital para esses territórios. Coitados dos países colonizadores, que assim se viram espoliados das suas riquezas!

  8. 8 8  jacl

    Mas então, gostava que me explicasse, a culpa é da China que cria tais condições ou da Apple que as aproveita? E já agora, vamos boicotar os produtos da Apple ou os Made in China? E quantos países mais? Isto é sério?

  9. 9 9  Rui

    Caro Daniel quero lhe dizer que concordo inteiramento com o seu post, mas acrescentando que, apesar de a China ser uma próspera ditadura sanguinária nunca vi e ouvi os sobrinhos do tio Sam preocupados em espalhar a sua ditosa liberdade aos territórios chineses.
    Mais vale um bom negócio da China que um cidadão chinês livre… é a infeliz conclusão desta globalização económica.

  10. 10 10  LA

    Resposta brilhante!

  11. 11 11  Anónimo

    Ecelente.
    Nem G. Frank diria melhor.

  12. 12 12  ezer

    Touché!!!
    Mas sobre a economia ao serviço dos gananciosos podem ler mais,a desvendar as falcatruas e estórias da carochinha em http://resistir.info/eua/kolko_15jun06.html ,por exemplo

  13. 13 13  José Carmona

    O sr. tem de perceber que para as empresas tanto faz se é democrático ou não. A Índia é como a China, só que é democrática. Acha que se paga e vive melhor na Índia?
    Só o investimento estrangeiro pode desenvolver os países pobres. Se, como o Daniel advoga, as empresas não investissem na China, estariam a evitar que MILHÕES de pessoas saíssem da pobreza extrema. Assim, o Daniel prefere que essas pessoas morram à fome ou que trabalhem 15 horas por dia?
    Pelos vistos tem sido o investimento estrangeiro a criar uma gigantesca classe média na China.
    Então o Daniel é a favor da saída das empresas estrangeiras da China? Para irem para onde?

  14. 14 14  ezer

    Sr.Oliveira,permita-me a sugestão de incluir aí no ‘peixe graúdo’ um link para o http://resistir.info/ porque tem excelentes artigos traduzidos de diversas fontes ,como poderá constatar.Ainda ontem foi aposto um art de John PILGER que vai ao (de) encontro dumas bocas duma pessoa sobre a Palestina e Israel.
    Sabemos que é uma iniciativa do pessoal do PCP,mas é muito bem ‘achado’ e, importante para a (in)formação do cidadão.Numa ‘palavra’:tem qualidade.Prefiro-o, do que expressos,públicos e outras vozes do dono.

  15. 15 15  anti-comuna

    Daniel, Vc tem demasiados engulhos em aceitar que é o desenvolvimento económico uma das peças fundamentais para que haja a forte possibilidade da instauração de uma democracia na China. Não é esse um dos problemas actuais do Iraque e do Afeganistão? Com os ocidentais a tentarem implantar um regime onde existe muita miséria? E até a ausência de um Estado de Direito? Precisamente por falta de uma classe média?

    Vc. veja as suas próprias contradições.

    “Primeiro dois pormenores: a Apple não compra produtos Made in China. Manda montar os seus aparelhos na China. Compra apenas a mão-de-obra. Não é a mesma coisa.”

    Aqui está equivocado, pois parte dos componentes são chineses. Aliás, hoje em dia, quase todos os produtos, têm várias origens. Abra o seu pc e veja a origem dos vários componentes. Pode encontrar processadores feitos em Singapura, uma placa gráfica da Formosa, baterias da Koreia (se for um portátil), mother-board da Tailândia ou Filipinas, etc.

    Portanto, a Apple não procura só mão-de-obra barata. Mas há outro factor. Todas as multinacionais, em todo o mundo, sempre que se deslocam, levam para os vários países condições de vida (incluindo salários, número de horas semanais, regalias várias) para os seus trabalhadores, que estes não têm nos mercados locais. É assim em Portugal, na Rússia, na China ou até nos USA. Essas melhores condições oferecidas à mão-de-obra local, para atrair os melhores, implica mudanças significativas na própria mentalidade dos agentes económicos locais. Que inclusivé pressiona a Gestão das empresas locais, que sofrem esta concorrência por parte das multinacionais.

    “Depois, não me limitei a falar dos salários, mas da escravatura, da ausência de liberdade e das condições e horas de trabalho.”

    Mas Vc. conhece quantas empresas multinacionais que usam alguma mão-de-obra escravizada? As próprias multinacionais não aceitam este tipo de mão-de-obra, que são pouco produtivas (sabe o que é produtividade, não sabe?) e trazem custos na sua imagem, que penalizam a própria empresa como um todo.

    “Não há escassez de capital na China, pelo contrário. A China é hoje um dos maiores consumidores de petróleo para a indústria. Investe no estrangeiro. É uma enorme potência económica. Não se pode falar da China assim como quem fala da Etiópia.”

    Hoje, face á liberalização dos mercados, quase todos os países têm acesso aos capitais. Incluindo a Etiópia. Só que o capital humano, a experiência acumulada, Inv. & Des. e muitos outros factores importantes para a produção e produtividade faltam na China, como faltam na Etiópia ou, infelizmente, em Portugal. Ou Vc. julga que de um dia para o outro se pode criar produtos e serviços capazes de competir de igual para igual com as principais potências económicas? Como a Alemanha, França, USA ou Japão?

    “Entre as maiores empresas na China estão, aliás, empresas participadas pelo Estado”

    Claro que existem essas participações do Estado. Mas hoje a produção industrial chinesa já só conta com apenas cerca de 50% da produção feita por empresas do Estado ou com a sua participação. Mas há 20 anos era 100%. Mas a China está a fazer a maior onda de privatizações desde a queda do Muro de Berlim, após a tentativa de modernização destas mesmas empresas. E repare que 75% das exportações chinesas são feitas apenas por empresas privadas. O Estado está a retirar-se da produção e dar lugar ao sector privado.

    “Usa, como ficou claro no caso dos iPod, a ditadura e a repressão daquele regime como factor de competitividade no preço final dos seus produtos.”

    Mas esse factor de competitividade é ele próprio auto-destrutivo, quer para a marca Apple, quer para o próprio regime chinês. A actual falta de mão-de-obra nas zonas abertas ao comércio exterior e onde a economia privada já detém o maior quinhão de mercado, está a pressionar as autoridades chinesas para que aumentem o grau de Liberdade, seja política, de movimentos, trabalho e inclusivé de salários. Ora, a actual maior abertura do regime na questão da Liberdade mostra que a implantação de um capitalismo liberal exige que para que este continue a proliferar (isto é, “manter a bicicleta em andamento”) maiores doses de liberalismo. É como uma droga. Quanto mais Liberdade se dá aos cidadãos e agentes económicos, mais estes querem liberalismo, sob pena dos fundamentos do crescimento económico desabarem e atingir o regime de uma forma dura. (O actual caso português é mesmo gritante, no contexto da UE.)

    “O problema, caro João Miranda, não é eu não ser igualitarista. É não querer que o Mundo se igualize ao modelo social e político chinês. O problema é que a ideia de que a competição sem regras entre Estados e o mercado livre global espalharão o progresso e a justiça por cada canto do planeta vive da mesma candura trágica da teleologia comunista: que na história, se seguirmos as leis certas, encontraremos a paz celestial.”

    Daniel Oliveira, 90% dos países que aceitaram o capitalismo liberal acabaram por ter que aceitar a chamada democracia burguesa liberal. E tem como caso mais conhecido a própria Koreia do Sul.

    O que Vc. está equivocado é que, por muitas deslocalizações e encerramento de empresas nos países ricos (países ricos são aqueles onde a média de rendimentos é alta, por cabeça), estes msmos países ricos detêm know-how, capital acumulado (e estou a falar de todos os capitais, incluindo o financeiro), instituições, modo de vida, e outros múltiplos factores que por si mesmo evitam que o nivelamento seja feito por baixo. Por uma razão simples. Os países de mão-de-obra mais barata detêm apenas de um ingrediente, entre os vários, que compõem as vantagens competitivas. Senão, como explica que os carros chineses, no país do mundo com maior número de fabricantes, (ainda são cerca de 300) não conseguem penetrar a sério no mundo ocidental? Pela mesma razão porque a Toyota, há 40 anos, também teve dificuldades em entrar no mercado americano e compreendeu que não são os salários mais baixos os factores decisivos de competividade.

    Vc. julga que a China tem um ambiente cultural e competitivo que lhe permita já dominar o mercado mundial? Não, não tem. Precisa dos tais factores decisivos que lhe permitam atingir esse grau. E para o atingir vai ter que democratizar o regime, mais cedo ou mais tarde. Até por uma razão simples. Uma ditadura é um factor de risco que limita e muito a competitvidade. Isto é, se esse país quer subir na cadeia de valor e subir o seu nível de vida, tem que se democratizar.

    Daniel Oliveira, conhece alguma marca comercial forte oriunda de um país que é uma ditadura? Conhece? Não, porque as marcas comerciais, quer queiramos, quer não, são eles próprios símbolos de países e regimes políticos. Há toda uma carga simbólica numa marca comercial. Sabemos muito bem a percepção dos consumidores neste aspecto. E ditaduras não conseguem subir na cadeia-de-valor permitida pelas marcas comerciais.

    Mas, ao contrário da China, a Índia tem marcas comerciais fortes e tem factores de competividade mais fortes que a própria China. E porquê? Porque a Índia, apesar de tudo, é uma democracia e uma tentativa de Estado de Direito. E é por isso que a rentabilidade dos investimentos indianos é mais alta na Índia que na China. (Se calhar Vc. até nem sabia disto, que os investimentos na Índia são mais rentáveis que na China. Pois não?)

    E, ao contrário do que muitos pensam, como Vc., a China não tem sido competitiva por causa da ditadura, do centralismo e da falta de liberdade, seja ela política, sindical ou de mobilidade. Tem-no sido devido a menores custos na mão-de-obra, nos custos da energia, nos impostos, nas regulamentações, etc.. Mas são factores passageiros e que se perdem, à medida que o crescimento económico faz com que os salários cresçam e a compettividade desse país precisa dos tais factores democráticos para continuar a crescer e manter o nível de vida.

    Mas a China está a agora a conhecer um rival importante. A Índia. Só que os problemas principais da Índia não é decorrem por ser uma Democracia, bem pelo contrário, é um dos factores competitivos bem fortes indianos. O problema da Índia é a falta de um mercado interno homogéneo, excessivo socialismo, um peso do sector público enorme (hoje a Índia deve ter tantos problemas com as empresas públicas como as chinesas), falta de infraestruturas, etc..

    Mas, aquilo que Vc. vêm como factor decisivo para o explosivo crescimento económico chinês, a ditadura e falta de liberdade, não existe tanto na Índia e esta está a crescer ao mesmo ritmo da china. (No primeiro trimestre, a Índia crescer 9,4% e a China 19,3%.) Ou seja, não é a ditadura chinesa o factor competitivo mas outras condições, que o regime chinoca permite.

    A Índia, ao abraçar o capitalismo liberal, está a conhecer também uma revolução económica e até será uma revolução económica mais ampla e rápida que a chinesa. Por uma simples razão, tem um regime democratico e mais próximo do ocidental. (A começar, pelo capital humano, muito melhor que o chinês e com muito menos corrupção, um dos factores que trás problemas à própria China.) Para além disso, a Índia já detém marcas comerciais, que mais cedo do que se pensa, em breve chegará ao mundo ocidental e conquistará mercados, coisas que os chineses terão muito mais dificuldades, precisamente por ser uma ditadura. (Veja como a Sangsung koreana só conseguiu expandir-se a sério nos mercados internacionais quando se democratizou o regime koreano.

    É certo que o DO está pessimista quanto ao regime chinoca.

    “A China parte-se em bocados, como aconteceu com a ex-União Soviética, os trabalhadores vão querer o seu quinhão de riqueza e salários decentes, a instabilidade política e social será incontrolável e de dimensões completamente novas. O desmembramento da União Soviética será uma brincadeira de crianças ao lado da queda do comunismo chinês. A China interessa às empresas porque é uma ditadura.”

    Está enganado, caro DO. Às empresas interessa um ambtiente político estável. (Mesmo em democracia.) Ora, um regime daqueles é um regime instável a prazo. Todos o sabem, os próprios dirigentes da China o sabem, mesmo com a repressão enormer em termos sindicais. Mas, precisamente por causa do crescimento económico é que existem as tais greves e movimentos de protesto pelo meio ambiente (que neste momento gera tantos protestos como a reinvendicação por melhores salários) e é precisamente após haver um forte crescimento económico é que a população tem acesso a formação e informação, que faz com que exista um movimento pró-democracia cada vez maior. Mesmo que não pareça.

    Os próprios facínoras do regime sabem que, ou implementam a democracia burguesa e liberal, ou o regime acabará por cair como um castelo de cartas. Daí as, ainda limitadas, tentativas de instauração de eleições livres, comvários partidos vários partidos, a começar pelas autarquias.

    Dirá que a China irá conhecer uma forte crise económica? Irá, no futuro. O processo de crescimento económico é de feito de crises também. E esta crise económica irá abalar os alicerces do regime chinoca? Irá. Mas os próprios comunas chinocas, sabendo-o, é por isso que cada vez mais tentam dar mais liberdade política, apesar da forte corrupção e da existência de maluquinhos do PCC que mandam matar protestantes, como se ainda Mao fosse vivo.

    O DO, em vez desse seu pessimismo, dizendo que não há determinismos históricos, repare que a actual China tem semelhanças óbvias com a própria Koreia do Sul. Mas hoje a Koreia do Sul é um regime melhor que o de há 20 anos atrás, não é? Ou o de há 40 anos atrás, não é?

    Essa é a maravilha do capitalismo liberal. Por onde passa deixa as sementes da Democracia e do próprio Estado de Direito. Ou o DO conhece muitos países onde existe uma economia de mercado sem que não acabasse por triunfar a Democracia?

    PM Pela mesma ordem de ideias, e se deixassemos de consumir pitroil de países ditadoriais, estilo Venezuela? Quem alimentaria os apetites energéticos e a actual forma de vida das democracias liberais? Pois…

  16. 16 16  Mr Macphisto

    Gostei do artigo do Daniel mas perante a sua constatação fatalista que o futuro é as empresas largarem o mundo ocidental indo pa países subdesenvolvidos, gerando com isso uma terrível epidemia de desemprego e convulsão social, pergunto-lhe, que solução propões para inverter tal cenário, ou se está conformado com o mesmo? E no caso de achar que se pode fazer algo, bom, atendendo à globalização que caracteriza a economia, não passará tal pelo que já fazem os governos nacionais na tentativa de manterem nos seus países os investidores?

  17. 17 17  Tiago

    gostei do texto, pois toca nos lados negros do sucesso do capitalismo chinês. Não consigo, contudo, responder a esta questão: têm os chineses mais ou menos liberdade que antes de haver esta China a 2 velocidades, concebida por Deng? e se têm, quererá isso dizer que vai no bom caminho?

  18. 18 18  Pavaroti

    E eu que julgava que o BE éra um partido de esquerda, pelo menos nas suas origens.Daqui a pouco está colado ao PNR

  19. 19 19  Adelino Chapa

    Só agora tive conhecimento do teu regresso à rede. Gostei de te rever por cá. Continua.

  20. 20 20  JH

    Como se esperava, a sua resposta é mais uma fuga para a frente, misturando juizos de valor com factos, limitando-se a apontar questões de pormenor óbvias. Daniel, tente ao menos uma vez na vida discutir um assunto sem deturpar os factos, sem demagogia, sem crirar confusão e sem moralismos. Vai ver que um novo mundo se deparará à sua frente!

  21. 21 21  xatoo

    Olha que dois. Com estas polémicazinhas de chacha, vcs acabam por estar bem um para o outro. “Ditaduras”?
    eheheheh - então e por aqui? esta democracia não é um embuste?
    o meu voto vale o mesmo que o voto do Belmiro de Azevedo?
    ora, ora
    ou a democracia é apenas uma coisa formal e não tem nada a ver com a base económica?

  22. 22 22  Anónimo

    Em cheio camarada Daniel.
    Fiquei, no entanto, com uma duvida. O seu problema é com a falta da liberdade chinesa ou com o facto de os mesmos terem em parte aberto as portas ao capitalismo. É que como bem sabe existem outras republicas populares por esse mundo fora cuja única diferença é ainda não terem aderido ao sistema chinês porque no resto são a mesma miséria.

  23. 23 23  luikki

    claro e verdadeiro!
    mas estas coisas não entram na cabeça da direita!

  24. 24 24  Sofocleto

    O João Miranda está convencido que os 33 cêntimos de dólar que o «operário» recebe chinês por hora é o exemplo de “competitividade” onde deveríamos por os olhos.

  25. 25 25  João

    O que vale a estes neo-místicos é a sua fé …

    quanto à China: ” You can do anything you set your mind to when you have vision, determination, and an endless supply of expendable labour.”

    http://images.despair.com/products/demotivators/achievement.jpg

    http://www.grist.org/news/counter/2003/11/24/yangtze/

    ps: até custa a acreditar que um gajo oiça falar de escravatura e peça por mais , acusando os detractores de serem, ó insulto dos insultos neolibs, “igualitaristas” !

  26. 26 26  Sofocleto

    O João Miranda é um fundamentalista. Não percebe que a mão invisível, por si só, é igual à economia total e centralmente planificada. Ambas são contra-natura. Ambas são aberrações.

  27. 27 27  Huckleberry Finn

    Toda a palavra se gasta com o tempo. Tomemos como exemplo a palvra - liberdade. Nasceu nobre e passado algum tempo pisa montes de esterco.
    Os regimes mais ineptos e sacanas nascem e crescem em nome da pretensa Liberdade.

  28. 28 28  Helena Romao

    Não bata mais no ceguinho. O coitado do rapaz nem percebe que do alto do Largo do Caldas está a defender um país comunista; e dá tanta importância aos seus comentários e ao BE, que é capaz de tudo (até de defender um país comunista) só para criticar um bloquista! E provavelmente (muito provavelmente) nem percebe bem o que está a dizer…

  29. 29 29  Natália Gonorreia

    “A China não é um país pobre”???? Ó Daniel, o menino não estará a confundir a dimensão total da economia com o PIB per capita? É evidente que a China tem um dos maiores PIBs do mundo, com tudo o que isso implica em termos de dimensão. Mas é evidente que em PIB per capita está muito abaixo do Luxemburgo. Este tem um PIB per capita que é 646% da média mundial, enquanto a China tem apenas 66% (Portugal tem 179%). Dados do FMI, 2005, em PPP.

  30. 30 30  sm

    A China não é um país Comunista.

  31. 31 31  Mário Tomé

    Boa meu caro Daniel.
    Mas “o maior sucesso de competitividade global capitalista é um país comunista” sendo um sarcasmo bem aplicado pode deixar a ideia que há países comunistas …nem que fosse a China!
    Lembrando as duas vozes mais autorizadas sobre o assunto (para os mais novinhos trata-se de Marx e Engels): “O comunismo não é para nós um estado de coisas a ser estabelecido, nem um ideal ao qual a realidade terá de se ajustar. Nós chamamos comunismo ao movimento real que abole o estado actual. As condições desse movimento resultam das bases actualmente existentes”
    E já agora como…curiosidade, Marx em 1856: «Nos nossos dias tudo parece prenhe do seu contrário. A maquinaria, dotada com o poder maravilhoso de diminuir e frutificar o trabalho humano, mata-o à fome e fá-lo trabalhar em excesso. As novas fontes de riqueza, por algum estranho sortilégio, transformam-se em fontes de escasse. As vitórias da arte parecem compradas pela perda de carácter. Ao mesmo ritmo que a humanidade domina a natureza ((A Natureza naquela época ainda era o que é preciso dominar e não o que é preciso respeitar e preservar), o homem parece tornar-se escravo de outros homens ou da sua própria infâmia. Até a luz da ciência parece incapaz de brilhar excepto contra o fundo escuro da ignorância. Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar as forças materiais de vida intelectual e embrutecer a vida humana ao torná-la uma força material» (discurso no aniversário do People’s Paper). Belo e poderoso. Palavras para quê?
    Com estas duas citações temos, na segunda, um retrato do mundo do capitalismo traçado há 150 anos: na essência o dito mostra nula criatividade; na primeira, o apelo ao empenhamento no “movimento dos movimentos”.
    Abraço

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