Enquanto o Hamas faz a caça ao homem da Fatah em Gaza e a Fatah reenvia os seus próprios homens para uma morte quase certa, Israel usa os tratamentos médicos (quase impossíveis em Gaza por causa do bloqueio e do isolamento) para obrigar os palestinianos a ser seus espiões. Ou trais ou morres. Tudo horrível, mas há um lado maquiavélico e frio que faz a diferença. Eles defendem a “civilização e os valores ocidenteis”, não é? Pois!

“Bassam al-Wahidi faltou à última consulta que tinha marcada num hospital de Jerusalém Oriental, há quase um ano, apesar de se arriscar a perder a visão do olho direito. À hora prevista, este jornalista de Gaza estava numa sala de interrogatórios do checkpoint de Erez, onde ao longo de seis horas um homem que falava árabe perfeito e se identificou como Moshe lhe sugeriu que descobrisse quem lançava rockets de Gaza para Israel. “Vou mandar-te para casa e deixar-te viver o resto da tua vida cego por seres estúpido”, disse-lhe quando recusou.

O relato de Wahidi é um dos 32 que o grupo israelita da organização internacional Médicos pelos Direitos Humanos recolheu num relatório ontem divulgado. Wahidi é dos poucos que aceita ser identificado pelo nome - a maioria recusou por temer que as hipóteses de sair de Gaza para receber tratamento médico fiquem ainda mais reduzidas.

Os Médicos pelos Direitos Humanos acusam o Shin Bet (o serviço de segurança interna de Israel) de “coacção” e “extorsão” dos pacientes. E notam que estas práticas acompanham um aumento acentuado na proporção de doentes a quem é negada a entrada em Israel, desde que o Hamas assumiu o controlo da Faixa de Gaza, em Julho do ano passado. Em Janeiro de 2007 eram autorizados a entrar 90 por cento - no fim do ano já entravam só 62 por cento dos que pediam para passar por motivos médicos.

O grupo lembra que o aumento de restrições nas saídas coincidiu com o bloqueio israelita a Gaza, que provocou quebras de energia eléctrica e impede a entrada de equipamentos médicos ou combustível.

O Shin Bet desmente as acusações e diz que os controlos de segurança servem para garantir que os palestinianos não ameaçam segurança de Israel. Desde 2005, diz, três potenciais bombistas suicidas fizeram-se passar por doentes. Segundo o exército, o número dos que saem de Gaza para receber tratamento médico aumentou de 8325 para 15.148 em 2007.

Mas os testemunhos recolhidos levam os Médicos pelos Direitos Humanos a concluir que os “interrogadores propõem directa e abertamente aos doentes colaborarem e/ou fornecerem informações”. E esta prática, sublinham, viola as Convenções de Genebra. O Shin Bet lembra, por seu turno, que o Supremo Tribunal israelita decidiu que “o Estado tem o direito soberano de determinar quem entra” nas suas fronteiras.

A Bassam al-Wahidi foi-lhe oferecido um cartão de telemóvel israelita. Para além de se deslocar às áreas de fronteira para identificar os combatentes que lançam rockets, deveria ir às conferências de imprensa da ala militar do Hamas e de outras facções. Tinha dez dias para provar sua utilidade - depois deixaria de precisar de autorização para passar em Erez.

Sem qualquer viagem ao hospital de Jerusalém desde esse interrogatório, o jornalista de 28 anos que cobre assuntos sociais e laborais para uma rádio já está cego do olho direito e precisa de tratamento urgente no olho esquerdo. Os médicos mandaram-no parar de ler e escrever há um mês.

Abu Obeid, um funcionário público de 38 anos, tem um pacemaker instalado num hospital israelita e saía frequentemente para tratamentos cardíacos. Mas em Agosto recusou uma proposta idêntica à que foi feira a Wahidi. “Dás-me informação e eu facilito as entradas em Israel”, ouviu.

Outro homem de 38 anos que deveria ter sido consultado no hospital Ichilov de Telavive contou ao grupo de médicos israelitas o que lhe disse um agente: “Tens cancro e vai espalhar-se para o teu cérebro. Enquanto não nos ajudares, podes esperar por Rafah.” Rafah é o posto fronteiriço entre Gaza e o Egipto, raramente aberto. (…)”

Público


21 respostas ao post “Ou trais ou morres”  

  1. 1 1  PR

    O que nos chega diariamente de Israel é já assustador. Entramos no domínio da barbárie…e a espiral, cresce.

  2. 2 2  Guimarães

    Por falar em “civilização e valores ocidentais”: Um representante da administração americana afirmou que a maioria dos presos de Guantanamo nunca será julgada nem libertada, por serem demasiado perigosos.
    Alguém falou em valores, direitos humanos, etc.?
    É preciso ter “lata”!

  3. 3 3  kruzeskanhoto

    A vida é feita de escolhas e cada um toma as opções que lhe parecem certas. Ou isto apenas é verdade noutras circunstâncias?!

  4. 4 4  Minhoto

    Se a noticia for verdadeira (é um pouco estranho) , o Estado de Israel está a proceder mal. A verdade é esta, se o dinheiro injectado pela União Europeia na Faixa de Gaza fosse canalizado para educação, erradicação de extremistas e criação de infra-estruturas aquele povo não precisava de ir a Israel e de certo não havia bloqueio, a gastar milhões como continuam em posters, armas e bombas é de patriotismo e não de traição (conceito engraçado para o Daniel Oliveira, estão a trair quem lança os rockets, não pode existir outra forma de ver sendo palestino) qualquer ajuda para acabar com a barbárie e estabelecer uma via pacífica entre os dois povos.

  5. 5 5  deboche

    Minhoto

    Minhoto, dinheiro injectado pela união europeia?
    Qual dinheiro?
    Os estados unidos gastão metade do dinheiro que dão em ajuda externa a israel.
    O israelitas fazem isto há anos, dezenas de anos, e são eles que deitam abaixo os hospitais e as escolas. Porque do dinhero que o hamas recebia em donativos do mundo inteiro, 80 por cento era usado para fazer escolas e hospitais, e era muito mas muito mais do que o q a união europeia alguma vez deu.
    Olhe pra um mapa e veja onde eram, onde são as fronteiras agora mas depois olhe para outro mapa e veja onde estão a contruir o muro.
    Apesar de israel e palestina do topo ao sul terem 200 km o muro vai ter mais de mil porque vai ter pregas em todo o lado. É preciso atravessar checkpoints do exercito israelita para atravessar qualquer cidade na palestina.

    E voçê acha que é estúpido cegar para não denunciar um lançador de rockets? Já pensou que se calhar o lançador está numa cresce cheia de crianças? já aconteceu antes e israel bombardeou.

  6. 6 6  atom

    Parece-me que em todas as guerras, os beligerantes tentam recrutar agentes para espionagem dos adversários (ver exemplo da 2ª guerra mundial). Não me parece que existam regras para tal recrutamento.
    O estado de Israel não tem obrigação de tratar os doentes palestinianos que não tenham passaporte israelita. Também por exemplo, nos EUA quem não tem dinheiro não é tratado apesar de serem cidadãos do país.
    Não se pode defender o lançamento da população de Israel ao mar, e simultaneamente dizer que os israelitas têm que fornecer assistência médica, electricidade e água gratuita às pessoas que defendem esse programa. Pouco falta para pedirem ao governo de Israel para financiarem os rocket’s que o AMAS lança. Já agora faço notar que os rocket sem telecomando, como os lançados pelo AMAS sobre Israel são instrumentos de morte indiscriminados. Matam pessoas e animais, pequenos, grandes, de qualquer sexo e de qualquer idade.
    É claro que o “politicamente correcto” é atribuir a culpa a Israel, pois que o governo desse país devia fornecer ao AMAS rockt’s de última geração, telecomandados e com possibilidade de correcção de rota para atingir alvos escolhidos. O pobre AMAS só pode utilizar material pouco sofisticado para o magno objectivo de lançar os israelitas ao mar.

  7. 7 7  Bruno Ferreira

    Caro Daniel!!
    Como pode retirar da notícia e da imprensa Israelita, que certamente poderá alcançar pela internet, estes factos são denunciados por Israelitas em Israel!!
    A crítica e censura ao Governo e aos órgão da Administração Israelita é abundante e livre significando estrito controlo da sociedade Israelita acerca dos comportamentos do seu Governo!
    Se de facto tais comportamentos ocorreram estes existem à revelia da lei Israelita e como tal os responsáveis pelos mesmos serão chamados à sua responsabilidade!

  8. 8 8  PMA

    Comentário sobre a guerra aberta entre o hamas e a fatah, q n metesse mais uma história sobre a maldade dos israelitas, não era história digna deste blogue.

    Ai se os meus amigos me vêm escrever algumas linhas sobre o médio oriente q n seja pra xamar nomes aos israelitas!!

    Quando diz “eles defendem os valores ocidentais e a civilização” quem são “eles” exactamente!?

    Com os “maus” já n há problema com generalizações!?

    Pois!

  9. 9 9  João Gundersen

    O destino do dinheiro que a Comunidade Europeia envia para a Palestina é no minimo escandadaloso, basta investigar um pouco. Se eu em Israel quiser ser contra a ocupação e contra o comportamento do Estado Juidaico - e a confirmar-se esta notícia, é uma vergonha - posso ser. Existem movimentos assim. Na Faixa de Gaza, o que é que me acontece?

  10. 10 10  Rafael Ortega

    Só não percebo porque é que o Daniel classifica o dar informações como traição. Isso pressupunha que os palestinianos que estão a ser coagidos a dar informações se identificam com os que lançam rockets, o que não deve ser verdade na maioria dos casos.
    Isso só torna a situação mais lamentável porque estão a negar tratamentos médicos a pessoas se não derem informações, quando em muitos casos essas pessoas não têm nada de relevante para contar.

  11. 11 11  Minhoto

    Ó Deboche em boa hora foi feito o muro, já está esquecido dos ataques bombistas de outros tempos, hoje praticamente estão extintos.
    “Já pensou que se calhar o lançador está numa cresce cheia de crianças? já aconteceu antes e israel bombardeou” isto nem discussão têm, mostra bem a
    sua cegueira politica.
    Mas ó Deboche não se esqueça é que a si o Estado de Israel dá-lhe lições de democracia! Não se canse…

  12. 12 12  Daniel Oliveira

    “Eles” é o Estado de Israel e as suas forças militares, que são os autores desta ignomínia.

  13. 13 13  MigPT

    já cá faltava. os árabes estão a matar-se uns aos outros, em circuntâncias inomináveis, mas curiosamente não há lá nenhum jornalista europeu para relatar o que se passa. Se fosse Israel, não faltavam imagens de árabes mortos, com títulos de jornais do tipo “massacre em jericó”. Agora esta guerra é tratada como “confrontos entre a Fatha e o Hamas”, embora morram também crianças e mulheres (como a nossa imprensa gosta de dizer quando israel ataca). Mas o que faltava aqui, era alguém conseguir meter os Israelitas no meio e cá está o sempre solícito DO a tentar atirar areia. Vai buscar uma história para desinformar e os europeus já podem voltar ao seu desporto favorito “culpar israel”.

  14. 14 14  PMA

    parafraseando D.O.

    Tem a certeza q é todo o exército “maquiavélico e frio” ?

    Todos os militares israelitas “maquiavélicos e frios”?

    Todos os elementos do estado de israel?

    Representará o estado de israel os israelitas?

    Serão os israelitas “maquiavélicos e frios”?!

    Pois..

    Generalizações..

  15. 15 15  Daniel Oliveira

    1. O Estado Israelita e os israelitas não são a mesma coisa. A prova é que esta denúncia veio de israelitas.
    2. As forças armadas israelitas são uma instituição com hierarquia.
    3. Do seu ponto de vista, qualquer acusação a uma instituição é uma generalização.

  16. 16 16  Maria

    Bom,

    estas noticias tornaram-se conhecidas e foram mais exploradas desde a entrevista , ( depois publicada em varios meios e linguas ) de uma senhora que se apresenta como judia alema e sobrevivente do holocausto e que ao que parece, se ofereceu como voluntaria para ajudar em Israel , ao que parece em hospitais.

    http://www.silviacattori.net/article421.html

    Talvez tudo o que diz seja verdade mas eu gostaria de ter acesso a mais e mais detalhada informaçao , o que e muito dificil infelizmente.
    De qualquer modo e inegavel que em estado de guerra todos os envolvidos se tornam
    extremamente crueis e que quanto maior for a violencia maior sera a crueldade entre todos .

  17. 17 17  PMA

    No seu comentário lesse “israel” seguido de “eles”..

    Se escrevesse “palestina” seguido duma critica sobre bombistas-suicidas, e dps chamasse “eles são …..” n acharia q estaria a generalizar injustamente para todos os palestinianos!?

  18. 18 18  Besugo

    Há tanta coisa boa para falar sobre os judeus não há? …

  19. 19 19  Duarte Sousa

    Os Estados Unidos são o país que mais contribui com ajudas financeiras para o desenvolvimento da Palestina. De 1994 a 2003, os EUA contribuiram com mais de 1,3 mil milhões de dólares . A seguir vem a União Europeia, com 1,11 mil milhões, e depois o Japão. Este dinheiro poderia ter levado a uma tremenda mudança na economia palestiniana. Mas os palestinianos escolheram outro caminho. O mundo fez chover dólares e os palestinianos responderam com críticas. Eles não são os mais oprimidos do mundo, mas sim os mais mimados. A maioria dos habitantes de África, que sofre muito mais, pode apenas sonhar com uma ajuda económica da magnitude da concedida aos palestinianos.

    Será que isto inibe a responsabilidade por excessos cometidos por militares israelitas? Não.
    Mas também não vejo o Daniel Oliveira (e a Esquerda em geral) falar da responsabilidade das autoridades palestinianas. Ou acha que os árabes e persas têm o direito de bombardear Israel?

    A verdade é que Israel está cercado por grupos terroristas. Neste preciso momento, só o Hizbullah, um movimento xiíta que controla o Sul do Líbano sob a influência do Irão e da Síria, tem mais de 40.000 mísseis apontados ao Norte e Centro de Israel e prepara-se para reforçar o seu sistema de defesa anti-áereo.

    Por outro lado, o povo israelita ainda tem de lidar com as forças sunitas do Hamas, da Jihad Al-islam e das Fatah (rival das duas primeiras).

    Perante este contexto Israel possui todo o direito de se defender. E muita sorte têm tido os palestinianos, assim como os países árabes vizinhos por Israel não os ter arrasado na Guerra dos 6 Dias. Se Israel fosse governado por Putin, o mais provável é que hoje não existissem nem o Líbano, nem a Cisjordânia. Mas pelo contrário, Israel até deu provas de boa fé no sentido de procurar a paz, ao proceder com a retirada de colonatos, que a meu ver até são território legítimo de Israel (o que não significa que concorde com a anterior expulsão de árabes desses locais).

    Uma coisa que também convém não esquecer é o facto dos líderes palestinianos se terem aliado aos nazis durante a 2ª GM, para não referir que Israel na altura território dominado pelos britânicos.

    Mas deverá a população árabe pagar pelos erros dos seus líderes? Não. E neste aspecto critico a política israelita, pois em vez de se ter procurado a integração dos civis árabes, foi-se afastando-os das suas casas nos primeiros da re-ocupação.

    Os resultados dessa política tiveram consequências bastante problemáticas, mas mais uma vez quero frisar que as autoridades palestinianas nada fizeram para salvaguardar os interesses e o bem-estar da sua população.
    Continuam a gastar o dinheiro em armas, propaganda militar, bens pessoais ou aplicam-no em contas privadas. Os civis que se cuidem!

  1. 1 Gaza | Espionagem a Troco de Cuidados Médicos | blog.deictico.org
  2. 2 Gaza | Espionagem a Troco de Cuidados Médicos | : fractura.net!

Leave a Reply