João Miranda acha inacreditável que eu não veja como é bom para os chineses que a Apple lhes page cinquenta dólares mensais por 15 horas de trabalho diário, sete dias por semana, tendo-os em dormitórios durante a noite, guardados por seguranças. Que eu não percebo que antes a vida deles era ainda pior. Claro que não fazia sentido a Apple investir na China pagando salários mais ou menos normais e com horários de trabalho mais ou menos normais para os padrões civilizacionais dos próprios accionistas da Apple. Isso seria moralista e o moralismo, na economia, dá sempre mau resultado. Claro que não podemos acusar a Apple de concorrência desleal. Afinal de contas, o Estado chinês não lhes dá nenhum subsídio. Apenas os protege da maçada de greves e sindicatos que dariam aos chineses a possibilidade de exigir menos horas de trabalho e um salário melhor.
É obviamente muito melhor para os chineses trabalharem 15 horas por dia para a civilizada Apple do que trabalhar ainda mais e em piores condições nos arrozais onde passam fome. Só que, seguindo a mesma linha de raciocínio, a escravatura é melhor que a fome e por isso devemos aceitar a escravatura. Ou, para me aproximar mais das posições de João Miranda, o salário mínimo fomenta o desemprego. Se as empresas pudessem pagar ainda menos dariam emprego aos desempregados que ficariam melhor do que estão hoje. Ao ser contra a escravatura em qualquer lugar do Mundo ou a favor de um salário mínimo aqui no burgo só provo que me estou nas tintas para os mais pobres.
É verdade que quando a Apple oferece 50 dólares mensais ou nada, os 50 dólares são melhores que nada. A minha questão não é as alternativas que tem um cidadão chinês. A minha questão é as alternativas que a Apple tem. E nós permitimos que tenha a alternativa de pagar cinquenta dólares mensais. Fosse pela racionalidade económica não haveria férias, nem fim-de-semana sem trabalho, nem reformas, nem salário mínimo. Existem porque os trabalhadores, de forma organizada, os exigiram. Era isso ou as armas. Como pode João Miranda ver, houve quem não se satisfizesse com menos mau, apesar da alternativa evidente ao menos mau ser ainda pior. Por mim, não espero que nem a Apple nem o Estado chinês dêem nada aos trabalhadores chineses. Nem quero defender as nossas economias dos chineses. Eu aqui, se João Miranda não percebeu, estou do lado dos escravos e quero apoia-los para que saquem à Apple o que ela lhes pode dar, começando por não aceitar a chantagem das multinacionais. E quero que os nossos Estados democráticos estejam desse mesmo lado.
João Miranda acha que às relações de trabalho se aplicam apenas regras de racionalidade económica, sem grande considerações morais. Desde que nunca mais me venha acusar de relativismo moral em relação a outras matérias, está tudo certo, do seu ponto de vista. Mas é exactamente aqui que nos separamos. É verdade que as empresas não têm de seguir nenhuma regra ética especial. Procuram o lucro. E é por isso mesmo que a política não pode deixar a economia nas mãos das empresas. Para que a fome não justifique a escravatura.
Sou “moralista”? Claro que sou. Mas quando, por exemplo, se trata de defender o direito sagrado à propriedade e a absoluta liberdade do mercado, o que é João Miranda?
Por Daniel Oliveira 21 Jun 06 em Sem categoria


“É verdade que as empresas não têm de seguir nenhuma regra ética especial. Procuram o lucro. E é por isso mesmo que a política não pode deixar a economia nas mãos das empresas. Para que a fome não justifique a escravatura.”
Exactamente !
Desta vez, Daniel, Parabéns !
Caro Daniel Oliveira,
Permita-me que use este seu espaço, para de si discordar. A racionalidade económica não tem sempre de procurar o custo de trabalho mais baixo. Mesmo a Apple, recentemente numa joint venture com a Dell contrataram maçissamente na India, onde, para as funções de programação estão a pagar cerca de 40 USD’s/Hora! O que me parece que o Daniel apresentou, no seu trabalho no Expresso, foi um dos muitos fornecedores, independentes, de componentes que existem na China. Apresentou o caso da Apple, mas a indústria de componentes Chinesa é já a maior fornecedora mundial, com toda a indústria mundial de aparelhos electrónicos adquire na China. São operadores cujo o negócio é de margem mínima e a unica forma de o rentabilizar é esmagando os encargos de mão de obra, caso contrário perderiam mercado para um concorrente que automatizasse essas tarefas. Acredite, não estou a defender qualquer forma de “opressão” sobre quem quer que seja, mas não deixa de ser o inicio da industrialização, e estas sociedades podem ganhar capital e know-how para por exemplo no futuro, entrarem numa escala de maior valor acrescentado, necessitando consequentemente, de pessoas mais qualificadas e logo mais bem pagas.
Acho, que se queremos “moralizar” as empresas a solução deve ser a apresentação pública destes casos e deixar à consciência dos consumidores, premiar ou não este tipo de práticas. Não sou nada a favor de uma intervenção dos estados. Serão sempre as pessoas e só estas, que validam o sucesso de qualquer modelo de negócio, independente da sua forma.
Quando damos o exemplo do desinvestimento em Portugal de uma qualquer multinacional, devemos pensar que, nós, enquanto sociedade, nem em Portugal e no efectivamente interessa, os recriminamos de que forma seja. Quando da saída da Renault em Setúbal, nem por isso a Renault deixou de ser e continua a ser em Portugal líder de mercado…
Daniel Oliveira, mais uma vez lhe agradeço me permitir que use um espaço que acima de tudo é seu!
Bem Haja e o meu obrigado
O Chefe Indio Alce Negro dizia há 2 séc.que não não somos nós que possuimos a terra,é a terra que nos possui.Óbviamente, que o sr joão miranda é tão pequenino que não quer perceber algo que é tão evidente.O sr.miranda demonstra um amor à Humanidade igual à de Adolf H.Das empresas, a Humanidade não tem nada a esperar a não ser o roubo.Gostei da sua (Oliveira) demonstração de Redução ao Absurdo para desmontar o ‘raciocinio’ desse fascista mascarado de democrata
“João Miranda acha que às relações de trabalho se aplicam apenas regras de racionalidade económica, sem grande considerações morais. Desde que nunca mais me venha acusar de relativismo moral em relação a outras matérias, está tudo certo, do seu ponto de vista.”
Se há quem pratique arduamente o relativismo moral, são exactamente os liberais.
mais um texto espectacular!
Se o senhor João Miranda passasse 16 horas numa fábrica ou uma dúzia delas nos arrozais, subalimentado, agredido e humilhado para obter um salário de fome, se calhar ia gostar que alguém considerasse isso um crime, mesmo que a sua vida continuasse a ser a de um explorado, eventualmente, por força das ideias morais que desencadeiam, cedo ou tarde, acções morais a sua vida ou de comunidades em iguais circunstâncias mudaria. Mas há que acreditar na mudança para que ela ocorra. Claro que é sempre mais fácil alinhar com os poderosos.
EV
O que? E voce ainda tenta discutir fundamentos civilizacionais com essas aves raras? Boa sorte…
Essa da “livre” escolha dos trabalhadores entre o arrozal e a fabrica e interessante, faz lembrar a “livre” por se doar todo o dinheiro e cartoes de credito na nossa carteira a um meliante que empunhe uma fusca e grite “Dinheiro ou a vida!” e liberal, e bonito… se o policia intervir nesta situacao esta obviamente a interferir indevidamente em eficiencias do mercado.
O Daniel talvez não esteja a ver bem a questão.
Suponha que a Apple, simultâneamente com todas as empresas suas concorrentes, decidiam passar a pagar mais aos seus trabalhadores chineses, e de todos os outros países concorrentes da China (Vietname, Nova Guiné, etc).
O preço dos Ipods, e produtos similares, subiria em proporção.
Como consequência, vender-se-iam menos Ipods e produtos similares. Os lucros da Apple, e empresas suas concorrentes, desceriam em proporção.
A Apple teria então menos dinheiro para investir na China.
Mais trabalhadores chineses teriam o infortúnio de não serem explorados pelo capitalismo mundial.
É preciso ver que o dinheiro que a Apple investe na China vem, em última análise, do bolso dos compradores de Ipods. Se se venderem menos Ipods, a Apple terá menos dinheiro para investir na China — e menos necessidade de nela investir, uma vez que as vendas de Ipods serão mais reduzidas, logo a sua produção também não precisará de ser tão grande.
O Daniel Oliveira é inteligente mas faltam-lhe demasiados conhecimentos sobre o funcionamento dos mercados. A essa falta de conhecimento responde com regras morais, que não se precebe se quer aplicar numa lógica de “must” or “should”.
Dado que se encontra associado ao BE parece que está conencido que estas coisas se resolvem por decreto. Até pode ser, mas é por decreto do estado ChinÊs. Mas não me parece que ataque o estado chinÊs nesta sequência de posts.
Entenda, neste momento é muito atractivo investir em alguns pontos da china. À medida que a procura de mão de obra for pressionando a oferta, existe apenas um resultado possível como consequência do fortalecimento da posição negocial dos trabalhadores.
Entenda que pelos trabalhadores chineses, faz mais um investidor que abra uma fábrica do que 10.000 posts seus falando sobre como deveriam ou não deveriam as empresas actuar.
Da China, com amor. Um pequeno contributo para o debate…
http://bldgblog.blogspot.com/2006/06/chinese-death-vans.html
Ricardo, a China faz parte da OMC e a OMC estabelece regras. E é com as regras que estabelece e não estabelece que eu discordo.
Já agora, o fortalecimento do poder negocial dos trabalhadores seria real se a China fosse uma democracia. Sendo uma ditadura, o poder negocial cabe exclusivamente ao Estado.
“Fosse pela racionalidade económica não haveria férias, nem fim-de-semana sem trabalho, nem reformas, nem salário mínimo.”
mentira, mentira, mentira, verdade.
Exemplos:
É pela racionalidade económica que as grandes empresas americanas reconhecem direitos a casais homossexuais enquanto, pela racionalidade política, o empregador publico americano não os reconhece. É que, para recompensar os trabalhadores vale a pena ir contra o politicamente vigente.
Isto da mesma forma que, durante décadas, foi contra a racionalidade política que se empregavam negros, e pela racionalidade económica. As leis de salário mínimo americanas foram passadas (duas décadas antes de existirem na Europa) por senadores abertamente racistas e com fins abertamente racistas: “os pretos estão a tirar trabalho aos brancos.” Na África do Sul, os sindicatos brancos tiveram comportamentos parecidos (contra o capital que, esse, estava perfeitamente disposto a empregar negros).
Novamente, a racionalidade económica via pretos e brancos como iguais (como hoje vê homossexuais e heterossexuais como iguais), a racionalidade política é que não. É que isto do só-me-interessa-quanto-produzes também implica que não-me-interessa-a-cor-da-pele e não-me-interessa-se-és-gay.
Por amor de Deus! Se a nossa esquerda bloquista tem tanta pena dos trabalhadores chineses (e acho que tem todas as razões para ter pena) então devia atacar a raíz do problema, que é a ausência de liberdade de expressão da ditadura chinesa! Em vez disso, o que é que faz? Uma empresa americana de comprar produtos fabricados a uma empresa chinesa.
Ou seja, para Daniel Oliveira, o problema não é que na china não haja liberdade (que permitiria aos trabalhadores lutar por melhores direitos) e que exista uma ditadura (comunista?), mas antes que uma empresa venda um produto com sucesso e faça dineheiro com isso.
Se D. Oliveira se contenta com soluções estéticas faz muito bem em acompanhar o ritual anti-globalização hippie-chic, mas se o trabalho escravo realmente o preocupa então devia era denunciar o regime chinês. Mas enfim, como está é preocupado em dar sentido à sua existência através do exercício de uma moral de compaixão baseada apenas na vontade e não nos factos reais, acho que ele e os camaradas devem continuar a “denunciar” o que está de acordo com a sua ideia em vez da verdadeira origem e que ele próprio reconhece. O sentimento de compaixão comunista sempre foi muito selectivo…
caro luis pedro,
tem toda a razão, é por esa racionalidade economica que se poem crianças a trabalhar ou se usam trabalhadores ilegais. tambem conta, ou não?
de resto, os pontos que o daniel frisou são conquistas sociais, nomeadamente de sindicatos e trabalhadores.
caro luis lavoura,
o seu argumento não pega.
já viu quanto custa um ipod?
agora veja quanto ganha um chines a faze-lo.
e veja a margem que a apple ganha…, pois é, é astronomica.
agora imagine quem ficava a ganhar com o aumento do poder de compra dos chineses. hummmm
Daqui a pouco vejo alguém a querer defender um Rendimento Minimo Garantido à população chinesa…
Haja pachorra para tanta demagogia. Um abraço a todos. Luis