
Um jornalista que não quer saber e contar a história de um assassino, conhecer o seu nome e ver a sua foto não é um jornalista. Um jornalista que não quer saber nada sobre um assassino porque acha que já sabe tudo antes de o investigar nunca poderá cumprir a sua função: tentar perceber o incompreensível. Um jornalista que julga que ao cumprir a sua função está a desculpar ou contribuir para um crime é inútil para quem o lê. Não é embirração com Ferreira Fernandes, que até reconheço ter sido um bom repórter, com o indispensável gosto por contar histórias. É porque parece que esta conversão do jornalismo a uma cruzada contra um suposto relativismo moral ou com um sentido preventivo começa a fazer escola.
Por Daniel Oliveira 17 Abr 07 em Sem categoria


Aqui não posso concordar consigo, Daniel: depois de ler o artigo do F.F. percebo a interpretação dele perante o absurdo destas carnificinas “sem sentido”, absurdas. A “publicidade” gerada à volta destes “zé-ninguéns”- psicopatas-assassinos irá estimular outros a repetir e a tentar ultrapassar o “feito”?
Pessoalmente, creio que sim. Talvez não seja verdade. Mas não vejo aqui “cruzada contra o relativismo moral”.
Esse tipo de preocupação (em excesso, como é o caso) de jornalistas abriria precedentes muito perigosos.
Daniel,
Este texto é infeliz pois fizeste uma interpretação errada do que o FF escreveu no seu artigo. Pode não ser embirração, mas lá que é uma crítica infundada, isso é.
Daniel não concordo consigo, acho que o F.F. apenas alertava acerca do mimetismo que este género de crimes encerra, a tese é de resto antiga. Apenas isso, não vejo a tal cruzada pelo relativismo moral que invoca.
Não. ele diz: “O que há a fazer com tipos assim é ignorá-los. Proibir a nós próprios de lhes dar nome, foto, história. Negar-lhes a memória”
E isto é sobre o que um jornalista deve fazer. Ainda assim, clarifiquei o meu texto.
Cheira a ódio de estimação. Que há de tão importante no que diz FF?
Daniel,
vendo agora a fotografia do Ferreira Fernandes já sei quem é a personagem. 99% das vezes, por acaso, não concordo com o que ele diz. Mas agora não é o caso. É um pouco como com os putos do PNR: eles porventura adoram saber pelos jornais que a secreta portuguesa anda em cima deles; será que a melhor maneira de lidarmos com o assunto é dando-lhes protagonismo? De igual forma, como referia a Maria João, esta atenção gigantesca que o mundo dá a um serial killer pode ou não provocar reacções de ‘mimetismo’? Há ou não outras maneiras de noticiar estas desgraças que não passem pela emissão de directos intermináveis em formato de última hora e ainda por cima worldwide? Tenho cá as minhas dúvidas.
O papel do jornalismo é informar, dentro dos limites do interesse público e do respeito pela privacidade. Não é prevenir crimes.
Também não percebo onde quer chegar o Daniel. Quer o nome, a foto, a árvore genealógica, os hábitos, os costumes, a religião do assassino?
Também é isso que exije aos nossos jornalistas quando tratam dos gangs que assaltam e matam por cá? Também quer que contem a história dos assassinos, saber os nomes e as suas fotos? É que tenho precisamente a ideia que o Daniel por cá defende o contrário.
sim, mas a questão é perceber se determinadas formas de informar não potenciam a repetição de certo tipo de crimes. Ou seja, se não há formas de noticiar esses episódios sem se dar uma atenção desmesurada.
Quero perceber o que aconteceu e para isso tenho de saber quem é aquela pessoa. Ou não? e um jornalista quer mais do que qualquer pessoa.
Para o conhecer melhor:
http://newsbloggers.aol.com/2007/04/17/cho-seung-huis-plays/
A questão deste tipo de caixas de Pandora do “há limites”, “potencia a repetição”, “dá-lhes atenção dos media”, etc., é o critério. Após aceitarmos que os media deixem de noticiar por razões instrumentais, passamos a aceitar qualquer critério nessas razões: hoje o assassino, amanhã os radicais anti-globalização. Ou seja, o jornalismo deixa de ser o que devia ser (e não o que é, que isso é muito diferente). A democracia precisa do jornalismo porque pressupõe pessoas informadas, e a função do jornalismo é relatar os factos e compreendê-los. Não é escolher o que se deve ou não dizer, em nome de um suposto “interesse público”, isso faz lembrar outros tempos que eu cá sei.
Daniel,
sendo que considero o conteúdo essencial, o que me permito questionar é a forma. Por exemplo, em televisão, as narrativas da ficção contaminaram as narrativas da informação. Ou seja, os telejornais passaram a utilizar na montagem das suas peças jornalísticas ‘truques’ característicos da edição de cinema e da ficção televisiva; refiro-me às bandas sonoras de puxar à lágrima, aos planos em câmera lenta, que ajudam a criar uma certa dramatização dos eventos. Gostava, sinceramente, que fosse possível ultrapassar os traumas da ditadura, e que se pudesse enfim fazer uma auto-análise dentro do sector da comunicação. Ontem vi montagens sobre este episódio na virgína que consistiam na edição de imagens dos piores momentos deste acontecimento em câmera lenta e com música de linkin park e de cypress hill por cima. Pergunto se, em televisão, associar a plasticidade típica do cinema a bandas sonoras adolescentes quando se trata de informar não potencia um certo fascínio juvenil por este tipo de acontecimentos? Deixem lá estar o Salazar, que a pergunta é apenas esta.
O buc,al do Fernandes indigna-se com o maluco que que se preocupou em bater o recorde (sera?). Contudo, metade do comentario do sano Fernandes, a encher chouricos, e’ com o fascinio da listagem dos mortos.
é verdade que já chego um pouco tarde, com um dia ou dois de atraso. mas não podia deixar de dizer o seguinte. o que aqui nos interesa, ou devia interessar, não é a vida do assasino. de facto, se olharmos abstractamente para o seu acto ele é hediondo apenas. inominável. se não se tivesse suicidado, merecia a prisão perpétua, no mínimo. mas a situação, infelizmente para nós, para o mundo, para os nossos filhos, para o amanhã - e o amanhã já está aí - é muito mais grave e infinitamente muito mais complexa. o jovem asiatico não é, não foi, apenas um assasino. não é o que ele fez ou o número de mortos que importa no fundo. creio que são as suas motivações. e não falo da tal história de amor e ou traição com as duas primeiras vítimas. falo do modo como crescem, como deixamos que cresçam, as nossas crianças, com o abandono, a falta de afectos, a falta de uma palavra, de um gesto simples que os salve, que os proteja da voracidade, da indiferença do mundo. tudo isto me parece o gravoso da situação. o ff pode até não lhe dar a tal foto, não lhe dar o gozo da notícia, mas nada disso impedirá outra chacina amanhã, noutra escola qualquer. agora é nos eua, mas tarda nada, com a evolução e o desenvolvimento esperados e ansiados, será aqui, na escola dos nossos filhos, na nossa escola. e então, teremos sido nós, também nós, a dar-lhe as armas todas de que precisa para o fazer: abandono, indiferença, ausência do amor. e só o amor nos pode salvar. lamento muito muito muito mesmo a perda de tantas vidas, todas inocentes. até a do assassino. porque um jovem de 23 anos que comete tal atrocidade tem que estar num profundo e insondável sofrimento. fez, certamente, um percurso sinuoso e labirintico pelo mais negro dos abismos, sem ninguém dar por isso, sem ninguém se importar, sem ninguém reparar. ele, ainda mais do que os outros, comove-me. e assusta-me. pois é o sintoma inequívoco do mal de que o mundo padece.