
O isolamento de Gaza, a sua completa separação em relação à Cisjordânia, o estrangulamento das possibilidade de sobrevivência no gueto e o esmagamento internacional do Hamas podem assemelhar-se a uma vitória para Israel. Nada podia estar mais longe da verdade. Este caminho levará a uma situação perigosíssima. Por duas razões:
1 - Antes de mais, ele dá um sinal aos palestinianos e aos árabes. Quando o Ocidente exige que os regimes árabes se rendam à democracia, todos ficam a saber que não é para levar a sério. Depende apenas dos resultados. Podemos lamentar o facto dos palestinianos terem votado maioritariamente no Hamas. Tiveram muito boas razões para o fazer: estavam cansados da corrupção atmosférica da Fatah que lhes roubava os seus já parcos recursos. E poderia ter sido a oportunidade para politizar e institucionalizar o Hamas. Era difícil, mas não era impossível. Tudo o que foi feitos nos últimos 15 meses foi em sentido oposto.
Mas o erro é mais grave do que isto. Israel vive na ilusão de que chegará à paz negociando com lideres fracos. A paz faz-se com o inimigo. É do interesse de Israel que os palestinianos normalizem a sua vida democrática e escolham sem imposições externas os seus representantes. Quem negoceia com medo de ser atirado borda fora por forças estrangeiras não negoceia a paz. Negoceia apenas a sua sobrevivência. Para Israel negociar com a Palestina tem de ter a certeza que está mesmo a negociar com os Palestinianos. Com quem os representa.
Mais: os radicais de ontem são vistos como moderados hoje (olha-se para Marwan Barghouti - não confudir com Mustafa Barghouti de quem já falei aqui - homem que criou as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa e que Israel põe a possibilidade de libertar) foram os radicais de ontem. Quem quer a paz prepara o caminho para a negociação com aqueles que que combate.
2 - Gaza sem qualquer contacto com a Cisjordânia (mesmo o pouco que conseguia ter até hoje) não terá qualquer viabilidade. Ali, cercado por um muro, não haverá nem Estado nem economia. Como dizia um correspondente do jornal israelita Yediot Ahronot, citado no excelente texto de Jorge Almeida Fernandes no “Público” de hoje (ler também notícia assinada por Margarida Santos Lopes), é uma ilusão pensar que é bom para os israelitas que os palestinianos se andem a matar uns aos outros. O Caos criará “regiões ingovernáveis”, como a Somália e o Afeganistão, diz ele. Ou o analista Menahem Klein, ex-conselheiro em Camp David, do lado de Israel: «os israelitas pensam em termos tácticos e não estratégicos ao isolar Gaza. Tudo isto nos vai rebentar na cara».
Gaza isolada, faminta e sem governo será uma escola de terroristas. E com quem negociará então Israel? Com o governo de Salam Fayyad? Com o Presidente Abbas, que apenas existe na Cisjordânia? Depois de instigar a revolta contra o Hamas, de armar a Fatah e de tornar a Palestina ingovernável, ficando-lhe com os recursos e esvaziando o governo de poderes reais, criando as condições para uma guerra civil, Israel, EUA e até a Europa acabam agora o serviço. Julgam que ganhar quando apenas accionaram a bomba-relógio. E não haverá muro que sustenha a explosão.
Que não fique aqui nenhuma confusão. Tenho pelo Hamas a mesma simpatia que tenho pela Fatah: nenhuma. Uns são corruptos e oportunistas, não hesitando em usar a força do seu inimigo externo para comer as migalhas do poder. Outros são loucos e fanáticos, criando no mais laico dos povos árabes o fantasma do islamismo mais amoral. Uns e outros têm posto os interesses dos seus grupos à frente dos interesses do seu povo. As minhas simpatias, na Palestina, vão outras pessoas e organizações. Gente que lutou sempre pela paz, começando por dar o exemplo, mas nunca usou a força do ocupante para vencer lutas internas.
Hoje, às 18h30, estarei com Rui Sande (participante em acções de solidariedade na Palestina e que por lá tem estado muitas vezes), para falar de tudo isto. É na Casa do Brasil (Rua de S.Pedro de Alcântara nº 63 1º) e é promovido pela Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial do Iraque. Mas o que eu tenha para dizer, valerá a pena ouvir o Rui.
Por Daniel Oliveira 19 Jun 07 em Sem categoria


O erro é sempre o mesmo, tentar matar formigas com canhões.
“A paz faz-se com o inimigo.”
Daniel, pode explicar-me como se negoceia a paz com um inimigo cujo principal objectivo é a sua destruição, e é totalmente inflexível nesse objectivo?
Talvez se possa negociar a forma de extermínio: idealmente, lento e ingénuo.
O Daniel merece o prémio Chamberlain da blogosfera.
“Tenho pelo Hamas a mesma simpatia que tenho pela Fatah: nenhuma. ”
Como concilia não ter nenhuma simpatia por Hamas e Fatah, e ter uma simpatia incondicional pelos Palestinianos, quando o Hamas e Fatah representam 80% das preferências dos Palestinianos?
Aqui vai mais um para vc censurar.
Há muito que o Ocidente quer pouco saber de democracia nos países árabes. O argumumento é apenas jogado para mostrar a superioridade moral de Israel face aos seus vizinhos árabes. Quanto ao mais, democraria na Jordânia, ou na Arábia Saudita, ou até no Egito é coisa que ninguém quer ver, todos sabem que provavelmente venceria qualquer coisa pareceda com o Hamas. Não por acaso o Ocidente tem financiado a Fatah.
Quanto a ser uma vitória para Israel, provavelmente não é. Se o Hamas tivesse tomado o poder na Cijordância e a Fatah continuasse em Gaza, aí, sim, seria, porque Isreal tinha a possibilidade de alargar e consolidar posições territoriais onde importa, na Cijordância, Gaza é irrelevante. Agora, a coisa fica definitivamente mudada, não a favor de Israel, mas dos palestinianos moderados, e a esses Israel não pode fazer outra coisa que não seja dizer sim, como sempre tem acontecido.
Nunca conheci um estado dividido ao meio, sem continuidade. Passa-se com os arquipélagos mas aí o mar que separa as diversas ilhas é amigo e pertença do próprio arquipélago. Lembra-se do Paquistão Ocidental e Oriental, com a Índia (inimiga) pelo meio? Até pode ser que a Cisjordania e Gaza possam viver separadas. Ao fim e ao cabo até têm povos de origem (historicamente) diferente. A pergunta agora é simples. Qual vai ser a “história” que Israel (que, obviamente, não quer a Palestina independente) vai inventar para não negociar com Abbas? Penso que vai financiar um qualquer grupo radical árabe para disparar um alfinete e alegar que (blá,blá,blá) afinal a Autoridade Palestiniana continua a não reprimir o terrorismo.
É o mesmo esquema de sempre. Quem inventou o terrorismo nos anos 30? Quem tinha o Hagana? o Stern? Quem punha bombas nos hotéis britânicos e nos mercados árabes? Quem massacrou e deportou aldeias inteiras de árabes em 48? Sinceramente no último sábado, no meio dos meus afazeres, olhei para a televisão no preciso momento em que um sacana dum jogador israelita dava uma mocada de todo o tamanho no Nani. Por que carga de água e com que direito é que estes ca..ões fazem parte da Europa?
J, o principal objectivo do governo é a destruição da Palestina (e tem conseguido) e nem por isso eu deixo de achar que os palestinianos devem negociar com Israel. O agressor, ali, é Israel. Sim, sou Chamberlain. Acho que ainda assim os palestinianos não devem optar pela guerra.
“O agressor, ali, é Israel.”
O Governo da Palestina diz “queremos destruir Israel, e sobre isso não fazemos concessões”. Este é um governo de extrema (extremíssima)-direita religiosa conservadora e militarista.
O Governo de Israel (de centro-esquerda) diz “aceitamos a constituição de um Estado Palestiniano, desde que este aceite a nossa existência e respeite a nossa segurança”
Talvez possa dizer que o governo de Israel é cínico, que diz alhos e faz bugalhos.
Mas fingir que a Palestina não é agressora, quando o seu governo grita com toda a força dos seus pulmões “eu quero destruir e faço o que posso para alcançar os meus objectivos, que um dia serão alcançados com a ajuda de Allah” diria que é no mínimo surreal.
O ministro das obras públicas vê um deserto a sul do tejo. O Daniel vê uma palestina pacífica, pacifista e não agressora.
Todos têm direito às suas alucinações.
Daniel
Envio-lhe o link da carta de consituição do Hamas.
http://www.palestinecenter.org/cpap/documents/charter.html
São estes os princípios orientadores do governo palestiniano. Choca-me que alguém que seja de esquerda possa fingir que isto não existe.
Estes princípios não ficam atrás dos da Al-Qaeda ou dos do Nazismo.
É esta a ideologia do governo da palestina! Este governo foi escolhido por 43% dos Palestinianos.
Algumas passagens.
Article Eight: The Slogan of the Hamas
Allah is its goal, the Prophet its model, the Qur’an its Constitution, Jihad its path and death for the case of Allah its most sublime belief.
Article Eleven: The Strategy of Hamas: Palestine is an Islamic Waqf
The Islamic Resistance Movement believes that the land of Palestine has been an Islamic Waqf throughout the generations and until the Day of Resurrection, no one can renounce it or part of it, or abandon it or part of it.
Article Thirteen: Peaceful Solutions, [Peace] Initiatives and International Conferences
[Peace] initiatives, the so-called peaceful solutions, and the international conferences to resolve the Palestinian problem, are all contrary to the beliefs of the Islamic Resistance Movement.
Article Thirty-Two: The Attempts to Isolate the Palestinian People
World Zionism and Imperialist forces have been attempting, with smart moves and considered planning, to push the Arab countries, one after another, out of the circle of conflict with Zionism, in order, ultimately, to isolate the Palestinian People. Egypt has already been cast out of the conflict, to a very great extent through the treacherous Camp David Accords, and she has been trying to drag other countries into similar agreements in order to push them out of the circle of conflict. [...] Their scheme has been laid out in the Protocols of the Elders of Zion, and their present [conduct] is the best proof of what is said there.
E tenta o Daniel branquear isto, fingir que isto não existe…
Falar em dependência dos territórios ocupados (rectius: guettos-bantustões do regime nazi-sionista-aparttheidesco) em relação a israel é eufemismo… vale o mesmo que dizer que os presos de Alcoentre estão economicamente dependentes do resto do país… Gaza e os bantustões de margem ocidental são prisões a céu aberto DENTRO de Israel, logo necessariamente dependentes. Quem paga as prisões são os carcereiros, não os prisioneiros. Logo, a Europa, que tem pago as facturas, devia enviá-las para pagamento ao governo israelita. Os territórios ocupados estão dentro de israel do ponto de vista militar (as SS Tsahal controlam todas as fronteiras externas), politico, (o ” governo palestiniano” não tem persionalidade jurídica internacional, mas apenas uma limitadíssima autonomia administrativa dentro do estado sionista, tal como o guetto de Varsóvia tinha direito à sua polícia própria), monetario (a moeda é o schekel israelita tal como no resto do país) e aduaneiro (o IVA e a taxas aduaneiras dos territórios são cobrados pela alfândega israelita que controla todas as fronteiras e depois ROUBADOS pelo ocupante),etc, etc.
Se os territórios estão DE FACTO dentro de israel e são israel, os sub-homens palestinianos que aí são amontoados SÃO PRIVADOS DA NACIONALIDADE E DO DIREITO DE VOTO ! O que muitos liberais europeus bem-pensantes aplaudem a quatro patas ! Shoking ! E porquê ? Bem, pelas mesmas razões que levava os racistas sul-africanos a encafuarem os negros em bantustões: para transformararem artificialmente uma minoria (judaica) em maioria e assim poderem dizer que israel é uma “democracia” !
Claro que não é, tal como a Africa do Sul do apartheid não era ! Democracia EXIGE o ONE MAN, ONE VOTE. O que há em iSSrael é uma ditadura hedionda de uma minoria religiosa fanática sobre a maioria não-judaica, privada de todos os direitos cívicos, roubada, guettizada, expulsa, massacrada. Com 12.000 presos políticos , a maioria sem julgamento, incluindo centenas de crianças (Fidel tem actualmente só 150 presos políticos…), com execuções sumárias de CENTENAS de oposicionistas ao regime de apartheid por ano (eufemismo nazi-sionista utilizado: targeted killings) ! Que os hipócritas pró-sionistas não denunciam… israel é a escória da Humanidade, uma ameaça letal para a paz mundial, um escárneo permanente do direito internacional e da decência nas relações internacionais, o novo nazismo que ambiciona conduzir o mundo a um novo apocalipse, o Armageddon… Urge extirpar esse tumor cancerígeno ! A bem da paz !
J, o Hamas mudou muito, como a OLP mudou durante vinte anos. Ainda assim, não tenho nenhuma simpatia pelo Hamas.
“o Hamas mudou muito”
Pelo que se tem visto ultimamente, mudou mas para pior. Que o diga a Fatah.
“Ainda assim, não tenho nenhuma simpatia pelo Hamas”
Não se pode dizer o mesmo de 43% dos Palestinianos.
Duvido que venha a haver paz enquato a ideologia do Hamas (islamismo radical) e da Fatah (nacionalismo árabe) forem maioritárias na Palestina.
No Médio Oriente os regimes totalitários e grupos fundamentalistas não têm qualquer interesse no final do conflito, especialmente num final com 2 Estados, e preferem financiar e fomentar continuidade (Irão, Síria, Arábia Saudita, Al-Qaeda, Hezzbollah, Irmandade Muçulmana, etc).
Alimentam e alimentam-se deste conflito.
Enquanto ideologias intolerantes, teocráticas e totalitárias dominarem o MO, nada se avizinha de bom para a Palestina e Israel.
Os Palestinianos continuarão a ser um peão e um joguete nas mãos de terceiros, e Israel o alvo e ódio de estimação.
Espanta-me que nos posts do Daniel sobre este tema, o islamismo radical e o nacionalismo árabe sejam permanentemente ignorados, como se não tivessem qualquer relevância neste conflito. O Daniel idealiza um povo Palestinano que vive sem influência de qualquer ideologia, que nunca age mas apenas reage a agressões.
É uma visão muito idelógica, distorcida pelo ódio a Israel e ao seu maior aliado, os EUA.
J, as barbaridades foram cometidas de parte a parte. Leia os relatórios das ONGs. Não poupam ninguém
Mas quem determinou que o agressor ali é Israel?
Foi vc Daniel?
Porque os povos não tem agora direito á sua independencia e sua autodeterminaçao como sempre tiveram em tantos casos apoiados ideologicamente e militarmente por tudo quanto era “esquerda”?
Porque é que um povo que já lá vivia e sobrevivia a dezenas de invasoes, na terra em que seculos depois foi renegada pelo profeta dos actuais supostos legitimos “donos” da terra, não tem esse direito e passa a ser apenas e tão só o agressor?
Deveriamos ter tomado todos os movimentos de libertaçao e independencia como agressores?
Há aqui qualquer coisa que não joga bem com o raciocinio de considerar uns de uma forma tão negativa e outros como salvadores e justos.
Não simpatiza com o “nazismo” do Hamas?
Não simpatiza??? e no entanto odeia o “agressor”?