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Não vou aprofundar grande coisa sobre o artigo publicado hoje por Pacheco Pereira. Os textos auto-justificativos devem valer por si. Além do mais, Pacheco Pereira dá trinta mil cambalhotas para juntar a guerra ao terrorismo à guerra pelo domínio do petróleo à guerra ao fundamentalismo islâmico e à guerra contra potências anti-americanas, colando com cuspo o que está separado, dizendo sempre que está separado mas que isso não faz qualquer diferença. Como é seu costume, Pacheco Pereira pega em premissas não fundamentadas, enfia-se com elas num labirinto argumentativo e chega ao mesmo lugar de onde partiu.

Fico-me por uma frase que é bem exemplificativa de como JPP esconde a fragilidade dos seus argumentos (e, em alguns casos, do seu conhecimento) com frases confusas carregadas de equívocos quase invisíveis no amontoado de palavras.

«É verdade que o fundamentalismo muçulmano e o radicalismo antiamericano, muitas vezes com origem em sobrevivências do nacionalismo pan-árabe, noutras no jogo local de competição de ditaduras nacionais várias que se voltavam contra os EUA em função das suas alianças, não eram e não são sobreponíveis nas suas intenções e discurso, mas eram-no nos seus efeitos, na criação de uma zona quente do mundo, cada vez mais agressiva, melhor armada, mais instável.»

Apesar da contrusão da frase não ajudar, vou supor que, quando JPP fala de regimes «muitas vezes com origem em sobrevivências do nacionalismo pan-árabe, noutras no jogo local de competição de ditaduras nacionais várias que se voltavam contra os EUA em função das suas alianças», se refere ao “radicalismo antiamericano” e não ao “fundamentalismo muçulmano”. E apenas a dois países: Iraque e Síria, já que o Egipto é hoje um dos principais aliados dos EUA e a Jordânia e a Líbia seguem o seu exemplo. Nenhum país dominado pelo fundamentalismo islâmico cabe neste retrato. O único país em que fundamentalismo islâmico e o radicalismo antiamericano se conjugam é o Irão, que nunca se voltou contra os EUA, pela simples razão que assim o está desde a Revolução Islâmica, em 1979. De resto, todos os outros regimes do Médio Oriente dominados pelo fundamentalismo islâmico ou, pelo menos, por formas tradicionais de radicalismo religioso, são pró-americanos: Iémen, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos. E não se notou que os EUA tivessem feito grande esforço para mudar as coisas onde era mais fácil: entre nos seus aliados. Por uma razão simples: não queriam perder um aliado por razões que consideravam e consideram secundárias.

Tenho, assim, de supor que quando Pacheco Pereira fala de fundamentalismo islâmico deve estar a falar de movimento políticos e não de governos ou regimes. E aí, vale a pena ver o resultado da estratégia americana que JPP apoia. Ela fragilizou os poucos aliados laicos que os EUA têm na região, fazendo crescer, na oposição, os movimentos fundamentalistas. Veja-se o Egipto. Também fez crescer os movimentos fundamentalistas nos países que invadiu, como o Iraque, quase inexistentes antes da ocupação. No Afeganistão ainda não é claro se a “destruição” dos taliban resultou na destruição do seu fundamentalismo religioso, que não nasceu nem morreu com eles E, já agora, à margem desta conversa, o apoio cego a Israel fez crescer movimentos que justapõem uma posição anti-israelita (e por arrasto antiamericana) a um discurso religioso: Hamas e Hezbollah.

A estratégia americana visava apenas os seus inimigos, independentemente do fanatismo religioso. E objectivamente fortaleceu o fundamentalismo, ou porque o transformou na voz antiamericana mais eficaz ou porque contribuiu para o enfraquecimento das forças laicas da região.

Por fim, é na Arábia Saudita, no Iémen e fora do Médio Oriente (no Paquistão, também aliado americano) que os fundamentalistas mais engrossam as fileiras dos grupos terroristas. Dominar estes países e o Médio Oriente não parece ter contribuído para que nada disto mude. Pelo contrário.

A conclusão de Pacheco Pereira sobre a bondade destas guerras, como forma de combater o fundamentalismo islâmico e o antiamericanismo, em simultâneo, esbarra com todos os factos. Com excepção do Egipto e de Israel, os principais aliados dos EUA na região são os mais radicais em matéria religiosa (Arábia Saudita, Qatar, Iémen e Emirados), os movimentos fundamentalistas cresceram no Iraque e nos poucos países laicos aliados dos EUA e as intervenções militares alimentaram os fundamentalistas. Mesmo entre os aliados com práticas religiosas mais medievais, movimentos ainda mais radicais ganharam força. Nada disto resultou de qualquer erro. O erro é de Pacheco Pereira. Nada, rigorosamente nada, move os EUA contra o fundamentalismo islâmico. Isso só sucede quando o discurso religioso coincide com o discurso político que tem os EUA como principal inimigo. O que nem sempre aconteceu.

Assim, é mais do que discutível que os EUA quisessem actuar «de forma suficientemente drástica para alterar a relação de forças no Médio Oriente a favor dos moderados.» Com uma enorme bondade, posso fazer um esforço para acreditar que esse é o problema de JPP. Não é o de Bush. Nem os aliados dos EUA são moderados, nem uma parte razoável dos seus adversários é radical.

Quem quiser dar força aos moderados terá de moderar as suas intervenções. E saber que os moderados estão muitas vezes entre os seus inimigos e os radicais entre os seus amigos. Por isso, a comparação com a Segunda Guerra é tão disparatada. Esta não é uma guerra ideológica. Mesmo quando é vendida como tal.


Sem respostas ao post “Pacheco Pereira no seu labirinto”  

  1. 1 1  JPP

    Agora temos de ouvir bem o Daniel porque ele é autoridade sobre o médio-oriente. Desde que foi lá que a sua arrogância e sobrancereia naturais estão exponenciadas, porque pensa que percebe do assunto.
    Ouçam bem este pequenote…

  2. 2 2  Daniel Oliveira

    Pequenote é quem assina com o nome de outros para ver se fica um pouco maior.

    De resto, não tem de me ouvir. Basta não vir aqui. É fácil.

  3. 3 3  Luís Lavoura

    Pacheco Pereira faz pena. Está perdido no mais completo delírio. Pirou de todo.

    E pensar que foi o homem que, muito sensatamente, teve a coragem de se mostrar contra a guerra contra a Sérvia!

  4. 4 4  toix

    Não se importa de repetir?

  5. 5 5  JPP

    O meu nome é João Pedro Pereira.
    Eu não disse que não o quero ouvir. Acho que o Daniel não percebeu.Disse precisamente o contrário. Que agora devemos ouvir o Daniel porque é autoridade na matéria. Não enfie a carapuça…

  6. 6 6  Cabaret Voltaire

    Eu tinha bastante admiração pelo Pacheco Pereira. Esta “coisa” da guerra do Iraque destrui-lhe a credibilidade toda. Ainda se ao menos estivesse calado!
    Sem duvida, Pacheco Pereira faz pena.

  7. 7 7  João

    O problema do Pacheco Pereira é que ele é visceralmente contra tudo que lhe “cheire” a politicamente correcto, o que quer que isso seja.
    Daí que ele seja capaz de dizer as coisas mais acertadas a par das maiores barbaridades. Mas independentemente disso, no seu intimo ele está convencido da superioridade da “civilização” ocidental e as sua análises baseiam-se nesse pressuposto.

  8. 8 8  aminhapele

    Bom post Daniel

  9. 9 9  charles

    Daniel, artigos do JPP não são para si, que os entende, e também não são para os menos avisados, que, não entendendo de todo, mais resistem no oposto que pensavam, e então a escrita de JPP cumpre a função de um emaranhado de sofismas destinado a ajudá-lo a dormir, à força do ‘arbitrário’ que diz

    E não espere agradecimento pela entusiasta análise do escrito, que não visava a leitura à letra ou clareza, mas o único fim de enredar o problema, até que a memória esmoreça sem a claque de instigadores da guerra do mais forte, com JPP à cabeça, admitir que deu bota e, cínica e demagogicamente, errou

  10. 10 10  viana

    Um dos aspectos mais interessantes, senão o único, do artigo do JPP hoje no Público, é o seu título: ” As minhas razões pró-americanas”.

    Ora, acontece que a maioria dos americanos não partilha das opiniões de JPP. Em particular, uma maioria clara de americanos hoje acha que foi um erro os EUA terem invadido o Iraque e pretendem que as tropas americanas sejam retiradas do Iraque rapidamente (http://www.pollingreport.com/iraq.htm). Quem é que afinal é anti-americano?… Quem é que afinal sistematicamente se opõe à opinião actual duma maioria dos americanos, porque sim? A mim parece-me óbvio que se há anti-americano hoje em Portugal ele é JPP.

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