Do que se fala quando se fala de PEC? Do novo escalão para quem receba mais 150 mil euros, da recução das deduções fiscais para a “classe média” (que nunca se sabe bem onde começa e acaba), do TGV e, vá lá, do congelamento dos salários dos funcionários públicos. A redução das prestações sociais é uma nota da rodapé, apesar de poder significar a diferença entre a pobreza e a miséria. As privatizações de empresas fundamentais para as regiões mais deprinidas que nem existirão no mapa para qualquer privado que apenas tenha o lucro como objectivo nem existe no debate.

Porquê? Porque afectam portugueses invisíveis. Não tenho teorias da conspiração. Os temas não existem porque os “analistas” não se lembram sequer que aquelas pessoas, as que vivem em aldeias e recebem a sua pensão nos Correios ou as que dependem de apoios sociais do Estado, existem. Não almoçam com elas. E não existem para os jornalistas porque estes se limitam a repetir o que dizem os oráculos da Nação.

É a mesma lógica que leva a dar-se muito mais tempo de antena a um qualquer bastonário da Ordem dos Advogados, que representa 25 mil portugueses, do que ao coordenador da maior central sindical portuguesa, que representa mais de 700 mil sindicalizados. Ou a dar a cada episódio com qualquer jornalista muitíssimo mais destaque do que a qualquer conflito laboral numa empresa. A comunicação social fala do que lhe está próximo. E, por isso, de quem tem poder. O resto é paisagem.


18 respostas ao post “Os invisíveis”  

  1. 1 1  Carlos Marques

    Posso estar enganado, mas acho que os correios são públicos até nos EUA. Há um livro muito bom do Bukowski, Correios, que diz muito da importância que os correios têm para a ligação de um território.

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    xuxu Reply:

    Há muita coisa que é pública nos EUA, os correios é um dos exemplos (em muitos sítios as caixas de correio das casa são propriedade do Post office). Grandes pedaços de terra são propriedade dos governos (estaduais ou federais). Se a esquerda deixasse de ser preconceituosa ia ver que os EUA não é bem aquilo que se pinta. E alguns estados americanos têm redes de protecção social bastante razoáveis.
    E algumas ideias bastante engraçadas: por exemplo em tempos de crise (como agora) prologam a duração do subsídio de desemprego. Actualmente penso que vai até 80 semanas, nada mau para um país “sem protecção social”.

  2. 2 2  Vítor

    “Os temas não existem porque os ‘analistas’ não se lembram sequer que aquelas pessoas, as que vivem em aldeias e recebem a sua pensão nos Correios (…) existem”. Julgo perceber por este post que, se acaso os CTT forem privatizados, os pensionistas da Amareleja ou Santa Comba Dão vão deixar de receber as suas reformas e morrer à fome? Como diria a inefável Câncio, please…

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  3. 3 3  Daniel Oliveira

    Não Vítor. Provavelmente terão de ter conta bancária. Ou terão de ir à vila mais próxima (como já têm de fazer com tantos serviços fundamentais pessoas que não vivem em grandes cidades). Ou, mais provável, o Estado paga mais para lá chegar. Há um mundo de possibilidades, como sabemos.

    Não está enganado, Carlos. Refiro isso no texto de hoje do Expresso Online.

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  4. 4 4  Justicialista

    Mais uma vez o Daniel é quase o ÚNICO (e para ser justo, mais alguns co-autores deste blogue) a ver, perceber e comentar assuntos de interesse para as pessoas.

    Os comentários políticos do Daniel Oliveira têm muito mais interesse para as pessoas comuns do que todos os comentários dos analistas políticos que vejo e oiço que parece que pensam que os portugueses resumem-se a empresários, accionistas e investidores.

    É por essas e por outras que este é o único blogue que frequento.

    Post Scriptum- Enquanto na América o debate político se situa entre ter ao não sistema público de saúde; em Portugal, discute-se se privatiza-se tudo ou quase tudo.

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    cafc Reply:

    Meu caro Justicialista

    Plenamente, de acordo consigo. Só a título de exemplo, saliento o extraordinário post do João Rodrigues (“A economia que corta as pernas”) em que ele lincka um, não menos extraordinário, artigo do Rui Tavares.

    Um abraço.

  5. 5 5  Tonibler

    Por essa ordem de ideias, só devia haver tempo de antena para o presidente da república. Afinal, esse representa-nos a todos…

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    Daniel Oliveira Reply:

    Porque é que quando algumas pessoas chegam a este blogue gostam de se fazer de menos espertas do que são?

    Gestrundino Malaquias do Coiro Calhau Reply:

    Aí está um comentário interessante para se discutir o sistema político e a sua organização em Portugal.

    Vamos a essa discussão Daniel?

    Aí residem alguns problemas graves de Portugal.

  6. 6 6  Gestrundino Malaquias do Coiro Calhau

    Daniel, aqui focou um dos problemas mais graves da sociedade Portuguesa.

    Só existe o que passa na televisão e a maioria do tempo de antena da maioria destes canais passa só e apenas LIXO.

    Programas que interessam são censurados durante anos e uns outros nem vêem a luz do dia.

    É um círculo vicioso. Não se percebe bem quem origina o quê. A população Portuguesa pede esse LIXO ou o LIXO intoxica a população Portuguesa que já não passa sem ver 50 vezes a mesma informação, discutir Futebol ou os casos mediáticos da triste TVI.

    Discutir os problemas deste país em afundamento silencioso (para já) não é coisa que interesse.

    Quem não conhece o diagnóstico não fará nada para o corrigir.

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  7. 7 7  Natália Santos

    Isto pode parecer pequenino, mas é revelador da nossa mentalidade :

    Foi criado há alguns anos um benefício fiscal para as firmas que se estabelecessem no interior do País.Então não é, pelo menos até há poucos anos, que desataram a passar as firmas para o interior, alugando uma sala, pondo um telefone e um empregado e mantendo-se a actividade “verdadeira ” em Lisboa ou Porto ou qualquer outra cidade, continuando o interior às moscas.

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  8. 8 8  Vicente de Lisboa

    Dear Lord. O Daniel acabou de me mostrar que brinco demais com o GIMP, se consegui “ver” o photoshop das pernas do pessoal. Ainda por cima é como ver um truque da magia e saber como se faz – perde a piada. Ora bolas.

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  9. 9 9  JMG

    O interesse jornalístico, para meios generalistas, tem que ver com a necessidade de conquistar audiências ou leitores, e não qualquer outro critério. Entre o espampanante Marinho, com as suas declarações troglodíticas, e o maçador Carvalho, eu sei onde está o interesse jornalístico: não é certamente em ouvir o discurso de um fóssil vivo, que repete incansàvelmente o mesmo mantra há mais de vinte anos.

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  10. 10 10  cafc

    Meu caro Daniel

    Excelente post. Porém, este meu “velho espírito retorcido” conduz-me a uma “divergência de fundo” e que tem origem na expressão «”classe média” (que nunca se sabe bem onde começa e acaba)».

    Com as políticas que têm sido seguidas, a minha dúvida é quando acabam com a “classe média”.

    Revisitando, “retorcidamente”, Marx e Engels, a “utopia” da sociedade sem classes nunca esteve tão próxima de se concretizar. Vejamos:

    1- Já temos um número infinito de governantes e respectivos “apêndices”, sem qualquer “classe”;

    2- Com a extinção da “classe média”, é menos uma que fica (na perspectiva deles), o que significa um assinalável progresso, tendo em vista o “objectivo final”;

    3- Para mim, que sou “simplista” (e não alinho nas “subdivisões” que pretendem fazer das classes), restam duas. “Classe baixa” (pobres) e “classe alta” (ricos);

    4- Momento decisivo, porque é fácil chegar à conclusão que, afinal, o que sempre existiu foi explorados e exploradores. E qual vai ser o resultado final?

    Eis a minha visão “retorcida” e “actualizada” de que o capitalismo contém, em si, os germes da sua própria destruição.

    Agora, totalmente, a sério. Renovo o meu apelo à convergência das esquerdas para que os Portugueses (visíveis e invisíveis) tenham uma alternativa que, pelo menos, permita pôr “um pauzinho na engrenagem”.

    Um abraço e, desculpa lá a “divergência”.

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  11. 11 11  Antonio Cunha

    O que eu não li, foi qq tipo de post sobre as pessoas da cadeia de supermercados Alisuper que faliu ou vai falir porque a Caixa Geral de Depositos não quis dar um aval de 1 milhão de euros, quando todos os outros credores se dispunham a isso (BCP incluído)

    Afinal as empresas Publica tb servem para mandar gente para o desemprego.

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  12. 12 12  Alfredo

    Um bastonário dos advogados, por princípio, não representa ideologias políticas e, portanto, espera-se que as suas opiniões não sejam enviesadas e derivem de uma qualquer experiência de vida e profissional. Do líder da maior central sindical, nem os estupidos esperam uma opinião isenta.

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  13. 13 13  Daniel Oliveira

    sim há coisa que temos ouvido de Marinho Pinto é opiniões isentas. Dele, do Câmara Corporativa, de Augusto Santos Silva…

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    Antonio Cunha Reply:

    Epa esse Marinho anda mesmo a mijar fora do penico… Que criatura mais parva…

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