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A direita ganhou em França e sobre isso não há grande debate. Ganharia com outro sistema eleitoral. Mas vale a pena ver os resultados e as suas consequências para discutir a aberração que é o sistema eleitoral francês. Até porque a composição do parlamento estará muitíssimo longe da realidade dos votos.

O sistema eleitoral francês funciona a duas voltas. Ela acontece nas circunscrições onde nenhum candidato tenha obtido 50% dos votos. Passam, se não estou em erro, à segunda volta os candidato que tiverem obtido mais de 12,5% dos votos do total de inscritos. Como a abstenção cresceu isso significa que são necessárias percentagens mais altas para chegar lá. Este sistema leva a acordos pré-eleitorais entre partidos próximos. Os socialistas e os comunistas, por exemplo, têm dividido o território por áreas de influência, o que garante aos comunistas muito mais deputados do que os seus concorrentes mais próximos. A extrema-direita, isolada, mantém-se fora do Parlamento, apesar de existir na rua. E o partido que ganha consegue geralmente uma representação parlamentar esmagadora.

Tentemos ver os resultados, sendo que falta a segunda volta para saber a composição do Parlamento e os números ainda não são claros. As minhas desculpas se houver algum lapso que, ainda assim, não invalidará o argumento.

A UMP, com 39,5%, fica com a quase totalidade dos deputados (mais de 400 dos 577 a eleger). Os seus aliados do Novo Centro, que na UDF apoiaram Sarkozy, terão entre 20 a 24 deputados, graças a um acordo com o partido maioritário. O partido de François Bayrou teve 7,22% dos votos. Até seria um bom resultado, mas apesar de ter quase o dobro dos votos ficará com um sétimo dos deputados do PCF, que somou apenas 4,3% dos votos. Se correr muito bem, o partido de Bayrou poderá eleger quatro, mas ninguém lhes prevê mais do que dois. Quanto aos comunistas poderão chegar aos 17 deputados eleitos. Os verdes, com 4%, não podem sonhar com mais do que três deputados. A extrema-direita, com 4,7%, mais do que os comunistas e do que os verdes, não elege nenhum deputado. Passou um à segunda volta mas não tem qualquer hipótese. A extrema-esquerda, com mais de três por cento, nem cheira as escadarias do Parlamento. O Partido Socialista, com 24,93% dos votos terá pouco mais de 100 deputados. Quem poderá dizer que isto é justo? Junta-se a isto o facto de serem necessários vinte deputados para constituir um grupo Parlamentar.

Este sistema, que pretendia garantir uma engenharia eleitoral forçando a bipolarização e fazendo desaparecer a Frente Nacional não resultou. Uma coisa semelhante foi tentada em Itália. Os sistemas eleitorais ajudam a criar realidades políticas. Mas se eles estão demasiado longe da realidade política existente apenas contribuem descrédito da democracia.

O resultado m França é este: a extrema-direita não se institucionaliza, os comunistas estão dependentes de acordos com socialistas e mantêm a sua hegemonia à esquerda apenas graças a essa ajuda, a oposição é quase sempre residual e o sistema partidário não se renova. Segundo as sondagens, a maioria dos franceses quer o sistema proporcional de volta. E ao contrário do que que aconteceu nas presidenciais, a abstenção foi alta para o que é habitual em França. A tomar nota por aqueles que querem importar engenharias eleitorais para Portugal, onde o sistema é mais justo e não tem sido o responsável pela instabilidade.


Sem respostas ao post “Os engenheiros dos votos”  

  1. 1 1  Antonio

    Compreendi o que quer dizer…So me apetece dizer que definitivamente o Daniel nao sabe perder, tem sempre que desculpar as sucessivas derrotas ideologicas que tem vindo a sofrer nos ultimos tempos. No entanto o Daniel, tem tido o cuidado de se defender de obvios ataques que sabia que lhe iriam fazer ( visivel nas primeiras frases do post) ao tentar expor o seu descontentamento com um resultado, jogando dos dois lados. No entanto a mensagem clara que quer deixar, e que a culpa nao e do seu brilhante projecto e ideoligia politica, mas sim do sistema. A unica questao que ponho e suponho que sera impossivel saber, mas cuja resposta sera obvia, era se faria este mesmo post se Segolene ou a esquerda trotskista tivesse ganho em França…

  2. 2 2  Nuno Gouveia

    Em França, o sistema eleitoral não dá voz aos partidos minoritários. Apesar de ter as vantagens para os partidos hegemónicos, a verdade é que dá pouco espaço de manobra para as diversas oposições.

    Mas Daniel, devia falar da verdadeira dimensão da vitória de Sarkozy e da direita francesa. Apesar de ser o sistema eleitoral que permite à UMP a esmagadora maioria dos deputados, a França mudou e vai mudar. Esperemos pelos próximos acontecimentos…A esquerda e o discurso pós ideológico de Bayrou perdeu… Essa é que é a verdade

  3. 3 3  Antonio

    Compreendi o que quer dizer…So me apetece dizer que definitivamente o Daniel nao sabe perder, tem sempre que desculpar as sucessivas derrotas ideologicas que tem vindo a sofrer nos ultimos tempos. No entanto o Daniel, tem tido o cuidado de se defender de obvios ataques que sabia que lhe iriam fazer ( visivel nas primeiras frases do post) ao tentar expor o seu descontentamento com um resultado, jogando dos dois lados. No entanto a mensagem clara que quer deixar, e que a culpa nao e do seu brilhante projecto e ideoligia politica, mas sim do sistema. A unica questao que ponho e suponho que sera impossivel saber, mas cuja resposta sera obvia, era se faria este mesmo post se Segolene ou a esquerda trotskista tivesse ganho em França…

  4. 4 4  José Manuel Faria

    Este sistema eleitoral é uma aberração, num caso hipotético um partido poderia ter 30/35% e não eleger nenhum deputado, por ex: ficar sempre em 2º lugar a meia dúzia de votos do 1º!

  5. 5 5  Daniel Oliveira

    Antonio: “A direita ganhou em França e sobre isso não há grande debate. Ganharia com outro sistema eleitoral.”

    Se eu digo uma coisa e você tira-a do texto porque acha que é apenas cautela, como raio posso debater consigo. Acontece que já tive esse debate nas presidenciais. Não há nada de novo a dizer.

  6. 6 6  José Rodrigues

    Finalmente e só após insistência-se dum participante o Daniel voltou às eleições francesas ou à realidade francesa.
    O Daniel ainda não falou da dimensão da vitória de Sarkozy nas presidenciais. Ainda não falou de como a diabolização em França, tal como o Daniel aqui também fez, de Sarkozy, só contribuiu, lá, não a sua é claro, para a dimensão da vitória de Sarkozy.
    O Daniel ainda não falou de dois aspectos fundamentais após a vitória de Sarkozy. Foi o Daniel que aqui comparou Sarkozy a Le Pen, mas agora não escreve uma linha, sobre a composição do governo francês nem uma linha sobre o facto de FN de Le Pen ter ficado reduzida quase a pó e que a primeira volta das legislativas vieram confirmar, apenas a filha, vai à segunda volta.

    O sistema eleitoral francês tem as suas virtudes e os defeitos que todos os sistemas eleitorais têm. Quanto a mim, a análise errada que o Daniel faz desta primeira volta, é que coloca o insucesso dalgumas forças políticas ou a disparidade de representação no sistema eleitoral. Mas convém olhar bem para os números. Antes de mais, muitas das forças de esquerda e extrema esquerda só se podem queixar de si próprias e não tanto do sistema eleitoral. Houve uma abstenção considerável e onde ela se notou mais, foi precisamente, onde os ditos partidos de esquerda e extrema esquerda, mais força tinham. Isso deve querer dizer alguma coisa.
    Contra Sarkozy houve uma mobilização elevada e dada a diabolização que foi feita, a conclusão a que se pode chegar, é que houve muitos eleitores franceses que se “deram ao trabalho” de ir votar nas presidênciais, eleitores que por norma não fazem esse “sacrifício”, tão só na perspectiva de evitar a todo o custo a eleição do diabolizado Sarkozy. Perdida essa batalha e encaixada essa decepção, os mesmos eleitores que por norma não vão votar, agora voltaram ao seu comodismo e não foram votar. E repito, que a abstenção é muito elevada duma forma geral, mas sobretudo nos círculos onde à primeira e segunda volta Segoléne Royal, melhores resultados havia obtido.
    Se a esquerda se pode para já queixar dalguma coisa, é disso mesmo. Do seu alheamento para esta primeira volta e duvido muito que a segunda volta onde é necessária fazer, consiga melhor resultados em termos de abstenção.
    Porque não acorreu o eleitorado de esquerda às urnas agora como fez nas presidenciais? Porque os partidos não lhe dizem nada? Porque só estavam mobilizados para combater o Sarkozy para não o deixar chegar ao Eliseu?
    Daniel, os resultados em França são o que são, porque a esquerda, toda ela, do PS aos Trotskistas não têm propostas para apresentar, ou antes, andam a apresentar programas velhos que já não mobilizam o eleitorado. E quer queira ou não, foi Sarkozy quem retomou a iniciativa política e as ideias em França, com as quais se pode ou não concordar, mas há ideias e acção.
    O PS está numa agonia aflitiva de ideias, são só slogans e internamente vão ter que encontrar alguém, e não me parece que seja Segoléne Royal a insuflar essas ideias novas, ainda que pareça que se vão deitar no regaço dela, como a salvadora, mas já ficou bem demonstrado que aquilo é um balão cheio de ar e vazio de ideias.
    São estas algumas das razões para esta derrota da esquerda, muito mais que o sistema eleitoral, pode crer Daniel.
    E o Eanes lá do sítio, o Bayrou, vai-lhe suceder o mesmo, ou até bem pior, que ao PRD cá do sítio. É um dos grandes derrotados também destas eleições, porque estava convencido que tinha criado uma onda imparável. Está à vista. Vamos lá ver se ele consegue ser eleito, ao menos.

  7. 7 7  João

    O Vitor Dias no tempodascerejas faz uma análise brilhante sobre este assunto…

  8. 8 8  Daniel Oliveira

    João, por acaso ao contrário do costume, não acho nada brilhante. Apontar como vitória que o PCF tenha ficado à frente de Bayrou, quando teve quase metade dos votos e a sua vantagem se deve apenas a acordos com o PS, sem nunca o referir está longe de ser brilhante.

    José Rodrigues, queixei-me do sistema eleitoral sem apontar a esquerda como a sua principal vitima. Pelo contrário, deixo claro que Bayrou e a FN são as vitimas deste esistema nestas eleições e o PCF e Sarkozy os seus principais beneficiários. Não encontro uma única virtude neste sistema. E a maioria dos franceses (segundo sondagens de hoje) também não.

    Sarkozy já tinha ganho e nada de novo há para dizer. O meu psot é sobre o sistema eleitoral francês (faz sentido que seja durante as eleições que o escrevo, ou não) e não sobre os resultados que foram os previstos em todas as sondagens. Uso os resultados para comparar percentagens e deputados. Leia com atenção e verá quem em nenhum momento responsabilizo o sistema eleitoral pela vitória de Sarkozy. Só que há pessoas que têm uma certa dificuldade em fazer um debate político para lá dos urros da vitória e as lágrimas da derrota. O PS perdeu há um mês e aqui já só lhe restava cumprir calendário.

  9. 9 9  Julia W

    Deverias ter falado sobre isto ANTES das eleições, caro Daniel

  10. 10 10  Licor Beirão

    Pessoalmente acho o sistema proporcional o mais justo. Em França, como em portugal, é importante que os partidos com menor expressão eleitoral tenham acento no Parlamento, seja um Manuel Sérgio ou seja um Paulo Portas ou um Louçã, quanto mais não seja porque a vida parlamentar acaba por retirar a alguns populismos alguns dos seus trunfos. O sistema francês é lamentável, não porque ganhou um extremista de direita, mas simplesmentew porque é mau.

  11. 11 11  Mário Ribeiro
  12. 12 12  leonor simões

    Só três coisas curtas:

    PRIMEIRA :Do que já tenho lido, parece que não há nada a fazer : o Daniel não consegue distinguir entre ser beneficiado e ser menos prejudicado que outros; para ele, é a mesma coisa - enfim isto ou é um problema de massa cinzenta ou de teimosia.

    SEGUNDA: o Daniel insiste na visão de um PCF a ser ajudado pelo PS. Comentário meu - uma ova!. O Daniel que vá ver os dados é que veja em quantas circunscrições o PS apela ao voto no PCF ( devem ser 20 ou 30)e em quantas o PCF apela ao voto no PS (devem ser umas 400!).

    TERCEIRA: O Daniel deve saber que quando se diz que a extrema esquerda teve três virgula qualquer coisa não se está falar de um só partido. Está-se a falar de um que teve para aí 1,7 e outro 1,5 e que nem sequer se dão muito bem um com o outro.

  13. 13 13  Daniel Oliveira

    Leonor, 20 chegam para o PCF ter uma representação parlamentar. A comparação não faz sentido, já que o PS vale muito mais votos. E a verdade é que este acordo só é possível havendo entendimento entre o PCF e o PS. Isto não é um ataque ao PCF, mas ao sistema que obriga a este tipo de funcionamento.

    Júlia, foi agora que quis escrever e já o tinha decido antes dos resultados, apesar deles terem sido o que toda a gente esperava.

  14. 14 14  AB

    Eu penso que seria coerente da parte do Daniel que comentasse a constituição do governo Sarkozy e principalmente o seu programa económico.

    Parece-me não pedir muito a uma pessoa com nítida inteligência.

    É que é um pouco intelectualmente desonesto continuar na tecla da associação entre Sarkozy e Le Pen, insinundo sempre que se fala dele, que é um fascista e mais isto ou aquilo.

    É por estas e por outros que a esquerda francesa está na miséria que conhecemos.

    A forma como lidou com Sarkozy foi esta.

    Forma ineficaz e…estúpida, passe a franqueza.

    Ninguém na esquerda europeia e, particularmente, francesa percebeu o alcance do seu programa económico.

    Não perceberam que os seus programas, as suas ideias, além de velhas, não conseguem convencer em nada a classe média.

    E se continuarem a não perceber e a querer insistir na tónica do fascista, o PSF vai continuar miséria durante muitos anos num processo algo idêntico ao que aconteceu ao partido trabalhista na era antes de Blair e durante a Thatcher.

  15. 15 15  leonor simões

    Daniel diz que não faz sentido comparar o apelo do PS ao voto no PCF na volta com o apelo do PCF ao voto no PS porque o PS tem muito mais votos.
    Ao escrever isto, o Daniel parece não fazer ideia do «aperto» eleitoral que são as 2ªs voltas e que obrigam a que não se possa desperdiçar qualquer contribuição ainda que pequena.
    Os votos dos eleitores do PS poderiam dar 20 deputados ao PCF mas não está demonstrado que os votos dos eleitores do PCF, apesar de serem muito menos, não dêem mais de 20 deputados ao PS.

  16. 16 16  vitor dias

    Aí para cima,no comentário de dia 11 às 9.46 hs, Daniel Oliveira refere uma passagem de um meu post em «o tempo das cerejas»,afirmando que «Apontar como vitória que o PCF tenha ficado à frente de Bayrou, quando teve quase metade dos votos e a sua vantagem se deve apenas a acordos com o PS, sem nunca o referir está longe de ser brilhante.»
    Desejo apenas esclarecer os visitantes do «arrastão» que nessse post não classifiquei o facto como «vitória» e antes me limitei a prestar a informação objectiva de que «De qualquer modo, o PCF deverá vir a ter bastantes mais deputados que, por exemplo, o novo partido de Bayrou (1 a 4)».
    Fica assim provado que quando alguém despreza a «letra» para fazer deduções sobre o «espírito» de quem escreve, normalmente dá entorse e deturpação.

  17. 17 17  Daniel Oliveira

    vitor dias, vem logo com a cavalaria da “deturpação”, mesmo a quem lhe faz publicidade (merecida). É já um reflexo condicionado, nada a fazer. A sua frase está aí e eu interpreto-a como sinal de satisfação. A citação completa é:

    “De registar que o PCF, embora duplicando o resultado das presidenciais e perdendo meio ponto em relação às legislativas de 2002 mas confirmando a sua implantação local, poderá ter dificuldade em ultrapassar a fasquia dos 20 deputados necessários para constituir um grupo parlamentar. De qualquer modo, o PCF deverá vir a ter bastantes mais deputados que, por exemplo, o novo partido de Bayrou (1 a 4).”

    Ou seja, apesar de duas más notícias, uma boa. Ou estou a ler mal? Ainda assim, seria bom guardar palavras tão fortes como “entorse e deturpação” para coisas um pouco mais graves que divergências de interpretação de textos seus. Não podem ser sempre. Registo ainda que dá essa “informação” sem referir a origem dessa vantagem em número de deputados. Apesar de ter dedicado ao absurdo sistema eleitoral francês um post anterior, esquece-se dele quando dá essa “informação”. Poderia considerar essa “informação” sem essa ressalva um “entorse” da realidade política francesa, mas não a tomo por coisa tão grave.

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