Tenho ido ao DocLisboa. Ainda melhor do que nos outros anos. Aqui vai o relatório do que vi até agora:

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“Wadi Grand Canyon”, do israelita Amos Gitai. Um casal árabe resiste numa barraca numa ilha que resta da inundação de empreendimentos imobiliários. Yussef e a sua mulher guardam ali um outro tempo. Podia ser em algumas zonas de Lisboa.

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“Living on the River Agano”, do japonês Makoto Satô, não é assim tão diferente. Um povo que vive em torno de um rio contaminado por descargas de mercúrio feitas, no passado, pela Showa Electric Company. Tomados pela doença, mantêm vivo um passado condenado.

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“Things”, uma curta da checa Martha Hrubá, segue o caminho dos objectos que largamos e que outros aproveitam, em que uns largam tudo e outros não podem ver perder-se nada.

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“As the Sun Begins to Set”, um delicioso documentário de Julie Moggan sobre os velhos de classe-média que embarcam no Queen Elizabeth II para experimentarem o ambiente aristocrático que lhes é estranho. Uma das poucas vezes em que vejo velhos serem tratados sem condescendência ou infantilização. Simpáticos, interessantes ou pretensiosos, como qualquer pessoa.

Makom_Avod.jpg

“Makom, Avoda”, de Nurith Aviv, é um excelente retrato de Israel. Duas aldeias na linha verde. Como os israelitas contratavam os “seus primos” árabes e estabeleciam com eles laços. Depois do início da nova Intifida, a pequena aldeia agrícola cooperativa israelita deixou de os contratar, apesar da oposição de alguns dos seus membros e recorreu ao trabalho de tailandeses. Um dos lavradores protesta: para além dos árabes “terem a agricultura no sangue” e serem excelentes trabalhadores, o único caminho para a paz é eles terem trabalho e ganharem alguma coisa com a riqueza israelita. Não por acaso, quem o diz é um judeu de origem árabe. As relações de afecto entre palestinianos e israelitas, os conflitos e a falta de esperança no futuro dos dois, aliada à luta pela sobrevivência dos tailandeses – que não fazem a mínima ideia do que ali se passa – é um óptimo retrato do confronto e convivência cultural que inflama tantos debates.

Nosotros_los_de_alla.jpg

“Nosotros, los de Allá”, de duas jovens realizadoras suecas, é talvez o melhor documentário que vi no DocLisboa. Turistas visitam minas bolivianas onde se trabalha como há um século. O responsável do turismo exulta e os visitantes também: uma experiência diferente e uma industria de entretenimento construída em torno da miséria. Os turistas dizem que querem viver coisas reais com pessoas reais e que assim valorizam o que têm. Os mineiros – que não ganham, com este negócio, mais do que uns refrescos oferecidos pelos visitantes – não parecem entender o que quer ver esta gente. A indignação dos turistas com as condições degradantes de trabalho dos mineiros é como um desporto radical.

Quem tem ido, que escreva aqui as suas opiniões sobre estes e outros filmes do DocLisboa.


Sem respostas ao post “Relatório do DocLisboa”  

  1. 1 1  xatoo

    caro Daniel
    foi pena ter perdido “China Blue” (gostava de saber a sua opinião – se se trata de uma manipulação ou não. o doc é norte-americano e chora umas boas lágrimas de crocodilo sobre os desgraçados “chinocas” sem levar em linha de conta que outras alternativas têm) e
    espero que não perca o “Enron”
    no próximo sábado

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  2. 2 2  Daniel Oliveira

    Infelizmnte, no próximo sábado não estou cá. Estarei a ver um documentário bem real, na Palestina.

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  3. 3 3  Stateless

    Daniel
    Tem boa viagem.

    PS. Não te esqueças de fazer por lá uns posts com fotografias.

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  4. 4 4  Manuel Fonseca

    Hi Dani! It’s a wonderful world! … já lá dizia o Louis.
    E tu adoras isto mesmo pá!

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  5. 5 5  Rui Dias

    Já agora, comente a cobardia da apordoc no caso da (não) exibição de um doc português. cobarde, intimidado é o meio cultural que temos…

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  6. 6 6  Saboteur

    Como disse o Rick Dangerous no Spectrum:

    «A Apordoc e a Culturgest decidiram não passar um documentário acerca de uma agência de viagens que burlava os seus clientes, devido a uma ameaça de acção judicial feita por essa agência.
    A Apordoc vai passar hoje à noite um documentário acerca de Hip-hop português, patrocinado pela Red Bull. Não há bilhetes disponíveis, porque a Red Bull reservou para si todos os lugares do Grande Auditórios da Culturgest.

    Pacheco Pereira pode dormir descansado.
    Nunca as documentaristas da Apordoc hão-de ocupar outra coisa senão uma posição confortável no mercado da «cultura». Nunca o Doc Lisboa há-de ser outra coisas que não uma flor na lapela e um bom certame para jovens aspirantes a documentaristas trabalharem como cães a troco de nada.
    Com artistas assim quem precisa de empresários?»

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  7. 7 7  Saboteur

    Gostei do post do meu colega de blog, no Spectrum:

    «A Apordoc e a Culturgest decidiram não passar um documentário acerca de uma agência de viagens que burlava os seus clientes, devido a uma ameaça de acção judicial feita por essa agência.
    A Apordoc vai passar hoje à noite um documentário acerca de Hip-hop português, patrocinado pela Red Bull. Não há bilhetes disponíveis, porque a Red Bull reservou para si todos os lugares do Grande Auditórios da Culturgest.

    Pacheco Pereira pode dormir descansado.
    Nunca as documentaristas da Apordoc hão-de ocupar outra coisa senão uma posição confortável no mercado da «cultura». Nunca o Doc Lisboa há-de ser outra coisas que não uma flor na lapela e um bom certame para jovens aspirantes a documentaristas trabalharem como cães a troco de nada.
    Com artistas assim quem precisa de empresários?»

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