Sarkozy é mais claro, mais eficaz e mais estruturado. Ségolène, insegura e incongruente. Parece ter cada resposta para agradar a cada parte do eleitorado. Um bocadinho para os socialistas tradicionais, um bocadinho para o centro-direita, um bocadinho para os comunistas, um bocadinho para os “verdes”. Sarkozy sempre andou aos zigzagues, mas tenta fazer uma coisa de cada vez. Ainda assim, os dois mostraram de vez em vez a sua fragilidade. Do que li na imprensa francesa, ambos disseram asneiras em relação ao nuclear. Sarkozy jurava que a metade da electricidade era produzida pelo nuclear. Ségolène garantia que correspondia a 17% do consumo. Na realidade, segundo os especialistas que hoje esclareceram os franceses, o nuclear representa 40% da energia primária consumida, 78% da produção de electricidade e 17% da dependência de França para as suas necessidades energéticas globais. Por Sarkozy ficámos a saber que em Espanha há pleno emprego. Ou seja, os quase dois milhões de desempregados espanhóis (menos do que no passado) ficaram a saber que não existem. Considera-se que há pleno emprego quando há apenas desemprego friccional (pessoas que estão em mudança de emprego) e algum desemprego de longa duração por desajuste tecnológico. Não é, nem pensar, o caso de Espanha.

Na economia, Nicolas usa receita do costume, apenas exagerada. A ideia é que, se não almoçarmos e se não lancharmos, um dia, não sabemos quando, jantaremos. Mas é claro que quando chegar a hora do jantar nos pedirão um pouco mais de jejum na promessa de uma ceia inesquecível. A ideia de que as pessoas devem trabalhar mais horas porque querem ganhar mais e se ganharem mais criam emprego é de uma candura (antes fosse) comovente. Mas tudo coerente. Até a meia receita da flexigurança. Fica-se com flexibilidade nórdica fingindo que ela nada tem a ver com o papel do Estado e o modelo social daqueles países. Nada que Portugal não conheça. O nosso Sarkozy chama-se José Sócrates. Até na estafada tentativa de virar os trabalhadores do privado contra os funcionários públicos. Só que em França a esquerda e até o centro têm raízes sociais mais sólidas do que em Portugal. Há uma tradição socialista, coisa que, ao que parece, não tem grande expressão no PS português. E Ségolène aproveitou isso mesmo em muitos momentos do debate. E esteve bem nas 35 horas. Depois de Sarkozy dizer que a medida de Jospin foi “catástrofe generalizada” para a empresas francesas, foi obrigado a reconhecer que não voltaria atrás. Mas Ségolène foi sempre confusa.

Na segurança, a catástrofe. Um concurso de virilidade, a ver quem era mais securitário e a mostrar que há uma esquerda sempre disponível para dizer seja o que for para busca mais uns votos. Só que a cópia é sempre menos convincente que o original. Não vi o debate completo. Mas do que ouvi, Ségolène não abriu a boca sobre a política xenófoba de Saekozy para a imigração. E a política externa quase não existiu no debate, demonstrando que é a própria França a aceitar que deixou de ter o papel central que a sua nostalgia imagina. Segundo li (e essa parte não vi) os dois divergiram apenas em pormenores em relação à Europa e à recusa (provisória ou definitiva) da entrada da Turquia na UE.

Sarkozy mostrou o seu perfil ético ao repetir por cinco vezes o nome de François Hollande, marido da candidata, tentando assim diminui-la. A boçalidade pode disfarçar-se, mas vem sempre ao de cima.

Chegado ao fim do debate, se fosse francês, votaria no candidato que não é Sarkozy. Tentando esquecer que se trata de Ségolène Royal. Ségolène faz um discurso à esquerda na economia e à direita na segurança. Ou seja, Ségolène faz o discurso que os franceses querem ouvir, mas a sua coerência é nula. Sarkozy, se ganhar, vai paralisar a França. Porque, felizmente, os sindicatos franceses não são os portugueses. Ali, têm de contar com eles. François Bayrou já disse: não vota em Sarkozy. Acha, e com toda a razão, que «se corre o risco de agravar a ruptura do tecido social».

Seja como for, os resultados dos debates dependem das expectativas. E as expectativas em relação a Ségolène eram baixas. O «Libération», de esquerda, defendeu que Ségolène Royal «é perfeitamente capaz de ser presidente da República, pelo menos tanto como Sarkozy». E por isso, segundo o jornal, venceu. Assim vai a esquerda quando a direita mais agressiva está a um passo do poder. Mas as sondagens foram menos simpáticas: 53% acha que venceu Sarkozy, 31% Royal.

Pode ver aqui o debate completo: 1ª parte, 2ª parte, 3ª parte, 4ª parte, 5ª parte, 6ª parte, 7ª parte, 8ª parte, 9ª parte, 10ª parte, 11ª parte, 12ª parte, 13ª parte, 14ª parte, 15ª parte e 16ª parte.


Sem respostas ao post “Triste sina: escolher o “menos pior””  

  1. 1 1  PlayGirl

    o daniel toca, entre mutos outros aspectos que não vou comentar, em dois pontos frágeis da nossa praça. o primeiro é que por cá se tenta virar os trabalhadores do sector privado contra os da função-pública. claro, daniel, pois se quando em portagal de fala de trabalhadores se avança, sempre e invariavelmente, o mesmo número de “cerca de 750 mil”. e os outros, os restantes 4 milhões, os que sustentam tudo isto a recibos verdes e sem direito a regalias? depois, a questão dos sindicatos. ainda bem, e isso é inequívoco, que os sindicatos franceses não são como so portugueses: pelo que já se pôde ver, não andam lá a reboque dos interesses partidários (por isso é que não brincam com eles!) nem fazem se limitam a defender, às cegas, os que representam, pois têm uma consciência POLÍTICA mais desenvolvida. ora sindicatos… hummm os dos professores, por exemplo. há instituição que envergonhe mais este país? o daniel sabe o que se passa por aí nessas escolas públicas, para além da vitimização dos coitadinhos dos professores? e o sindicato dos médicos? sabe a quem pertencem mais de setenta por cento dos carros topo de gama em portugal?

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  2. 2 2  Von

    Ó Daniel: o que é para si ser à direita na segurança? Aliás, para si como se resolvem os problemas da segurança? Será mesmo um estado de direita, o que adoptar medidas de repressão ao crime e à insegurança de origem criminal? Mas então como se resolvem os problemas de segurança? Claro que uma estabilidade social e de pleno emprego diminui e muito a insegurança social, mas até lá chegarmos, como se faz? Repare que não estou a falar em corpos de intervenção a bater em tudo o que mexa, mas sem algum autoritarismo, nas situações chave onde ele é necessário, como se resolvem no imediato os problemas de segurança?

    Cumprimentos

    Von Barata

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  3. 3 3  Nuno Costa

    Essa da boçalidade é boa! Faz-me lembrar um professor de economia que na AR se saiu com a preciosidade: “Todo o poder político comporta-se sempre como um patrão: se vê um porco a passear no campo, vê logo dois presuntos”. Que classe….

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  4. 4 4  Sebastião José

    “Chegado ao fim do debate, se fosse francês, votaria no candidato que não é Sarkozy…..”

    Contra um candidato dito de direita, você vota em qualquer coisa que se mexe desde que tenha um autocolante afixado na testa a dizer que é de esquerda, apesar de Ségolène ser “insegura e incongruente, de parecer ter cada resposta para agradar a cada parte do eleitorado. Um bocadinho para os socialistas tradicionais, um bocadinho para o centro-direita, um bocadinho para os comunistas, um bocadinho para os verdes”.

    “O nosso Sarkozy chama-se José Sócrates…”. Quando José Sócrates defrontar um candidato de direita vis à vis, você irá votar nele, apesar de ser o Sarkozy português, porque este Sarkozy tem uma etiqueta na testa a dizer que é de esquerda.

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  5. 5 5  l.rodrigues

    A mim também me pareceu como o derby Lisboeta da semana passada. A julgar por aquele jogos, nenhum deles mereceria ser campeão nacional.

    Por outro lado não estou familiarizado com os debates à francesa, não sei o que aquilo representa para os nativos.

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  6. 6 6  Joana Lopes

    Estou de acordo consigo (infelizmente): Sarkozy mais seguro, Ségolène mais incongruente.
    Vi todo o debate e estive sempre à espera que ela atacasse sobre imigração / xenofobia. Julgo que não o fez para não perder possíveis votos de centro-direita…

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  7. 7 7  Pluralismo Democrático

    Post dum amigo meu francês:

    «Parce que ceux qu’il a trahis en 1995 l’ont rejoint,
    Parce qu’il est membre de la majorité depuis cinq ans,
    Parce qu’il a été ministre à deux reprises durant la dernière magistrature,
    Parce qu’il représente une droite dure et que sa rupture annoncée, c’est surtout une rupture sociale,
    Parce que la droite au pouvoir, c’est moins de liberté, moins d’équité, moins de respect, moins de consultations,
    Parce que la droite au pouvoir, même avec une majorité écrasante, c’est toujours autant de 49-3 à la pelle, autant de répression au détriment de l’éducation,
    Parce que même si la France n’a pas « inventé » la solution finale, il n’empêche qu’elle a collaboré,
    Parce que l’Allemagne n’a pas dû goûter cette dernière allusion,
    Parce que « travailler plus pour gagner plus », on ne sait pas ce que ça veut dire du haut de notre SMIC,
    Parce que quand je vois l’équipe de possibles gouvernants qui entourent Nicolas Sarkozy, je me dis « Mais, elle est où la rupture ? »,
    Parce que la France n’a pas besoin d’un homme qui stigmatise les peurs des citoyens, mette de l’huile sur le feu, se la joue victime alors qu’on lui demande de mener le peuple avec assurance et sérénité,
    Parce que Nicolas Sarkozy n’est pas une victime, mais un accusateur,
    Parce qu’avoir Doc Gynéco au Ministère de la Culture, ça ne m’enchante pas plus que ça,
    Parce que voir les CRS charger les lycéens et étudiants lors de la crise du CPE ne m’a pas laissé qu’un goût amer dans la bouche,
    Parce que la devise de la République, c’est « Liberté – Egalité – Fraternité ».

    Et cette devise, dans les paroles du candidat des puissants, je ne l’ai pas entendue une seule fois. J’ai bien entendu « Vive la République ! » lors du meeting surnaturel de Bercy, mais dit avec une telle hargne que j’en ai eu des frissons ! Non, dimanche, je ne voterai pas pour Nicolas Sarkozy. Tout simplement, parce qu’il me fait peur, parce que son discours – programme n’est pas le mien, parce que je reste persuadé que cet homme n’a pas d’intérêt à défendre l’équilibre de la société au long terme. Tout simplement parce que cet homme représente les valeurs morales du Capital, de l’argent, quand on en a, qu’on peut placer en Bourse ; de l’argent, pour faire court, purement fiduciaire !

    Dimanche, je voterai pour une vision de la société en devenir moins brutale, moins les uns contre les autres, moins financière et économique !
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    * 2 bafouilles
    * Alors ?

    le 30 avril 2007
    Dans la gueule du loup (8)… encore et toujours !
    30 avr 07 13:39
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    Plus qu’une semaine… Les choses se sont précipitées quelque peu ces derniers jours. Le rapprochement de La Candidate et du Centre me faisait peur, comme autant de convictions que l’on perd en si peu de temps. Et puis, il y a eu ce débat entre eux deux, ce moment unique, assez convenu certes mais qui a le mérite d’avoir existé. En termes de rassemblement et de respect, j’avoue que La Candidate m’a, pour le coup, bluffé. Surtout quand on voit que Le Candidat n’a pas; lui, tenu à y participer. Ou comment balayer d’un revers de main plus de 44 % des suffrages exprimés lors du premier tour ! Et je ne parle pas des petites phrases méprisantes qu’il a tenues à l’encontre de ce débat, des personnes qui l’ont mené et des citoyens qui l’ont regardé !
    Implicitement, je crois que La Candidate marque en ce moment quelques points. Je crains que cela ne sera pas suffisant malheureusement pour inverser la tendance. Mais, bon, on n’est peut-être pas à une ou deux surprises près… Mercredi soir, ce sera le Grand Débat, celui qui ne débouche sur rien mais qui conforte les partisans de chaque camp. Ce sera certainement ennuyeux, à moins que La Candidate aille jusqu’au bout de sa pensée et qu’elle se pose en révélatrice. Ce que j’attends.

    Dimanche soir, si Le Candidat est élu, ce qui reste une éventualité plus que probable, je ne quitterais pas mon pays, je ne descendrais pas plus dans la rue pour tout casser, je n’insulterais pas les électeurs de droite. Non, mais j’entrerais en dissidence, je resterais vigilant, je noterais scrupuleusement les attaques faites à la liberté de pensée, d’agir et de se réunir. Non, je ne deviendrais pas un délinquant, je ne profiterais pas plus du système qu’aujourd’hui, je ne me lèverais pas plus tard, je ne gagnerais pas plus c’est certain. Je prendrais mon mal en patience, je militerais encore plus contre la fracture sociale et économique qui s’opère en France, j’en remettrais une couche quant à l’alternative culturelle que je défends depuis l’avènement de la loi DADVSI…
    Je me battrais corps et âmes pour mes idées avec cet espoir que l’équilibre, qui en aura pris un coup en cas de ralliement de la majorité des votants pour Le Candidat, redevienne source de vie dans l’année qui vient.»

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  8. 8 8  renegade

    Daniel, olha que pleno emprego não significa desemprego 0%…nem sequer 2 ou 3%, para uma economia em crescimento como a espanhola. Penso eu, que sei tanto de economia como jesus cristo.

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  9. 9 9  renegade

    Daniel, olha que pleno emprego não significa desemprego 0%…nem sequer 2 ou 3%, para uma economia em crescimento como a espanhola. Penso eu, que sei tanto de economia como jesus cristo.

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  10. 10 10  Daniel Oliveira

    renegade, mas 9% de desemprego, com desemprego de longa duração e a aumentar não é pleno emprego.

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  11. 11 11  Daniel Oliveira

    Considera-se que há pleno emprego quando há apenas desemprego friccional (pessoas que estão em mudança de emprego) e algum desemprego de longa duração por desajuste tecnológico. Não é o caso de Espanha.

    Acrescentei isto no post.

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  12. 12 12  Sinfonia do disparate consonante

    “… há uma esquerda sempre disponível para dizer seja o que for para busca mais uns votos.” Ou seja, sempre pronta para dizer coisas como: “Sarkozy, se ganhar, vai paralisar a França. Porque, felizmente, os sindicatos franceses não são os portugueses. Ali, têm de contar com eles. François Bayrou já disse: não vota em Sarkozy. Acha, e com toda a razão, que «se corre o risco de agravar a ruptura do tecido social».”

    A sorte é que isto é só para ganhar votos. Caso contrário, coitada da França, corre risco de ficar paralisada!

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  13. 13 13  Daniel Oliveira

    Sinfonia,desta vez não percebi nenhum dos seus disparates. Eu quero ganhar votos para quem? Quando? Onde? Com quê?

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  14. 14 14  palhaçadas

    Por acaso tive oportunidade de ver o debate e fiquei bem impressionada tanto quanto à lisura dos moderadores, como quanto à capacidade que cada um dos candidatos revelou em expor abertamente as suas propostas e ideias para o mandato, o que não costuma ser comum nos debates eleitorais portugueses.
    Por outro lado, tenho ideia que o regime presidencial francês é diferente do regime presidencial português, e provavelmente por isso noto que os candidatos à presidência da república francesa ousam defender um papel activo na transformação social e económica do seu país, não se escudando na defesa da representação de um papel meramente figurativo.
    Creio que o facto de existir em frança uma sociedade civil mais esclarecida e participativa acaba por “reforçar” a ideia de que os candidatos não têm alternativa a não ser apresentar linhas de orientação claras ao eleitorado para o seu mandato.
    Não me pareceu que Ségolène estivesse insegura ou incongruente. Antes pelo contrário. Não li o Liberation, mas pelo que vi fiquei com a impressão clara de que Ségolène é capaz. Segura, competente e acima de tudo com alguma febre de acção nas veias, o que é sempre bem vindo. Onde vi febre de acção em Ségolène, vi febre de poder em Sarkozy. Entre “querer agir” e “querer mandar” há uma diferença abissal. Porque a “acção” é um meio, e o “poder” é um fim.
    Tudo o que foi dito em matéria energética foi insipiente. O maior desafio dos próximos anos é encontrar um modelo de desenvolvimento energético sustentável, sob pena de estarmos a comprometer seriamente a continuidade da vida como a conhecemos actualmente e, na verdade, sobre isso nada de significativo se disse. É preocupante que num debate para as eleições presidenciais de um país com a importância estratégica da França não se discuta exaustivamente o problema energético e das alterações climatéricas. É preocupante. Quando há previsões que apontam para a falta de água na Europa já em 2025, é preocupante que Portugal continue a achar que os temas quentes da agenda são a OTA e o TGV, e que França à beira das presidências não dedique grande atenção a esse problema. Por isso, quanto ao nuclear, não me parece que o futuro sustentado possa passar por aí. A qualidade dos resíduos que a energia nuclear produz é muito difícil de tratar. Resíduos gravemente tóxicos que apesar de sabermos que hoje estamos a armazenar em relativa segurança, amanhã não saberemos se será possível continuar a garantir a sua estanquicidade, por uma ordem variada de razões. À velocidade com que a Humanidade consome energia, parece-me que mais um século bastaria para concluir irreversivelmente acerca do perigo do nuclear.
    Quanto às raízes sociais francesas, parece-me que não é só a esquerda e o centro que as têm mais sólidas: é a nação inteira. Como a generalidade da população portuguesa poderia ter, mas não tem. França fala na “falência dos laços republicanos”. Os laços que podem garantir um modelo social mais justo. Essa falência sucede também em Portugal que se recusa a olhar para isso com franqueza e que se recusa também a pensar no seu modelo de organização social como um modelo estritamente dependente dos “valores sociais” que os próprios cidadãos assimilaram.
    A questão da segurança é certamente uma das mais complicadas. Dela depende o contentamento ou descontentamento de uma boa parte do eleitorado que se diz tradicionalmente mais à direita, e é por isso que a candidata do PS não se pode dar ao luxo de afrouxar. Afrouxar, certamente, significa perder votos para a direita, que terá com toda a certeza um ideal securitário mais intransigente que a esquerda.
    Finalmente, não se falando abertamente da questão da xenofobia, ficou claro para mim que enquanto Sarkozy pretende resolver o problema da imigração a jusante, Ségolène encontra-se francamente disponível para tentar resolver o problema da imigração onde ele realmente deve ser resolvido: a montante. Sarkozy fala numa Europa fechada à imigração. Ségolène não descarta cenários, o que é um bom princípio.
    Em resumo, Ségolène pareceu-me uma lufada de ar relativamente mais fresco, enquanto que Sarkozy mais do mesmo.

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  15. 15 15  Stran

    Do que vi do debate (cerca de uma hora, não vi ainda a parte final pois a RTPN não transmitiu) fiquei com uma imagem completamente diferente. Depois dos comentários do jornais portugueses (e de alguns blogues) tinha a ideia de uma Segolene com um discurso errante e de um Sarkozy mais seguro. Verifiquei o contrário. Segolene apresentou-se segura e clara, liderou muitas vezes as propostas e senti que Sarkozy tentava acompanhar (o melhor que “Sarko” teve foi, muitas vezes repetir algumas medidas com da própria Segolene). Noutros campos “Sarko” teve bastante populista, debitando uma formula mágica de reduzir impostos e ao mesmo tempo permitir o saneamento da situação financeira.
    Ao modelo de uma “França empreendedora” de Segolene, Sarko contrapôs com uma “França de proprietários”.
    Quanto ao incidente dos 17% fiquei com a noção que Segolene se referia exactamente aos “17% da dependência de França para as suas necessidades energéticas globais.” mas parece que fiquei com ideia errada. E relativamente à questão da taxa avançada pela Segolene, a sua resposta foi honesta embora lhe possa ter custado alguns votos. Pessoalmente prefiro assim.
    Relativamente à questão ecológica gostei muito das propostas de Segolene de incentivos às industrias “ecológicas”.
    Existiu ainda outra politica de Sarkozy que me deixou um pouco assustado e supreendido: O aumento dos impostos à importação. Supreendido pois é a meu ver um contrasenso de quem é apelidado de liberal e assustado pois transmite uma noção de proteccionismo que (a meu ver) é contrário ao espirito da União Europeia. E neste campo Sarkozy também foi de um populismo atroz quando foi apologista de um imposto a países que não cumprem o Tratado de Quioto. É que nos exemplos que referiu deu a noção de este imposto incidir sobre paises de 3º Mundo, no entanto um dos paises que não cumpre o Tratado de Quioto são os EUA. Gostaria de ver se ele levará esta promessa até ao final.

    Quanto à comparação entre Sócrates e Sarkozy acho que é injusta. Perante o que ambos candidatos apresentaram foi Segolene que se aproximou mais de Sócrates com a defesa de apoio à tecnologia (só lhe faltou utilizar o termo choque tecnológico) e ao empreendedorismo e desburocratização do estado. Sarko apresentou-se mais perto de Santana Lopes e Paulo Portas com as medidas populistas que defendeu.

    Se pudesse votar tinha com o debate ficado com a certeza de que votaria Segolene, não pelo facto de que representava o mal menor mas porque acredito que seria uma óptima Presidente, representando uma lufada de ar fresco e de força em termos políticos.

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  16. 16 16  Paulo

    E a Turquia caro Daniel, ninguém comenta? Para mim e em relação ao debate, foi das questões mas “fracturantes”, com ambos os candidatos a separarem as águas e a dizerem ao que vêem: o Homem, corajoso, mas perigoso…neste momento, os muitos Turcos que trabalham (e sofrem por isso na pele) em defesa do estado laico devem estar preocupadissimos com o arremesso do seu país (por parte do futuro presidente de um país com a importância da França) para os braços do islamismo radical; percebo a separação de águas e a clarificação proposta por Sarkozy mas é perigosa…depois, ficaria bem na boca de um analista, um historiador ou politólogo, mas não defendida por alguém que vai assumir tão importantes responsabilidades. Recooro uma vez mais às lições da história recente e relacionados com clarificações e reconhecimentos precipitados…lembram-se da posição (clarificação) da Alemanha em relação à Croácia? lembram-se dasconsequências? Retornando, neste assunto, um dos poucos, vou pela delicadeza da senhora.Para terminar, deixo uma em que o Homem esteve soberbo…na clarificação da defesa da matriz cristâ da Europa…Aprendam eurocratas e politicos de segunda sem coluna vertebral.
    Daniel, continue a arrastá-los. Paulo

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