Cavaco Silva promulgou a lei do aborto. Mas sentiu a necessidade de fazer o discurso do PSD (que fez campanha pelo “não”, que foi derrotado em referendo). E faz um conjunto de exigências para a regulamentação da lei. Que vão desde a ideia surreal de que um médico objector de consciência pode fazer o aconselhamento das mulheres sobre o aborto (passando a existir objectores em part-time), criando essa figura extraordinária do médico objector de consciência selectivo (com o poder arbitrário de decidir conforme o seu humor se é ou não objector - o que o leva a poder, por exemplo, ser objector no hospital público e não o ser no privado) até à proibição de publicidade a clínicas, à definição de uma lista de assuntos sobre os quais a mulher deve ser informada ou aos prazos para a realização do aborto.

Aliás, é extraordinário que em diversos pontos Cavaco Silva aconselhe que a regulamentação diga exactamente o contrário do que a lei ainda não regulamentada já diz. Isto exacto momento em que a promulga. Não deixa de ser sinal de alguma desorientação. Ou de um favor ao PSD sem qualquer consequência. O legislador não pode mudar a lei que ele próprio já promulgou.

Alguém tem que recordar a Cavaco Silva que se ele não tem o poder de legislar, ainda menos terá de regulamentar as leis. Mas promulgou a lei (como não poderia deixar de o fazer) e isso é tudo o que deve interessar. A regulamentação diz respeito apenas ao Parlamento e ao governo (que são os órgãos com poder legislativo) e apenas eles, tendo em conta os resultados do referendo, o podem fazer. Independentemente das opiniões de Cavaco Silva sobre cada pormenor da lei. Ficam os agradecimentos ao Presidente da República por ter cumprido a obrigação política de respeitar o voto dos portugueses. O trabalho segue onde tem de seguir. E não é em Belém.


Sem respostas ao post “O Presidente que queria ser deputado”  

  1. 1 1  kota

    Você também precisa que lhe recordem a Lei do referendo, ao afirmar que ele (PR) tinha de o fazer.

  2. 2 2  Daniel Oliveira

    Eu disse: “Ficam os agradecimentos ao Presidente da República por ter cumprido a obrigação POLÍTICA de respeitar o voto dos portugueses.”

  3. 3 3  Eric Blair

    Pá, isto tinha dado jeito na altura do serviço militar obrigatório: um gajo no dia da inspecção declarava-se objector de consciência e, no dia seguinte, já não era.

  4. 4 4  a.pacheco

    Os conselheiros do PR, são umas raposas.

    O homem promulga a lei, assim evita um imbroglio politico, mas indispõe-se com uma parte da sua clientela politica.

    Para apaziguar essa clientela, diz que nas suas convicções não está de acordo com a lei.

    O importante é que uma pagina negra da nossa historia foi virada, as mulheres que decidam interromper a gravidez ,pelo menos deixam de estar sujeitas ao ferrete da prisão e da condenação em Praça Publica.

    O resto virá com o tempo.

  5. 5 5  Luís Lavoura

    “faz um conjunto de exigências para a regulamentação da lei”

    Pergunta ao Daniel:

    Ele (Cavaco Silva) tem o direito de vetar o decreto regulamentar da lei? Ele tem a possibilidade prática de EXIGIR algo em relação à regulamentação da lei? Ou a mensagem dele ao Parlamento é só conversa inconsequente?

  6. 6 6  F Gomes

    Eu bem sabia que ele não tinha perfil para o cargo. Receio bem que quando e se tiver de tomar uma decisão grave (espero bem que seja poupado a isso) pura e simplesmente tome a decisão errada ou não a tome. O Homem não tem formação para PR ponto final

  7. 7 7  palhaçadas

    Não li a lei que foi aprovada e só espero uma coisa: que o SIM à despenalização da IVG não seja sinónimo de que a IVG seja a única alternativa possível. Se uma mulher desabafar na consulta médica que efectivamente prefere abortar porque não tem meios económicos de prosseguir com a gravidez, devemos todos olhar para o lado enquanto a lei lhe permite fazer um aborto? Que uma mulher, com uma vida financeiramente estável, opte por abortar, sou plenamente a favor, porque trata-se disso mesmo: de uma opção. Que uma mulher aborte porque não tem meios, estaremos a dar-lhe oportunidade de “optar”? Se há uma série de movimentos pelos vistos muitissimo empenhados em ajudar a trazer bébés ao mundo, parece-me razoável que se crie um corredor de comunicação que encaminhe as mulheres que vão abortar claramente porque não têm meios para junto destes beneméritos movimentos de apoio.

  8. 8 8  Filipe Brás Almeida

    Bem. Promulgou e respeitou assim a vontade dos portugueses no referendo e dos deputados por nós eleitos. Quando ao resto, penso que é normal esperar que o Presidente, tivesse alguma recado especial para dar.

  9. 9 9  Manuel Bruschy Martins

    O blogger que queria ser PR

    Aqui ficam algumas críticas que me parecem susceptíveis de restituir a veracidade da realidade.

    Artigo 133º d) da Constituição: “Compete ao PR dirigir mensagens à AR”. Decorre do art. 111º a separação de poderes (absolutamente respeitada no caso), mas também a interdependência dos mesmos. Se a AR representa o povo, também é verdade que o PR tem uma legitimidade democrática que lhe advém directamente de eleições: a um nível diferente, também representa os portugueses.

    As mensagens que o PR dirige à AR não podem é condicionar a sua competência: tal não acontece, i.e., recomendam-se certas atitudes, mas não se impõe, de forma alguma, a adopção das mesmas.

    Ideia “surreal” de que um médico objector de consciência pode fazer o aconselhamento das mulheres sobre o aborto: É óbvio que se o médio é objector de consciência discorda da realização do aborto naqueles termos. Mas por isso mesmo terá todo o direito de demonstrar às mulheres os aspectos negativos da (dita) IVG, se o Parlamento ou o Governo o permitirem, como o PR sugere que o venham a fazer. Ele será um objector de consciência activo: defenderá a causa que o levou a objectar consciência - A VIDA.

    Proibição de publicidade a clínicas: que o aborto é um negócio da China (não só no sentido literal) já todos sabíamos, e sabiam-no especialmentebem aqueles que defendiam que era tempo de acabar com o aborto em condições como um privilégio de quem pode pagar. Aquilo que não sabíamos é que os esquerdistas deste país se revelariam grandes defensores das máquinas de dinheiro (se acharem demasiado mau sujo, fiquemo-nos pelo ensaguentado) que são as clínicas de aborto. Mais: se se andou a dizer que o aborto não é bom, logo, que deve ser permitido, mas como derradeira solução, não sejamos agora incongruentes. Afinal: o objectivo da publicidade não é aliciar à prática de certos actos?? Publicidade a clínicas de aborto não seria um incentivo, pelo menos de forma indirecta, ao aborto??

    Definição de uma lista de assuntos sobre os quais a mulher deve ser informada: parce-me que, por muito convicta que esteja uma mulher em fazer um implante mamário, existe um DEVER por parte dos profissionais de saúde de a informarem das implicações da cirurgia. Ora, um aborto, que só tem a possibilidade de resultar nas insignificantes consequências de hemorragias graves, infertilidade, aumento significativo do risco de cancro da mama, trauma pós-aborto (que pode levar ao suícido), não deverá ser objecto da mais profunda ponderação. Não se trata de manipular a decisão da mulher que quer abortar, mas mostrar-le dados que esta desconhecia e que, caso os conhecesse, poderiam ter alterado o sentido da sua decisão. Afinal, se a mulher quiser realmente abortar, mesmo depois de receber toda esta informação, aborta. Só vejo vantajens nesta sugestão.

    “Alguém tem que recordar a Cavaco Silva que se ele não tem o poder de legislar, ainda menos terá de regulamentar as leis”… Eu diria: “Alguém tem de recordar a Daniel de Oliveira que se le tem o direito constitucionalmente protegido de escrever todos os disparates que entender, o PR tem o dever constitucionalmente exigido de se pronunciar sobre os assuntos de política nacional como Chefe de Estado que é (afinal, não faz sentido que possa vetar a lei por razões políticas mas que, não o tendo feito, não possa dirigir à AR uma mensagem em que expressa o seu entender sobre a matéria - sem que esteja, com isso a exigir que a conduta dos deputados seja a do seguimento da sua opinião).

    “O trabalho segue onde tem de seguir. E não é em Belém.” Pois não, será no Rato?

    Cumprimentos

  10. 10 10  MRC

    Que bom já somos um país moderno, com uma das leis do Aborto mais liberais do Mundo!!!
    Para quê palhaçadas de períodos de reflexão? A mulher que lhe dê na gana “despachar” a “coisa”, usando palavras de Lidia Jorge que o faça, sem mais.
    É bom saber que vivemos numa sociedade em que se pode eliminar uma vida humana de forma a que as pessoas responsáveis pelo seu aparecimento não tenham que assumir as responsabilidades dos seus actos.
    Para quando a Eutanásia activa de idosos incómodos e acamados?

  11. 11 11  FuckItAll

    Luís Lavoura: a lei vai ser regulamentada por portaria, já não vai ao PR. Portanto sim, trata-se apenas de conversa para compensar simbolicamente os opositores da lei.

    Palhaçadas: é para isso que está prevista a tal possibilidade de apoio e informação não-médicas para quem os queira, para as mulheres que de alguma forma não tenham a decisão formada ou gostassem de a alterar.

    Manuel B. Martins: a informação clínica sobre a IVG e suas consequências (é uma intervenção bem mais simples e menos perigosa, quando feita em condições, do que pensa) é obviamente parte da consulta médica inicial. Quanto aos médicos objectores, acho que demonstrou perfeitamente porque é que eles não estão em condições de acompanhar medicamente uma mulher que quer fazer um aborto.

    MRC: a lei já prevê um período de reflexão (o possível, dado o prazo de 10 semanas).

    (espero que isto nao seja repetiçao, julgo que a anterior tentativa de comentar falhou)

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