«Daniel Oliveira do BE não tem nada contra o museu com “rigor histórico”», Sem mais, é assim que o “jornal” “Avante!” descreve a minha posição em relação ao Museu de Salazar em Santa Comba Dão. A partir daqui inclui-me na renegada manada de ingénuos. Quem leia esta frase conclui o quê? Que eu defendo o Museu de Salazar porque considero que ele tem rigor histórico. Não há outra conclusão possível.

Penso ter sido daqui tirada a curta citação: «Para que conste: não tenho nada contra, muito pelo contrário, a existência de um museu sobre Salazar em Santa Comba Dão. Mas o Estado apenas o deve financiar se o projecto der garantias de rigor histórico e se for uma mais-valia para o estudo do Estado Novo. Seria até muito bem-vindo. Se pretender ser uma homenagem ao ditador e ponto de peregrinação para os que se sentem derrotados pela democracia, não deve receber nem um tostão de apoio do Estado democrático. Eles que o paguem. Cabe ao presidente da Câmara escolher o caminho.»

Ou seja, eu disse que não tenho nada contra um museu com «rigor histórico», e não que não tenho nada contra o museu com «rigor histórico». Um artigo que faz toda a diferença.

Mas compreende-se que o rigor não seja o forte do jornal. No mesmo texto escreve-se: «A verdade é que o único critério (científico) para um museu do salazarismo é o que resulta da Constituição que define o “regime fascista” como “ditadura, opressão e colonialismo” derrubado pelo “MFA, coroando a longa resistência do povo português” e “interpretando os seus sentimentos profundos”.»

Cada um dirá de sua justiça se esta lhe parece a melhor definição do Salazarismo. Mas a ideia de que critérios científicos são definidos pela Constituição diz-nos apenas uma coisa: que a sangria de intelectuais no PCP já chegou longe demais.


Sem respostas ao post “O rigor”  

  1. 1 1  Stran

    O tempo o dirá, mas se o partido comunista continuar por este caminho acredito que chegará ao seu fim (o que até é positivo). Nunca compreendi muito bem (e aí a idade pode ser uma desculpa) como que se auto intitula defensor da liberdade quando a liberdade de expressão é completamente assassinada pelos mesmos.

  2. 2 2  Luís

    Daniel:
    Não o quero julgar, mas não posso deixar de dar a minha opinião: é que o artigo definido para o qual chama agora a atenção não tem, na minha opinião, o alcance que lhe pretende dar. além disso, rigor histórico implica a afirmação de pontos factuais (positivos e negativos) do objecto de estudo, mesmo que se considere que os negativos são em maior número e que afogam os positivos. Mas não se deve deixar de apontá-los. A sua visão de que Salazar só teve defeitos e nenhuma qualidade, parece-me algo “adolescente”. E dou-lhe um exemplo: Salazar foi um professor universitário brilhante; colocou em ordem as contas públicas. Isso deveria ser dito num Museu com rigor histórico. Outro exemplo: Salazar não enriqueceu com a sua actividade política ao longo de 50 anos. Isso também deve ser dito. A estes e outros pontos positivos que sejam encontrados com rigorhistórico, devem juntar-se os negativos, designadamente os que resultam da sua posição de primeira linha num regime não democrático.
    E não se deve esquecer que o museu seria sobre Salazar (e não apenas sobre o Estado Novo).
    Sou de opinião de que temos que ser objectivos, para ter credibilidade.
    E, já que falou da Constituição, não percebo pq é que a constituição não impede, igualmente, os regimes totalitários de esquerda, designdamente os de inspiração comunista, também eles atentatórios do estado de direito democrátivco em que quero viver.
    Cumprimentos

  3. 3 3  Jorge

    O PCP é um partido estúpido. Já o é, pelo menos, desde que pôs cá fora um comunicado apoiando o golpe anti-Gorbatchov na então URSS, cuja natureza profundamente reaccionária e, até, condenação ao fracasso, entrava pelos olhos dentro de qualquer pessoa com dois dedos de testa.

    A surpresa é que tantos anos depois ainda haja quem se surpreenda com esse facto.

    Convém esclarecer que o facto do PCP ser um partido estúpido não significa que é um partido de gente estúpida. Há gente inteligente no PCP, que se arrepia sempre que lê idiotices do género dessa citação (ou das declarações do Jerónimo sobre a UE, já agora), mas que vai ficando, apesar de tudo, por achar que o partido faz falta à política portuguesa. É uma opinião muito respeitável. Mas a meu ver errada.

  4. 4 4  Daniel Oliveira

    Leia a minha citação. Nem precebo o que possa estar a discutir comigo. Disse o que queria e o que não queria. Por mais voltas que dê está preto no branco.

    Quanto ao resto, o rigor histórico não é um conjunto de afirmações soltas, mesmo que verdadeiras.

  5. 5 5  PR

    amigo Daniel, para atacar o PCP satisfaz a direita reaccionária

    aliás, essa posição de que desde que seja privado, tudo pode ser feito, dito, afirmado tem muito que se lhe diga… e aliás, as autarquias locais estão sob tutela do estado e ainda que não estivessem, devem obedecer à nossa constituição.

    mas ainda que fosse um gajo qualquer a pagar o museu do seu bolso, a possibilidade de criar um altar ao fascismo devia ser suficiente para omobilizar contra esta tentativa.

    eu sei que o Daniel é anticomunista, mas ainda assim e em relação a este aspecto, confesso que esperava outra atitude da sua parte…..

  6. 6 6  Sofia Ventura

    Mas isso é ao gosto do freguês! Quando se levantou a questão há umas semanas atrás, defendi exactamente a mesma coisa que o Daniel na caixa de comentários do Blasfémias. Como os comentadores online na altura têm um conceito de liberdade diferente do meu, só faltou acusarem-me, a mim, de fascista por estar a coarctar a liberdade dos apologistas do museu.
    Normalmente, apanham a primeira frase e já nem lêem o resto. Para quê?

  7. 7 7  Daniel Oliveira

    PR, sou anti-fascista. E não sou a favor da proibição dos fascistas falarem. Desde que não seja com o meu dinheiro e desde que eu não seja obrigado a ouvi-los. Não sou anti-comunista. Não sou é comunista. Mas o PCP tem cada vez mais dificuldade em distinguir as duas coisas. Mas sim, se ser contra o tipo de posições que esta direcção sustenta é ser anti-comunista, já o era quando militava no PCP.

  8. 8 8  Henrique

    Pois eu sou anti-ditaduras, principalmente no sec.XXI, o que fez com que tenha uma certa tendencia em criticar o PCP!!!
    Nao vejo com maus olhos a criaçao do museu, isto sem esquecer o rigor historico, coisa que muito dificilmente gerara consenso!!Já agora, concordo com o post escrito atras…Uma constituiçoa realmente justa e democratica proibiria qualquer partido de extrema-esquerda ou bolchevique, assim como, e muito bem, proibe os de extrema-direita!!!

  9. 9 9  Margarida

    Já há muito se tinha percebido que para o partido de que o autor do post é dirigente a Constituição da República Portuguesa nada é. Talvez porque logo no preâmbulo começa por dizer “A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista. Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.” E no nº 4 do Artigo 46º (Liberdade de associação) diz sem qualquer margem de dúvida que “Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista”.

    Ele (e outros) que nada têm, “muito pelo contrário”, contra o museu em Santa Comba Dão, iam lá aceitar as determinações da Constituição…

  10. 10 10  Manuel Costa

    Daniel admiro a sua inteligência e a sua abertura de espírito, embora me faça lembrar aquela anedota do marido traído, que após muito espiar a mulher e na altura em que está prestes a confirmar a traição, esta apaga a luz e o “pobre” do marido lá continua na duvida.
    É de facto comovedor essa sua abertura de espírito, ao ponto de “acreditar” que um museu a Salazar em Santa Comba Dão pode ter algum tipo de “rigor histórico” e não será simplesmente um altar de romaria e homenagem ao ditador.
    Francamente será só ingenuidade.
    Só não percebo é porque, em relação a determinadas noticias que envolvem a esquerda, é tão pronto a condenar e a distanciar-se.

  11. 11 11  Stran

    Quanto ao rigor histórico com que se deve falar do Estado Novo existem factos que me deixam inquieto.

    Primeiro a parte económica: fala-se de que o estado novo foi um período de elevado crescimento económico mas não se faz referência como foi obtido (o efeito das colónias no crescimento e através de exploração de pessoas).
    História não é só apresentar numeros e factos, mas também a razão dos mesmos.

    E quanto ao facto de Salazar nunca ter enriquecido com a sua actividade politica, é parcialmente verdade. Parcialmente porque partimos do pressuposto que todas as pessoas vivem para se enriquecerem materialmente, acredito (e aqui fujo um pouco da componente histórica pois não conhecia Salazar) que a maior ambição de Salazar era poder (algo não material) e nesse sentido “enriqueceu-se” o máximo que pode (até se pode dizer que quando caiu da cadeira era “milionário”).

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