
Vejo na televisão um troglodita a explicar que em Coimbra talvez tenha havido aqui e ali algum excesso, quando, na prática dessa boçalidade institucionalizada a que se chama praxe, um caloiro foi imobilizado por colegas mais velhos que, ao raparem-lhe os pêlos púbicos com uma lâmina de barbear, o feriram. Entusiasmando-se com o salutar convivo com colega, bateram com uma colher de pau nas unhas até as deixar negras.
O dito troglodita dá, ao que consegui perceber, pelo nome de José Luís Jesus, e ostenta o título de “dux veteranorum”, ou seja, parasita que organiza o abuso e a violência em estabelecimento de ensino (se alguém conseguir traduzir isto para latim…). Ao que parece, esclareceu, se tiver havido algum abuso o “Conselho de Veteranos” irá até ás últimas consequências. Qual é a autoridade jurídica deste grupinho para ir seja onde for? Ninguém sabe. As agressões, num Estado de Direito, são tratadas pela polícia e por tribunais. Mesmo que a elas se dê o pomposo nome de “tradição académica”. Não deixa de ser interessante ver os mesmos que organizam a violência a darem-se a si mesmo o papel de juízes. Como se a Academia fosse um Estado à parte das leis nacionais.
Continuo pacientemente à espera que haja um reitor neste país que resolva proibir a praxe dentro do espaço universitário em vez de achar que ela dá prestígio à sua instituição. Porque há tradições que um estado democrático dispensa. Quem gosta de ser humilhado e maltratado pode sempre participar em festas especializadas fora da Universidade. Não faltam estabelecimentos devidamente preparados para o efeito. E todos eles têm algumas regras a que esta gente se poderia habituar: só é humilhado quem o quer ser e ninguém pode ser coagido a isso. Muito simples. A tudo o resto dá-se o nome de crime.
Por Daniel Oliveira 17 Mai 07 em Sem categoria


E vai ser o dia todo nisto…
Crimes não são praxes. Devem ser objecto de investigação criminal.
O código da praxe existe para evitar abusos.
Estaline também era “comunista”, não me lembro é de o ideal marxista defender homicídios em série…
Abraço,
“No meu tempo” só havia praxes em Coimbra, e não eram, nem de longe como estas. Nós, os de Lisboa (e se calhar também os do Porto), considerava-mos as praxes, bem como o uso de traje académico, uma manifestação de provincianismo. E, no entanto, soubemos bem bater-nos com a polícia (PIDE), sempre que esta quis invadir a Universidade.
Perante o que se passa agora com praxes brutais e ridículos trajes académicos, é de perguntar: estaremos a andar para a frente, ou para trás?
Já agora, para quem não sabe, uma das condições para se ser “Dux Veteranorum” é ter, pelo menos, 9 matrículas.
Portanto, não são propriamente escolhidos pelo seu mérito académico e sofisticação.
Daniel, acho que estás um bocado baralhado. Independentemente do julgamento efectuado pelo Conselho de Veteranos, qualquer aluno vítima de abusos pode apresentar queixa na polícia que será tratada como qualquer outra queixa. Se há queixas e a polícia não faz nada, isso é problema da polícia que temos.
Acho óptimo o post. Apenas acho péssimo ser ilustrado com a fotografia de um conhecido político da nossa praça….
Se o Daniel está à espera que um reitor se oponha a estas práticas, bem pode esperar sentado. Os reitores só se oporão a estas práticas no dia (oxalá ele chegue cedo!!!) em que a “conquista de Abril” da “democracia na gestão das universidades” fôr eliminada, no dia em que as associações de estudantes tiverem na universidade o mesmo papel que os sindicatos e as comissões de trabalhadores têm em qualquer empresa, isto é, no dia em que as associações de estudantes não tenham qualquer voz ativa nem qualquer voto na gestão das universidades, e se limitem a ser, como deveriam, estruturas reivindicativas e representativas dos estudantes.
Só há um ponto de que discordo, a ofensa aos nossos avós trogloditas que eu respeito imenso.
Alguns deles eram até de uma sagesa notável e soberam prosperar e preservar a espécie até aos nossos dias.
Mas partilho com sigo a dificuldade em encontrar o adjectivo correcto (selvagem não porque ofende os selvagens, vãndalo também não porque refere um povo corajoso e empreendedor)
Infelizmente não há palavras para adjectivar essa estupidez inqualificável (talvez seja esta a palavra) da praxe levada a estes extremos.
Recordo-me de uma cena do excelente filme “runaway train” onde alguem acusava o presidiário fugido de ser um animal, ao que ele respondeu sabiamente, “animal, eu ? não, sou muito pior sou humano”
As praxes académicas, ou no seu conjunto, a praxe, não contempla este tipo de abusos grotescos e animalescos. Percebo que haja uma posição, a priori, anti-praxe, mas generalizar a “praxe” (que é feita das mais variadas maneiras, com abusos e sem abusos,com “traje” ou sem ele )e conotá-la com este tipo de aberrações feitas por pessoas judicialmente passíveis de processo crime (que espero que avance) é falacioso.
Cumprimentos de um seu leitor atento
As praxes académicas, ou no seu conjunto, a praxe, não contempla este tipo de abusos grotescos e animalescos. Percebo que haja uma posição, a priori, anti-praxe, mas generalizar a “praxe” (que é feita das mais variadas maneiras, com abusos e sem abusos,com “traje” ou sem ele )e conotá-la com este tipo de aberrações feitas por pessoas judicialmente passíveis de processo crime (que espero que avance) é falacioso.
Cumprimentos de um seu leitor atento
Dux Veteranorum
deve ser o novo nome para repetente ( burro), e quem dá autoridade a essas pessoas para dirigir as praxes, pois vê-se bem que para estudar não estão eles lá!
Sinceramente isso tem de ser investigado, e os reponsaveis têm de ser punidos. Ir para a Universidade é supostamente uma coisa boa, um aluno que passa 12 anos lectivos a estudar para atingir esse fim, merece uma boa entrada no ensino superior.
Eu aqui estou como o outro: concordo com a violencia, desde que seja consentida e entre adultos… ora, quem estuda no ensino superior é, certamente adulto, e só leva porque quer. Eu estudo em coimbra e desde o primeiro momento que nao me quis “integrar” dessa forma. Nao sou pela praxe, nao tenho traje, nada… Se é pela praxe, então aceita as regras do jogo. Era o mesmo que um lutador de boxe vir dizer que foi vítima de uma agressão no ringue. A praxe é uma instituição em coimbra e o crime seria ilegalizá-la. Quem quer participar nesses rituais, pois que participe… agora se ficou com a unha preta… azar… há coisas piores!
“Continuo pacientemente à espera que haja um reitor neste país que resolva proibir a praxe dentro do espaço universitário”…
Tem razão.
Posso perguntar-lhe qual a sua reacção à presença de polícia dentro do respectivo recinto?
É que impor a autoridade é isso mesmo: uma imposição. E quem impõe é, em último caso, quem tem força.
Não consigo achar piada às praxes, mesmo às mais brandas. Na faculdade faltei propositadamente aos primeiros 15 dias de aulas para escapar a essa estupidez.
Daniel, sei que o seu «blog» não permite «links» nos comentários.
Ainda assim:
http://santamargarida.blogspot.com/2007/05/745-madraos.html
O tema já foi aqui, amplamente, debatido [há dois dias, quase]
É lamentável que estes casos tenham acontecido e continuem a acontecer. Acho que devem ser julgados como crime que são e nunca resolvidos apenas por uma qualquer comissão de praxe. Porém é também verdade que todos os caloiros são livres de escolher se querem ou não ser praxados, se querem ou não fazer parte desta “tradição académica”. Existem também em todas as faculdades um código de praxe que condena estas atitudes, e que estes casos só acontecem por estupidez de algumas pessoas e não por ser prática comum de uma praxe.
Quero salientar que este ano fui caloiro em duas faculdades (1ª e 2ª fase), numa delas fiz parte da praxe, na outra optei por não o fazer e em nenhum dos casos fui tratado de forma menos correcta.
1000% de acordo.
Daniel, por causa deste post, nas proximas eleições vou votar no BE.
dizia o “jovem” dux veteranorum que apenas lhe deram umas palmadas “no cachaço” para ele um caloiro é gado que pode levar umas palmadas. Tive o prazer de frequentar uma instituição academica em que no ano em que fui caloiro as praxes a que fomos submetidos foram, iamgine-se,… contar uma anedota ou cantar uma canção e no fim ofereceram um lanche a todos os que eram caloiros…que pena, nunca nos sentimos integrados nem uns verdadeiros estudantes universitários, nem sei como percorremos o nosso percurso académico, sentimos sempre a falta da humilhação, de lavar a loiça aos veteranos, de termos umas mistelas em cima de que tanto nos orgulhariamos de exibir. Até a nossa sexualidade foi afectada por nunca termos simulado actos sexuais em plena via publica, os nossos relacionamentos com os que já estavam nunca foram bons, principalmente depois de nunca nos terem andado a gritar aos ouvidos que eramos bichos, enfim, sentimos sempre a falta de umas palmadas no cachaço.
Sugiro ouvir a música do Sérgio Godinho sobre o assunto…
O Instituto Piaget – uma escola superior de educação! – notabilizou-se na comunicação social por uma praxe que foi parar aos tribunais. A publicação mais conhecida da universidade mais antiga do país não é uma publicação científica ou afim, mas um tal Código da Praxe, penso que editado pelo Conselho de Veteranos que refere. As praxes, umas mais violentas, outras apenas idiotas, disseminaram-se pelo país a ponto de só quase não baterem à porta das creches e jardins de infância. Devo ser muito conservador ou ingénuo, mas fico atónito com a passividade dos magníficos reitores e directores pedagógicos perante este estado das suas escolas. Estarão assim tão impotentes?
Daniel,
na Universidade de Aveiro a Reitora proibiu este ano de haver praxe dentro do campus
concordo !
Normalmente este tipo de praxes é praticado por cobardolas que só actuam em bandos
infelizmente nao deves ter estudado em coimbra!
Olha eu e tu de acordo!!!!
Lolololol,
( Tbém postei sobre essa merda. O que lutei contra a porra da praxe…)
Um abraço, K’mrd.
Já agora, umas correcções. O nome do “Dux Veteranorum” é João Luís Jesus, não José. E não são necessárias 9 matrículas, basta que seja um veterano reconhecido como tal (ou seja, com mais matrículas que anos de curso e tenha cumprido os “passos” anteriores previstos pela praxe) e seja eleito como “Dux” pelos outros veteranos.
Relativamente ao estatuto jurídico, creio que o Conselho de Veteranos (CV) é uam espécie de área cinzenta. A razão para isso está no facto de o CV estar previsto como secção (se não me falha a memória) da AAC e a AAC ter estatuto jurídico em que as suas secções estão previstas. Contudo, como a praxe em si não tem qualquer estatuto jurídico, o CV não pode efectivamente regular sobre ela. Em termos práticos, o CV regula apenas de forma psicológica, exercendo uma certa influência sobre os alunos que seguem o código da praxe.
Claro que a praxe é uma idiotice completa, começando pela base que quanto mais idiota se for (quanto mais se chumbar) mais autoridade se tem sobre os colegas. Ainda assim, o CV tem conseguido ao longo dos anos ter uma influência positiva sobre a praxe, tendo havido casos no passado em que eles próprios “julgaram” alunos acusados de abusos e se disponibilizaram para prestar apoio financeiro caso os alunos abusados quisessem seguir a via judicial.
A influência mais positiva seria, obviamente, o desaparecimento da praxe. Não creio, contudo, que o CV o conseguisse mesmo que quisesse. Mais, não creio que os abusos desaparecessem em Coimbra. Pelo contrário, passariam a surgir muito mais que agora (são quase inexistentes), tal como surgiram nos politécnicos antes de qualquer “praxe” ter sido introduzida.
Quando chegou a minha vez, em ‘90, nessa instituição ultra-liberal que é a Faculdade de Economia da UNL, houve um troglodita que no primeiro dia de aulas me ofereceu a sua solidariedade ainda fora do perímetro da faculdade, fazendo-se passar por caloiro, para depois, já lá dentro, me entregar aos bichos, numa pose gloriosa. Passados 10 minutos já estava momentaneamente cega da vista direita por me terem aspergido perfume directamente para a cara. Fugi. Ainda me tentaram deter. Prometeram-me perseguição. Não pus lá mais os pés durante o primeiro mês de aulas. Não soube lutar, fazer-lhes frente, fazer queixa daqueles nojentos. Confesso que me senti muito intimidada. Só consegui fazer o meu primeiro amigo no segundo semestre. E como eu haverá muitas pessoas. Não suporto esses cabrões. A minha vingança foi cortar-lhes o financiamento quando mais tarde fui presidente da direcção da AE.
Daniel Oliveira,
suponho que o Dux de Coimbra, quando disse que irá até às últimas consequências, estava a referir-se ao “julgamento” pelo Conselho de Veteranos dos indivíduos que levaram a cabo o que, estamos de acordo, é uma autêntica barbárie. Provavelmente, os indivíduos serão excluídos da praxe, proibidos de voltar a praxar e poderão ser alvo de uma sanção (que não estaria mal pensado se fosse exactamente a mesma a que sujeitaram o caloiro). O julgamento do crime de que o Daniel fala será sempre feito num tribunal. Convém não confundir as coisas, na ânsia de condenar os comportamentos da estudantada…
Isabel Coutinho,
pois nós, os de Coimbra (e se calhar também os do Porto), quer sejamos a favor ou contra a praxe estamos todos de acordo numa coisa: tremenda manifestação de provincianismo, muito mais do que fazer praxe ou usar traje académico, é escrever “considerava-mos”.
Só para que fique registado (e sem querer dar um ar de presunção) aqui fica a tradução para latim da expressão “parasita que organiza o abuso e a violência em estabelecimento de ensino”.
Segundo a minha mulher (licenciada em ensino de Português, Latim e Grego e sem emprego) em latim isto fica qualquer coisa como:
“parasitus qui abusum et violentiam in schola temperat.” E se alguém precisar de traduzir mais alguma coisa é só dizer!
O Daniel está a generalizar, como aliás toda a comunicação social usualmente generaliza quando o assunto é praxes. Sim, concordo que a praxe em questão - como as célebres do Piaget e, infelizmente, tantas outras - são autênticos casos de polícia. Mas nem todas as praxes implicam barbárie. Não fui estudante de Coimbra, fiquei por Lisboa. Na instituição que frequentei, dei-me a praxar - que, é como quem diz, não me declarei anti-praxe; no entanto, a escolha de ser ou não ser praxado cabe sempre ao caloiro, sendo que a única penalização que terá ao optar por se declarar anti-praxe é não poder vir a integrar qualquer comissão de praxe em anos futuros (o que me parece lógico). E digo-lhe, Daniel, foi provavelmente a semana mais divertida que vivi nos quatro anos de ensino superior. Não houve simulação de blowjobs, pelos púbicos rapados, atentados à integridade física de qualquer caloiro. Houve, sim, imensa diversão, cantoria, cerveja e, acima de tudo, companheirismo. Hoje, que já terminei a universidade, recordo com alguma saudade aqueles que me praxaram, uma vez que foi através deles que conheci alguns dos melhores amigos que tenho actualmente, foram eles que me mostraram a escola, e, porque, acima de tudo, sempre me respeitaram.
Precisamente por isso em dois anos posteriores integrei a comissão de praxes. Procurei, na medida do possível, proporcionar aos novos alunos uma semana tão divertida como aquela que eu tive. Tornei-me bastante íntimo de pessoas que de outra forma apenas conheceria de vista e, veja lá, uma rapariga que praxei até se tornou minha namorada (e ainda é)! E não, isso não fez parte da praxe
Claro que este testemunho, para o Daniel ou para qualquer meio de comunicação social, tem um valor igual a zero, porque não corresponde àquilo que se considera ser o estereótipo. Nunca um jornal ou uma televisão irá fazer uma reportagem a uma instituição como a minha, em que a praxe é bem organizada e não incorpora a barbárie que aqui mencionou. Mas basta surgir um caso desses que caem lá todos. Like flies to cowpies. Enfim.
Pois mas em 1969 deu muito jeito esta marginalidade da plurisecular ass. de coimbra.nao e? as pessoas de esquerda sao de memoria curta.
Já era de esperar que, face a uma notícia totalmente deturpada, surgissem inúmeros relatos sobre concepções de praxe deturpadas (que são às dezenas) que pululam por essas Universidades e politécnicos fora. A pergunta é: o que é que isso interessa ao estudante de Coimbra? Nada. Não podemos ser penalizados, numa cidade em que a praxe se reveste de autêntica legitimidade histórica e em que o “Código da Praxe” é escrupulosamente cumprido (existindo, inclusivamente, um “Conselho de Veteranos” para o fazer cumprir), e mais, em que a decisão de um “recém-chegado” se declarar anti-praxe é respeitada (não voltando o “caloiro” a ser incomodado, mas apenas impedido de usar “Capa e Batina” – e não, por exemplo, a fotocopiadora e o bar, como acontece, por exemplo, em alguns institutos), pelas barbáries e inúmeros crimes que se cometem noutras Instituições. O que aconteceu neste caso foi, tão só e apenas, que o aluno, embriagado, decidiu relatar aos microfones da Comunicação Social eventos e praxes que nunca ocorreram (sei-o de fonte segura), e que a ocorrerem acarretariam, certamente, punições para os seus autores – como o próprio Dux fez questão de esclarecer à Comunicação Social.
O debate sobre a praxe não faz sentido em Coimbra. Só é “pela praxe” quem quer. Quem se declara anti-praxe devia ter a honestidade de o reconhecer. Existem ruas inteiras na alta de Coimbra (onde se localiza o edifício histórico da Universidade) anti-praxe; existem inúmeras Repúblicas anti-praxe.
Como estudante de Coimbra, e acérrimo defensor da praxe nestes moldes (repito: nestes moldes), parece-me ser esta a modernização possível e recomendada.
Este post e alguns comentários aqui escritos parecem-me apenas generalizações infundadas, motivadas por uma notícia cuja autenticidade nem sequer foi confirmada - talvez porque a realidade não venda tanto como “As barbaridades da praxe”. Parece-me, no entanto, que as vieram procurar ao sítio errado.