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Vi outro dia uma entrevista a Barak Obama. Perguntaram-lhe se se arrependia de ter consumido cocaína na juventude. A resposta foi imediata: não. Que isso não devia fazer qualquer diferença. Que não quer ser julgado pelo seu passado. Que não poderá ser isso que que o levará ou não até à Casa Branca. Que é o que propõe para o seu mandato é que tem de interessar aos eleitores. Tão óbvio que nem devia espantar. Mas num país que se habituou a medir as virtudes intimas para eleger os seus lideres (o que parece ser cada vez mais comum também na Europa) a frase é reveladora: temos homem.

Obama, ao contrário de Hillary Clinton, teve a coragem de se opor à guerra do Iraque, logo em 2002, quando muito poucos democratas se atreveram a tanto. Ainda hoje, é dos mais claros a falar sobre o assunto. Obama assume sem medo todas as bandeiras que juntam liberais e democratas de “esquerda” (o conceito é pouco rigoroso quando se fala dos EUA) e no entanto não está disponível para se limitar a dar apenas algum colorido às primárias do Partido Democrata. Parece ter o carisma que tem faltado a todos os candidatos democratas desde Clinton. E Obama tem uma enorme vantagem: quer ganhar sendo a antítese de Bush.

Obama usará todos os chavões em que acredita: um patriotismo quase infantil e um fé inabalável nos valores americanos, que já são pouco mais do que retórica. Mas espero que seja o que parece ser: um tipo sério, com convicções, que defende as liberdade cívicas, o primado da diplomacia nas relações internacionais e um Estado social mínimo. Em Hillary, que quanto mais se aproxima do ano das eleições mais politicamente desinteressante se torna, duvido que os americanos encontrem igual sinceridade e convicção. Quanto aos republicanos, mesmo que fosse Giuliani - tolerante nos costumes mas apreciador do poder com “mão de ferro” -, sabem bem o que encontrarão: pouco melhor do que tiveram nos últimos trágicos seis anos.

Aqui em baixo fica o discurso de Obama à Convenção Democrata, em 2004. O mesmo estilo naïf que conhecemos destas ocasiões, cheias de música e confetes e vazias de política. Mas, no caso dele, a política estava lá. Coisa rara. E era um democrata a falar claro e obrigar a plateia a ouvir e a acreditar nele. Coisa única. Com este puto magrinho com um nome estranho, talvez os democratas desta vez tenham um candidato que não seja apenas o que não é republicano.


Sem respostas ao post “Obama, um tipo decente”  

  1. 1 1  jpt

    Ouvi a entrevista do homem à Oprah, e fiquei um bocadinho pro enjoado: muita moral, muitos valores familiares, etc. Pareceu-me dar uma no cravo e três na ferradura. Pode ter sido só um dia mau…

  2. 2 2  Daniel Oliveira

    Ou pode ter sido na Oprah… Não é propriamente o lugar para grande substância.

  3. 3 3  pedro

    E assim se confirma que Barack é um bom rapaz. Quando (e se) chegar ao governo, quero ver se o discurso anti-imperialismo amerciano se irá manter. Quase aposto que sim.

  4. 4 4  Miguel Madeira

    «Obama assume sem medo todas as bandeiras que juntam liberais e democratas de “esquerda” »

    John Edwards não terá posições mais bem definidas que Obama?

    (há maneira de pôr links nos comentários do Arrastão?)

  5. 5 5  Daniel Oliveira

    Sim, basta escreveres o link. Mas olha que nem fazia ideia que John Edwards tinha posições. Pelo menos nas últimas eleições disfarçou muitissimo bem. Mas põe o link, porque o homem pode ter mudado. Mas tinha de ter mudado mesmo muito.

  6. 6 6  Miguel Madeira

    Vou tentar pôr os links (3 artigos do economista Paul Krugman).

    Não se consegue (diz que é SPAM!) - vou tentar com as barras invertidas para ver se engano o sistema

    http:\\economistsview.typepad.com\economistsview\2007\02\paul_krugman_su.html
    http:\\economistsview.typepad.com\economistsview\2007\02\paul_krugman_wr.html
    http:\\economistsview.typepad.com\economistsview\2007\02\paul_krugman_ed.html

  7. 7 7  Ricardo

    “El precandidato del Partido Demócrata a la presidencia de Estados Unidos Barack Obama afirmó esta semana en un viaje a New Hampshire que no está a favor del matrimonio entre homosexuales por los problemas religiosos y sociales que puede provocar, pero sí de algún tipo de regulación de las uniones civiles.”

    Problemas religiosos e sociais? O que diria Luther King sobre este tipo de argumento para outras discriminações? Uma piscadela de olho aos Estados do Sul?

  8. 8 8  Daniel Oliveira

    Eu falei das bandeiras comuns dos liberais e dos democratas, não falei das bandeiras dos liberais. Mas ão perguntar à senhora Clinton o que acha sobre quase tudo e vejam como se encolhe.

  9. 9 9  Nuno Gouveia

    Caro Daniel,

    Vejo com agrado o seu entusiasmo por Barack Obama. A verdade é que apesar de defender ideias com as quais não concordo, vejo Barack Obama como um potencial líder dos Estados Unidos. Um tipo sério e honesto.
    Mas, caro Daniel, não pense que se por acaso ele vencer, irá ser mudar radicalmente a politica externa americana do que tem sido nos últimos 60 anos. Aquela que você parece detestar. Depois a desilusão será maior.

    E já agora, não acha que Giuliani também é um tipo sério e honesto? Ou será que só na esquerda é que temos gente decente?

  10. 10 10  Daniel Oliveira

    Acho que pouca coisa mudará na política externa americana, mas alguma coisa ficará diferente, como ficou, para pior, com Bush.

    Acho que Giuliani tem tiques autoritários, como kstrou enquanto mayor de Nova Iorque.

  11. 11 11  Paulo

    Vi o comício em que Obama anunciou a sua candidatura e gostei:

    http://www.youtube.com/watch?v=uZVrmAtwgcA

    Não tenho a mesma opinião que o Daniel sobre a falta de conteúdo político de eventos como a Convenção Democrata, mas baseio essa opinião apenas num outro discurso que ouvi, numa convenção em que Al Gore discursou antes de enfrentar George W. Bush. Teve música, festa e demagogia, mas depois ele disse que ia falar dos ‘issues’ e fê-lo, com clareza. Surpreendeu-me, na altura, mas não sei se foi uma excepção ou a regra.

  12. 12 12  Cabral

    E’ demasiado generosa a tua avaliacao do Obama. E’ tambem uma pueril seducao pela imagem espectacular. Quando Obama assume que experimentou cocaina nao esta a revoltar-se contra o culto da personalidade, esta a criar um novo tipo de personalidade, corajosamente moderno, liberal, multi-etnico. A ofensiva de charme de Obama, faz-se das entrevistas ‘a Oprah, faz-se do seu recente best-seller biografico, faz-se do culto das virtudes pessoais e nao de uma nova filosofia politica.

    O que caracteriza a candidatura (ou pre-candidatura) de Obama e’ a ausencia de cadastro politico. ‘A parte das vocalizacoes sobre a guerra do Iraque, feitas quando ainda nao era Senador, nao ha programa politico. E’ notorio o teu silencio em relacao ao debate sobre a
    “Blackness” do Obama, atraves da qual os lideres Afro-americanos manifestam ansiedade sobre uma candidatura que e’ negra so na foto já que nas politicas e’ uma pagina em branco.

    E’ nessa pagina em branco que os comentadores profissionais vao inscrevendo todos os bonitos atributos que sirvam todos os gostos e convencam todos os votos. Sao cartas de amor.

  13. 13 13  Gonçalo Lacerda

    Poucas vezes na Historia houve verdadeiros homens com sonhos grandes…
    Obama é um vencedor porque sonha muito grande e caminha para lá…

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