A propósito do Rivoli, alguns intelectuais em sabática constante voltaram ao tema da subsidiodependência da cultura. São os mesmos que não se cansam de explicar que este país é analfabeto, uma piolheira sem remédio, um atraso de vida. Os mesmos que nos mostram o que se faz “lá fora” e avaliam o país pelo prime-time da televisão. Os mesmos que querem defender o património construído com dinheiro público. Mas quando chega à produção cultural, aqui e agora, vêm em defesa do mercado, mesmo sabendo que o mercado português tem uma dimensão que torna o mainstream um produto para nichos de mercado e o resto para mercado quase nenhum. São os mesmos que exigem dos políticos menos populismo e mais impopularidade no momento das decisões difíceis. Os mesmos que querem uma escola que não siga as modas e não facilite. Mas quando chega à cultura, transformam o mercado num sufrágio democrático e acusam o Estado de subsidiar as elites. Mas a verdadeira razão da sua indignação é outra: o subsidio liberta a arte dos constrangimentos ideológicos do mercado, bem mais eficazes do que os do Estado. Se é a verdade que o Estado já dominou a cultura pelo dinheiro, hoje, em sociedades democráticas, paga mais vezes a quem o critica (refiro-me à critica ideológica, não à critica personalizada) do que o contrário. A arte é mesmo um dos poucos espaços de construção de hegemonia cultural em que isso acontece. O que tem consequências políticas. É apenas isto que lhes custa.
Por Daniel Oliveira 25 Out 06 em Sem categoria


O Daniel pode ter toda a razão. Os ocupantes do Rivoli também, no entanto, por muito que nos custe, a decisão sobre o Rivoli deve ser discutida nos locais próprios uma vez que foi uma decisão democrática. De qualquer forma não se dá a ler primeiro os lusíadas a quem só consegue soletrar os rótulos dos medicamentos da farmácia.
Há muita coisa simples e acessível, mas de qualidade que pode e deve gerar públicos e ganhos financeiros. Eu hoje não suporto muita da coisa de que já gostei, mas reconheço que foi o caminho que me levou aonde estou hoje. O mal muitas vezes destes grupos é começarem por cima!
Tanto disparate, meu Deus!
Confesso que nunca tinha pensado na questão dos subsídios numa óptica de contestação política.
“A política numa obra literária é um tiro de pistola no meio de um concerto, uma coisa bruta, mas que não se pode ignorar.”
– Stendhal, in A Cartuxa de Parma
Adoro arte que trata de política, mas não a que faz luta política. Se for útil o Estado pagar a quem o critique, que seja a organizações políticas. Se o subsídio liberta o artista de certos constrangimentos, amarra-o a outros, e não estou certo de que estes sejam melhores.
Criar hegemonia cultural não é apenas tratar de política. Nem sequer a critica ao poder é apenas políica. O mercado cria hegemonia cultural quando resume o a arte ao entertenimento.
Cultura(municipal)?
Veja o que se passa em Coimbra em
http://pesporra.blogspot.com
Francisco Teixeira, não conheço os grupos em causa, por isso não me refiro a eles directamente, mas sim à sua última frase, tomando-a em geral.
É certo que não se pode começar logo pelo mais difícil: mas vamos continuar a começar até quando?
Há quantos anos ouço o argumento de que não se pode começar pelo difícil? Há quanto tempo estamos a começar?
O que tem que haver é quantidade e diversidade suficiente para haver sempre em cena todos os géneros teatrais. Um mesmo grupo ou vários grupos na mesma cidade deveria(m) poder ter um elenco grande e espaços suficientes para se dividir e apresentar uma peça contemporânea experimental, um autor clássico português e um clássico estrangeiro (pelo menos uma divisão em três).
Não é o caso, nem sequer nos teatros nacionais!
Vivi em Paris até há muito pouco tempo e fui à famosíssima Comédie Française, o teatro nacional, que tem espaços para estes três géneros de que falei. Só que foi privatizada.
Consequências:
- os bilhetes eram caríssimos, mesmo os piores localizados. Um luxo apenas reservado a muito poucos, portanto.
- os actores estavam estoirados, porque cada um se apresenta em 3 peças diferentes por dia, fora os ensaios, trabalho de leitura e memorização das peças, preparação física e vocal. Tudo isto para poupar e ter apenas um elenco a trabalhar em vez dos 3 necessários a 3 peças.
- os actores mais velhos, contratados no tempo em que havia preocupação com a qualidade, fizeram apesar de tudo representações fantásticas, mas estavam literalmente a dar as deixas “ao boneco”.
- os mais novos eram escolhidos possivelmente até por fotografia. Rapazes e raparigas muito bonitos, ficavam muito bem no cenário. Depois recitaram o Corneille como se fosse a tabuada, sem sentido nenhum do que estavam a dizer.
Tudo muito caro, muitos brilhantes, muitos lustros, tudo o que faz parecer estava no sítio. Menos o Corneille e O Mentiroso, que deveria ser precisamente o mais importante no teatro: o Teatro!
Exactamente por esta política já ter sido seguida noutro lado é que podemos olhar os resultados e perceber que isso é precisamente o que não queremos! Porque raio havemos de insistir em fazer tudo o que já sabemos que não reusltou “lá fora”?
Francisco, minha questão não é, por assim dizer, “educar” o povo. Sem produção cultural variada não há pluralismo. Esse é o papel do Estado. Garantir o que o mercado, em países pequenos, nunca garantirá: pluralismo cultural.
O mercado da cultura em língua portuguesa tem 200 milhões de consumidores. Tudo o que não sobrevive neste mercado, pode ser bom para mim ou para si mas para a sociedade não presta.
O post é excelente, a crítica está muito bem feita. Mas o Daniel também aceitará que o sistema de subsídios leva a perversidades, em que os autores culturais passam a estar-se completamente nas tintas para o público e os seus gostos. Se os autores culturais ganham 90% dos seus rendimentos a partir dos subsídios, é evidente que não ligarão nem 10% da sua atenção a ter muito público, a agradar ao público.
Eu diria que, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Os subsídios vão ter que diminuir, e vão ter que ser dados mais em função do público que se tenha.
Fala-se de subsídios, de dinheiro, mas quanto? Algum dos opinadores sabe?
Alguém sabe e quer fazer umas contas de dividir ou não importa o quanto desde que seja muito?
A Helena Romão dá o exemplo de Paris:
“- os bilhetes eram caríssimos, mesmo os piores localizados. Um luxo apenas reservado a muito poucos, portanto.”
Claro que a sala estaria ás moscas, um exclusivo para as elites (11-15 Euros/bilhete é muito), ao contrário do Rivoli onde as sessões esgotam sistemáticamente.
“- os actores estavam estoirados, porque cada um se apresenta em 3 peças diferentes por dia, fora os ensaios, trabalho de leitura e memorização das peças, preparação física e vocal. Tudo isto para poupar e ter apenas um elenco a trabalhar em vez dos 3 necessários a 3 peças.”
Claro que trabalhar cansa (mesmo a quem corre por gosto?), e “poupar” é pecado quando o dinheiro é dos outros.
“-Tudo muito caro, muitos brilhantes, muitos lustros, tudo o que faz parecer estava no sítio. Menos o Corneille e O Mentiroso, que deveria ser precisamente o mais importante no teatro: o Teatro!”
No Rivoli não, tudo baratinho, nada brilha, nada de lustro tudo muito rotinho do uso, e nada “parece”, “é” tudo. E claro, o mais importante, o público (ou o Teatro é autofágico?) excita-se em ovações intermináveis.
Para terminar, uma ideia: Os “rivolitosos” podiam cortar o circuito dos calhambeques que o R.Rio anda a preparar, isso sim seria uma excelente ideia e dava uma dupla visibilidade.