A razão porque alguém defende que «existem “várias verdades”» não é porque tenha uma agenda totalitária escondida. Ao achar isto, João Miranda demonstra que acredita sinceramente que quem defende o relativismo defende-o porque sabe que está errado. Ou seja, serão pessoas intrinsecamente más e perversas que, sabendo-se erradas, querem salvar o seu erro através da confusão. Não me espanta infantilidade do raciocínio. Acontece que é exactamente ao contrário. Estas pessoas, ao contrário de João Miranda, aceitam, com alguma modéstia, que a sua verdade pode não ser a verdade. Aceitar isto é comprar o bilhete de entrada para o debate democrático. Pode até ser que João Miranda seja detentor da verdade única. Felizmente, isso é irrelevante em política.
Sabemos que a verdade não existe para lá da nossa compreensão e que as nossas compreensões, como humanos, não são nem nunca serão apenas uma. É por isso que ninguém na política tem razão antes do tempo. Se é antes do tempo, não tem razão. Claro que isto é incompreensível para João Miranda. Depois de outros se terem entregue ao socialismo científico, ele inventou uma nova corrente política: o liberalismo científico.
Pode dar-se o caso de João Miranda estar a falar de factos e não de verdades. E neste pequeno facto - o de não nos entendermos nesta conversa e de darmos à palavra verdade um sentido diferente (para não ser relativista, diria que o sentido que eu dou é que está certo) - é a própria demonstração de que até o pequeno pormenor das palavras serem usadas e não criadas por um ser divino impede qualquer ideia de verdade única. O homem usa a linguagem para comunicar e as palavras não nos chegam por revelação divina. São relativas ao espaço, ao tempo, à cultura, à história, à ideologia e por aí adiante.
Dito isto, é claro que as ideias não «são apenas uma questão de gosto pessoal». Mas não há ideias “verdadeiras”. Quanto muito, estão certas ou erradas num determinado momento e lugar. Por isso sim, a política é apenas «uma luta de vontades». Não é a luta do mal contra o bem, do centro contra o errado. Dizer que isto é um ataque à liberdade é uma inversão lógica difícil de explicar.
João Miranda consegue a proeza de, em quase todos as discussões, ser um “indiferentista”: se as coisas acontecem de uma determinada maneira é porque é certo que assim devem acontecer e não temos de ter nenhuma posição sobre o assunto. Ou seja: só há uma verdade e nenhuma vontade é moralmente superior a outra. Isto sim, é a negação da liberdade. Eu diria que é quase um relativismo absoluto. A moral e a política de nada servem perante as verdades reveladas a João Miranda.
Aceitar que há várias verdade não é aceitar que a realidade não existe. É apenas aceitar que a verdade é uma percepção humana (e por isso uma percepção ideológica e culturalmente determinada) dessa realidade. Assim, nunca poderá ser apenas uma. Muito menos em política. Esta é a base para aceitar que a democracia e a liberdade política são a única forma eficaz de nos governarmos. Não é porque as nossas ideias estão “sempre certas”, independentemente da realidade. É porque provavelmente estão sempre erradas. E a prova é que vão ser destruídas pelos que nos seguem.
PS: João Miranda tem obrigação de saber que a extrema-esquerda nunca foi relativista. Pelo contrário. Nunca lhe faltou a certeza de ser detentora da inexorável e indesmentível verdade universal, que a história se encarregaria de comprovar. Neste pormenor, bem mais próxima de João Miranda do que de mim. Por isso, tomo por provocação a utilização desta muito frágil catalogação política.
Por Daniel Oliveira 6 Mar 07 em Sem categoria41 respostas ao post “O relativismo e o liberalismo científico”
- 1 Pingback on 24 Mai 2008 às 1:13



Excelente texto.
Fico satisfeito por ver a trivialidade de raciocínio dos blasfemos, e a capacidade de argumentação de um bloquista.
Até que enfim que alguém ( neste caso o Daniel Oliveira ) acerta uma boa definição para o blasfemo João Miranda . ” O INDIFERENTISTA”.
Ó Daniel hoje anda inspirado
Quando o DO diz que “existem várias verdades”, quer mesmo dizer isso, ou o que quer dizer é que “existem várias opiniões sobre o que é a verdade”?
Ora, se não se entendem com as palavras, consultem um dicionário. O Priberam Online está à distância de um clique.
Verdade há só uma. Isso é evidente para toda a gente menos para “intelectuais de esquerda”. Verdade não é opinião nem ideia. Estas são visões parcelares daquela, muitas vezes distorções. Confundir verdade com opinião é lançar confusão para a discussão. Provavelmente, é essa a ideia.
E o relativismo moral é uma invenção da esquerda, assim como o pós-modernismo. Tretas que inventam para disfarçar ignorância, muitas vezes científica.
Daniel, tu por vezes és pura e simplesmente genial. Um texto que vou guardar.
O João Miranda é um homem inteligente. Mas tenho que admitir que ele nesta questão não anda lá muito bem. Acontece com todos.
Agora a verdade passou a estar ao alcance de um clique, num dicionário.
Nada pode ser provado de uma vez por todas: a ciência não acumula verdades, simplesmente vai eliminando erros. Newton tinha uma concepção de tempo e de espaço absoluta que foi desmentida por Einstein.
“E o relativismo moral é uma invenção da esquerda, assim como o pós-modernismo.”
O “relativismo moral” é irrelevante para esta questão - tem a ver com a questão “bom/mau”, não com a “verdadeiro/falso” (que é o que se está a discutir).
E até me parece que o “relativismo moral”, a ser invenção de alguêm, até seria mais da direita, não da esquerda - a direita é que é dada a defender que o que é aceitável em dadas épocas e locais pode não ser aceitável noutros (lembram-se de De Maistre? - “não há homens, apenas franceses, russos, etc.”), enquanto que é a esquerda que tende a defender modelos universais.
Conheçamos a VERDADE, não só pela razão, mas também pelo coração.
AS mentiras mais abomináveis são aquelas que mais perto estão da VERDADE.
Pronto, entrámos na fase dos aforismos
Os comentarios do blasfemos so vem confirmar o que se tem tornado mais que evidente (pense-se no debate sobre o referendo): nao ha liberais em Portugal. A recusa das “Verdade” tem uma genealogia tao longa na esquerda como na direita liberal e libertaria, que entende a democracia como jogo de vontades e interesses. Se assim nao fosse o Estado podia ser gerido por um comite de iluminados cientistas e teologos. A profissao de fe’ na “Verdade”, com ataques ao amoral pos-modernismo, anuncia o desejo pelo discurso totalitario.
O ponto limite da questão relativista encontra-se, com elevada probabilidade, na mecânica quântica. Nos mais infímos constituintes da matéria, existe a probabilidade de tudo ser diferente. No entanto a probabilidade de tudo ser como é, é mais elevada do que qualquer outra. E assim, à medida que se caminha para agrupamentos de matéria maiores, as probabilidades de se verificarem cenários diferentes vão diminiuindo e o comportamento espectavel da matéria vai estabilizando. Essa estabilidade é o que pode ser entendido como verdade e por isso é que, por ex, as leis de newton sempre serão verdade dada a imensamente grande probabilidade de se verificarem (pelo menos durante um infímo intervalo de tempo à escala universal mas enorme à escala humana).
Antes de procurares saber a mentira dos outros, procura saber a tua VERDADE
Se nos quisermos entender temos de chegar a um acordo na definição das palavras. ‘Verdadeiro’ é o que se adequa à realidade e ‘falso’ é o que não se adequa à realidade. Sobre isto, por exemplo, não pode haver outra verdade, sob pena de não nos entendermos; mas se não for para nos entendermos, para que serve a linguagem?
De resto, concordo com quase tudo o que o Daniel diz, substituindo “muitas verdades” por ‘hipóteses’, o que é só uma questão de semântica.
Penso que a ética e a política estão subordinadas a um fim subjectivo, mas uma vez definido esse fim (e admito que não seja absolutamente necessário defini-lo), a verdade volta a ser única. Ou a nossa decisão, num determinado momento, num determinado contexto, torna mais provável a aproximação ao nosso objectivo político, ou não torna. Podemos não sabê-lo a priori, mas essa ignorância, mesmo se for inevitável, não é motivo de orgulho, ou sinal de uma democracia vibrante. O debate político visa, precisamente, chegar à verdade antes do tempo, para escolher o melhor caminho.
Não percebi a frase:
“Ou seja: só há uma verdade e nenhuma vontade é moralmente superior a outra.”
Se houver muitas verdades é que nenhuma vontade é moralmente superior a outra.
A VERDADE vem com o vinho.
“Estas pessoas (…) aceitam, com alguma modéstia, que a sua verdade pode não ser a verdade.”
Daniel Oliveira,
chegou a hora de verificar se você é realmente modesto ou se isso não passa de conversa para parolo ver.
Se reconhece modestamente que a sua verdade não é a verdade, abandone-a! Há várias coisas que o devem fazer desconfiar dos seus conhecimentos. Você é bastante limitado em termos intelectuais, não lê livros, passa muito tempo a jogar playstation, só ouve música ligeira de gosto duvidoso, vê filmes foleiros e está sempre a perder discussões com o João Miranda. Logo, o João Miranda encontra-se numa situação privilegiada em relação a si para saber o que é a verdade e o que é melhor. Está por isso na hora de deixar de ser bloquista e passar a ser liberal. Ou então, nesse caso o seu relativismo é um dogmatismo disfarçado e a sua modéstia é uma máscara de arrogância.
A realidade seguirá por esta última via. O senhor é um falso relativista e a modéstia em si é uma aldrabice. Ainda não há muito tempo, deram-lhe uns gritos na rua e o senhor foi fazer queixa à polícia. Duvido que se ele lhe tivesse dado um valente murro o Daniel dissesse à polícia: “Na minha perspectiva ele deu-me um murro, mas como a verdade é relativa e eu sou modesto, admito que ele estivesse a tentar dar-me um abraço. Ele insultou-me, mas isso é uma percepção minha cultural e ideologicamente determinada, se calhar é melhor discutirmos democraticamente se na perspectiva dele não é uma forma de me elogiar.”
“Não há ideias “verdadeiras”.” (Daniel Oliveira)
Logo, esta ideia é necessariamente falsa!
“Não é porque as nossas ideias estão “sempre certas”, independentemente da realidade. É porque provavelmente estão sempre erradas. E a prova é que vão ser destruídas pelos que nos seguem.”
No caso do Daniel, salvo muito raras excepções, estão sempre erradas! Mesmo quando estão certas, não vale a pena defendê-las, afinal de contas já se sabe que vão ser substituídas…
“Nada pode ser provado de uma vez por todas.” (Godel)
Logo, o que esta frase diz também não pode ser provado de uma vez por todas.
“Estas pessoas (…) aceitam, com alguma modéstia, que a sua verdade pode não ser a verdade.”
Daniel Oliveira,
chegou a hora de verificar se você é realmente modesto ou se isso não passa de conversa para parolo ver.
Se reconhece modestamente que a sua verdade não é a verdade, abandone-a! Há várias coisas que o devem fazer desconfiar dos seus conhecimentos. Você é bastante limitado em termos intelectuais, não lê livros, passa muito tempo a jogar playstation, só ouve música ligeira de gosto duvidoso, vê filmes foleiros e está sempre a perder discussões com o João Miranda. Logo, o João Miranda encontra-se numa situação privilegiada em relação a si para saber o que é a verdade e o que é melhor. Está por isso na hora de deixar de ser bloquista e passar a ser liberal. Ou então, nesse caso o seu relativismo é um dogmatismo disfarçado e a sua modéstia é uma máscara de arrogância.
A realidade seguirá por esta última via. O senhor é um falso relativista e a modéstia em si é uma aldrabice. Ainda não há muito tempo, deram-lhe uns gritos na rua e o senhor foi fazer queixa à polícia. Duvido que se ele lhe tivesse dado um valente murro o Daniel dissesse à polícia: “Na minha perspectiva ele deu-me um murro, mas como a verdade é relativa e eu sou modesto, admito que ele estivesse a tentar dar-me um abraço. Ele insultou-me, mas isso é uma percepção minha cultural e ideologicamente determinada, se calhar é melhor discutirmos democraticamente se na perspectiva dele não é uma forma de me elogiar.”
Brilhante post. Na minha verdade, pelo menos.
“Nunca lhe faltou [à extrema-esquerda] a certeza de ser detentora da inexorável e indesmentível verdade universal, que a história se encarregaria de comprovar.” (Daniel Oliveira)
Sempre houve esquerda, mesmo extrema, para além da que estava no partido, da que reconstruía o partido e da que reorganizava o partido.
Eu sempre lá estive, e fartávamo-nos de rir da maior parte dos que mandavam nos que estavam no partido, nos que reconstruíam o partido e nos que reorganizavam o partido, tudo joõezinhos mirandas avant la lettre, a montar os legos das verdades universais e a tricotar certezas.
Fazíamos o jogo, diziam eles. Que jogo? Ou era o jogo da reacção, ou o dos revisionistas ou o dos social-fascistas, isso dependia. Por nós, se pudéssemos, fazíamo-los todos, desde que fosse jogo e desse para passar um bom bocado.
E quando alguns dos que estavam no partido e a maior parte dos que reconstruíam o partido e dos que reorganizavam o partido se reencontraram na certeza de que a história tinha comprovado inexoravel e indesmentivelmente não me lembro bem o quê, continuámos a rirmo-nos do modo empenhado como se aplicaram então a des-estar no partido, a desconstruir o partido e a des-reorganizar o partido.
Se calhar, hoje, votamos todos no Bloco, tal como, presumo, o Daniel.
Mas nem todos os que estão na mesma praça vieram pela mesma rua.
O conceito de “verdade” está mais que discutido em Filosofia, e neste caso particular acho que e no caso particular desta discussão, acho que podiam ambos estar calados já que nenhum está a dar uma para a caixa.
Quanto ao resto, o Daniel é contra a criação do Museu sobre Salazar e depois argumenta como se fosse a favor. Se diz ser pluralista e que não há “uma verdade”, isso implica que em sua opinião o projecto do museu deve seguir em frente. Que a Extrema Esquerda se considera detentora da verdade absoluta e que com isso se arroga a perseguir os outros, concordo inteiramente. Quem o ouvir até fica a pensar que o Daniel não é dessa mesma Extrema Esquerda.
Uma precisão:
O “indiferentismo” é um termo do século XVIII. Muito utilizado em debates teológicos, designava aqueles autores que consideravam todas as religiões igualmente verdadeiras (ou igualmente disparatadas).
Ainda assim, acho que o indiferentismo é um termo demasiado honroso para a confusão do João Miranda nesta polémica: na verdade, ele oscila entre o absolutismo e o relativismo mais extremo quando defende que é tão válido haver um museu histórico sobre Salazar quanto um museu glorificador do fascismo. Que eu saiba, a filosofia ainda não dignificou com um nome esta amálgama incoerente e ainda por cima altamente dogmática.
Sinfonia, você parece saber imenso sobre mim, acontece ter falhado em quase tudo em relação aos meus gostos e hábitos. Acertou numa coisa: não sou modesto. Mas não era dessa modéstia que estávamos a falar, coisa que a sua limitada capacidade intelectual não atinge.
Agora que ofendi, estamos quites. Não tenciono publicar nem mais um comentário seu que tenha como objectivo ofender-me pessoalmente. Não gosta, escreva no seu blogue, se o tiver. Não tem? Crie. Ponto.
” Causa cognoscitur ab effectu “,
Daniel,
Ao defender a relatividade da verdade destrói de uma só vez a verdade científica, política e ética. A partir daí não há verdades absolutas, bem nem mal. Tudo é o que é e o seu oposto.
Nesta situação por si defendida, o meu insulto não pode ser entendido como mau ou falso. Para si pode ser falso e mau, mas se admite realmente o relativismo, então aceita que para mim e para muitas outras pessoas seja um bom elogio.
O facto de ter personalizado o meu comentário ao seu post foi propositado. Queria pô-lo no sítio certo para desmascarar o seu relativismo e consegui. O senhor diz-se relativista, mas a sua resposta demonstrou o contrário. Os seus afectos atraiçoaram o seu discurso. Com a razão diz que é relativista, mas quando lhe pressionei o ego desatou a negar afectivamente tudo isso sem se aperceber. Admite imaginariamente que tudo é relativo, mas na realidade o seu ego não admite isso. Por isso, quando o tratei por inculto ficou indignado. Essa indignação é o modo como, por intermédio da acção prática, o Daniel refuta o seu discurso teórico. É o velho adágio “frei Tomás, olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz”.
O ego é o altar sagrado em que todos os relativistas de bom grado sacrificam o seu relativismo sem que disso se apercebam.
É interessante analisar a catarse narrativa do ex-camarada DO, não por ser particularmente visceral ou outro nome mais feio, admito q até não seja mau rapaz.
Aliás devo dizer que o seu blogue está bem feito e consegue substituir com sucesso o Combate do PSR e a Voz do Povo da UDP que mesmo para os seus lados já ninguém lê.
Uma certa esquerda com pretensões à pseudo-modernidade arrasa bem os erros cometidos no quintal dos outros, fugindo dos seus. Por isso é que tudo isto seria divertido se não fosse trágico.
Sinfonia, até o relativismo é relativo. Nem podia ser de outra forma. Eu não sofro desse pecado de achar que quando pensamos uma coisa é se aplica de forma imediata a todos os domínios da nossa vida. por isso mesmo, veja lá, não dou à coerência um especial valor. Até porque muitas vezes ela resulta apenas da falta de intelig~encia.
Caro Daniel
Não te recomendo modéstia, mas talvez umas leituras adicionais não te fizessem mal (por exemplo do Umberto Eco).
Só há verdades num determinado tempo e lugar?!
O Galileu portanto estava errado? Certo?
Então haver ou não haver PIDE e prisioneiros políticos em Portugal depende do tempo e do lugar? Haver ou não haver genocídio dos judeus pelos nazis depende do tempo e do lugar?
E sendo assim exactamente qual é que é o teu problema com o tal Museu Salazar?
Suponho que aquilo a que quisesses chegar é que é mais fácil estabelecer o que é falso do que chegar a uma tese única consensual.
Mas haver várias interpretações possíveis de fenómenos complexos (a Revolução Francesa, por exemplo) não significa que, sobretudo em relação a factos básicos, todas as interpretações sejam possíveis.
PS - A evolução é um facto perfeitamente documentado por inúmeros fósseis. A teoria darwiniana é uma explicação possível.
Bruno, se tu não recomendasses leituras eu ficaria espantado. Mesmo que sejam leituras óbvias. Precisas disso para te sentires melhor e não sou eu que te vou contrariar. Apesar dos lugares comuns pouco informados que vais escrevendo sobre muitos assuntos, evito essa linha. Porque é sempre igual esse começo de texto. Sem grande vantagem para o debate. Sinal de fraqueza, geralmente. Por isso, não te recomendo muito, apenas que leias com atenção os textos que comentas. Porque confundes “factos” com “verdade” e eu distingo os dois ali em cima.
Já agora: quando sabemos que chegámos definitivamente à verdade científica? Quando chegamos a esse estádio final de perfeição?
O debate que aqui estou a fazer não é propriamente novo. Não vale muito a pena ser arrogante nesta matéria. E talvez não seja mau, quando fores, seres um pouco mais elaborado na argumentação.
Aos relativistas recomendo a leitura da chamada ‘Paródia de Sokal’ e do conceito de ‘Flecha do Tempo’ de Ilya Prigogine, talvez percebam que nem tudo é relativo…
Claro que nem tudo é relativo, se não o relativismo seria absoluto, o que seria lamentável.
Daniel.
Não foi comigo, mas não me parece bem que as pessoas o ofendam. Mas penso também que isso não justifica que possa ofender as pessoas que aqui escrevem, tanto mais que são, de um certo ponto de vista, “convidados em sua casa”. Pelo menos é assim que eu me sinto: se sou seu convidado, não o ofendo, mas ´se o Daniel me ofendesse eu deixaria de cá “vir”.
Contudo a razão do meu post é outra: é dizer-lhe que, como é evidente, a verdade não é relativa. A verdade é uma e nós podemos estar ou não com ela. E podemos estar errados, mesmo que estejamos convencidos de que estamos certos. Aceitar que a verdade é relativa é adoptar o caminho de negação da própria verdade.
Por isso, Daniel, posso dizer que você está errado . A política e a Democracia fazem-se, portanto, do confronto de convicções sobre valores não relativos como a Vida, a Liberdade, a Solidariedade, a Justiça etc. Não se , faz, ao contrário do relativismo que defendeu, do confronto de opiniões que os próprios agentes consideram relativas.
É por isso mesmo que o próprio Daniel defende as suas ideias quase sempre de uma forma peremptória. E que o seu relativismo tem mais incidência moral e social do que política. É normalmente na vertente moral/social que o Daniel tende a defender que tudo pode estar bem, por haver pessoas que actuam assim ou assado. Quanto à vertente política, o Daniel normalmente é mais afirmativo: “isto está bem; aquilo está mal”.
Não é assim, Daniel.
E por que será?
Cummprimentos
Luís
Dizer que uma coisa está bem não é o mesmo que dizer que ela é verdadeira.
Caro Daniel
Não me recordo de alguma vez te ter recomendado livros. Como te recordarás não te conheço nem sequer de vista.
Espanta-me em alguém tão afoito no ataque aos outros esta extrema sensibilidade… a livros.
Mas confesso que gosto dos ditos e de falar deles e do que aprendi com eles. É uma forma de modéstia pouco percebida em Portugal, um país de génios natos.
Esta é realmente uma discussão velha e na qual já gastei muito latim (quando do julgamento do David Irving).
Ainda assim confesso a minha insuficiência: distingues factos e verdades com base no quê?
E os meus argumentos serão curtos, mas parece que suficientemente longos para não os leres. Como é se chega à verdade científica? Eu deixei claro que é bem mais fácil apontar erros do que verdades únicas sobre factos complexos. Interpretações válidas sobre o Estado Novo haverá sempre várias. Mas nunca será válida uma que diga que foi uma democracia liberal. E sobre factos básicos, como a existência de prisioneiros políticos em Portugal durante o Estado Novo não vejo que haja mais do que uma verdade.
Antes destas teorizações até estava no essencial de acordo contigo: Museu Salazar com apoio do Estado só se o conteúdo for validado por uma comissão de historiadores.
Até amanhã camarada
«Não me recordo de alguma vez te ter recomendado livros. (…)Espanta-me em alguém tão afoito no ataque aos outros esta extrema sensibilidade… a livros. (…) Mas confesso que gosto dos ditos e de falar deles e do que aprendi com eles. É uma forma de modéstia pouco percebida em Portugal, um país de génios natos.»
Recordo-te que tinhas escrito:
«Talvez umas leituras adicionais não te fizessem mal (por exemplo do Umberto Eco).»
Não falaste de livro nenhum nem citaste nada, nem usaste para suportar nenhuma tese. Teria sido útil recomendares livros ou falares deles se eles fossem úteis para o debate e explicares porque eram úteis. É sempre útil, quando é sincero. Sim, de facto tenho um profunda sensibilidade a quem usa a leitura como quem usa um carro de luxo ou uma medalha ao peito. Talvez por viver (na vida pessoal, profissional e familiar) no meio de gente “ilustrada” e poucas fazerem disso grande assunto ou alarde. Com os livros aprende-se (ou não), não servem para atirar à cabeça das pessoas.
Mais do que o que escreveste antes (que não me chega a chatear, porque a arrogância não incomoda muito os arrogantes - e eu sou um pouco), mas o que fazes depois: esse ar de cristão nas catacumbas enquanto mandas mais umas borduadas. Tens qualquer coisa de Guterres. Suponho que não tomas isto como um insulto. E não deves tomar. Apenas me incomoda a mim. Ou queres ser arrogante ou queres ser virgem ofendida. Não queiras ser as duas coisas em simultâneo.
Por isso, sim, não me recomendaste livros, o que seria útil. Recomendaste “leitura”, o que é todo um estilo que esse sim povoa o país: a arrogância cultural no lugar do debate. É pouco interessante, pouco estimulante, pouco exigente e demasiadas vezes disfarça grandes fragilidades. E deixa-me que te diga que essa é uma das razões porque debato com gosto com João Miranda (dá-se ao trabalho de pensar com a sua própria cabeça e provar ou não provar com os seus argumentos que pensa no que escreve) e nunca tive um enorme prazer em debater contigo. O que é pena.
De resto, que houve PIDE, censura, etc são factos. A interpretação do que foi o Estado Novo, as motivações de Salazar, se ele foi bom ou mau ou as duas coisas para Portugal, se a neutralidade na II Grande Guerra foi um sinal de cobardia ou de inteligência ou das duas coisas ou de nenhuma delas são discutíveis mas fundamentais para construir uma “verdade” sobre o Estado Novo. Por isso há várias. Os factos, esses, são fáceis.
Vives num meio ilustrado (folgo muito em saber). Se é assim não vejo como é possas confundir recomendação de leituras com arrogância.
Refiro um autor, mas não argumento, dizes tu? Suponho que acharias menos arrogante que fizesse citações com nota de rodapé num comentário a um poste num blogue. Não me pareceu necessário, e como certamente sabes o ideia principal de Eco nesta questão é precisamente a dos limites da interpretação, que eu uso.
Achas que o João Miranda pensa pela própria cabeça? E eu que pensava que tu pensavas que ele era um representante da ortodoxia neo-liberal, vê lá!
Mas é verdade que, honestamente, a lidar contigo não me preocupo muito com a tua sensibilidade às críticas que possa ter a fazer. Achas que devia? Não achas um bocadinho ridículo que alguém como tu que faz da crítica frequentemente violenta um modo de escrita, se mostre tão sensível à forma da crítica alheia?
Revelando mais uma vez o grande cuidado na linguagem com que falas dos outros, referes-te a mim como virgem ofendida e cristão das catacumbas. Quando muito, ilustre Daniel, capricónio ofendido. E se há coisa que não tenho é complexos de cristão das catacumbas. É por me sentir cidadão de pleno direito que não tenho nenhum problema em reagir a esta intolerância anticlerical bafienta mas que se julga muito moderna.
Continuas a insistir, como no fim do Barnabé, em julgar as minhas qualificações e o conjunto da minha obra – não sei se apenas blogosférica ou não. Parece que só digo banalidades sobre coisas das quais não sei nada. Será que devo concluir que estava melhor era calado e a receber reeducação? É divertido este teu síndroma de controleiro e grande educador, mas comigo não tens muita sorte. É que eu nunca passei pela escola do PCP. Aliás é claro que as nossas noções de banalidade, qualificações e elevação são um bocadinho diferentes.
E não dispensas ainda a elegância de me dar um apelido. Desta vez é Guterres. Esperas que não leve a mal. Suponho que até aches que te deva ficar agradecido por me elevares tão alto. Não fico. Levo isso na conta de um tique revelador de alguém que é incapaz de argumentar com os outros ao mesmo nível, sem os colocar em caixinhas com etiquetas ilustres.
Tirando isso parece que estamos largamento de acordo: verdades simples, limites de interpretação apertados, para factos simples com a existência de presos políticos durante o Estado Novo; verdades complexas, limites de interpretação mais amplos, para factos mais complexos como qual seja a melhor etiqueta do regime do Estado Novo (sendo que autoritário e de liberdades reduzidas será sempre). Mas como vês continuo sem alcançar a pertinência da distinção entre factos e verdades.
E então, a avaliar pelas demoras no teu sistema de comentários, até para a semana camarada.
«É que eu nunca passei pela escola do PCP.»
«alguém que é incapaz de argumentar com os outros ao mesmo nível, sem os colocar em caixinhas com etiquetas ilustres.»
percebes quando digo que gostas de te fazer de vitima. No mesmo momento em que fazes o que criticas. E nisso és sonso e é isso que me irrita, confesso. Se queres ofender, ofende, és bem vindo. Se queres ser condescendente, sê condescendente, se queres ser arrogante, sê arrogante. Serei eu muitas vezes isso tudo. Mas por favor não faças o número do ofendido. Para isso é que não há grande paciência.
Serei violento. Mas como podes ver pelo post, dou-me ao trabalho de argumentar. Mal ou bem, mas dá trabalho.
Sim, se as citações fossem pertinentes seriam mais bem-vindas do que o velho truque do “vai ler um livro”. É fraco. Não fico melindrado. Lamento apenas que contigo o debate nunca passe daqui. Não sei se é género ou falta de talento. Mas é uma pena. Até porque seguramente estou mais distante de João Miranda do que de ti. Mas verás que ele não foi por aí.
Acho que João Miranda é esquemático no seu liberalismo ortodoxo. Mas dá-se ao trabalho de debater. Contigo, infelizmente, a conversa acaba sempre assim. Sempre. E começo a pensar que nunca irá mais longe.