O novo Ipsilone do “Público” dedica a sua capa ao plágio literário. É uma obsessão na blogosfera, onde muitas vezes se confunde fraude com recriação. Uma obsessão, por vezes persecutória, que junta medíocres, invejosos e burocratas da cultura. Como se a criação não fosse sempre uma repetição.


Sem respostas ao post “O plágio”  

  1. 1 1  shark

    Ò pá, não me lixes…

  2. 2 2  Maria João

    Como se a criação não fosse sempre uma repetição. Que ideia mais redutora, que raio de maxima mais quadrada!

  3. 3 3  Daniel Oliveira

    Será possível que não se consiga um debate normal nas caixas de comentários?

    1. Não é preciso de procurar muito para saber que não morro de amores por MST e vice-versa.
    2. Não me parece, no entanto, que acusação que lhe foi feita tenha qualquer fundamento.
    3. Não é MST que está aqui em debate.

  4. 4 4  shark

    Quero lá saber do MST! O teu post é um puro insulto ao conceito de Direito de Autor. E esse não me parece susceptível de ser atropelado por quem cria.
    Ou repete, se preferires…

  5. 5 5  Daniel Oliveira

    Shark, a questão do direito de autor tem duas dimensões: a económica (que deve ser preservada, em defesa da criação e dos rendimentos do autor) e a intelectual. É a segunda que estou a debater. E possível debate-la. É mesmo um debate bastante vivo, por exemplo, nos EUA.

  6. 6 6  shark

    Mas concordarás que seguindo à letra o que afirmas no post, uma e outra são pura e simplesmente eliminadas.
    Se desrespeitamos o Direito Intelectual com base na premissa de que “nada se cria, tudo se transforma”, adeus ò rendimentos (que passam a dividir-se por entre os que se sintam no direito de “repetir” a criação alheia).
    E na blogosfera não se coloca a questão no plano financeiro mas eu não me assumo medíocre, invejoso ou burocrata da cultura por não admitir o plágio do que faço ou praticar eu esse vilipêndio.

  7. 7 7  Lidador

    “Os bons poetas roubam”
    (T.S. Elliot)

    “E, a esse nível, somos todos ladrões”
    (John Updyke)

  8. 8 8  shark

    O “Direito Intelectual” é uma criação minha. Livra-te de a repetires…

  9. 9 9  Lopes

    Toda a criação artística é um palimpsesto. Como alguém disse, um mosaico.

  10. 10 10  parodiades

    uma pessoa que coloca o seu nome por baixo do texto de outra está a tentar fazer-se passar pelo que não é.

    e recriar não é copiar. é criar sobre.

    copia quem não tem talento.

  11. 11 11  Plágio

    tem razão. por vezes é imitação pura e simples.

    deixo aqui um textinho gentilmente copiado da infopédia.pt (dicionário online da porto editora),
    para que se perceba a importância da cópia e da imitação.

    Imitação nas Belas Artes

    São tradicionalmente conhecidas como “artes da imitação” a pintura e a escultura, nas quais se procura reproduzir os objectos na sua natureza própria, num meio artificial e de forma incompleta. Começa-se sempre por imitar nas Belas Artes. Aquilo que normalmente se chama de “criação” nos grandes artistas mais não é do que uma maneira particular de cada um ver e assimilar a natureza, a forma de renovar nos espíritos dos espectadores as impressões, as recordações, as emoções e as sensações que formam ou devem ser reproduzidas pela coisa representada. Os grandes artistas tiveram sempre que imitar os seus antecessores , antes de conseguirem ter autonomia criativa para traçarem a sua própria forma de ver a natureza. Aristóteles, por exemplo, considerava a arte como imitação, com um valor puramente artístico e purificador do sentimento (Kátarsis), para além de produtor de coisas belas.
    Rafael, um dos grandes pintores do Renascimento, foi, segundo muitos estudiosos da arte, um dos que mais se aplicou a imitar, desde os seus mestres às obras pictóricas e escultóricas da Antiguidade Clássica, bem como a outros mestres que o precederam e mesmo outros seus contemporâneos, como Albrecht Dürer, Ticiano, Michelangelo, entre outros. Rubens, por exemplo, foi um dos grandes imitadores da pintura, não deixando, no entanto, de se afirmar como um dos maiores artistas do seu tempo. Contudo, não se poderá chamar a estes artistas, como a outros também, de imitadores. A pintura não consegue, de facto, operar sobre o espírito do espectador com toda a amplitude do ser real. Por isso é que esses pintores não são meros imitadores, pois foram mestres no uso dos meios de imitação que a arte dispõe para compensar ou superar as insuficiências ou limitações da representação do real, que nem sempre é exacta. A imitação é também a acção mediante a qual se opera de acordo com um modelo artificial, ou copiando-o exactamente (cópia) ou, trabalhando sobre um assunto original, à maneira e ao gosto do artista (pastiche).
    Desde as mais antigas civilizações que a imitação existiu na pintura e na escultura. Recordemos as imagens gravadas em grutas (Altamira ou Lascaux) ou em esculturas zoomórficas oriundas, posteriormente, do Crescente Fértil, reveladoras já de um forte sentido de imitação. A natureza desde logo foi o elemento a imitar, porque o único, nos seus fenómenos, que impressionava o homem e o induzia a reproduzir, sob vários suportes materiais e segundo diversas técnicas, era aquilo que via. A imaginação despertava depois a fantasia, surgindo a estilização e, consequentemente, abria-se o caminho à criação. Por isso, os pintores e escultores de todos os tempos não pararam nunca de imitar, os outros ou as coisas à sua volta, nas suas obras. Deste modo, a imitação artística é a reprodução através de um meio artificial da aparência de um ser real. Todavia, as artes da imitação não se limitam a reproduzir o aspecto dos seres reais, pois também procuram renovar no espírito do espectador as impressões, as recordações, as sensações e as emoções que foram ou deveriam ser produzidas pela coisas representada.
    A missão das artes plásticas, concluindo, é a de idealizar a realidade - ainda que o ideal não tenha modelo na natureza e só exista na imaginação - pondo de lado as imperfeições e fealdades da mesma - num primeiro momento de imitação - e buscando nas dificuldades vencidas a máxima emoção estética.

    Imitação na Psicologia

    As ciências e a filosofia também não fogem à imitação, que afinal em tudo toca. A filosofia define-a como a um processo de criação artística que consiste na inspiração na natureza para se criar um objecto. A psicologia dá-lhe mais um sentido de reprodução, de um gesto, de um mimetismo, de uma postura, de um acontecimento, de uma sequência. Também Piaget, por exemplo, desenvolveu modelos de imitação de acordo com os modelos de desenvolvimento psicossomático do indivíduo por ele definidos. A imitação “aperfeiçoa-se” e torna-se cada vez mais à medida que o indivíduo “cresce”.
    A imitação, cópia intencional de acções de outra pessoa, foi um dos principais temas debatidos pelos psicólogos da psicologia social. O sociólogo francês Gabriel Tarde escreveu uma monografia inteiramente dedicada a este tema denominada As leis da Imitação (Les lois de l`imitation, 1890), uma vez que acreditava que a imitação era um dos processos fundamentais da realidade social.
    (…)

    Imitação na Literatura

    É na literatura, um pouco como nas artes decorativas, que a imitação assume contornos mais visíveis, mais problemáticos e até mais condenáveis pela sociedade, que tudo imita, provavelmente. Platão dizia que existe imitação da aparência e uma relação desta (a aparência) com o ser; por outro lado, pode existir simplesmente a imitação de um autor por outro, pura e simplesmente. Platão (República, Lv. III, 393-398 e X, 595-608), que foi quem abriu o debate em torno da imitação (mimésis), não deixou de afirmar que ela é o princípio de toda a actividade criativa, artística, do que resulta uma desvalorização da arte. O poeta mais não faz senão imitar as coisas sensíveis, que já não são o que elas verdadeiramente são mas apenas reflexos deteriorados da única realidade verdadeira: o mundo das ideias. Portanto, tudo é imitação, tudo é idealismo, ao contrário do que Aristóteles defendia, quando dizia na sua Poética que a origem da poesia devia ser procurada no instinto primitivo do homem que consiste em fruir das imitações feitas pelos seus semelhantes. (…) Virgílio imitou Homero no argumento, nas personagens e nas situações, mas não na elocução. Corneille e Molière, por exemplo, retiraram do teatro espanhol os argumentos das suas comédias, embora lhes tenham dado uma elocução e estilo próprios. Chama-se inspiração em obra alheia, o que é uma imitação menor, sempre que um autor cultiva o género a que aquela pertence, no intuito de produzir algo que seja o mais pessoal possível, sem cair no plágio (cópia servil) ou cópia, preservando a maior margem de originalidade - ou criatividade, dir-se-ia - do autor.

    Imitação na Música

    Como a poesia, não imita directamente a natureza, repete a mesma melodia, parcial ou, quase sempre, totalmente. No caso da música, a imitação assume contornos evidentes. É, de facto, um elemento fundamental da música constituída por melodias sobrepostas. A imitação desde sempre existiu na música, tendo sido parte integrante da polifonia da Idade Média e do Renascimento.
    A imitação nesta arte é um dos artifícios mais úteis e necessários na composição. Forma parte do estudo do contraponto e consiste na reprodução, mais ou menos exacta, por uma voz ou instrumento, de um desenho melódico ou rítmico previamente enunciado por outra voz ou instrumento. A imitação, esteticamente, é uma das leis fundamentais que regem a forma na arte musical. É assim um processo compositivo que é a base da polifonia e das principais formas de contraponto, como o cânone ou a fuga. Na composição em geral, proporciona ao artista recursos inesgotáveis de particular beleza, quando empregada com bom gosto. Mas atente-se: na música, imitação não é repetição de um motivo melódico ou rítmico nem progressão melódica ou harmónica. Na imitação, ao contrário dos outros casos, a reprodução é feita de uma forma diferente da que apresenta o modelo. Grandes exemplos de imitação são as suites e fugas de Bach, as sinfonias, quartetos e sonatas de Haydn, Mozart e Beethoven. Todos os compositores clássicos e românticos, tanto na suas obras vocais como nas instrumentais, conseguiram admiráveis efeitos usando a imitação.

    Outras “imitações”

    Também no teatro ou no cinema, as artes ditas miméticas, ou na vida quotidiana de qualquer sociedade, o gesto, o “tique”, a dicção, a maneira de vestir ou de olhar, são alvo de imitação. Os sociólogos, por exemplo, definiram a imitação como um facto social elementar e característico, caracterizando esta a vida social, quer entre os animais quer entre o Homem. O Homem progrediu mais do ponto de vista social porque, segundo os sociólogos e antropólogos, porque imita um maior número de seres e fá-lo de forma mais profunda. Graças à linguagem, imita não só o que se vê, que se faz ou que se sente mas também o que se pensa.

    A imitação e o Renascimento

    O tema da imitação, se foi lançado por Platão, como se viu - o conceito em si era para este filósofo mais alargado do que é hoje, conotando-o tanto com o mal e com as coisas secundárias como lhe dava também um sentido mais positivo, conferindo-lhe um significado simbólico -, foi com o Renascimento que ganhou expressão e um conjunto de interrogações cada vez mais arrebatadas, procurando-se desde então um mais claro discernimento entre os verdadeiros espíritos criadores e os copistas ou plagiadores. Foi talvez o problema mais agudo e traumático dessa “época”, que por um lado afirmava orgulhosamente a sua originalidade ou criatividade mas que não deixava de assentar num regresso ao passado glorioso dos clássicos gregos e romanos. Todo o médico do século XVI tinha que ter lido Hipócrates e Galeno, como todos os filósofos e pensadores escolásticos na Idade Média tinham que ter lido Aristóteles. Em S. Tomás de Aquino, já no século XIII, não se pode entender toda a sua monumental criação filosófica que é a sua Summa Theologica sem se conhecer Aristóteles e as suas categorias do conhecimento humano. Mesmo um orador não o poderia ser no Renascimento sem nunca ter lido Cícero.
    Bartolomeo Ricci, na sua De Imitatione (1545), defendeu que o indivíduo tem duas alternativas: ou deve procurar conformar-se a um modelo exterior ou então seguir a sua natureza sem imitar ou seguir alguém. Montaigne, mais tarde, ultrapassa esta ideia de Ricci, introduzindo o tema do “mastigar de novo”, enquanto nova forma de revisitar os Clássicos. Muitos já o tinham feito, à sua maneira, como Petrarca e o tema das abelhas, de Séneca, como fez também F. Bacon, ou S. Bernardino de Siena, como o seu Sermão da Quaresma de 1425, imitando o Cristianismo primitivo. Para o indivíduo do Renascimento, enfim, compreender ou procurar modelos nos Antigos é compreender-se a si mesmo, uma forma de se descobrir através de modelos de outrora, para além de que o prestígio destes mesmos modelos, mais do que criar o desejo de os imitar, deve estimular a criação de novas obras. De novos modelos, novas pontes para o futuro. Como dizia Maquiavel, a uma “longa experiência das coisas modernas” deve corresponder “uma permanente lição das antigas”.
    A Idade Média fora o tempo dos exempla, ligados à pregação popular e à conversão, em associação assim à retórica da persuasão, através do contar de história edificantes. O “exemplo” dos antigos tinha uma outra dimensão, heróica, a partir da qual se apela aos tempos primordiais e se tenta imitá-los. Os homens do Renascimento tentaram reavivar esta dimensão, o ressuscitar os primórdios, imitando os textos gregos e romanos, procurando os mitos e os tempos fabulosos das origens, rompendo com o dogmatismo medieval da imitação dos exempla. Esta redescoberta do mundo maravilhoso e exponencial das origens atingiu também a própria Igreja do século XV, que apresentava já mudanças nas mentalidades e nos programas devocionais e expressões de caridade reactivadas. O grande exemplo dessa redescoberta ou dessa procura do tempo heróico e perfeito das origens do Cristianismo, ainda que servindo também de modelo aos vindouros, foi a obra Imitação de Cristo, de um anónimo do século XV, recopiada e imitada até à exaustão ao longo de séculos, tendo sido, durante o século XVI, o livro mais lido depois da Bíblia. É atribuída a sua autoria a Tomás de Kempis, ou a Gerson, mas ambas as hipóteses (mais a segunda) são discutíveis.”

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