Como argumenta o economista Carlos Santos, num contexto de uma brutal crise de procura e de uma recuperação necessariamente frágil, fazer, de forma precipitada, da correcção do défice orçamental o objectivo primeiro da política pública contribui para nos atolar na recessão e assim, paradoxalmente, para o fracasso do objectivo enunciado. O défice orçamental é sobretudo consequência da crise e só pode e deve ser corrigido quando tivermos maior fôlego económico. Um pacto à direita é desaconselhável: o projecto de deixar o desemprego crescer para, através do medo, assegurar cortes nos salários nominais não nos leva muito longe, embora possa beneficiar minorias com poder.
O orçamento pode e deve ser negociado à esquerda. Razões? É preciso que os mais ricos também paguem a crise, e propostas não faltam do lado da receita e da despesa, como primeiro passo para a criação gradual de um multiplicador da igualdade que actue antes e depois de impostos: sabemos que, geralmente, quanto mais igualitários economicamente são os países menores são os problemas sociais. Além disso, é necessário que Portugal participe num esforço, que tem de ser coordenado à escala europeia para ser eficaz, de recuperação económica. Isto faz-se através de investimentos públicos inteligentes nos serviços do Estado Social, em transportes públicos, na recuperação urbana e nas energias renováveis. Assim se promove e reorienta a procura.
Esta escolha política implica contestar as teses da maioria dos economistas com voz na televisão: de Eduardo Catroga a todos os que medina-carreiram na área do PSD ou um pouco mais à direita. No serviço público de televisão, quando se trata de economia, os prós não têm contras. Enfim, estamos a assistir à mobilização dos intelectuais orgânicos das decadentes “elites” económicas. O PS tem mesmo de escolher quem privilegia na negociação e as escolhas revelarão a consistência do diagnóstico e os valores. Ou a falta deles: bloco central dos interesses.
Só escreverei sobre estes temas: economia, política, economia política e política económica. Isto está tudo ligado. Este é o meu pacto com o Arrastão.
20 comentários 8 Jan 10 em Sem categoria




A questão é que com as propostas da esquerda portuguesa, nunca são os mais ricos a pagar a crise, mas os mais pobres.
Se vamos fazer obras inúteis, a ter e criar serviços inúteis, se vamos continuar a ter um sistema de avaliação de professores que não distingue os muitos que fazem bem o seu trabalho dos medíocres, quem é que paga isto tudo?
Não são os ricos, é quem paga impostos, é quem trabalha em sectores que efectivamente produzem riqueza e atingem objectivos.
Já agora, desde quando “os investimentos públicos inteligentes” são um exclusivo da esquerda?
Na minha opinião é uma parvoíce (espero que esta palavra passe) dividir os bons e os maus em esquerda/direita, dependendo a classificação do lado em que se está.
Há ideias boas e ideias más. Há investimentos bons e investimentos maus. Associar isto a uma ideologia política serve para quê, para além de alimentar estas discussões inúteis em vez de se separar o trigo do joio?
[Responder]
LAM Reply:
Janeiro 8th, 2010 at 20:18
José,
“há ideias boas e há ideias más” mas essas ideias não são inóquas. Há acima de tudo opções a fazer que vão determinar as ideias a aplicar e é sobre essas opções que, penso eu, se refere João Rodrigues bem como o citado Carlos Santos que, a propósito, o convido a ler.
Ainda bem que chegou um especialista em matérias económicas porque assim podemos colocar perguntas e aprender.
E começo já com uma:
Sabendo que a dívida atinge 100% do PIB como é que um “investimento público inteligente …/… em transportes públicos” o pode ser (inteligente) sabendo que os muitos milhões que se vão gastar na linha do TGV são a fundo perdido e que a exploração será sempre (todos os dias) deficitária?
[Responder]
3 pontos:
1) Não há duvida nenhuma sobre este não ser o momento para radicalismos na contenção do défice, mas também não estamos em posição de fingir que ele não existe, e que é já um peso enorme nas costas da economia Portuguesa. Devia ter sido corrigido em tempo de vacas gordas, mas não foi. Se o deixarmos acumular outra vez, não vai haver espaço de manobra nenhum na próxima crise.
2) O Estado Social e a Reabilitação Urbana não são motores de crescimento económico no nosso contexto. Serão quanto muito consequências. Transportes colectivos são bons, mas nunca dão lucro directamente, pelo que aumentam sempre a despesa do Estado, e as Renováveis, embora boas em muitos níveis, a curto prazo encarecem a energia.
3) Finalmente, os partidos à esquerda do PS não estão interessados, pelo que a questão é vazia de sentido prático.
[Responder]
AP Reply:
Janeiro 9th, 2010 at 4:49
“Renováveis, embora boas em muitos níveis, a curto prazo encarecem a energia”
Tem alguma informação sobre isso? Nunca encontrei documentação fiável sobre a rentabilidade das renováveis.
Obrigado.
Este especialista em economia começa por citar o outro “ecónomista” Carlos Santos. Logo aqui fico de pé atrás e isto não augura nada de bom.
Portanto para este especialista devemos é gastar mais. Investir em obras publicas, pagar mais reformas, aumentar os funcionários publicos, dar reformas douradas de 50000€ /ano a cada professor etc etc etc.
E isto à custa de quem ? Dos ricos, claro !!!!
Mas quem são os ricos nesta história ? Esta é a pergunta dos 50 milhões !
Eu digo, é a classe média deste miserável país. Depois de lhe estorquirem tudo o que tem, rápidamente passarão a classe baixa que é para não se ficarem a rir.
Ai estado social, estado social…..
[Responder]
Arrastão fez uma boa aquisição no mercado de inverno da …Economia.
Sugiro que não se incomodem, nem se deixem intimidar, com as “vozes dos prós”, aqui memo no blogue. Para além os medina-carreiristas estou farto de maus imitadores do Chicago’s Boys”.
[Responder]
cafc Reply:
Janeiro 9th, 2010 at 15:11
Meu caro Portela menos 1
Até chegou a dar uma ligeira sensação, quando a crise rebentou, que muitos economistas defensores do “livre mercado” atribuíram as culpas ao chamado neo-liberalismo. Exageros, não controlados, diziam eles.
Claro que foi a “escola dos Chicago’s boys” que conduziu à porcaria em que todo o Mundo ficou atolado. O “cheiro” continua. Mas, como os Estados (com os dinheiros públicos) foram “ligar esse modelo à máquina de suporte de vida”, eles já pensam que estão de “boa saúde”.
Fazem-me lembrar quem não toma banho e se “borrifa” com doses industriais de perfume. O cheiro é muito mais desagradável. Só que, como diz o nosso Povo, “o porco não cheira a sua própria…”
Um abraço e, suponho, que será um até já.
Em geral, agrada-me esta ideia de uma esquerda que combate o capitalismo corroendo-o o por dentro….ou como diria, mais ou menos, Slavoj Zizek:
“Some times precise small measures function. Like you say: “Oh we don’t want to cut your balls…he just want to help them drive better with small reforms”. And then, everybodys happy, and all of the suddent…the capitalists look down and: “Oh…where are my balls?”"
Vídeo
Mas li aqui alguns comentários que assumem certos pressupostos errados.
É manifestamente falso que as energias renováveis sejam tendencialmente encarecidas, pelo menos pela sua natureza, já por especulação tudo pode encarecer, mas nesse caso o verdadeiro problema não é a energia em si.
. A microgeração nas renováveis permitirá a amortização do investimento e, à semelhança de qualquer investimento, trata-se de esperar que o custo inicial seja suplantado pela poupança financeira de não ter de recorrer a redes externas. Além de dar autonomia ao consumidor sobre a rede eléctrica (paineis fotovoltaicos) e de gás (paineis solares termodinâmicos com líquido refrigerante). Sim falta a água…por alguma razão em Portugal se pretende privatizar a água.
. As energias renováveis tem um poder de exploração imensamente superior ao dos combustíveis fósseis. Os custos de exploração do petróleo são muito superiores, e esses sim tenderão a aumentar pela necessidade de ir cada vez mais fundo (as descobertas de novos poços que permitam explorações mais superficias estão, logicamente, a diminuir).
.O preço das energias renováveis poderá encarecer se abdicarmos de utilizar a democracia como instrumento de gestão dos recursos mais importantes A dispersão, acessibilidade e abundância das renováveis torna-as muito menos susceptíveis de controlo monopolista. A acontecer monopólio tem de ser com (não só complacência) colaboração estatal…nomeadamente ao nível de solos, licenças, patentes..etc.
As energias renováveis são tão importantes que sem elas o carro eléctrico não pode ser um veículo não poluente… Apesar de este não ter emissões de CO2, a rede eléctrica nacional vai ter de aumentar a sua capacidade e, infelizmente, a geração de energia eléctrica ainda é feita muito através da queima de combustíveis fósseis. Logo, se a EDP não aumenta anualmente a sua quota de produção energia eléctrica através de energias renováveis, as emissões de CO2 vão continuar a ser um problema. Devo acrescentar que o carro eléctrico, em si, não resolve os problemas de mobilidade.
Mudando de assunto.
Quem fala de défice, não pode dissociar isso das políticas desastrosas que estão por detrás, sendo que as parcerias público privadas e os incentivos sem retorno no sector privado fazem parte desse défice. Não é tempo de falar em contenção salarial, bem pelo contrário. Mas os ricos agora vivem dos salários? Qual é salário do Belmiro? E do Amorim? Não são salários, são retornos, dividendos, activos financeiros, são acções, são juros, são carros da empresa, são incentivos fiscais, são offshores… E quando se fala em contenção salarial, para quem é? Pois claro, função pública. Porquê, porque as despesas com pessoal são sempre “muito pesadas” e aparecem sempre orçamentadas, mas os custos associados ao BPN…ui, isso foi baratinho nem aparece orçamentado.
Alguma alma caridosa já pensou porque é que são sempre personagens tipo Belmiro que vêm falar de contenção salarial? Pois claro, eles não vivem de salários.
Sobre investimento público.
Mais que o TGV o que interessa é criar uma rede de transportes, uma rede gratuita paga pela via indirecta contributiva progressiva. Uma rede que diminua o nosso défice (menos carros, menos tempo perdido, menos importação de combustíveis fósseis, menos acidentes…menos muito coisa). Lá está, investimento público que responde à crise e combate o défice.
Querem combater o défice? Desprivatizem a Galp e a EDP.
Investimento público na habitação, recuperação dos centros urbanos…dá emprego e dá qualidade de vida. Gente a viver no centro dinamiza o comércio no centros urbanos, reaviva os bares à noite.
Mas sinceramente, é preciso um estado produtor, a mim parece-me óbvio que o sector de construção tem de ser público. Para justificar o crescimento das empresas de construção vamos continuar a construir? A alargar, a desertificar centros urbanos, a permitir que o direito à habitação seja posto em causa pela voracidade da especulação imobilária, a perder solo permeável?
É preciso acabar com esta visão fechada de que um investimento se encerra sobre si mesmo, isso é uma lógica capitalista de “externalidades” não contabilizadas. Não deixa de ser curioso que quando é para dar benefícios fiscais a empresas privadas, já se oiça afirmar as vantagens que são negadas quando se fala de investimento público…curioso não, desonesto.
[Responder]
fado alexandrino Reply:
Janeiro 9th, 2010 at 9:07
Acabou de expor de uma maneira cristalina o sistema social que vigorava na antiga União Soviética.
Não deu lá grande resultado.
Aguardemos, entretanto, pelas explicação do ilustre economista, dono do post.
AP: Fontes las há muitas, mas se quer uma resposta única sobre “a rentabilidade das renováveis” duvido que a vá encontrar. Há demasiadas renováveis, com demasiadas variantes dentro de cada tipo, e há demasiadas variáveis que nunca são tidas em conta por este ou aquele estudo.
Mas não é preciso nenhuma comissão de peritos para lhe dizer que gerar electricidade a partir de carvão e gás ainda é mais barato do que a partir de eólicas, solares, e companhia. O mesmo se aplica ao petróleo para deslocar os nossos automóveis.
O caro João Dias diz que isto é “manifestamente falso” porque se pode recorrer à micro-geração, e um particular pode amortizar o custo, e o preço pode descer se todos formos produtores e existir uma rede inteligente e um mercado instantâneo de energia.
O caro João Dias, portanto, respondeu bugalhos aos meus alhos, sugerindo uma mudança radical do paradigma energético como resposta a uma simples questão do preço relativo entre varias tecnologias. Essa mudança até pode ser desejável (eu acho que sim) mas não reduz necessariamente o custos da tecnologia, não é nada que se faça no curto prazo, e implica um investimento brutal na rede energética.
Hoje e nos próximos anos, vai ser mais caro produzir energia em Portugal com base em energias renováveis do que fazê-lo com base em fosseis, porque aquelas custam mais € por Kw do que estes. Isto não quer dizer que o investimento não valha a pena, porque reduz a dependência do estrangeiro, porque vai ser amortizada ao longo de décadas, porque a tecnologia das renováveis vai melhorando, enquanto o custo do petróleo/gás vai aumentado, etc etc. Mas a curto prazo, fica sem duvida mais cara.
E, já agora, faço um “ataque preventivo”: o custo da energia não é o preço final. Claro que com subsídios do Estado o preço pode ser o mesmo, mas o custo ao país aumenta na mesma, só se dispersa de forma diferente.
Declaração de Interesses: tenho 10 acções da EDP renováveis. Quanto mais o Estado enterrar em Eólicas/Solares melhor para mim.
[Responder]
Afinal o futuro doutor de Coimbra não responde a nenhum pedido de esclarecimento.
Que pena, tinhamos tanto a aprender.
[Responder]
Vicente:
Eu não disse que teriamos de passar para um sector baseado na microgeração, eu disse, e repito, que a microgeração é um dos vários factores que contradizem a sua premissa. A energia renovável tem, indiscutivelmente, condições para ser mais barata, por exemplo, pela sua pseudo-infinitude (a vida do sol e da terra sao finitos) o que torna o campo de oferta pseudo-ilimitado. Se pensar na inflação que a simples sugestão de escassez de combustíveis fósseis induz no seu preço, verá o que o meu ponto tem todo o sentido.
Relembro que a sua fase inicial era que as renováveis tenderiam a encarecer no curto prazo, era isso que eu refutava e refuto.
Fado Alexandrino:
Tem argumentos ou vai-se ficar pelo preconceito ideológico?
[Responder]
Tem argumentos ou vai-se ficar pelo preconceito ideológico?
Fiz-lhe uma pergunta concreta, tem resposta ou fica-se pelo silêncio?
O senhor é que é quase doutor e portanto pode ensinar-nos, não me passa pela cabeça inverter a ordem lógica das coisas.
[Responder]
João Dias:
1) Diga-me como é que se faz o bold aqui que isso funciona bem.
2) Leu mal o meu primeiro comentário. Eu não disse que as Renováveis vão ficar mais caras do que são hoje. O que digo é que elas _ainda_ são mais caras do que as Fosseis, e continuarão a ser nos próximos anos. Ou seja, que custa mais produzir os mesmos Kw/h com Renováveis do que com Fosseis.
Logo, investir em Renováveis aumenta o custo da energia a curto prazo.
[Responder]
Caro fado alexandrino,
A sua pergunta é pertinente. Não conheço os estudos que foram feitos sobre o tgv e por isso não referi esta obra em concreto. No entanto, noto que os défices de exploração previstos não justificam por si só que não se avance com uma infra-estrutura deste tipo. Podem existir benefícios sociais (de tradução pecuniária difícil ou indesejável, mas reais…) que justifiquem a construção de uma obra que terá elevado financiamento comunitário. Enfim, a questão da dívida elevada tem precedentes históricos em contextos de crise e não só. Prometo escrever mais sobre isto até porque não estou totalmente contente com a fórmula que usei num poste acima. Aqui só valem argumentos. Eu não invoco estatutos de especialista e detesto o “peritismo”. De qualquer forma, assinalar que não serei participante habitual das caixas de comentários. Não é desrespeito, é mais falta de tempo e entendimento que elas devem ser sobretudo um espaço de debate entre os leitores, que muito enriquece o blogue e que dá ideias para outros postes.
[Responder]
fado alexandrino Reply:
Janeiro 10th, 2010 at 21:40
Muito obrigado pela deferência.
Como compreenderá escrever num blog é diferente de escrever num jornal ou participar numa conversa em televisão.
Aqui o diálogo é mais vivo e porventura até insolente e manda a etiqueta que se tente responder o máximo possível, o senhor fará como entender e como o tempo livre lhe deixar.
Não vale a pena estar agora aqui a argumentar sobre este assunto (é o equivalente a uma família que não tem dinheiro para o pão e leite e resolve comprar um Mercedes a prestações) e registo a cordialidade da resposta.
Voltaremos a “falar” noutros posts.
Fado Alexandrino:
“Fiz-lhe uma pergunta concreta, tem resposta ou fica-se pelo silêncio?”
Deve-me estar a confundir com o João Rodrigues, eu sou o João Dias.
A mim limitou-se a dizer:
“Acabou de expor de uma maneira cristalina o sistema social que vigorava na antiga União Soviética.
Não deu lá grande resultado.
Aguardemos, entretanto, pelas explicação do ilustre economista, dono do post.”
Vicente:
Se calhar tínhamos de clarificar o que cada um entende por curto prazo. Mas se está a pensar em prazos muito curtos, tudo sai mais caro precisamente porque estamos na fase de investimento…mas isso é extensível a qualquer investimento, caso contrário não é um investimento.
Veja aqui como obter o bold ou a fazer links…etc.
[Responder]
fado alexandrino Reply:
Janeiro 10th, 2010 at 23:29
Peço desculpa a ambos, tem toda a razão.
Aliás João Rodrigues já teve a amabilidade de responder.
Isto funciona em HTML? Silly me. Obrigado!
De qualquer forma, por curto prazo refiro-me a, no máximo, uma legislatura. Um prazo maior do que esse é irrelevante para discutir estratégias para sair da crise, que é do que o João Rodrigues falava.
[Responder]